Aliás, quase todas as inovações nas estruturas da narrativa surgem na linguagem popular, o mesmo berço da língua. Os escritores só tem o trabalho de botar no papel, citando a fonte ou não. Guimarães Rosa aprendeu quase tudo com os sertanejos. Simões Lopes Neto, segundo o Aurélio, recebia "gente simples para longas conversas". Shakespeare, que eu saiba, nunca inventou uma história. E olha o que o Mário de Andrade escreveu quando foi acusado de "se inspirar" num livro do naturalista Koch-Grünberg para escrever Macunaíma: "Copiei sim. O que me espanta, e acho sublime de bondade, é dos maldizentes se esquecerem de tudo quanto sabem, restringindo a minha cópia a Koch-Grünberg, quando copiei todos. Confesso que copiei, copiei as vezes textualmente. Quer saber mesmo? Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndicos, mas ainda, na Carta pras Icamiabas, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais..." O genial de Mário (assim como de Rosa, Shakespeare e Lopes Neto) não está na "originalidade", adjetivo muito usado por quem desconhece o passado, mas sim no talento com que mescla conhecimento e "convicções audazes". Quem antes dele poderia terminar um romance com a frase "Tem mais não"?
quarta-feira, setembro 27, 2006
terça-feira, setembro 26, 2006
Autores
O romance não morreu, mas que perdeu um enormíssimo terreno na circulação de histórias de entretenimento para o cinema, e a televisão, perdeu. Sei lá, chutaria uns 95 %. Antes do cinema não tinha jeito. Para apreciar uma história, tinha que ler ou ir ao teatro. O cinema demorou a substituir a leitura, por estar vendendo mais o deslumbramento das imagens animadas do que a história em si, suponho eu. O teatro também arrisco afirmar nunca teve o volume necessário para competir com os livros e folhetins, pela limitação física da montagem, quantos conseguem assistir. Mas o cinema atual tem um monumental poder de fogo, e consegue contar uma mesma história a centenas de milhões de pessoas em poucos dias. E depois vem outro, e outro, e outro, e o volume de produção é enorme, ficando difícil acompanhar todos os lançamentos interessantes. Engraçado é como mudou o foco da autoria. No cinema, a figura do autor está muito mais centrada no diretor, que é quem conta a história, do que no roteirista, que é quem prepara a história para ser contada, que não é necessariamente o criador da história. Esta constatação me fez pensar que no romance não é diferente. Só que no romance, no mais das vezes, o criador da história se confunde com quem conta. Mas não necessariamente, e nem mesmo tão freqüentemente como pode parecer. Muitos romances são criados a partir de histórias reais, disfarçadas ou não, como nos romances históricos, sobre lendas antigas vindas da tradição oral, ou a partir da colagem de vários elementos, incluindo histórias de outros autores. Não importa. A autoria não é do criador da história, ou da idéia ou do argumento. A autoria é de quem conta a história, a forma com que se conta a história. No caso da literatura, a exata ordem das palavras. No cinema, é daquele que determina como vão ser captadas e ordenadas as imagens e sons, ou seja, o autor das imagens e sons. O mais incrível é que qualquer história pode ser contada nas duas horas de um filme.
segunda-feira, setembro 25, 2006
Fluxo da consciência
Fui visitar meu pai em sua casa de campo este fim de semana e li o “Lavoura Arcaica”, um exemplar presenteado a ele pela minha irmã, condições propícias para sanar mais uma lacuna da minha infinita ignorância. Um traço curioso do livro é por o complexo discurso em primeira pessoa do narrador na boca de um adolescente. Está na cara que é a recuperação reflexiva do adulto, um outro narrador oculto sob a figura do autor, do processo natural de rompimento com a família, o amor da mãe e a autoridade do pai, necessário à conquista da autonomia. Um lar tão bem construído sobre bons princípios e amor abundante, que o conflito necessário exige a violência do maior tabu, o incesto. Uma jóia de projeto, construção e acabamento, que não deixa de ter seus momentos de humor, como a descrição de uma cabra como objeto erótico.
quinta-feira, setembro 21, 2006
Equinócio
A primavera está voltando, chega na cidade de São Paulo no dia 23, à uma e quatro da manhã. Gostei de ver que correspondendo à expectativa tradicional voltou a chover nos últimos dias, dando a impressão que os grandes ciclos climáticos estão razoavelmente nos eixos, apesar do decantado aquecimento do planeta. E com ela virão as flores e os amores, pra quem está atrás disso. Pra quem não está, outros caminhos devem se abrir, lavados pela chuva, ao som do trovão, São Pedro fazendo a faxina no céu.
quarta-feira, setembro 20, 2006
Redução
Uma das táticas fisiológicas usadas pelo corpo na luta pela sobrevivência é a redução do metabolismo em situações especiais. No frio diminui-se o próprio tamanho do corpo pela eliminação de líquidos – daí a vontade de urinar – para obter-se a redução da circulação de sangue pelos vasos sangüíneos periféricos, e assim perder menos calor, tentando manter quentes os centros essenciais, cabeça e tronco. Exatamente como as empresas em momentos de crise, que reduzem as atividades e proporcionalmente os custos, diminuindo despesas e mandando embora empregados. Talvez a estratégia valha também para a economia emocional. Pretende-se que a redução seja temporária, necessária até ser superada a escassez, sempre buscando-se a saída para a abundância.
terça-feira, setembro 19, 2006
Duas polegadas a mais
Minhas filhas adolescentes dividiam um computador, até que percebemos não ser mais possível o uso compartilhado de algo tão íntimo e pessoal, a mais profunda extensão da personalidade que posso conceber, prenhe da produção, a rede social, e os segredos e preferências de cada um. Acredito que a próxima evolução da proteção aos direitos da personalidade terá que dar inviolabilidade a tais máquinas, não sendo mais possível distinguir quanto de nós está dentro ou fora delas. Compramos um novo para uma que aniversariou, que foi por isso promovida de um monitor de 15 para 17 polegadas, e o seu mundo visível tomou outra dimensão. Dos cabalísticos 1024 x 768 para os não menos cabalísticos 1280 x 800, o retângulo para o qual ela passa horas e horas do dia e da noite olhando, seu espelho, seu horizonte, enfim, foi ampliado. Muda alguma coisa?
Não contem pras crianças
Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006 (entra em vigor 45 dias após a publicação, ou seja, no dia 6 de outubro).
CAPÍTULO III
DOS CRIMES E DAS PENAS
Art. 27. As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor.
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
§ 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.
§ 2o Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.
§ 3o As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses.
§ 4o Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses.
§ 5o A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas.
§ 6o Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a:
I - admoestação verbal;
II - multa.
§ 7o O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado.
Art. 29. Na imposição da medida educativa a que se refere o inciso II do § 6o do art. 28, o juiz, atendendo à reprovabilidade da conduta, fixará o número de dias-multa, em quantidade nunca inferior a 40 (quarenta) nem superior a 100 (cem), atribuindo depois a cada um, segundo a capacidade econômica do agente, o valor de um trinta avos até 3 (três) vezes o valor do maior salário mínimo.
Parágrafo único. Os valores decorrentes da imposição da multa a que se refere o § 6o do art. 28 serão creditados à conta do Fundo Nacional Antidrogas.
Art. 30. Prescrevem em 2 (dois) anos a imposição e a execução das penas, observado, no tocante à interrupção do prazo, o disposto nos arts. 107 e seguintes do Código Penal.
DOS CRIMES E DAS PENAS
Art. 27. As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor.
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
§ 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.
§ 2o Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.
§ 3o As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses.
§ 4o Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses.
§ 5o A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas.
§ 6o Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a:
I - admoestação verbal;
II - multa.
§ 7o O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado.
Art. 29. Na imposição da medida educativa a que se refere o inciso II do § 6o do art. 28, o juiz, atendendo à reprovabilidade da conduta, fixará o número de dias-multa, em quantidade nunca inferior a 40 (quarenta) nem superior a 100 (cem), atribuindo depois a cada um, segundo a capacidade econômica do agente, o valor de um trinta avos até 3 (três) vezes o valor do maior salário mínimo.
Parágrafo único. Os valores decorrentes da imposição da multa a que se refere o § 6o do art. 28 serão creditados à conta do Fundo Nacional Antidrogas.
Art. 30. Prescrevem em 2 (dois) anos a imposição e a execução das penas, observado, no tocante à interrupção do prazo, o disposto nos arts. 107 e seguintes do Código Penal.
segunda-feira, setembro 18, 2006
O coronel
Gostei de uma frase que o assassinado Coronel Ubiratan gostava de repetir, citada por um de seus filhos em entrevista ao Estadão no sábado, algo assim como “a coisa tá ruim, morde o freio e agüenta”, denotando suas origens de cavalaria. Engraçado o cavaleiro tomar a perspectiva do cavalo. A expressão, vinda de quem está no alto da hierarquia militar, pode não ser exatamente uma auto-ironia, ou a identificação do cavaleiro com sua montaria, mas do subalterno com a animália. É uma interpretação maldosa. E a frase é curiosamente próxima daquela outra “tomar o freio nos dentes”, que significa a rebeldia do animal contra o cavaleiro. Será que tudo isso tem alguma relação oculta e invisível com o massacre do Carandiru?
terça-feira, setembro 12, 2006
segunda-feira, setembro 11, 2006
Posesión del ayer
Sé que he perdido tantas cosas que no podría contarlas y que esas perdiciones, ahora, son lo que es mío. Sé que he perdido el amarillo y el negro y pienso en esos imposibles colores como no piensan los que ven. Mi padre ha muerto y está siempre a mi lado. Cuando quiero escandir versos de Swinburne, lo hago, me dicen, con su voz. Sélo el que ha muerto es nuestro, sólo es nuestro lo que perdimos. Ilión fue, pero Ilión perdura en el hexámetro que la plañe. Israel fue cuando era una antigua nostalgia. Todo poema, con el tiempo, es una elegía. Nuestras son las mujeres que nos dejaron, ya no sujetos a la víspera, que es zozobra, y a las alarmas y terrores de la esperanza. No hay otros paraísos que los paraísos perdidos.
J.L.Borges, Los conjurados.
É um poema sobre as perdas. Ao perder a visão, Borges perdeu as cores, mas pensa cores impossíveis que não pensam os que vêem. Sobre os versos do poeta, possivelmente um amigo, interpreta-os com a voz do outro, preenchendo com ela a sua ausência. O pai morto está sempre ao seu lado. “Só é nosso o que perdemos” é o mote do poema. Mas não se perde o que nunca se teve. “Nossas são as mulheres que nos deixaram”. E estamos livres dos alarmes e terrores da esperança.
segunda-feira, setembro 04, 2006
O fio da fábula
O fio que a mão de Ariadna deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se enfiasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como quer Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, desemaranhar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor. As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar pré-fixado estava Medéia. O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos imprevisível. O nosso bonito dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos em um ato de fé, em uma cadência, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.
J. L. Borges, "Os Conjurados".
Esta imagem do Minotauro no fundo do labirinto, e Teseu a descer com a guia do caminho de volta, de Ariadne para Ariadne, pra mim tem o significado do enfrentamento do civilizado com o selvagem que habita em nós, o desejo físico que tanto nos perturba, o mesmo que a fábula do rei Kong. Em outro plano talvez também o egoísmo e a violência. Posso chutar que o corpo de touro e cabeça de homem do monstro de Dante é por causa disso, o ênfase do selvagem na parte inferior do corpo.
sexta-feira, setembro 01, 2006
Saga
“A monarquia morreu... Deixemo-la na podridão silenciosa do seu transe, que nem a lira dos bardos entoará por ela sagas épicas, nem a boca dos áugures há de rezar-lhe outros responsos que não sejam desdenhosas vaias por não ter sabido defender-se (Fialho, Saibam Quantos, p. 14, ed. 1912).” Do Caldas Aulete. Saga é uma palavra de origem escandinava que significa a tradição histórica. Epopéia é o poema que narra, por assim dizer uma saga de ações grandiosas e heróicas. Se qualificarem assim suas façanhas, e você não é Ulisses, Erik, o viking, ou Vasco da Gama, você estará sendo tratado com ironia.
quarta-feira, agosto 30, 2006
Condições anormais de temperatura e pressão
Estou lendo “A vida no limite”, com o sub-título “A ciência da sobrevivência”, de uma fisiologista de Oxford chamada Frances Ashcroft, ciência para leigos. Procura explicar os limites do corpo em situações de altitude, frio, calor, profundidade, falta de ar, esforço, os mecanismos físicos para lidar com essas situações e como tal conhecimento foi adquirido, sempre a custa de muitas mortes. Interessantíssimo pra quem gosta de ciências, como eu, um típico produto do enciclopedismo dos anos sessenta, quando as viagens espaciais, expedições submarinas, e grandes escaladas eram o máximo. Agora, tais atividades, antes reservadas a uma casta de super-homens foram reduzidas a esportes radicais, ou pior, “turismo de aventura”, diversão de fim-de-semana ao alcance de todos. A agradável narrativa é pontuada por casos extravagantes, como um jantar realizado num túnel sob o Tâmisa, quando suas duas pontas se encontraram, em ambiente pressurizado, o que fez com que o champagne não borbulhasse, a não ser depois que os convivas retornassem à superfície, com conseqüências desastrosas. Estou ansioso por chegar ao capítulo que trata de esportes, mas ainda estou nas dificuldades do deserto.
terça-feira, agosto 29, 2006
Rádio brega
Gosto muito de ouvir rádio no carro, pra mim, nada supera a possibilidade de ouvir alguma música inesperada e especial. Mesmo porque é difícil manter o repertório a bordo novo o suficiente para não se tornar uma tediosa repetição. O fato é que há muito tempo não me dedico mais a garimpar e acumular música. Ouço as rádios de velho, a Cultura, a Eldorado, e a Rádio Kiss, e quando estou com adolescentes, Jovem Pan, 89, e outras do gênero. Às vezes escuto um pouco de brega genuíno na Tropical, que tem um horóscopo com vinhetas excelentes. Hoje, vindo para o escritório, escutei o impagável adágio do Samuel Barber, a música do Platoon, que já vi parodiado em Casseta & Planeta ao som do dito cujo. Implico um pouco com o Oliver Stone, acho um pouco grandiloqüente e pomposo, assim como o Ridley Scott, que pra mim tem mais ou menos a mesma posição no panteão do cinema americano, mas até hoje me lembro de ter ficado impressionado com a cena em que o William Dafoe caça o colega no mato, e com o adágio que eu não conhecia. É uma peça fácil e sentimental, que pega qualquer um. Apesar da distância no tempo, me lembra o adágio do Albinoni, trilha do cafona Rollerball, que foi gravado junto com o Canon do Pachelbel, pelo Karajan, nos anos 70, gravação que eu imagino tenha sido responsável por erigir o Cânon na melodia mais tocada em casamentos nos Estados Unidos nas últimas décadas. A dúvida é se entregar ou resistir à essa breguice?
domingo, agosto 27, 2006
Joga as cascas pra lá
Ontem fui dormir cedo depois do churrasco na laje, uma verdadeira carnificina. Grandes pedaços de carne vermelha com uma capa branca de gordura, tripas estufadas com carne moída, e pentes de costela serrados ao meio, parecendo um moquém tupinambá. Uma caipirinha pra começar, e várias cartucheiras de cerveja depois às cinco da tarde não lembro mais o que aconteceu. Lá pelas sete desabei e fui acordar doze horas depois, pus a roupa de esportes, e esperando um dia como o de ontem, me besuntei de protetor solar. Estava encoberto e ventoso, com fortes rajadas vindo de algum lugar entre o norte e o oeste, e fui à raia sabendo que estaria ruim pra remar. Por outro lado, esse vento costuma limpar o tempo rapidamente. Realmente as condições estavam péssimas, com as ondinhas começando a quebrar, e quase ninguém na água. Encontrei um disposto a sair no double, já que single sambaria demais naquela água. A raia é orientada no sentido noroeste-sudeste, e o vento de sul, que traz as frentes frias, é o que predomina na cidade. Conversando sobre isso depois do treino, com o tempo já limpo, localizei o norte no horizonte da cidade, o pico do Jaraguá. Quando o vento vem dessa direção, os aviões aterrisam em Congonhas vindo do sul, e deixam a zona oeste livre da sua aproximação.
quarta-feira, agosto 23, 2006
Chegando perto

Hellhound On My Trail
by Robert Johnson
I got to keep moving, I got to keep moving
Blues falling down like hail, blues falling down like hail
Mmm, blues falling down like hail, blues falling down like hail
And the day keeps on remindin' me, there's a hellhound on my trail
Hellhound on my trail, hellhound on my trail
If today was Christmas eve, if today was Christmas eve
And tomorrow was Christmas day
If today was Christmas eve and tomorrow was Christmas day
All I would need is my little sweet rider
Just to pass the time away, to pass the time away
You sprinkled hot foot powder, mmm, around my door
All around my door
You sprinkled hot foot powder, all around your daddy's door
It keeps me with ramblin' mind rider
Every old place I go, every old place I go
I can tell the wind is risin', the leaves tremblin' on the tree
Tremblin' on the tree
I can tell the wind is risin', leaves tremblin' on the tree
All I need is my little sweet woman
And to keep my company, hey, hey, hey, hey, my company
segunda-feira, agosto 21, 2006
Roubadas
Neste fim-de-semana, especialmente largado, assisti a um pedaço do “Saia Justa”, as moças comentando um fenômeno da internet, em particular do orkut, que é o reencontro de antigos amores, com várias entrevistas-relâmpago com pessoas na rua, algumas dizendo que o encontro provocava um frio na barriga, outras que preferiam “mudar de calçada”. A Maitê Proença contou um caso complicado, de um namorado da adolescência, que depois de um bom tempo de correspondência ótima que despertou nela uma expectativa grande, resolveram se encontrar, e ela fez vir o sujeito do exterior, baseada numa foto que depois ela qualificou de mentirosa. Quando chegou era um sujeito com problemas de postura, visivelmente “alquebrado pela vida” como ela disse, ou algo assim, que frustrou completamente suas ilusões. Sem graça de despachá-lo prontamente, tentou ajudá-lo levando-o a um terapeuta alternativo e ao candomblé, e se livrou dele assim que pôde. Se um atriz famosa por sua beleza cai nas armadilhas da rede, o que será dos comuns? Nos relacionamentos iniciados ou reiniciados na internet há uma inversão da ordem natural das coisas, parecida com a artificialidade das agências de casamento, ou qualquer forma de encontros arranjados. Não que eu ache que a ordem natural das coisas não possa ser mudada, mas tradicionalmente os relacionamentos se iniciam pela atração física, imediata e palpável, geralmente em uma situação em que alguma identificação social foi rapidamente constatada. Pela internet o ataque pode começar por dentro do cérebro, pelo tatear das fantasias, o que, aliado a uma foto mentirosa, pode dar excelentes resultados, especialmente por estar a outra parte sentindo-se protegida e disposta a expor-se mais na conversa, revelando informações importantes ao manipulador. Aumentam as probabilidades de conhecer mais gente, na mesma proporção em que aumentam as probabilidades de roubada, vindas do passado e do presente.
quinta-feira, agosto 17, 2006
Trans
Conforme o tempo vai passando a ciência vai identificando os piores venenos que consumimos, voluntariamente ou não, e vamos nos defendendo como dá. O DDT, o mercúrio, o chumbo, o amianto, os aerossóis, aquele gás das geladeiras, foram tanto quanto possível eliminados do nosso contato, outros com os quais o contato é ainda inevitável, como o monóxido de carbono e o tabaco estão sendo também combatidos. Isso pra falar das mais óbvias. A grande vilã do momento é a gordura trans, que nada mais é do que um tipo de gordura hidrogenada, a que é produzida pela indústria, e ao que parece o lobby da indústria alimentícia não conseguiu mais esconder a sua extrema nocividade ao consumo humano. Segundo a Anvisa, toda a gordura hidrogenada produzida pela indústria é trans, que tem a função de tornar sólida a gordura e prolongar a durabilidade dos alimentos, ou seja, a base da fabricação e distribuição de alimentos industrializados.. E não se deve consumir mais que duas gramas de gordura trans por dia. Numa Veja recente se diz que uma batatinha do McDonalds tem dez vezes a quantidade tolerável. O fato é que sobre a gordura trans se construiu toda a indústria alimentícia atual. E a impressão que eu tenho é que houve um gigantesco erro histórico na solução para alimentação das massas. Todo o investimento que foi feito no desenvolvimento da indústria alimentícia, que transforma mares de soja em todo tipo de guloseima envenenada, deveria ter sido canalizado para o abastecimento de produtos frescos, como quitandas, açougues, peixarias e padarias, e não em nestlés e carrefours. Depois da indústria do tabaco, acho que a guerra agora será contra a indústria alimentícia, que está se mostrando tão perigosa para a saúde como o cigarro. Isso sem falar na farmacêutica.
segunda-feira, agosto 14, 2006
Filme de terror
Vi o Munique ontem, o filme do Spielberg sobre o atentado contra a delegação israelense da olimpíada de 1972, e os seus acontecimentos posteriores. É um filme corrido, difícil de acompanhar, que demanda atenção como aqueles filmes antigos de espionagem, e em que a história é contada aos saltos, dando a impressão que é de propósito, e que só adultos inteligentes e concentrados vão se divertir com aquilo, como se estivessem sendo exigidos como espiões. A diferença é que ao contrário dos filmes de guerra-fria, quase comédias de ação, contém discussões éticas sérias mesmo. E ao contrário de outros filmes, sérios ou não, do Spielberg, neste ele controlou sua tendência ao pieguismo muito bem. Na edição do DVD – ainda com a etiqueta de lançamento - há uma introdução com ele falando sobre o filme, que pode muito bem ser vista depois, em que defende o seu esforço de imparcialidade. O filme é atual como nunca, mostrando que a guerra de guerrilha pode ser, e geralmente é, patrocinada pelos Estados e não brotada de movimentos populares, ou seja, os Estados são secretamente terroristas. Perdidas as causas históricas remotas, todos têm boas razões mais ou menos equivalentes, ou pelo menos sustentáveis, para lutar. O duro é distingüir o que é útil, necessário e eficiente do simples derramamento de sangue. Mais do que nunca, é de pensar-se nos aforismos dos advogados, frutos da experiência e do senso comum, do tipo “é melhor um mau acordo do que uma boa demanda”, “tolo é o advogado que tem a si próprio como cliente”, “o bom acordo é o que deixa as duas partes insatisfeitas”, todos dizendo que os envolvidos nunca têm a serenidade necessária para solucionar seus próprios conflitos.
sexta-feira, agosto 11, 2006
Assinar:
Comentários (Atom)

