Na minha curta e intensa vida bloguista já tive alguns mal entendidos, imediatamente reparados, só com as moças. Homens gostam de se xingar. Acho que é uma agressividade preventiva, que previne qualquer explosão ou mal entendido. Vai tomá no cu seu fela da puta é absolutamente permitido, quase em qualquer entonação. A comunicação das mulheres parece ter mais planos de comunicação, transportando na mesma mensagem significados diferentes, até contraditórios. Mas não é só isso. Nesse bate-boca escrito, nessa emblogação, a expressão não verbal que qualifica a mensagem faz uma enorme falta, a entonação, os gestos, o volume, o tom, o ritmo, a dinâmica enfim que circunscreve e limita a comunicação, além de dar tempero e sabor. A sua ausência deixa abertos e até contraditórios os significados ajambrados nas teclas. Daí os smiles, que as moças usam com tanta propriedade. Homens acham uma certa viadagem esse negócio de carinha dando risadinha, piscadinha, e não sei mais o que. Paciência. “E daí que a tábua rache, eu quero é bater prego”, “enquanto tiver bambu tem flecha”. Ah! E tem mais. Duas coisas complicadas nos comentários e postes, na minha humilde opinião, jamais assertivo caga-regra: elogio e beijinho, bicoquinha, abraço, em quem você nem conhece, será? Na vida blogária a maior manifestação de afeto, ou respeito, sei lá, é a atenção. Que é toda a diversão mas toma um puta tempo. O ritmo é o de cada um, no estilo de cada um, é uma parte importante da expressão da personalidade bloguística. E olha que eu sou um blogueiro (não gosto dessa palavra) 100% preto sem preconceito, pois só tenho existência virtual, e ninguém conhece minha identidade civil, embora uns poucos já me conheçam melhor que a maioria dos conhecidos do meu duplo físico. Termino com “Animals”, interpretado por Elvis Costello: “I’m just a soul whose intentions are good! Oh lord! Please don’t let me be misunderstood!”
sexta-feira, junho 03, 2005
quinta-feira, junho 02, 2005
Auto-escola
Nos meus onze anos, sempre que eu voltava de algum lugar com a minha mãe, quando saíamos das avenidas e entrávamos no bairro, ela deixava eu dirigir até em casa. Uma noite, meus pais tinham saído, e eu e minha irmã resolvemos pegar o carro da minha mãe pra passear pelo bairro e visitar alguns amigos. Era um VW/TL, que chamávamos de Horácio, por causa dos grandes faróis duplos e a cor verde. Sabíamos o horário que ela voltaria, ninguém iria perceber. Tirei o carro da garagem – um abrigo coberto por uma laje – e quando me preparava para a difícil operação de sair com o carro na subida, veio descendo um camburão clássico, laranja e preto, que parou do lado do carro, e viu os dois toquinhos lá dentro. Tive alguma dificuldade de por o carro de volta em seu lugar, tamanha a tremedeira da perna. De qualquer jeito, ninguém percebeu. Depois do trauma impune, mais tarde, quando conseguia, pegava a cinqüentinha do meu irmão – para equilibrar a injustiça, já que eu nunca tive uma – quando ele começou a fazer cursinho à tarde. Ele entrou na faculdade de medicina e ganhou uma Brasília, e não sei porque monásticas razões ele ia de ônibus, e deixava o carro em casa. Ele estudava muito e dormia cedo, e quando eu já estava no colegial, desenvolvi uma técnica para passeios noturnos, observando meu vizinho de cima, que gostava de carros e era bom motorista. O carro dele ficava parado numa rampa acentuada, e ele soltava o carro desligado, descia de ré até a entrada de garagem da casa abaixo da minha, embicava de ré na rampa desse outro vizinho, e o carro tinha embalo pra virar de frente e descer a ladeira. Aí, pegava no tranco. Comecei a fazer a mesma coisa de noite com o carro do meu irmão, só que eu tinha que empurrar pra ele começar a descer. Saía em silêncio e voltava em silêncio. O freio funcionava com o carro desligado. Nessa época, muitas vezes o meu pai emprestou o Dodge Dart, ou Jorjão, pra andar pelo bairro. Aí, muitas vezes andava pela cidade inteira. Com o Jorjão, no Guarujá, lá nos fundos do Jardim Virgínia tinha umas larguíssimas ruas de areia meio abandonadas, perfeitas para cavalos-de-pau e derrapagens mais ou menos controladas. Foi assim que aprendi a dirigir. Tive carta por mais de vinte anos e não consegui renovar por excesso de pontos. Nunca tive um acidente grave, e nunca machuquei ninguém. Muita, muita sorte, considerando todas as cagadas ao volante que eu fiz. De onde vinha tanta loucura?
quarta-feira, junho 01, 2005
Mônadas
Vi lá no QOC, verdadeiro poço de sabedoria e cultura, um poste lamentando a derrota da constituição européia, e relacionando a discussão à “Torre de Babel”, de Bruegel, com qualificação do universo do pintor de monadário, termo linkado com artigo sobre a filosofia de Leibniz. Dei uma lida superficial – advogados diriam até perfunctória – no texto, pra ver se entendia do que se tratava e produzia um comentário sobre proposta tão desafiadora. Entendi que a referência estava a propósito da quantidade de detalhes do inesgotável quadro, disponíveis por lupa no site linkado. Segundo Leibniz, as mônadas, partículas mínimas de todas as substâncias, seriam animadas por atividades, principalmente percepção e representação. Cada mônada espelharia o universo inteiro, diferenciando-se uma das outras pelas participações ponderadas de cada aspecto da realidade e futuro em cada mônada. Cada partícula de representação do quadro descreveria toda Babel e seu destino, embora cada uma delas salientasse alguns de seus aspectos. Assim como talvez cada eleitor represente a França inteira e suas dúvidas, na proporção do plebiscito em aspectos mais evidentes, e nas sombras toda a Europa e todo o mundo, em misteriosa proporção de medo e vontade de que os modernos princípios constitucionais envolvam todo o globo, para que um africano descalço tenha os mesmos direitos às liberdades substantivas (a gente não quer só comida), como diz o Amartya Sen, do que um flamengo como Bruegel (belga ou holandês?). Voltando para o chão, pra não ficar como mosca em sonho de padaria, vi visionariamente as mônadas de Leibniz na explicação de Drauzio Varela do porquê de ser tão difícil emagrecer depois que mudamos de patamar. Cada célula de gordura adquirida ao engordar, quando emagrecemos, nada mais faz do que diminuir de tamanho, sendo cada célula uma mônada representando um gordo temporariamente magro, com um ímpeto de completar-se novamente de gordura. Eca.
terça-feira, maio 31, 2005
A arte do insulto*
Ah, entendi! Filibusteiro, marinheiros de água doce, mercenários, açambarcadores, judas, renegados, esquizofrénicos, rizópodos, ectoplasmas, emplastros, trogloditas, aztecas, sapos do deserto, vendedores de tapetes, iconoclastas, zulos, parasitas, bexigosos, sacripantas, esclavagistas, tecnocratas, vegetarianos, quadrúpedes, corsários, hidrocarbonetos, canacas, giroscópios, doríferos, zuavos, antropopitecos, anacolutos, invertebrados, tocadores de gaita-de-foles, bichos-de-conta, velho pepino, sinapismo, escolopendras, velho cachalote, coleópteros, atarracados, anacoretas, bichas-solitárias, piróforos, colocíntidas, zigomicetes, gargarejos, cataplasma, saguins, espécie de iconoclasta míope, fanfarrão de orquestra, cretinos dos Alpes, equinodermes, fagote de Madagascar, galináceos, espécie de babuínos, cercopitecos, velhacos feitos de extracto de cretino, turcos, saltimbancos amestrados, espécie de analfabeto diplomado, bacalhau atlético, zebróide, protozoários, lagarto desmontável, bando de zapotecas, patagónios, micróbio, ornitorrinco, espécie de logaritmo, ratos neurasténicos, ciclotrão, pepino em conserva, pedaço de morcego, cabeça de martelo, emplastro em banha de ouriço, concentrado de mexilhão bexigoso, viviseccionistas, torcionários, antropófagos, astronauta de água doce, espécie de selvagem interplanetário, subproduto de ectoplasma, bugre subnutrido, cretino dos Balcãs, autodidactas, bugre de creme de emplastro à base de idiotice, polígrafos, bazucas dos Cárpatos, selvagens preparados com molho tártaro, incendiários, fenómeno de canibal, anticristo, barroco, coloquinta, visigodos, pedaços de energúmenos com nariz de coco, espécie de equilibrista, cretinos do Himalaia, espécie de Cró-Magnon, mamelucos, macrocéfalos, rocambole, filoxera, megalómano, sátrapa, espécie de lobisomem com gordura de ranúnculo, pirómanos, baco, belzebu, velha coruja enferrujada, oficlídio, espécie de diplodocus escapado directamente da pré-história, pterodáctilo.
Coletados por Dudi
*Schopenhauer escreveu "Como vencer uma discussão sem argumentos". Para a hipótese de fracasso, tirou da cartola também "A arte do insulto", na qual Haddock foi um expoente histórico.
Um crime prescrito
Numas férias de julho, entre 12 e 13 anos, fomos viajar pra fazenda daquele meu amigo que se matou, lá perto de Presidente Prudente, em Judúcudas. Eu, ele e A. Pegamos o trem noturno na Estação da Luz, ou Júlio Prestes, sei lá, e embarcamos no vagão Pullman que era quase um ônibus leito, já com um plano maligno testado e aprovado (o mérito é todo de M.). Compramos vários sacos de bolas de encher pequenas. Vestíamos um casaco de nylon que se usava na época chamado canguru, com um grande bolso quadrado na frente e elásticos nas mangas e na cintura, e um capuz. Íamos até o banheiro, enchíamos as bexigas de água, escondíamos as ditas debaixo dos cangurus, atravessávamos todo o vagão até o terracinho lateral da extremidade oposta à do banheiro. E esperávamos as estações. Na hora em que o trem estava saindo – sim o plano era perfeito – atirávamos nossos torpedos na população incauta. Aquela mulherada toda arrumada, tomando as bombas de água gelada. As estações tinham um movimento danado, e eram muitas. Nenhum guarda percebeu nada. E lá íamos nós, suspeitíssimos, atravessando o vagão com nossas panças de água. Foi assim a noite inteira. De manhãzinha, um puta frio, passamos por uma estaçãozinha secundária, e o trem nem diminuiu a velocidade. Tinha um cara lá, parado, esperando não sei o que. Com a prática já adquirida, eu e A soltamos nossas bombas ao mesmo tempo, simplesmente deixando-as cair. Uma atingiu o cara no peito, e outra na cara. Duas bombas de um quilo e meio de água gelada, a uns oitenta quilômetros por hora. O cara foi para o chão com violência. Foi um feito muito comemorado.
segunda-feira, maio 30, 2005
Pecus voa

Há um tempo atrás, com a notícia de que as ondas estavam altas, fui com um amigo para um bate-e-volta no Guarujá. Chegamos cedinho na praia do Tombo e as ondas estavam enormes. Muita gente olhando, pouca gente na água. Quem sabe a gente dá sorte e consegue passar a arrebentação. Sim porque nós que usamos o pranchão temos uma vantagem na remada, e uma desvantagem pra passar a onda, indo pra fora, pois não se consegue afundar o pranchão, como se faz com a pranchinha, e passar por baixo da espuma. Tentamos algumas vezes, até esgotarmos nossas forças. A correnteza estava fortíssima, e entrávamos no canto sul e em 10 minutos já chegávamos no Bostrô (simpático nome do canto esquerdo, de antes do emissário que limpou a praia). Finalmente desistimos, e estávamos saindo da praia para ir a um lugar mais fácil, talvez Astúrias, quando uma moça bonita de prancha na mão nos abordou e começou a puxar papo furado. Depois soubemos porquê. O carro do meu amigo havia sido furtado. Também facilitamos. A chave estava escondida num lugar bobo, no paralama. Os dois goiabas lá, a pé, descalços, de roupa de neoprene (era um dia frio e ensolarado de fim de outono), sem carteira, documento, vendidos. Meu amigo, perplexo, não raciocinava direito. Fui dando as instruções. Ligar pras mulheres pra cancelar os cartões, deixar as pranchas com o salva-vidas e dar o alerta para a polícia. Pegar o ônibus sem pagar e ir para a delegacia. A chatice do BO e a informação: o carro vai ser rapidamente achado, porque o Guarujá é uma ilha. Dito e feito, poucas horas depois acharam o carro depenado, com os cartões e cheques faltando e tudo o mais. Haviam deixado um cartão de débito na minha carteira, e fomos comer no McDonalds, bem longe da praia, com aquela indumentária ridícula. O pior de tudo foi ir descalço ao suspeito banheiro da delegacia. A mulher do meu amigo veio de São Paulo com as cópias dos documentos, e vencida a burocracia, fomos buscar as pranchas com a última obrigação de passar na delegacia de Vicente de Carvalho pra fazer uma perícia. Chegamos lá e mau sinal, a delegacia estava trancada. O perito, um simpático surfista santista cinqüentão, nos disse para nunca, jamais, utilizarmos o túnel da Enseada, e explicou que dos anos 70 pra cá, cada prédio construído gerou uma enorme quantidade de desempregados, que estabeleceram residência definitiva na ilha para esperar o fim do processo trabalhista. Ao que parece era mais barato para as construtoras. Hoje, segundo o cara, o Guarujá tem uma população de 120 mil favelados contra 60 mil residentes não-favelados, o que gera uma certa tensão social e violência.
Terror matinal
Hoje de manhã, no auge da depressão pós-feriado, com dificuldade de sair da cama, vi – sim eu confesso – o “Mais Você” inteiro, com a desculpa de ver a entrevista com o Márcio Thomaz Bastos e a prometida receita de barreado. Normalmente o fim do “Bom dia Brasil” é o máximo que eu me permito ficar na cama, nos dias de intensa preguiça ou desânimo. Hoje me entreguei ao buraco-negro. O ministro eu perdi, pois dormi de novo. Depois de merchandising de empréstimos para aposentados com desconto em folha – sim, a Brega explora velhinhos – que é só também o que tem nos intervalos, e merchandising de Nutella – embora a Brega não tenha conseguido disfarçar sua repugnância àquela pasta enjoativa às 8 da manhã – veio a tal receita de barreado. Não é que a filha da puta – com o perdão do epíteto – conseguiu enfiar caldo knorr e extrato de tomate elefante até no barreado, que é o cúmulo do caldo de carne! Fora a dica sobre a escolha da panela de barro, pois várias quebraram durante a tentativa. Aposto que ela não sabe inicializar uma...
Act of God
O tornado em Indaiatuba destruiu não sei quantas sedes de empresas. Estava no telejornal a discussão sobre as apólices de seguro, se cobrirão ou não os “desastres decorrentes de fenômenos da natureza” ou coisa que os valha, que em inglês são chamados de “acts of God”. Vi na tv um filme B australiano, sobre um advogado que vira pescador e tem a sua traineira destruída por um raio, “act of God”, e perde tudo o que tem. Resolve processar Deus, na pessoa de seus representantes na Terra, os chefes das principais igrejas, que acham prudente não negar a qualidade e comparecem ao processo. É muito engraçado. Mas são as cláusulas em letras pequenas, ou aquelas que jamais se imaginou pudessem existir, que surpreendem quem contrata de boa-fé. A mim parece um golpe que pode ser infinitamente aplicado. Só quem caiu não cai mais. Como contra-argumento, dizem ser insuportável às seguradoras o ônus de uma grande catástrofe natural. Só manipulação das estatísticas.
Mundo azul escuro
Sobrou picanha do seu churrasco? Supondo que esteja mal passada, pegue a faca e tire toda aquela capa de gordura, que quente pode ser gostosa mas fria é rançosa, pra dizer o menos. Daí sim fatie e coma com molho de carpaccio.
Vi ontem a noite um filmão tcheco, co-produção com a comunidade européia quase toda, de nome “Num céu azul escuro” ou “Dark Blue World”. Lindas batalhas aéreas entre Spitfires e Messerschmitts defendendo os grandes bombardeiros, e cenários absolutamente de sonho, uma guerra romântica e idealizada. A estrutura moral do filme é ingênua e fiel à época, com personagens cavalheirescos, heróicos e éticos, arrastados por mal-entendidos a uma traição. O filme é caprichadíssimo no visual, nos detalhes, e tem ainda uma linda canção. Quando eu era moleque eu adorava esses caças, tanto o inglês como o alemão, e procurava toda informação disponível sobre eles e suas batalhas. Bem nerd. Ainda sou um pouco assim, e volta e meia me pego assistindo Discovery Channel sobre grandes estruturas ou supermáquinas.
Vi ontem a noite um filmão tcheco, co-produção com a comunidade européia quase toda, de nome “Num céu azul escuro” ou “Dark Blue World”. Lindas batalhas aéreas entre Spitfires e Messerschmitts defendendo os grandes bombardeiros, e cenários absolutamente de sonho, uma guerra romântica e idealizada. A estrutura moral do filme é ingênua e fiel à época, com personagens cavalheirescos, heróicos e éticos, arrastados por mal-entendidos a uma traição. O filme é caprichadíssimo no visual, nos detalhes, e tem ainda uma linda canção. Quando eu era moleque eu adorava esses caças, tanto o inglês como o alemão, e procurava toda informação disponível sobre eles e suas batalhas. Bem nerd. Ainda sou um pouco assim, e volta e meia me pego assistindo Discovery Channel sobre grandes estruturas ou supermáquinas.
quarta-feira, maio 25, 2005
Vida besta
Ontem à noite fique ouvindo o famoso quarteto Dissonante de Mozart (k465) na rádio Cultura, enquanto assistia a um jogo de futebol da série B do Campeonato Brasileiro (Vilanova 1 x Bahia 0). Uma nova forma de diversão meio sem graça possibilitada pelo romitfiater. Uma das razões pelas quais eu gosto de música de câmara é que me parece esquisito pôr toda uma sinfônica dentro da sala, ou pior, dentro do carro. No meu carro cabe no máximo uma camerata barroca. É, vou pôr uma camerata barroca no carro e viajar. O feriadão vem a calhar, estou quase parando. Apesar do estrago causado pelos 270mm de água, as partes secas da cidade estão lavadas e limpas. O ar também. Pensando bem, ficar não será nada mal.
terça-feira, maio 24, 2005
Foi-se o tempo
Tenho dado aqui neste brogue uma de santinho do pau-oco, dizendo não às drogas e preocupado com o perigo que representam para os nossos adolescentes, o que é absolutamente sincero, mas a verdade é que as drogas, ou algumas delas, proporcionam experiências realmente interessantes. Como um esporte radical mental, os riscos são proporcionais às recompensas. É só ver a importância cultural da coisa, desde a turma do spleen, do século XIX, passando pelos jazzistas do bebop, beatniks, hippies, grunges, etc.. É bom mas é perigoso. Uma vez, quando tinha uns 20 anos, fui passar um feriado de semana-santa na fazenda de um amigo, e além da nosso grupo, estavam alguns amigos de seu irmão. Ao todo umas dez pessoas, homens e mulheres. Eu era o único maluco-beleza. Havia chovido na véspera do feriado, e a natureza estava intumescida, tudo muito verde e úmido. Os cogumelos de bosta-de-vaca cresciam do tamanho de uma bolacha de chopp ao tamanho de um cd em horas. Os quatro dias de manhã eu ia sorrateiramente até o pasto perto da casa, e comia direto do chão uma boa quantidade dos fresquíssimos fungos, sem contar pra ninguém. O fato é que, além da explosão de luzes e cores, eu tinha a sensação de ter acesso fácil e imediato a todas as informações constantes do meu palácio da memória, e produzir relações entre elas, com uma velocidade e clareza sobre-humanas. As duas turmas que não se conheciam estavam em volta da piscina, e eu, munido dos super-poderes, fui pegando uma informação de um, levando para o outro, através da piscina, e em pouco tempo elas se misturaram muito bem. Fiquei nesse estado os quatro dias, e ninguém notou, e pelo menos para mim minha atuação era irrepreensível, melhor que o usual até. Às vezes dava uns foras comentando alucinações visuais, como o reflexo verde da piscina nos corpos, ou a explosão do açúcar dentro da jarra de limonada, mas logo percebia que só eu via e parava. A sensação de comunhão com a natureza e suas forças ancestrais era muito intensa. Fizemos um passeio a uma reserva de jequitibás-rosa que existe em Descalvado, e eu estava ali junto aos imensos vegetais de 4000 anos, com a impressão de ter compreendido tudo, de ser tão velho como as árvores. As tantas, para o fim da tarde, todos começaram a ficar desesperados com os pernilongos, e eu também sentia as picadas, que simplesmente não incomodavam nada.
segunda-feira, maio 23, 2005
É só caratê
Sábado minha sogra estava de manhã no estacionamento do Pão de Açúcar da Panamericana, quando três carros entraram em alta velocidade dando freadas bruscas, tocando música alta, com a tripulação gritando e batendo na lataria. A pobre senhora ficou com medo e foi reclamar com o gerente. São os jovens alcoolistas descritos no Estadão de ontem, que compram cerveja nas geladeiras externas dos supermercados e ficam bebendo no estacionamento antes de ir pra balada. Acho que isso está acontecendo no mundo todo, se é que mudou alguma coisa. Até surgiu um novo gênero literário “chick lit noir”, de mocinhas baladeiras descrevendo suas peripécias de sexo, drogas e téquino. Lolita Pille, francesa, com “Hell”, Meli Panarello, italiana, com “100 escovadas antes de ir para cama”, e Helen Walsh, inglesa, com “Brass”, são seus expoentes. O último livro do Tom Wolfe, “Eu sou Charlotte Simmons”, segue essa onda, descrevendo a orgia universitária. Quem lê esses livros? Será a nova onda beat ou a zona cinzenta entre pornografia e literatura? O Matthew Shirts outro dia avisou pra não perder tempo com o último Paulo Coelho. A imprensa anda tão impressionada com a vendagem internacional do cara, que parecia estar todo mundo meio assim de falar mal. Já me falaram também pra não ver “Cruzada”, o filme, que é só caratê. E o “chick lit noir” alguém já leu?
domingo, maio 22, 2005
Fouga Magister
Vi esse lindo avião antigo, de nome Fouga Magister (música barroca?) e que parece a nave do Flash Gordon, fazendo acrobacias num evento no interior. Voltando pela nova Bandeirantes, reparei no bom trabalho de recuperação de mata que vem sendo feito ao longo das margens da rodovia, com as árvores de espécies variadas formando bosques que já estão com dois ou três metros de altura. Não consigo entender porque não fazem o mesmo no Parque Villa-Lobos. A mim parece óbvio que um parque tem a função essencial do convívio com a natureza. Porque preencher o parque com várias e imensas estruturas de concreto, como fizeram com o pobre Ibirapuera? Há anos o coitado do Villa está pela metade, com mega-monstros de concreto abandonados e boa parte coberta de asfalto, para ser usada em eventos empresariais ou demagógicos que atraem multidões destruidoras. Imensos e medonhos autidóres do governo do estado nitidamente publicitários estão nos locais mais visíveis. Durante um bom tempo permaneceu na marginal um que dizia “Parque Vilas-Boas”. Nos fins-de-semana, a população da área usa intensamente o parque, para caminhar, correr, andar de bicicleta, patinar, jogar basquete, futebol, tênis, namorar, soltar as crianças, as pipas, exibir seus cachorros, jogar capoeira, ou fazer nada. Outro dia vi um sujeito que levou uma rede, pendurou entre duas árvores, e ficou deitado, sei lá se lembrando de sua terra natal. É isso que se faz num parque. Precisa de estacionamento, banheiros, bebedouros, quadras de esportes, trilhas e pistas, bosques e gramados, talvez um lago com ninféias, carpas e aves aquáticas, e mais nada. Que sonho seria acordar tarde num dia de calor, e dar uma corrida por uma trilha de 3 km de sombra de árvores! Se o parque fosse meu eu pegaria imensos bull-dozers, cavaria um lago perto da marginal e faria uma barreira contra o ruído da via expressa, utilizando o entulho das mega-inutilidades, para criar uma ilha de natureza e tranquilidade. Entregaria o parque a engenheiros florestais que produziriam uma mata artificial com espécies variadas que aqui haviam, como a da estrada ou mesmo a que já existe lá na área colonizada do parque, entremeada de trilhas e clareiras com quadras de esporte, cheias de sombra. Os parques aos jardineiros, porra!
Placar de sexta: 5 chopinhos sensatos
Sábado: TODAS
sexta-feira, maio 20, 2005
Ah, e o placar
Terça-feira no almoço: meia garrafa de vinho branco, extravagância e sono
Quarta-feira répiau: todas, uma grande inconveniência impedida pela fada-madrinha
Quarta-feira répiau: todas, uma grande inconveniência impedida pela fada-madrinha
Ai que vontade...
Em “Zaratustra” o profeta impõe como motor do humano a “vontade de poder”, e não a “vontade de existir”, porque não se tem vontade de ter algo que já se tem, ou a “vontade de viver”, pelo mesmo motivo (o instinto de preservação da espécie seria pois inócuo e redundante). Todos nós seríamos movidos por isso: “a vontade de poder”. À primeira vista essa vontade de poder soa desagradável, pois aparenta a vontade de dominar outros. Pelo que eu entendi, não é nada disso, mas o poder criador de gerar novos valores. Criar o novo bom, este seria o grande poder, negando valores antigos, estéticos e sociais. Este seria o caminho da superação do humano para criar-se a ponte que levaria ao super-homem, que no entanto estaria ainda muito longe, muitas gerações para ser atingido. Ele não indica que valores seriam estes: criar seus próprios valores é o problema de cada um. Não há atalho. E eu devo ter entendido tudo errado. Arriscando um exemplo, David Byrne gravou em seu último trabalho duas árias de ópera, sem compromisso com o bel-canto (que eu nunca consegui engolir). Disse ser errado encerrar canções de tal qualidade em um repertório de acesso restrito. Está rompendo o sistema de valores tradicional fechado do bel-canto operístico (que sequer perceberá estar sendo destruído), e criando um valor novo na estética da música. E de forma individual. Diria que encaixa no modelo. Mas, pensando melhor, o rompimento dos valores tradicionais e a criação de novos não foram intensamente praticados durante todo o século XX? Será que a profecia se cumpriu?
Nóis é nóia mais é gente
Ontem no Estadão a seqüência da limpeza da Crackolândia. O secretário sub-prefeito dândi está preocupado em se mudar do gabinete medonho da Av. do Estado com Tiradentes, enquanto os nóinha se encastelam no chafariz da praça Júlio Mesquita pra pipar. Segundo o jornalista, a polícia afasta a criançada que não tem aonde ir como quem espanta moscas, que circulam a velha Crackolândia sem saber onde ficar.
quinta-feira, maio 19, 2005
Surfista Prateado, Tahiti, ontem
Onda e vontade – Com que fissura essa onda chega, como se tivesse o que matar! Com que pressa assustadora se insere pelas tocas dos corais! É como se quisesse chegar antes de alguém; como se ali escondesse coisa de valor, muito valor. – E agora ela recua, um tanto mais devagar, ainda branca de loucura – estará desiludida? Terá encontrado o que procurava? Puta da vida? – Mas logo vem outra onda, mais louca e brava que a primeira, e também sua alma parece cheia de segredos e da fome de tesouros. Assim vivem as ondas – assim vivemos nós, animais com vontade! – e mais não digo. – O quê? Vocês desconfiam de mim? Ficam putas comigo, monstras lindas? Têm medo que eu traia o seu segredo? Pois bem, fodam-se, levantem os seus perigosos corpos verdes o mais alto que puderem, um muro entre mim e o sol – como agora! Realmente, nada mais resta do mundo senão o fim-de-tarde verde e os raios verdes. Façam como quiserem, morras gigantes, gritem de prazer e de maldade – ou novamente mergulhem suas esmeraldas nas profundezas, espalhando suas rendas brancas sem fim e rajadas de espuma – pra mim tá tudo certo, pois tudo lhes cai bem e por tudo agradeço: como eu poderia lhes trair? – Ouçam bem! Conheço vocês e o seu segredo, conheço a sua raça! Vocês e eu somos da mesma raça! – Vocês e eu, temos o mesmo segredo! (Nietzsche purinho)
quarta-feira, maio 18, 2005
Inacreditável - do Ministério do Trabalho
http://www.mtecbo.gov.br/busca/descricao.asp?codigo=5198
5198 :: Profissionais do sexo
5198-05 -
Profissional do sexo - Garota de programa, Garoto de programa, Meretriz, Messalina, Michê, Mulher da vida, Prostituta, Puta, Quenga, Rapariga, Trabalhador do sexo, Transexual (profissionais do sexo), Travesti (profissionais do sexo)
Descrição sumária
Batalham programas sexuais em locais privados, vias públicas e garimpos; atendem e acompanham clientes homens e mulheres, de orientações sexuais diversas; administram orçamentos individuais e familiares; promovem a organização da categoria. Realizam ações educativas no campo da sexualidade; propagandeiam os serviços prestados. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minimizam as vulnerabilidades da profissão.
5198-05 -
Profissional do sexo - Garota de programa, Garoto de programa, Meretriz, Messalina, Michê, Mulher da vida, Prostituta, Puta, Quenga, Rapariga, Trabalhador do sexo, Transexual (profissionais do sexo), Travesti (profissionais do sexo)
Descrição sumária
Batalham programas sexuais em locais privados, vias públicas e garimpos; atendem e acompanham clientes homens e mulheres, de orientações sexuais diversas; administram orçamentos individuais e familiares; promovem a organização da categoria. Realizam ações educativas no campo da sexualidade; propagandeiam os serviços prestados. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minimizam as vulnerabilidades da profissão.
Pecus às vezes lê jornal
Foto Kevin Penzien
Nesse país de excluídos não há como negar alguma simpatia ao MST. Se você nasceu sem nenhuma oportunidade, é razoável que utilize caminhos não ortodoxos para conquistar seu lugar no solo. Mas a marcha que chegou ontem a Brasília, ao custo de 5,5 milhões doados por governos petistas (o Fonteles disse que vai pegar), pra sitiar o Alvorada, não sem antes cercar a Embaixada Americana e combater o imperialismo, meu, já tá virando espetáculo. Fora o quebra-pau entre os 12 mil marchantes e a polícia de choque, só mesmo o Supla pai pra apartar. Ninguém se machucou seriamente. O Lula confessou a dívida com o movimento, vestiu o boné vermelho, e prometeu contratar mais 1.300 sem terra pra trabalhar no INCRA, endurecer os parâmetros de produtividade das fazendas sujeitas a desapropriação, e assentar mais não sei quantos. Eu e a torcida do Corinthians, preferimos o emprego do INCRA a um lote. Qual será o critério. Antiguidade, merecimento ou concurso público restrito aos MSTistas de carteirinha?
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