sexta-feira, junho 23, 2006

Um real por dia

Já disse aqui que desde o carnaval estou emburrecendo. O processo está quase completo. Outro dia recebi uma carta de uma bibilioteca que freqüento, cobrando um livro que deveria ter sido devolvido em abril. É o “Morte a crédito”, do Céline, um livro impossível de ler pra alguém com a mente tão debilitada como eu. Além de ser uma história incrivelmente deprimente de um médico cínico que trabalha com saúde pública num bairro pobre, o livro é inteirinho – inteirinho mesmo – feito de frases interrompidas por reticências, o que depois de um tempo passa a ser um ruído irritante. Algo como uma britadeira ortográfica metralhando o seu cérebro. Outro livro que peguei um pouco antes, um do Saramago, esteve com alguém que marcava o lugar em que tinha parado com um ponto de caneta vermelha. E o cara era tão mesquinho que ele não se contentava em marcar a página, ou o parágrafo (tá certo que são grandes, no caso do Saramago). Marcava a linha, e ainda variava entre o lado esquerdo e o direito, pra não voltar nenhuma palavra atrás. E lia meia página, no máximo uma página por dia, ou então era muito interrompido, porque toda página tinha pelo menos um ponto vermelho. Estabeleci um relacionamento desagradável com esse antecessor, e toda vez que via o ponto vermelho tropeçava, pensava porque ele tinha parado ali, por qual razão, ou simplesmente bufava, o que me atrapalhou muito o ritmo da leitura. Tenho uma pilha parada no meu criado mudo, e faz dois meses que não leio um livro. Só vejo tv e durmo. É por isso que tenho falado tanto em remo.

quinta-feira, junho 22, 2006

Pois é

Meu four-skiff vai voltar a treinar, com a mesma guarnição menos o gigante da sota-proa, que será substituído por um mais jovem, baixando a média para uns quarenta. Teremos um barco e remos só para nós, nada de luxo mas tudo em ordem, regulado de acordo. E, finalmente reconheceram meu talento musical, vou sair da proa e ir para a voga, ditar o ritmo e me livrar do leme de pé. Isso se o treinador não mudar de idéia depois dessa manhã. A raia estava um espelho, eram quase nove horas e eu estava completando vinte quilômetros remando o single-skiff “sem palamenta” - isto é, sem quebrar a munheca no retorno do remo com a pá na horizontal, o que é um exercício muito bom para a entrada e a saída do remo na água e também para o equilíbrio do barco, pois se é obrigado a trazer o remo mais alto e sem raspar na água – quando, ao fazer a última virada, relaxado e cansado, fui inventar, tentando fazer o barco girar sobre si próprio como fazem os craques, um remo avante e outro à ré, e capotei. O barco logo retornou à posição original, quase nenhuma água chegou a entrar. Na água gelada, com cãibra numa das panturrilhas, empurrei o dito cujo até a margem, saí da água entre as tocas dos preás que habitam o barranco, freqüentemente confundidos com ratazanas, e fiquei esperando. Deixar o barco lá não se recomenda, alguma coisa pode acontecer. E também não dá para tentar subir no barco sem a estabilidade do pontão, pois é arriscado quebrar alguma coisa. Esperei por um tempo, até que alguém numa lanchinha que estava acompanhando alguns remadores se ofereceu para avisar alguém do meu clube. Uns quinze minutos se passaram e eu fiquei lá imprensado entre o barranco e a água, molhado e gelado, mal me equilibrando na superfície muito inclinada e escorregadia, sem poder me mexer, até que aquele mesmo sujeito voltou com a lanchinha e se ofereceu para rebocar. Entrei na água novamente, até o peito, para tirar os remos e embarcar. É um evento humilhante, que deixa todos espantados e horrorizados. Amanhã estou lá de novo, um pouco mais modesto.

quarta-feira, junho 21, 2006

Solstício


Hoje é o dia do solstício de inverno, ocorrido às 9:27 da manhã. Como o ponto culminante da órbita foi de manhã, acredito que a noite mais longa do ano foi a de ontem, de 20 para 21. Achei esta figura que mostra como os lugares onde o sol nasce e onde se põe se deslocam durante o ano, aqui no hemisfério sul em direção ao norte, e assim o arco aparente que ele descreve sobre um dado horizonte diminui, bem como a altura máxima que o Sol atinge. Eu acho, mas não tenho certeza, que a inclinação desse arco aparente é constante, e representa a inclinação do eixo de rotação da Terra em relação ao plano da órbita do Sol.

terça-feira, junho 20, 2006

Garotas, suspirem



Está no ar o blog do dândi egocêntrico, autocentrado, conservador e bem educadíssimo Fitzwilliam, pavoneando-se fleugmaticamente da sua peculiar visão do mundo.

segunda-feira, junho 19, 2006

A mãe do Freud

Disse o Freud uma vez, não sei exatamente em que contexto e com que palavras, que o homem que tem o amor incondicional da mãe vai mais longe, possivelmente com base na sua própria experiência. Se alguma coisa me irrita nessa copa é a unanimidade em dizer que o time brasileiro está horrível. Aliás, assim como toda vez que vejo torcida vaiar o seu time. O amor da torcida tem que ser incondicional como o da mãe do Freud, e ficar com o time até o fim, para o bem e para o mal, apoiando a luta mesmo que seja ingrata. Ganhar junto e perder junto. No último jogo, curiosamente, depois de um tempo inteiro com os comentaristas falando mal do Ronaldo e do Adriano, os dois fazem uma magnífica jogada e o primeiro gol. Afinal, qual é a diferença entre o time bom e o time ruim? Justamente estes momentos de gênio. Jogar duro todos sabem, e cada partida da copa é uma guerra. O time está aí e não pode mais ser mudado. São jogadores incríveis que qualquer clube do mundo teria em suas equipes. Vamos fazer o papel de torcida incondicional, porque depois do Japão vem chumbo grosso.

domingo, junho 18, 2006

Ô Jayme

Você nem comentou a vitória de uma das suas bandeiras, pela mão do suspeito Kassab. Aliás, não sei porque todo mundo suspeita do Kassab. Bom, alguma coisa deve ter, mas paciência. Roubou, carregou, escondeu, ninguém viu, o que é que se há de fazer? Perdeu, mano, perdeu, se conforma e fica esperto. Segundo ouvi no rádio, tv, internet, ou jornal, não me lembro, o Kassab vai acabar com todos os out-doors (acho que foi no seu blog que eu li que essa expressão estrangeira só se usa no Brasil) que estão pela cidade, e concentrar o espaço de propaganda nos equipamentos públicos que serão substituídos e mantidos pelos anunciantes, ou melhor, locadores do espaço, ou ainda, futuros donos da rua. Não me interessei em saber como eram as características do negócio pra não ficar procurando os vazamentos de dinheiro público na arquitetura do decreto. Estou só encantado com a possibilidade disso ser verdade e sumirem, por exemplo, os 67 (estimativa grossíssimo modo) cartazes gigantes que estão na marginal entre a ponte do Jaguaré e a da Cidade Jardim, distraindo os motoristas com a sua seqüência de animação, e o nosso cérebro possa se ocupar de objetos, ou sujeitos, escolhidos por nós mesmos. Talvez eu sinta uma ponta de saudade da loira de vinte metros vestindo calcinhas Hope na entrada do Minhocão, de quem vem da São João.

sábado, junho 17, 2006

Na toca

Depois das melancólicas reflexões sobre o isolamento provocadas, provavelmente, pelo o isolamento, melhor voltar ao chão e caprichar na minha pequena rotina da casa vazia. Fora uns dois pratos, dois copos, e três talheres, a cozinha está em ordem. Ontem, mal recuperado da bebedeira de quinta, cheguei do trabalho, embrulhei-me em moletons, usei a colcha como coberta para ver tv e acabei dormindo assim até hoje, de sorte que a cama está arrumada. Na casa vazia, essas poucas alterações na ordem, que passariam desapercebidas com o circo da família em movimento, e se arrumariam por si próprias, crescem em significação. Estou na dúvida se lavo a louça ou não. Acho que vou lavar sim, e depois vou fechar as cortinas, aproveitar a ordem e o silêncio, pra ver se eu consigo vislumbrar o próximo passo. Mas antes vou até a raia ver se há uma embarcação disponível para uma remada.

sexta-feira, junho 16, 2006

Poço sem fundo

Pessoas são virtualmente inesgotáveis, tanto na sua capacidade de dar, como na de querer. Para que as relações funcionem basta que as ligações estejam aptas ao trânsito de dados, ou seja, que haja disponibilidade. São vários os tipos de relações possíveis, e todas podem e devem conter alguma dose de afeto. Se a ligação é mal feita, passa-se a mensagem errada, e a coisa pode se tornar até desagradável. Rompimentos de ligações podem ser dolorosos, mas relações não necessitam substituição. Relações sem trânsito de afeto, sem ligação, não são verdadeiramente relações. São ex-relações ou relações potenciais. O grande limitador é a disponibilidade. Quantos amigos você consegue manter? Existem ex-amigos? Amigos que não se vêem há muito tempo conseguem recuperar a ligação rompida, e fazer fluir o trânsito de afeto? Quais relações são realmente importantes pra você, em quais relações existe o trânsito livre e desinteressado de afeto? O afeto precisa ser desinteressado? Qual a hierarquia das relações? Como quem não trabalha não come, seria de se esperar que no topo da hierarquia estivessem as relações de trabalho, mas obviamente não estão. Relação aqui é a situação de troca entre duas pessoas. Troca de qualquer coisa. Bens e serviços, fluidos corporais, afeto, desafeto. Ligação, também inventando, é o meio pelo qual a relação acontece. Antigamente só havia a ligação física, a oral, e a ligação epistolar. Daí inventaram o telefone, e a ligação oral deixou de reclamar a presença física do interlocutor. A voz um tanto desumanizada pelo aparelho, mas ainda muito do caráter físico da ligação se mantém, pelo timbre, a inflexão, a construção da conversa com o entrelaçamento das frases, e por aí vai. A carta também tinha algo de físico, pela caligrafia única de cada pessoa, a disposição das palavras, as correções e atos falhos, e eventualmente lágrimas borrando a escrita. Agora as ligações contam com outros meios, cada vez mais importantes, os meios eletrônicos. Podemos ir desde o ultra impessoal e-mail, que nada tem de físico, não tem caligrafia, não registra correções, mas mesmo assim pode conter grande carga de emoções somente na transmissão de idéias, ao dinâmico msn, onde ao menos pode haver o entrelaçamento das frases em conversa, e pode-se simular por escrito algumas interjeições e gestos. Há ainda os scraps e fóruns (é isso, aquelas listas das comunidades?) do orkut e assemelhados, que eu não sei como funcionam. E todas essas formas eletrônicas podem ser acompanhadas de carinhas expressando emoções, e outros ideogramas. Claro que os mais ousados podem comunicar-se à distância com câmeras e microfones, e aí o aspecto físico da conversa volta com força total, sobrando apenas o véu da eletrônica, e faltando, se for o caso, o contato realmente físico e a troca de fluidos corporais. O necessário é apenas que algum tipo de ligação entre essas fontes inesgotáveis de afeto, que são as pessoas, exista.

quinta-feira, junho 15, 2006

Corpo de Cristo

Ao que consta “Corpus Christi” é o dia santo dedicado à Eucaristia, o corpo de Cristo simbolizado pela hóstia embebida em vinho, o sacramento celebrado em sua memória. Ligar o divino ao humano é uma idéia muito boa, pois para a espécie se perpetuar e a civilização se aprimorar o indivíduo tem que transcender a si próprio. Sou agnóstico no sentido tradicional e pra mim, o absoluto, ou seja Deus, é inapreensível. As religiões, embora tragam doutrinas socialmente úteis, são baseadas em premissas inconsistentes, os dogmas. A Deus não cabem qualidades humanas como bondade e justiça, construídas para possibilitar a vida em sociedade, a comunhão dos homens entre si. E cada um tem que desenvolver em si os atributos necessários para a vida em grupo, as várias faces do altruísmo organizado em regras que vão dos grandes tabus erigidos em crimes capitais à boa etiqueta.

quarta-feira, junho 14, 2006

Não vou

Como dizem as minhas filhas, “todo mundo” vai para Campos do Jordão no feriado de Corpus Christi. Gosto muito da Serra da Mantiqueira, com suas florestas de pinhais, rios cristalinos e altas montanhas com picos de pedra, as belas vistas, e o clima de altitude. Acrescentados pelos caras pálidas foram as trutas, os plátanos, os chalés estilo alpino, os cavalos, os gramados, os hotéis e restaurantes e outras tantas benfeitorias. Campos está a mais ou menos mil e setecentos metros de altura, e é a estância turística mais desenvolvida da serra. Pra quem mora lá e vive do turismo, a sazonalidade é difícil de administrar. Chove muito no verão, e poucos se interessam pela montanha fora do inverno. Neste feriado abre-se a curta alta temporada da estância, que vai até o fim do inverno. Acredito que este feriado seja o pico da ocupação por turistas. Tudo congestionado, tudo lotado, preços exorbitantes, e um desfile de vaidades e ostentações concentrado como poucas vezes se vê. Lá os consumidores do mercado de luxo se encontram e sentem-se seguros para exibir seus sinais exteriores de riqueza, como diz o leão. A isso se resume Campos neste feriado, uma grande aglomeração da fina flor da juventude paulista para exibir riqueza e beleza. Minha mulher, num gesto nobre, consentiu que eu ficasse aqui, enquanto ela pilota uma casa lotada de meninas-moças e enfrenta sozinha as forças escuras do inverno, manifestas nessa horda exibindo o que tem de pior.

terça-feira, junho 13, 2006

A nação em chuteiras


Começa a copa, no dia de Santo Antônio, do qual Zagalo, o pé-quente, é devoto. Anda com um santinho no bolso. Há quem se irrite com a copamania. Um dos argumentos mais usados é o do patriotismo barato, ou até nocivo, que sujeita a nação à manipulação do estado. Tendo a discordar. Aprendi, lendo notícias sobre escândalos, que a CBF é uma associação privada sem fins lucrativos, tipo de instituição hoje comumente chamada de ONG. Um clube de federações estaduais de futebol, por sua vez clubes de clubes de futebol, também associações sem fins lucrativos. Ou seja, toda a estrutura do futebol brasileiro é da iniciativa privada sem fins lucrativos. Clubes formados por amigos amantes do esporte amador, que o amor pelo esporte tornou gigantes, hoje um tanto descontrolados, vá lá. Ou seja, forçando um pouco a barra pode-se dizer que a nossa seleção tem origem remota em sonhos de garotos que organizaram seus times de bairro para jogar peladas nas várzeas. E essa ainda é a origem dos nossos gloriosos craques, milionários que jogam futebol como ninguém no mundo. Dá pra se perceber em cada garoto – e agora garotas também jogam – que joga ou jogou futebol a capilaridade da sustentação popular da seleção brasileira, que transcende manipulações de políticos e patrocinadores, e representa um pouco do que esta nação tem de melhor, nação no sentido humano de identidade cultural e étnica, e não na acepção do falido modelo do estado moderno. Por isso alterei a expressão rodrigueana do título.

Agradeço aos convites dos amigos mas vou ver esse jogo com a família na casa dos meus pais, alguns dos meus irmãos, espero que com filhos e sobrinhos presentes, e quem mais aparecer será muito bem vindo. A celebração das copas está na raiz mais funda da nossa formação.

segunda-feira, junho 12, 2006

Ainda remo

Ontem teve uma regata interna do clube, com alguns convidados externos. Participei de uma prova na iole, que é um barco largo de treinamento, numa guarnição heterogênea e improvisada entre 16 e 60 anos, e tiramos o segundo em quatro barcos, batendo dois clubes, o que foi muito bom. Corri também um páreo no double misto, junto com a Sra. Bilis, contra três guarnições contra as quais não tínhamos a menor chance, de remadores experientes e cheios de títulos. Mas vencemos um outro double mais jovem e que rema há um pouco mais de tempo do que nós, e assim ficamos em quarto de cinco. Não pude participar da prova que eu mais queria, que era o skiff master estreante, porque encavalou com a do double misto. Quando cheguei, os barcos já estavam a um quilômetro de distância, na largada.

Depois da prova fomos conversar com os vencedores no tempo real, trazidos a segundo no tempo corrigido, uma dupla de um famoso clube carioca. Começamos a conversar sobre o praticamente inexistente circuito de remo master, e o homem da dupla – que também ganhou a prova de skiff master – disse meio sem graça que irá participar dos outgames em Montreal, em julho ou agosto deste ano, explicando que era uma olimpíada das minorias. Depois pesquisei e vi que são os gay games, ou pelo menos um racha da sua sétima edição. Ele não precisava ter feito isso, mas fiquei com a impressão que ele fez questão de declarar a sua opção sexual naquele ambiente presumidamente homofóbico, onde o humor cotidiano é feito basicamente à base de piadas preconceituosas. Foi tratado com todo o respeito mesmo depois da cerveja do churrasco de confraternização.

domingo, junho 11, 2006

Responsabilidade social

Que o altruísmo é um forma um pouco mais sofisticada de comportamento auto-interessado é mais ou menos óbvio. Ninguém é bonzinho por ser bonzinho, contrariando seus instintos animais egoístas, mas porque considera uma postura mais recompensadora. Trata-se de pensar a longo prazo, como investir tempo, dinheiro, energia, ou o que quer que se tenha para aplicar. Na nossa sociedade moderna às vezes o altruísmo fica tão longe da recompensa que são usadas metas abstratas anteriores para simulá-las, como medalhas, prêmios e outros tipos de homenagens, que podem ser ainda mais tênues e impalpáveis. Sábado fiquei duas horas no caixa de uma festa junina beneficente e ninguém me agradeceu. Não que eu esperasse agradecimento, quer dizer, quem iria me agradecer? Os beneficiados, credores de uma sociedade injusta na distribuição das oportunidades, que eu nem sei quem são?

sexta-feira, junho 09, 2006

Fogo de palha

Tenho quarenta e cinco anos. Surfo há trinta e três anos. Toco guitarra há trinta e um anos. Trabalho na mesma sala, na mesma profissão, há vinte e três anos. Sou casado há vinte anos. Moro na mesma casa há oito anos. Comecei o blog há treze meses. Remo a nove meses.


Afora ventos e trovões, a direção é mais ou menos a mesma. Devo estar indo para algum lugar.

quinta-feira, junho 08, 2006

O profeta do deserto

Era noite de São João mas ali na megalópole não tinha festa junina nem quadrilha, pelo menos que quisesse ir. Apesar da lua nova, invisível, só a luz das estrelas de primeira grandeza atravessava o clarão da cidade. Na noite mais longa do ano o negócio era ir comer uma massa leve e ir dançar música negra. Como única concessão às festas juninas da sua infância no interior vestiu um vestido rodado vermelho, que nada tinha de caipira. Dançando, sentiu-se Salomé com seus véus. Pouco se importava com a cabeça do Batista. A um dos muitos amigos que assistia ao espetáculo pareceu que ela era a incumbida de acordar a Terra da sua hibernação.

quarta-feira, junho 07, 2006

Opositores

Encontraram-se por acaso no velório. Nenhum dos dois conhecia mais ninguém, além da morta. Tinham estado em lados opostos de uma lenta e dolorosa aquisição de uma decadente e antiga empresa açambarcada por um inescrupuloso empresário ligado ao novo governo. A luta havia sido dura e suja e nenhum dos dois tinha muito do que se orgulhar, a não ser o fato de terem desempenhado a contento suas desagradáveis tarefas. Depois dos dois verificarem que não havia risco de nenhum deles conhecer alguém, resolveram se aproximar. Começaram a conversar sobre a morta, e reconheceram que habitaram o mesmo gueto na juventude, e por pouco não foram amigos. Aquele que tinha ficado do lado mais forte rapidamente rompeu a membrana agora inútil imposta pelo negócio, comentando que na hipocrisia da nova ordem a sua cabeça tinha composto o acordo, sabendo que o mesmo acontecera ao outro. Identificaram-se como complementares, saíram amigos, muito provavelmente sócios.

terça-feira, junho 06, 2006

Maratona

O movimento coordenado por si só gera uma sensação agradável. Domingo fui ver a maratona passar perto da minha casa, e, crime premeditado, deixei passar os primeiros pelotões e acompanhei a tropa por dezesseis quilômetros, um a mais do que tinha planejado, e num ritmo bem mais forte que o habitual, aproveitando indevidamente os postos de água. Parei porque sabia não estar preparado para tanto. A alegria da corrida induz os corredores a incitarem-se a correr. Quando parei estava longe de casa e tive uma longa caminhada de volta. Há algo de eqüino em correr, esporte tão na moda. Correr atrás dos outros, atrás de nada e ser seguido por uma multidão que corre atrás de mim.

Hoje, na raia, o treinador me deu senão o melhor, um dos melhores barcos do clube pra eu treinar, cheio de dedos, recomendações, admoestações e ameaças pela integridade física da embarcação, verdadeira casquinha de ovo. O que eu vinha usando estava com sua arcaica estrutura literalmente desmontando. Foi demais.

segunda-feira, junho 05, 2006

Granola

Sabia que aquilo não iria durar muito, e que teria que tomar uma atitude mais ou menos rápido. Lembrou de Saramago ter dito uma vez em algum lugar que "não ter pressa não é incompatível com não perder tempo". Não se tratava propriamente de uma decisão, porque aquela grande e harmoniosa estrutura que ele tentava manter, apesar da sua aparente solidez e dos muitos anos de bons serviços estava prestes a ruir. A carga ultimamente, tanto do bom como do ruim, tinha se tornado excessiva. Escoras elegantes e aparentando pertencer ao projeto original vinham sendo colocadas, mas as rachaduras depois de calafetadas e envernizadas reapareciam cada vez maiores. Estava na hora de irem embora e as perspectivas eram novas e atraentes.

sábado, junho 03, 2006

O filho predileto de Xangô


Ontem fui ao N.Ex.t. Cabaré, na Rua Rego Freitas, assistir a um show do Jorge Mautner, o profeta do Kaos. Fui a muitos shows dele quando era moleque, sempre acompanhado do seu polêmico violino (agora vermelho metálico), e o inseparável Jacobina. São profissionais competentes. Por estar num cabaré, e provavelmente identificar-se com esse tipo de estabelecimento, começou com um longo discurso sobre a história do cabaré e sua importância cultural, partindo dos poetas românticos franceses, com o absinto e o flerte da arte com o crime, passando pela época áurea da República de Weimar no entre-guerras, e contou que os cabarés foram um dos alvos do nazismo, porque Hitler considerava os comediantes tão perigosos como os judeus. Falou dos cabarés brasileiros, onde poetas parnasianos declamavam ao lado de sambistas e orquestras de gafieira. E até cantou uma canção de Kurt Weil em alemão, fazendo a tradução simultânea para o português nas pausas da letra. Cantou canções novas, como “O Homem-bomba”, com uma perspectiva umbandista dos suicidas fundamentalistas, em parceria com o Caetano, uma outra que tocou em uma novela da Globo, e várias das antigas. Para o “Maracatu Atômico” subiu ao palco uma berimbalista (?). A segunda atração era um grupo de rappers chamado “As funcionárias”, acompanhadas por um tecladista com visual inspirado em Austin Powers, que não agradou muito. Depois entrou uma banda de cozinha velha, um jovem cantor guitarrista, e um trompetista, com um repertório inusitado de compositores esquecidos como Sérgio Sampaio, e um som de qualidade. Com eles, que pareciam ter uma ligação íntima com o Mautner, ele cantou e tocou mais algumas, entre elas “O vampiro”, e terminou com uma antiga marchinha de carnaval. O cabaré estava lotado, e no teatro ao fundo acontecia uma leitura dramática (é isso), também bastante concorrida.

Foto tirada do site dele.

sexta-feira, junho 02, 2006

Chá ou café?


Há séculos, ou milênios, os filósofos discutem destino e escolha. Traçamos nosso próprio destino ou estamos a ele condenados, como o pobre Édipo, que quanto mais dele tentou fugir mais na sua direção correu. Existe uma escolha errada, ou existe só uma escolha possível, aquela que se toma? Ainda que se possa ouvir o futuro, as palavras da sibila são sempre entendidas errado. Não vou entrar nessa briga de cachorro grande. Mas assim como não acredito em vocação, aceito que há momentos em que várias escolhas certas são possíveis, e não há como errar.




Uma das sibilas da Capela Sixtina