De carro pela cidade, o trânsito já um pouco esparso depois da hora do congestionamento, desci do espigão da Paulista pela Rebouças, passei por baixo do túnel da Faria Lima, peguei a marginal Pinheiros na direção sul, e fui procurar o bairro da minha infância e adolescência, explorado de bicicleta, skate, motos e motonetas, e até um dodge dart azul, no tempo em que os carros eram coloridos por influência dos hippies, antes da ditadura do prata e do preto. Errei a rua da igrejinha, mas depois achei a rede de neurônios que representava aquela geografia e liguei. Daí refiz todos os circuitos, reconhecendo as casas do meu tempo embaixo daquela glace das reformas e os muros altos, e esquadrinhei o asfalto novo dirigindo suavemente pelas curvas conhecidas, acelerando um pouco mais em um ou outro ponto. Tudo isso ouvindo um pop suave. Então me enfiei pelos túneis por baixo do Rio Pinheiros, Santo Amaro, até submergir por baixo do Ibirapuera no ritmo seriado das luzes a setenta por hora, despontando na Sena Madureira e subindo novamente o espigão, pra chegar em casa só um pouco atrasado.
sexta-feira, julho 28, 2006
quinta-feira, julho 27, 2006
Alalaô

Este cone quase perfeito tem o sugestivo nome de Licancabur, dado ao vulcão pelos antigos habitantes do local onde está San Pedro, que o adoravam como deus e mantinham o mau hábito de oferecer-lhe jovens e crianças em sacrifício. Uma montanha de quase seis mil metros como esta merecia uma consistente cobertura de neves eternas, ainda que tal decoração possa ser considerada clichê e até cafona. Intrigado com a ausência, consultei alguns locais que asseveraram que há dez anos atrás o adereço existia de forma permanente, o que confirmei em cartões postais, que não têm em geral preocupação com atualidade. Ao comentar este fato com a recepcionista do hotel, moradora mais ou menos recente, ela o desmentiu e disse que poucas semanas antes da minha chegada o monte estava coberto até a metade de neve. Fiquei pensando nas notícias que têm saído sobre a elevação da temperatura do planeta, e deu-me a dúvida se não haveria algum sensacionalismo nas fotos de geleiras sem gelo e montanhas que estamos acostumados a ver com neve ao cume, como o Kilimanjaro, desprovidas do simpático acessório, e se as tais neves eternas não são tão eternas assim, mas sujeitas a alguma sazonalidade. Mas o calor que tem feito este verão em São Paulo, com temperatura recorde para o mês de julho de mais de trinta graus, as ondas de calor na Califórnia e na França provocando a morte de muita gente, e uma notícia de hoje no Estadão, denunciando significativo e veloz aumento de gás carbônico e outros gases na atmosfera, responsáveis pelo famoso efeito estufa, estão me fazendo começar a acreditar que a coisa é pra valer. Quando essas notícias começaram, houve uma voz dissidente que disse que o fenômeno era cíclico. O planeta esquenta, aumenta a evaporação, conseqüentemente se intensifica o regime de chuvas, a cobertura vegetal se desenvolve e a temperatura volta a baixar. Fez sentido pra mim, e me apeguei a esta idéia. Agora, já estou achando que a onda contrária não vai dar conta. Especialmente depois do fiasco do Protocolo de Kioto graças à negativa daquele país dos automóveis gigantes de motores enormes. Acho que está na hora de começar a andar de bicicleta. Churrasco, nem pensar.
quarta-feira, julho 26, 2006
Lhama

Respondendo a indagações, não só conversei com algumas lhamas, como o bravo Capitão Haddock – sem o privilégio da ducha, característica do animal da qual não consegui apurar a veracidade – como tive o duvidoso prazer de experimentar a sua carne.

No pitoresco pueblito de Machuca, lá no altiplano, que mais parece uma desabitada cidade cenográfica, na qual estavam só três ou quatro habitantes supostamente locais, um deles vendia churrasquinho de lhama, no melhor estilo “de gato”, entremeando à carne rodelas de salsicha barata, para conseguir atender a grande clientela turística a dois dólares o espetinho. Escura e de sabor forte, parece carne de caça. Só não duvidei do pedigree dos moradores porque vi um deles pegar um saquinho de quínoa, que as boas lojas de produtos naturais vendem caro como o cereal dos reis, e macerar num pilão de pedra ao pé de uma casa usando uma outra pedra, igualzinho ao que vi em um museu arqueológico, segundo o qual vem sendo usado há dois mil anos.

No pitoresco pueblito de Machuca, lá no altiplano, que mais parece uma desabitada cidade cenográfica, na qual estavam só três ou quatro habitantes supostamente locais, um deles vendia churrasquinho de lhama, no melhor estilo “de gato”, entremeando à carne rodelas de salsicha barata, para conseguir atender a grande clientela turística a dois dólares o espetinho. Escura e de sabor forte, parece carne de caça. Só não duvidei do pedigree dos moradores porque vi um deles pegar um saquinho de quínoa, que as boas lojas de produtos naturais vendem caro como o cereal dos reis, e macerar num pilão de pedra ao pé de uma casa usando uma outra pedra, igualzinho ao que vi em um museu arqueológico, segundo o qual vem sendo usado há dois mil anos.
segunda-feira, julho 24, 2006
Turista

Este lugar aparentemente intocado, a mais ou menos quatro mil e trezentos metros de altura, entre dois vulcões de altura aproximada de seis mil metros, faz parte de uma região devastada pelo turismo. O turista é sempre um predador. Não adianta se iludir, pode ser jovem, mochileiro, interessado na cultura do lugar visitado, não deixar lixo, viajar discretamente em pequenos grupos para lugares pouco procurados, será sempre um turista, tão danoso como uma grande excursão de pacote. O turismo em San Pedro de Atacama deve ter começado assim, como começou em Canoa Quebrada, Trancoso, e tantos outros lugares. O turista chega, se encanta, e compra a preço de banana, que aos locais parece uma fortuna, tudo o que eles têm, até que às tantas os naturais vão morar na periferia de onde moravam, e trabalhar para os turistas que se radicaram no novo paraíso, armados de capital e “cultura cosmopolita”: basicamente saber o que gostam os turistas. Aconteceu isso tanto no litoral paulista, com os caiçaras, como no Havaí, onde os descendentes dos reis agora são favelados sem vista para o mar, e empregados dos hotéis e estabelecimentos dos norte-americanos. San Pedro continua sendo uma vila de ruas de terra e casas de adobe, só que virtualmente todas as casas – com exceção dos pequenos armazéns – se transformaram em hotéis, restaurantes, lojas de artesanato e agências de turismo, tocados por forasteiros. Como aconteceu num período mais recente, em que o acesso à informação é mais fácil para todos, me pareceu que os atacamenhos não se deram tão mal. Moram em ruas calçadas na periferia, em casas novas com confortos modernos, como bons eletrodomésticos e computadores, alguns recebem polpudos aluguéis por seus imóveis no centro, e a comunidade administra o ingresso dos parques onde estão atrações turísticas, o que não é pouco. Ainda assim perderam a cidade onde viviam, que virou uma espécie de parque temático habitado por turistas do mundo inteiro. A sedução da prosperidade é irresistível, mas é uma acomodação difícil e traumática. Uma hora entrei na igreja do século XVI, ainda viva e em pleno funcionamento que pouco se abre, e dois locais estavam concentrados rezando. A imediata invasão dos turistas, fazendo o piso ranger, e os murmúrios dos comentários quebravam o silêncio sepulcral que a atividade requer, até que um dos circunspectos rezadores, com a concentração já perdida, visivelmente irritado, advertiu um turista que era proibido tirar fotos. É o preço.
terça-feira, julho 11, 2006
Férias
Pronto, liguei o foda-se, tomei duas canjebrinas (por enquanto), amanhã de madrugada zarpo para onze dias de férias sem crianças. Uma passagem, uma gaitinha, e um destino incerto. Se der mando umas novidades. Inté.
Pangaré
Pode ser óbvio, mas segundo a minha experiência, as pessoas tendem a reagir umas às outras de acordo com o modo como são tratadas. O marcador italiano de Zidane, segundo o boato mais recente, reagiu à sua arrogância do francês que teria lhe dito ao ser puxado pela camisa algo como “se você quer minha camisa tanto assim, te dou depois do jogo”, afirmando que “nós sabemos que o seu pai é terrorista e sua mãe uma prostituta”. Moral de lado, a agressão foi magnífica. Zidane fez que se afastava até atingira a distância necessária, e virou-se de repente, aproveitando-se da surpresa, e atingiu o peito do ofensor em cheio, bom de cabeceio como é, derrubando o cara no chão. Foi tratado como terrorista e reagiu como terrorista. Tenho visto isso por aí. Se você tratar o seu mecânico como um desonesto, que vai lhe roubar de tudo que é jeito, ele vai perceber a sua desconfiança e reagirá à altura, se aproveitando mesmo. Acredito que esse tipo de ruído na comunicação tem até o poder de transformar honestos em ladrões. Trate uma pessoa com confiança e respeito, e ela tenderá a te devolver a confiança. Talvez até uma pessoa desonesta te poupe, por ser reconhecida como boa, e aproveitar essa sensação agradável com alguém. Trate sua mulher como uma traidora, e ela te trairá. Pra mim isso é verdade, pelo menos como tendência. O que não pode é exagerar. A carga não pode ser excessiva. Trate um pangaré como campeão e ele só vai se revoltar.
quinta-feira, julho 06, 2006
Amanhã eu conto
Depois de um mês de enrolação, a alteração sem qualquer explicação dos planos, do four skiff (quatro remadores, remos duplos) – para o qual contribuí com uma grana em remos que não vou usar – para o quatro sem (quatro remadores, um remo para cada um), o barco começou a treinar ontem. Nesse dia cheguei à raia todo pimpão às seis e meia, e o técnico, onipotente e insondável como o Javé do antigo testamento, mediu-me com repulsa e desdém, acusando-me da terrível falta de não ter comparecido às cinco da manhã. Claro que não adiantou nada eu ponderar que não tinha sido avisado, defesa que tinha o defeito de transferir a responsabilidade para ele, e assim, de nada valia. Hoje eu acordei às quatro e meia e saí no barco, noite fechada e cerração, só com as luzes dos cartazes da Marginal Pinheiros, e deu pra ver que vai ser preciso muito trabalho pra acertar a remada. Começou mal e vai piorar. O que eu não contei ainda, é que quarta-feira que vem vou viajar e vou perder sete treinos. A regata é no começo de agosto, então não sei se vai dar pra eu permanecer na guarnição. Estou bem animado com o remo, e é muito mais divertido remar em grupo do que sozinho, mas esse sujeito já está me fazendo perder minha enorme paciência.
terça-feira, julho 04, 2006
Viajar leve 2
Boa parte do peso morto que carregamos, obrigações várias, vêm dos nossos próprios bens, que graças à interferência do estado nos atos da vida cotidiana cada vez maior, dão mais trabalho do que evitam, como era de se esperar. Por exemplo, um carro. IPVA, multas, pontos, renovar a carta, escolher um posto honesto para abastecer, pedágio, sem parar, manutenção, revisão, seguro, seguro obrigatório, será que vale a pena? Porque não uma bicicleta pra distâncias curtas, táxi para as médias, e ônibus ou avião para as maiores? Ou a casa. Depois de comprada, o IPTU, o condomínio, o jardineiro, a empregada, as contas de água, luz, gás, tv, telefone, segurança. Fazendo um exercício de futurologia, será que a tendência não é nos livrarmos de tudo isso e entregarmos a profissionais, como já fazemos com as festinhas de criança e a lavanderia? Será que o sistema dos flats com serviços de hotelaria não vai se ampliar e melhorar e nos salvar definitivamente do chatíssimo trabalho doméstico, incluindo a administração da casa? Imagine pegar tudo o que você tem, converter tudo em grana, aplicar e não digo viver, mas morar e se transportar com o rendimento do capital desses itens, e não ter que cuidar de carro nem da casa. Não combinaria melhor com a nova família do casamento dissolúvel? Casou, muda de um apartamento, chalé, bangalô, flat, o que quer se chame, “single”, para um duplo. Teve filho, abre-se uma porta para um anexo. Separou, pega sua malinha e volta para o single. Claro que teria que ter um jeitão mais de casa e menos hotel do que os flats atuais.
segunda-feira, julho 03, 2006
Viajar leve
Sempre fui um mau acumulador. Sou desorganizado, indisciplinado e perdulário. Não tenho grandes aspirações de consumo, embora tenha ocasionalmente algumas urgências para adquirir certos bens, normalmente discos ou livros, atraído por uma referência qualquer do interesse do momento. Já gastei bastante dinheiro com instrumentos musicais, que estão abandonados em seus estojos, não digo se deteriorando muito porque não precisam grandes cuidados, mas quem for usá-los terá que fazer uma boa revisão. Os livros e discos vêm e vão. Poucos ficam. Numa mudança perdi algumas caixas de livros que ficaram guardadas num sítio, e movidas do lugar protegido onde pus tomaram chuva. Os discos, tenho algumas caixas cheias de vinil, alguns sem capa outros só a capa, e mesmo os mais recentes cds, muitos já se perderam. Um amigo meu aspirante a budista diz que essas coisas tem que circular mesmo. Como sou mau zelador, não acho que as mereça. Coisas mal guardadas não servem pra nada, pois quando se precisa não se acha, quando se acha, não está em condições de uso. Melhor não tê-las. Filmes, nunca cogitei comprar uma fita de vhs na minha vida. Ainda que depois de alguns anos rever um filme - vale para livros também - proporcione tanta novidade quanto da primeira vez, pra mim não vale a pena guardar tanto uma coisa para usar tão pouco. Quanto aos discos, a repetição é importante: ou você gosta bastante dele, e ouve a ponto de impregnar o seu cérebro de forma permanente da sua memória, ou não valeu a pena tê-lo comprado. Há pessoas que expressam sua personalidade através do patrimônio, o que eu muito respeito. Um sujeito com que eu toquei tinha uma imensa coleção de discos, organizada por ordem alfabética do artista ou conjunto, com exceção dos clássicos, por autor. O grosso da coleção era de rock. E era ótimo ficar na casa dele conversando sobre música, conversa que era ilustrada por músicas ou trechos de músicas que ele localizava e tocava com uma agilidade impressionante. Ele morava num pequeno apartamento totalmente tomado por discos, algo como um imenso I-pod analógico. Ainda bem que com toda a facilidade de armazenamento, indexação e circulação que há hoje em dia, com tudo isso reduzido a dados binários, nada disso será mais necessário.
sexta-feira, junho 30, 2006
Assédio
Acabei de ver o perigosíssimo filme Assédio, do Bertolucci, e estou completamente espantado. O filme é quase mudo, pouquíssimos diálogos. Uma complexa e profunda história é contada praticamente só com música e imagens. A história se baseia num paradoxo, que escapa no meio do filme da pregação de um padre, comentando a passagem do Gênesis quando Ló se dirige a Sodoma sabendo da sua destruição iminente: “Quem tenta preservar a vida, a perde; quem a perde, fica em segurança”. Nos assuntos mais misteriosos, quem procura não acha, ou acha indo na direção oposta. O par central é formado por pessoas de culturas diferentes, com uma certa dificuldade de comunicação, em posições que não favorecem a confiança. Uma casa vertical com uma imensa escada espiral em torno da qual tudo gira, e um piano que toca sem parar são personagens importantes. As cores, os atores, a levada, a música, a história, as passagens do real para o sonho, os comentários do inconsciente, tudo é ótimo. Minha vontade é contar tudo, detalhadamente. Traduzir em palavras a história visual/musical seria muito divertido. Não falo mais porque não quero estragar a imensa diversão. Fico impressionado por nunca ter nem ouvido falar na existência desse filme, que me foi indicado por um ser tão intangível que parece ter emergido do planeta onde se passa esta história.
quinta-feira, junho 29, 2006
Esperando Bardot
Nelson Motta
Acho ótima a história. Esta mulher é um troço!
Naquele tempo, uma viagem a Búzios era uma aventura que exigia grande paciência, disposição e coragem. Mas o tempo estava do nosso lado, éramos jovens e cheios de energia, era sexta-feira e ficamos dançando cha-cha-cha e hully-gully no Le Bateau até as tantas, quando meu amigo Ratinho propôs a grande aventura. Entusiasmados, decidimos botar o pé, ou melhor, o Fusca, na estrada. De Copacabana fomos até o cais da praça Quinze e entramos numa longa fila de carros que aguardava a chegada da barca que nos levaria a Niterói. Depois de uma longa espera, perdemos a vaga por um carro de diferença e tivemos de esperar a seguinte. Uma hora depois, visivelmente alcoolizados, atravessávamos lentamente a baía de Guanabara sob o céu estrelado, um barco apitava na noite, as luzes da cidade se afastavam como as pérolas de um colar. Com o vento no rosto, cantávamos os novos sucessos da Bossa Nova que tocavam no rádio do carro, João Gilberto, Sylvinha Telles, Nara Leão – não poderia haver trilha sonora mais adequada. De Niterói a Cabo Frio, noite adentro, o Fusca azul enfrentou galhardamente uma pista estreita precariamente asfaltada, cheia de curvas perigosas, bufou e resfolegou numa serra, cruzou pontes balançantes, e duas horas e meia depois chegamos. Quase. Com o dia já amanhecendo entre as salinas, tomamos um café no posto de gasolina na entrada de Cabo Frio e pegamos o caminho para o paraíso.A estrada para Búzios era pouco mais que uma picada aberta no mato, esburacada e poeirenta. Em mais uma hora estaríamos lá, qualquer sacrifício seria bem-vindo diante da possibilidade de ver Brigitte Bardot de perto. Estrela máxima do cinema francês, deusa do sexo que povoava nossas fantasias (e do mundo inteiro), Brigitte veio para o Brasil com o namorado Bob Zagury (um argelino de Ipanema que orgulhosamente a imprensa chamava de “franco-brasileiro”) e se apaixonou por Búzios, uma vila de pescadores onde ninguém a conhecia. Para ela, o Taiti era aqui. Para nós, ela era a encarnação da beleza, da liberdade e do desejo. E Búzios, bem, era uma ruazinha de pedras em frente ao mar azul, com algumas cabanas de pescadores e mais nada. Não tinha luz, gás, água nem telefone. Mas tinha BB! Onde? Perguntamos a um pescador, e ele apontou uma casa de madeira num canto da praia. Subimos numa pequena elevação e nos colocamos atrás de uma grande árvore, em posição privilegiada para a nossa delicada missão, olho vivo e faro fino. Ficamos ali de plantão, caindo de sono, até meio-dia, quando finalmente as janelas verdes se abriram e vislumbramos uma cabeleira loura passando pela sala. Uma Bossa Nova começou a tocar na vitrola. Segunda-feira na faculdade, ninguém vai acreditar. A porta se abriu e, finalmente, em todo seu esplendor, Ela, bronzeada, cabelos ao vento, enrolada num pano estampado. Inundada de luz e alegria, abriu os braços para o sol e, num movimento rápido, desenrolou o pano do corpo, lançou-o ao vento e, nua como em E Deus criou a mulher, correu para o mar azul diante de nossos olhos pasmos e de nossos corações disparados. Na faculdade ninguém acreditou. Quarenta anos depois, saí de Búzios há menos de duas horas, vim escrevendo esta história no laptop e já estou chegando a Ipanema.
Acho ótima a história. Esta mulher é um troço!
quarta-feira, junho 28, 2006
Frio
Hoje, na manhã mais fria do ano, acordei um pouco antes das seis, e logo depois estava de calção e camiseta sentado no skiff, em plena raia. O termômetro da rua marcava onze graus e o vento sul produzia incômodas ondinhas. Nessas condições, o remador inexperiente volta e meia bate a pá numa delas, o que altera a sua trajetória, e a variação da altura do remo balança desconfortavelmente o barco. Fora a água que espirra. Quando se vai a favor quase não se sente o vento, mas quando se chega ao fim da raia o vento gelado bate com tudo nas costas molhadas de suor. Lá pelo quilômetro quatorze começou uma chuva fina e abundante, e só não encostei porque comecei a remar mais rápido pra acabar logo e me animei, completando os dezesseis previstos. Paguei antecipadamente os cajus amigos que vou tomar à noite.
terça-feira, junho 27, 2006
Além de matar o gato
CC – Porquê ser-se curioso?
CF - A curiosidade é aquilo que nos move a querer saber. Sem curiosidade não há ciência. Perguntaram um dia a Einstein o que é que o distinguia das outras pessoas. Ele disse que era uma pessoa como as outras, que talvez a única coisa que tinha de diferente era precisamente uma "curiosidade apaixonada". Fui portanto buscar a Einstein o título do livro. Devemos aprender com os grandes mestres... Einstein tinha uma curiosidade obsessiva, que só a paixão transmite.
CC - Porque é que considera ser importante incentivar a «curiosidade apaixonada» do público?
CC - Porque é que considera ser importante incentivar a «curiosidade apaixonada» do público?
CF - A mensagem a transmitir ao público é a de que a ciência se faz com curiosidade e paixão. Aliás isso não é exclusivo da ciência, há outras actividades humanas que se podem fazer com curiosidade e paixão...
segunda-feira, junho 26, 2006
Ainda São João
Estava procurando na minha estante caótica uma versão supostamente fiel às primeiras que eu li há muito tempo atrás da lenda de Tristão e Isolda – que eu me lembre da introdução é uma balada que remonta a tradição oral – para saborear um pouco mais o bom filme, quando me deparei com uma edição portuguesa da peça “Sonho duma noite de São João”, de Shakespeare, chamada por aí de “Sonho de uma noite de verão”. Já que acabamos de passar por São João, peguei o volume e dei-lhe uma folheada. No fim há uma nota do heróico tradutor – em versos – justificando, com um comentário de Victor Hugo, a referência no título à noite que corresponde ao solstício de verão no hemisfério norte.
O ilustre habitante do Panteão de Paris, (certo Fitzwilliam?) inicia sua argumentação explicando o significado da expressão do título original Midsummer, que não é o meio do verão, mas a data do solstício, uma noite de festa importante e particular dos britânicos: “Na inglaterra de Shakespeare a véspera de Midsummer era a noite fantástica por excelência. Nessa noite, e no momento a ponto em que nascera S. João, é que saía da terra a afamada semente de feto, que tinha a virtude de tornar invisível. Para haverem esta semente, pelejavam entre si com toda a braveza as fadas capitaneadas da sua rainha e os demônios sob o manto de Satanás. Os mágicos mais destemidos, costumavam ter-se de vela nas solidões, com o intuito de ganharem por mão aos espíritos, e apanharem primeiro que eles, a preciosa semente. Muitas vezes porém lhe sucedia aguentar com eles desavenças pavorosas; e a não terem por si feitiços de grande posse, levavem a vida em contingências. Nesses lances, os mais bem livrados eram os que vinham só sovados do conflito.”
Já inventando, chuto que talvez ou até para afastar o desagradável demônio católico do contexto da sua peça leve e onírica, o bardo inglês tenha situado a história na Grécia antiga, limitando a população de seres intangíveis a fadas e duendes, que, por outro lado, nada têm de bonzinhos. Aliás, por se situar na antiguidade anterior a Cristo, talvez não devesse o tradutor ter usado a efeméride católica como referência. O próprio Victor Hugo, por não reconhecer na cultura francesa o significado fantástico da Noite de São João optou pelo tradicional título “Sonho duma noite de estio”. O português que se assina apenas Castilho concluiu ao contrário que “as práticas supersticiosas, crenças de profecias, e quimeras poéticas” em sua terra nada ficam a dever às britânicas, e assim justificou a sua noite de São João.
O ilustre habitante do Panteão de Paris, (certo Fitzwilliam?) inicia sua argumentação explicando o significado da expressão do título original Midsummer, que não é o meio do verão, mas a data do solstício, uma noite de festa importante e particular dos britânicos: “Na inglaterra de Shakespeare a véspera de Midsummer era a noite fantástica por excelência. Nessa noite, e no momento a ponto em que nascera S. João, é que saía da terra a afamada semente de feto, que tinha a virtude de tornar invisível. Para haverem esta semente, pelejavam entre si com toda a braveza as fadas capitaneadas da sua rainha e os demônios sob o manto de Satanás. Os mágicos mais destemidos, costumavam ter-se de vela nas solidões, com o intuito de ganharem por mão aos espíritos, e apanharem primeiro que eles, a preciosa semente. Muitas vezes porém lhe sucedia aguentar com eles desavenças pavorosas; e a não terem por si feitiços de grande posse, levavem a vida em contingências. Nesses lances, os mais bem livrados eram os que vinham só sovados do conflito.”
Já inventando, chuto que talvez ou até para afastar o desagradável demônio católico do contexto da sua peça leve e onírica, o bardo inglês tenha situado a história na Grécia antiga, limitando a população de seres intangíveis a fadas e duendes, que, por outro lado, nada têm de bonzinhos. Aliás, por se situar na antiguidade anterior a Cristo, talvez não devesse o tradutor ter usado a efeméride católica como referência. O próprio Victor Hugo, por não reconhecer na cultura francesa o significado fantástico da Noite de São João optou pelo tradicional título “Sonho duma noite de estio”. O português que se assina apenas Castilho concluiu ao contrário que “as práticas supersticiosas, crenças de profecias, e quimeras poéticas” em sua terra nada ficam a dever às britânicas, e assim justificou a sua noite de São João.
Mas é a noite em que as amarras do real ficam soltas e o sobrenatural domina, fazendo o amor triunfar sobre o dever, sob o efeito dos feitiços das fadas e duendes.
domingo, junho 25, 2006
São Vito Mártir
Nessa noite de São João fui ao cinema ver Tristão e Isolda, uma ode ao amor que supera o dever e a morte, e depois fui parar, não sei muito bem como, na festa de São Vito Mártir em pleno Brás, patrocinada pelo petybon grano duro, macarrão ao sugo a cinco reais em pé ou dez reais na "área vip", também conhecida como "cantina", em mesas perto do palco, com show do Maurício Pereira, o cantor luso-italiano acompanhado pelo Turbilhões de Ritmos, cantando músicas italianas, aquelas românticas tradicionais como Dio como te amo, Volare, e outras tantas, algumas tarantelas, e várias bizarrices, como Elvis em italiano (Suspicious mind virou L'ultimo tango em Memphis), Roberto em italiano (Donna de um amico mio), Beatles em italiano, Adoniran, Incríveis nos originais italianos (Era um ragazzo que come el me), e até um medley da Laura Pausini.
sábado, junho 24, 2006
Pura implicância
Hoje de manhã fui ao clube cortar o cabelo, que, como diria a. já estava na fase pompom, e finalmente encontrei o amigo imaginário do barbeiro gordo, que não é o seu duplo nem imaginário. É baixinho e tem um caprichadíssimo capacete de cabelo grisalho e um bem aparado bigode. O outro é enorme e usa um cabelão ondulado, dividido no meio, bem anos setenta. Achei meio sem graça. Lá dei uma olhada no Estadão, coisa que não tenho feito com atenção nessa fase burralda. Encarei só o Caderno 2, e li um artigo de um tal Aluízio Falcão, "especial para o Estado", reclamando do hábito do falar difícil. Discordei de quase tudo o que ele disse.
Ele começa mencionando "a exposição sobre nosso idioma e sua merecida repercussão", sem sequer mencionar que exposição era essa, e demorei - é verdade que ando lento - um pouco para supor que se tratava do Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz. O articulista pelo menos se deu ao trabalho de “defender” - não diz quem, mas se intui os organizadores - da inveja dos "formuladores" de críticas (de onde ele tirou essa expressão?!) por imprecisões históricas, categoria na qual eu o incluiria só por essa menção mesquinha.
E aí envereda em uma cruzada em defesa da clareza da língua, usando uma imagem desagradável: "A Língua Portuguesa precisa de um regime para emagrecer. Deve urgentemente perder celulites que agridem a decantada formosura do seu corpo." Pra mim é um rematado absurdo alguém pregar a redução de palavras de uma língua, ainda que pouco usadas e feias. Como diz o ditado, o que abunda não prejudica. Ele exemplifica com "aleivosia", que qualifica de tenebroso vocábulo, no meu ver adequado ao significado. Prossegue enumerando "jaez, ínterim, encômio, vitupério, entrementes..." que considera "rebarbativas" (isso não é falar difícil?), e segundo ele sempre haveria outra correspondente "mais bonita e mais simples, de igual significado, que todo mundo entende". Pra mim, a sinomínia é sempre aparente, e existem diferenças sutis entre as “iguais”, quanto mais não seja pelo som, e a variedade dá colorido à língua. A sua tese é de que há um gosto pela incomunicabilidade, e falar difícil confere status. E chuta, sem qualquer base ou referência, de que esse gosto vem do latinório dos primeiros bacharéis, e exemplifica com Rui Barbosa, dando a entender que são os primeiros bacharéis brasileiros. Não sei porque o gosto pela retórica pomposa não viria dos antigos gregos, ou dos romanos em decadência, só pra aventar algumas hipóteses.
Há aí uma incoerência na argumentação, porque latim não é português, e o uso de expressões estrangeiras não é exatamente o português rebarbativo, mas sim um outro fenômeno de linguagem. E o Aluízio prossegue no desvio da sua tese inicial, com a seguinte bobagem: "profissionais de outras áreas também criaram jargões próprios, dificultando a compreensão de seus textos pelos outros mortais. Daí o economês, o sociologuês e outros idiomas dentro do idioma." Falcão comete a ingenuidade de ignorar a existência da linguagem científica, estudada pelos intelectuais do chamado Círculo de Viena, que reconheceram a existência de várias linguagens especializadas utilizando ou não o idioma como base, que têm como característica a busca da clareza através dos significados únicos, e só servem aos interlocutores que as conhecem. Não têm nada a ver com o rebarbativo ou o gosto pela incomunicabilidade, muito ao contrário, perseguem a precisão.
Passa a disparar sua metralhadora descontrolada pela literatura, abatendo ao acaso alguns “rebarbadores”, começando em Euclides da Cunha, de quem admite a genialidade que reputa escondida pela afetação, com base no argumento da autoridade de Joaquim Nabuco, novamente construindo seu raciocínio de forma infeliz, pois para Nabuco, segundo o próprio Aluízio, Euclides era um mau escritor. A mim parece óbvio que Euclides não seria Euclides sem a afetação, pois na literatura, ao contrário da linguagem científica, o estilo, ou melhor dizendo o modo de expressão do autor, é indissociável das idéias que expressa. Esperemos só que Aluízo não se proponha a limpar o texto dele.
A vítima seguinte é Augusto dos Anjos, a quem também diz admirar, afirmando porém "que se tornou famoso por seus piores versos, aqueles de linguajar rebarbativo: Cosmopolitismo das moneras/pólipo de recônditas reentrâncias..." É estranho um admirador do poeta não reconhecer o seu escancarado senso de humor nesses poemas gongóricos de metáforas médicas e científicas, esgarçando o idioma ao máximo para dele arrancar imagens de arrepiar, como no genial soneto "Psicologia de um vencido". Igualmente, retire-se essa característica de Augusto, o que sobrará?
No parágrafo seguinte comete um terrível erro de concordância, ao bajular a linguagem jornalística moderna (porque será?): "Inclusive quando incorporam uma linguagem que, pelo uso corrente na oralidade, adquirem o direito de ingressar na linguagem escrita." Esse mérito é no mínimo discutível, primeiro porque o interesse é vender jornais, e também porque não se pode esquecer a responsabilidade dos grandes órgãos de imprensa na manutenção da qualidade lógica e funcional da língua.
Ataca então os parnasianos, e aí falta originalidade à crítica. Desde criança ouço falar mal do apego excessivo às formas e aos temas clássicos e distantes dessa turma. Novidade haveria se tivesse mostrado algo de bom. E falha mais uma vez em seu exemplo: “Mesmo aquele de Olavo Bilac sobre a Língua Portuguesa e que começa com Última flor do Lácio inculta e bela” merece reparos. Primeiro, porque o poeta imaginou que todos os seus leitores tinham a obrigação de saber que o Lácio era uma antiga região da Itália, onde primitivamente se falava o latim.” Foi mal. O Lácio não era, o Lácio é uma importante província da Itália, com mais de cinco milhões de habitantes, onde se encontra Roma, e que tem um famosíssimo time de futebol de mesmo nome, o Lazio. E todos os leitores de Bilac sabem que o português é uma língua latina. Lácio, Latium, latim, não é uma charada tão difícil assim, ainda mais levando em conta o tema do poema e o sentido do verso.
Os dois últimos argumentos também não têm nenhuma lógica, e apontam como culpados pelo falar difícil as teses acadêmicas perdidas no escurinho das bibliotecas – se não são lidas não podem causar dano – e os gramáticos puristas, aos quais, segundo o próprio autor, ninguém presta atenção. É óbvio que as críticas que tais seres retrógrados e obscuros não teriam força nenhuma para barrar o progresso da língua.
É triste ver desperdiçado o espaço nobre de meia página do caderno cultural de um dos mais importantes jornais do país com tanto papo furado.
Ele começa mencionando "a exposição sobre nosso idioma e sua merecida repercussão", sem sequer mencionar que exposição era essa, e demorei - é verdade que ando lento - um pouco para supor que se tratava do Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz. O articulista pelo menos se deu ao trabalho de “defender” - não diz quem, mas se intui os organizadores - da inveja dos "formuladores" de críticas (de onde ele tirou essa expressão?!) por imprecisões históricas, categoria na qual eu o incluiria só por essa menção mesquinha.
E aí envereda em uma cruzada em defesa da clareza da língua, usando uma imagem desagradável: "A Língua Portuguesa precisa de um regime para emagrecer. Deve urgentemente perder celulites que agridem a decantada formosura do seu corpo." Pra mim é um rematado absurdo alguém pregar a redução de palavras de uma língua, ainda que pouco usadas e feias. Como diz o ditado, o que abunda não prejudica. Ele exemplifica com "aleivosia", que qualifica de tenebroso vocábulo, no meu ver adequado ao significado. Prossegue enumerando "jaez, ínterim, encômio, vitupério, entrementes..." que considera "rebarbativas" (isso não é falar difícil?), e segundo ele sempre haveria outra correspondente "mais bonita e mais simples, de igual significado, que todo mundo entende". Pra mim, a sinomínia é sempre aparente, e existem diferenças sutis entre as “iguais”, quanto mais não seja pelo som, e a variedade dá colorido à língua. A sua tese é de que há um gosto pela incomunicabilidade, e falar difícil confere status. E chuta, sem qualquer base ou referência, de que esse gosto vem do latinório dos primeiros bacharéis, e exemplifica com Rui Barbosa, dando a entender que são os primeiros bacharéis brasileiros. Não sei porque o gosto pela retórica pomposa não viria dos antigos gregos, ou dos romanos em decadência, só pra aventar algumas hipóteses.
Há aí uma incoerência na argumentação, porque latim não é português, e o uso de expressões estrangeiras não é exatamente o português rebarbativo, mas sim um outro fenômeno de linguagem. E o Aluízio prossegue no desvio da sua tese inicial, com a seguinte bobagem: "profissionais de outras áreas também criaram jargões próprios, dificultando a compreensão de seus textos pelos outros mortais. Daí o economês, o sociologuês e outros idiomas dentro do idioma." Falcão comete a ingenuidade de ignorar a existência da linguagem científica, estudada pelos intelectuais do chamado Círculo de Viena, que reconheceram a existência de várias linguagens especializadas utilizando ou não o idioma como base, que têm como característica a busca da clareza através dos significados únicos, e só servem aos interlocutores que as conhecem. Não têm nada a ver com o rebarbativo ou o gosto pela incomunicabilidade, muito ao contrário, perseguem a precisão.
Passa a disparar sua metralhadora descontrolada pela literatura, abatendo ao acaso alguns “rebarbadores”, começando em Euclides da Cunha, de quem admite a genialidade que reputa escondida pela afetação, com base no argumento da autoridade de Joaquim Nabuco, novamente construindo seu raciocínio de forma infeliz, pois para Nabuco, segundo o próprio Aluízio, Euclides era um mau escritor. A mim parece óbvio que Euclides não seria Euclides sem a afetação, pois na literatura, ao contrário da linguagem científica, o estilo, ou melhor dizendo o modo de expressão do autor, é indissociável das idéias que expressa. Esperemos só que Aluízo não se proponha a limpar o texto dele.
A vítima seguinte é Augusto dos Anjos, a quem também diz admirar, afirmando porém "que se tornou famoso por seus piores versos, aqueles de linguajar rebarbativo: Cosmopolitismo das moneras/pólipo de recônditas reentrâncias..." É estranho um admirador do poeta não reconhecer o seu escancarado senso de humor nesses poemas gongóricos de metáforas médicas e científicas, esgarçando o idioma ao máximo para dele arrancar imagens de arrepiar, como no genial soneto "Psicologia de um vencido". Igualmente, retire-se essa característica de Augusto, o que sobrará?
No parágrafo seguinte comete um terrível erro de concordância, ao bajular a linguagem jornalística moderna (porque será?): "Inclusive quando incorporam uma linguagem que, pelo uso corrente na oralidade, adquirem o direito de ingressar na linguagem escrita." Esse mérito é no mínimo discutível, primeiro porque o interesse é vender jornais, e também porque não se pode esquecer a responsabilidade dos grandes órgãos de imprensa na manutenção da qualidade lógica e funcional da língua.
Ataca então os parnasianos, e aí falta originalidade à crítica. Desde criança ouço falar mal do apego excessivo às formas e aos temas clássicos e distantes dessa turma. Novidade haveria se tivesse mostrado algo de bom. E falha mais uma vez em seu exemplo: “Mesmo aquele de Olavo Bilac sobre a Língua Portuguesa e que começa com Última flor do Lácio inculta e bela” merece reparos. Primeiro, porque o poeta imaginou que todos os seus leitores tinham a obrigação de saber que o Lácio era uma antiga região da Itália, onde primitivamente se falava o latim.” Foi mal. O Lácio não era, o Lácio é uma importante província da Itália, com mais de cinco milhões de habitantes, onde se encontra Roma, e que tem um famosíssimo time de futebol de mesmo nome, o Lazio. E todos os leitores de Bilac sabem que o português é uma língua latina. Lácio, Latium, latim, não é uma charada tão difícil assim, ainda mais levando em conta o tema do poema e o sentido do verso.
Os dois últimos argumentos também não têm nenhuma lógica, e apontam como culpados pelo falar difícil as teses acadêmicas perdidas no escurinho das bibliotecas – se não são lidas não podem causar dano – e os gramáticos puristas, aos quais, segundo o próprio autor, ninguém presta atenção. É óbvio que as críticas que tais seres retrógrados e obscuros não teriam força nenhuma para barrar o progresso da língua.
É triste ver desperdiçado o espaço nobre de meia página do caderno cultural de um dos mais importantes jornais do país com tanto papo furado.
sexta-feira, junho 23, 2006
Um real por dia
Já disse aqui que desde o carnaval estou emburrecendo. O processo está quase completo. Outro dia recebi uma carta de uma bibilioteca que freqüento, cobrando um livro que deveria ter sido devolvido em abril. É o “Morte a crédito”, do Céline, um livro impossível de ler pra alguém com a mente tão debilitada como eu. Além de ser uma história incrivelmente deprimente de um médico cínico que trabalha com saúde pública num bairro pobre, o livro é inteirinho – inteirinho mesmo – feito de frases interrompidas por reticências, o que depois de um tempo passa a ser um ruído irritante. Algo como uma britadeira ortográfica metralhando o seu cérebro. Outro livro que peguei um pouco antes, um do Saramago, esteve com alguém que marcava o lugar em que tinha parado com um ponto de caneta vermelha. E o cara era tão mesquinho que ele não se contentava em marcar a página, ou o parágrafo (tá certo que são grandes, no caso do Saramago). Marcava a linha, e ainda variava entre o lado esquerdo e o direito, pra não voltar nenhuma palavra atrás. E lia meia página, no máximo uma página por dia, ou então era muito interrompido, porque toda página tinha pelo menos um ponto vermelho. Estabeleci um relacionamento desagradável com esse antecessor, e toda vez que via o ponto vermelho tropeçava, pensava porque ele tinha parado ali, por qual razão, ou simplesmente bufava, o que me atrapalhou muito o ritmo da leitura. Tenho uma pilha parada no meu criado mudo, e faz dois meses que não leio um livro. Só vejo tv e durmo. É por isso que tenho falado tanto em remo.
quinta-feira, junho 22, 2006
Pois é
Meu four-skiff vai voltar a treinar, com a mesma guarnição menos o gigante da sota-proa, que será substituído por um mais jovem, baixando a média para uns quarenta. Teremos um barco e remos só para nós, nada de luxo mas tudo em ordem, regulado de acordo. E, finalmente reconheceram meu talento musical, vou sair da proa e ir para a voga, ditar o ritmo e me livrar do leme de pé. Isso se o treinador não mudar de idéia depois dessa manhã. A raia estava um espelho, eram quase nove horas e eu estava completando vinte quilômetros remando o single-skiff “sem palamenta” - isto é, sem quebrar a munheca no retorno do remo com a pá na horizontal, o que é um exercício muito bom para a entrada e a saída do remo na água e também para o equilíbrio do barco, pois se é obrigado a trazer o remo mais alto e sem raspar na água – quando, ao fazer a última virada, relaxado e cansado, fui inventar, tentando fazer o barco girar sobre si próprio como fazem os craques, um remo avante e outro à ré, e capotei. O barco logo retornou à posição original, quase nenhuma água chegou a entrar. Na água gelada, com cãibra numa das panturrilhas, empurrei o dito cujo até a margem, saí da água entre as tocas dos preás que habitam o barranco, freqüentemente confundidos com ratazanas, e fiquei esperando. Deixar o barco lá não se recomenda, alguma coisa pode acontecer. E também não dá para tentar subir no barco sem a estabilidade do pontão, pois é arriscado quebrar alguma coisa. Esperei por um tempo, até que alguém numa lanchinha que estava acompanhando alguns remadores se ofereceu para avisar alguém do meu clube. Uns quinze minutos se passaram e eu fiquei lá imprensado entre o barranco e a água, molhado e gelado, mal me equilibrando na superfície muito inclinada e escorregadia, sem poder me mexer, até que aquele mesmo sujeito voltou com a lanchinha e se ofereceu para rebocar. Entrei na água novamente, até o peito, para tirar os remos e embarcar. É um evento humilhante, que deixa todos espantados e horrorizados. Amanhã estou lá de novo, um pouco mais modesto.
quarta-feira, junho 21, 2006
Solstício

Hoje é o dia do solstício de inverno, ocorrido às 9:27 da manhã. Como o ponto culminante da órbita foi de manhã, acredito que a noite mais longa do ano foi a de ontem, de 20 para 21. Achei esta figura que mostra como os lugares onde o sol nasce e onde se põe se deslocam durante o ano, aqui no hemisfério sul em direção ao norte, e assim o arco aparente que ele descreve sobre um dado horizonte diminui, bem como a altura máxima que o Sol atinge. Eu acho, mas não tenho certeza, que a inclinação desse arco aparente é constante, e representa a inclinação do eixo de rotação da Terra em relação ao plano da órbita do Sol.
terça-feira, junho 20, 2006
Garotas, suspirem

Está no ar o blog do dândi egocêntrico, autocentrado, conservador e bem educadíssimo Fitzwilliam, pavoneando-se fleugmaticamente da sua peculiar visão do mundo.
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