quinta-feira, abril 19, 2007

Há dois anos, o primeiríssimo post


O presente da Franka



Dia cheio.
Aniversário do Rei Roberto, Dia do Índio, do Santo Expedito. Nasceram Bento XVI e Pecus Bilis.

sexta-feira, abril 13, 2007

Presente de grego


Fui a uma festa de 50 anos ontem, e alguns amigos do aniversariante o presentearam com um show de um Elvis Presley. Realmente, era um Elvis muito bom, como vocês podem ver. Cantava bem, uma boa presença, e tinha as qualidades de animador de auditório para divertir os convidados. Disse ser o Elvis mais antigo ainda em atividade, e que suas roupas eram “originais”, certificadas pela Graceland Foundation ou coisa que o valha. Na foto é o traje Red Dragon, segundo esclareceu, o mesmo que usou na festa. Todos os Elvis escolhem a fase Vegas para interpretar, possivelmente pela facilidade. É só comprar a fantasia e pronto. O Elvis com roupa de super-herói, capinha e tudo, de lantejoulas, gordo, com as grandes suíças, o cabelão, e o óculos escuros é uma triste caricatura de si mesmo. E apesar de ter perdido completamente a noção e o enorme charme dos primeiros anos, mantinha intacto seu gigantesco talento. Mais uma vítima do chamado celebrity system.

quinta-feira, abril 12, 2007

Não é que eu queira me gambá




mas apesar dos abusos mais ou menos freqüentes, o músculo cardíaco está tinindo. Nada que impeça uma repentina boa morte.

segunda-feira, abril 09, 2007

Mil livros


Chegou na minha casa um brinde da Mastercard, "Mil livros que você precisa ler antes de morrer", e resolvi começar pelo "Grande Sertão: veredas". Estou mais ou menos na metade e começo a desconfiar que o tal Diadorim é uma mulher disfarçada de homem.

sexta-feira, março 23, 2007

O cheiro do ralo

Fui assistir no Unibanco 2 “O cheiro do ralo”, filme de Heitor Dhalia sobre romance de Lourenço Mutarelli, o sombrio quadrinista de quem falei aqui uma vez, a propósito de um inacreditável documentário sobre sua vida, o “Tarja Preta”. Cansado de desenhar, uma atividade que dá muito trabalho, o autor resolveu escrever, e, porque não, atuar, no filme feito a partir do seu livro. Ao que consta no guia deste fim de semana do Estadão, os patrocinadores quando viram o tamanho da encrenca recusaram a associação com o filme, que acabou sendo realizado quase de graça, com o esforço pessoal dos envolvidos. Liberdade total e um roteiro pouco exigente em termos de produção resultou num produto bem acabado em todos os aspectos. Os ângulos mais sinistros da alma humana vistos com a ótica inocente e mecânica de um neutro olho de vidro. Selton Mello arrasa como protagonista em tempo integral coadjuvado por uma bunda enorme e maravilhosa.

terça-feira, março 20, 2007

Ficou assim


quinta-feira, março 15, 2007

sexta-feira, março 02, 2007

Eclipse

No dia 3 de março, sábado, haverá uma eclipse total da Lua no começo da noite, segundo o INPE:

Eclipse lunar total em 03/03/2007
Nascer da Lua: 18h29min
Ocaso da Lua: 05h36min
Magnitude: 1,23
Fase umbral começa às 18h34min
Fase total começa às 19h48min
Instante do máximo do eclipse: 20h24min
Fase total termina às 21h00min
Fase umbral termina às 22h13min
No Brasil, é avistado praticamente de todo país no início da noite (nascer da Lua).

Como a Lua estará cheia, se o tempo estiver bom deverá ser um belo espetáculo. Para os paulistanos, a previsão é de parcialmente nublado, com 40% de possibilidade de chuva, então precisaremos de um pouco de sorte. A fase umbral não deve ser muito perceptível, mas a total deve ser legal. A sombra da Terra avançará sobre a Lua cheia e a devorará completamente em 36 minutos. O tempo de tomar um drinque ao ar livre antes do jantar.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Um pequeno mistério

Segunda-feira de madrugada, um pouco antes das cinco, estava eu saindo de bicicleta para ir remar quando deparei com uma latinha de cerveja vazia, na cobertura de cerâmica da caixa de cartas, que fica meio escondida num canto do jardim da frente. Era de uma marca que eu não costumo comprar, e fiquei preocupado que alguém tivesse entrado em casa à noite, tomado a cerveja e deixado ali, de propósito, pra assinalar uma presença maligna. Como as fitas de vídeo do filme Cachê, pra quem não se lembra, longas gravações da frente de uma casa, entregues na casa só para intrigar a família. Cogitei das possibilidades. Uns dias atrás perdi um chaveiro que eu montei pra usar com a bicicleta, com as chaves da casa, e uma leve e controlada paranóia se instalou, de que alguém pudesse ter achado, identificado e usado. Lembrei que o meu cunhado tinha vindo almoçar no sábado, e havia uma improvável possibilidade dele ter chegado tomando a cerveja e largado lá. Transferi a preocupação para a minha mulher, e esqueci do assunto. Ela também se preocupou, consultou o irmão, que negou a deselegância. A nossa empregada solucionou o mistério. Ao sair no sábado à tarde, encontrou a latinha na calçada, e zelosa, mas nem tanto, porque devia estar com um pouco de pressa, pegou a latinha e deixou lá para jogar fora depois, ou “reciclar”, sei lá, que ficou o domingo inteiro ali, sem ser notada.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Milhas acumuladas

Este fim de semana cozinhei pra minha sogra. O aniversário dela caiu no Carnaval, e lamentavelmente não pudemos estar juntos. Também era o aniversário de uma netinha dela, filha do meu cunhado, que teria sua festinha outro dia. Minhas filhas fizeram um bolo e brigadeiros, e eu me arrisquei – ou melhor, arrisquei a sogra e o cunhado – num ragu de cordeiro que já tinha executado uma vez, com algumas falhas que pretendia corrigir.

Usei uma receita que achei a esmo na internet, que me pareceu simpática porque recomendava tomates passados comprados na xepa da feira para o molho, e que seu usasse a carne de carneiro mais gorda que se encontrasse. Me fiando nessas recomendações, da primeira vez fui ao açougue e comprei uma paleta desossada, que me pareceu mais de um carneiro do que de um cordeirinho. Cortei em cubos sem maiores preocupações, e as moças reclamaram dos nervos e gorduras na carne misturada ao molho.

Desta vez comprei as duas únicas paletas que encontrei no supermercado, com osso e de cordeiro mesmo. Sabia que a perda ia ser grande, e daqueles mais de três quilos deveria sobrar pouco mais de um quilo de carne absolutamente limpa. Fiquei um tempão desossando e limpando aquela pouca carne, lamentando os lindos nacos descartados por estarem entremeados de um simples nervinho. A operação me custou três pequenos cortes na ponta dos dedos da mão esquerda.

A receita é simples. Peguei os cubos de carne lavados e secados, joguei todos de uma vez numa panela com azeite quente, para dourar. Depois do início do processo, pus as ervas recomendadas, alecrim e orégano fresco em quantidade menor que da primeira vez, que ficou exagerado, e um pouco de sal e pimenta do reino. Era um dos passos que eu pretendia aprimorar, mas fiquei com preguiça. Em vez de pôr para dourar toda a carne ao mesmo tempo, pensei em “saltear” aos poucos, três ou quatro cubos de cada vez, pra não soltar toda aquela água como aconteceu da primeira vez, o que impede de dourar e põe a carne a cozinhar. Repeti o erro, mas ao meu lado estava descascando e picando os tomates a nossa cozinheira, que sugeriu tirar o excesso de líquido, e ir pondo aos poucos, o que eu fiz e deu muito certo. Dourada a carne, pus os dois copos de vinho branco como recomendado, e esperei evaporar. Ao ver toda a imensa quantidade de cebola picada – oriunda de uma única translúcida redoma – achei melhor refogar tudo aquilo no azeite, antes de pôr na panela com os dois quilos de tomate descascados, limpos de sementes e picados. Ficou um molho de macarrão aceitável, nenhuma princesa reclamou da ervilha sob o décimo-sexto colchão de plumas de ganso.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Onde é?


Não digo a autoria agora pra não facilitar.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Bilac

Hoje no almoço meu pai declamou um soneto que aprendeu com meu avô, por este atribuído a Bilac:

VIDA PRIVADA

Cigarro aceso, o fumo em espirais
Formando vai a nuvem azulina.
O cabra, sobraçando alguns jornais,
Arria a calça e senta na latrina.

Enquanto caga, lê os editais,
Notícias, telegramas, a mofina,
Lê depois os anúncios garrafais,
E peida, com saudade da menina.

A coisa aperta um pouco, apavorante.
Uma careta faz, franze o semblante,
E sai um cagalhão que ao cu faz mágoa!

Está tudo acabado. Ele suspira,
A ponta do cigarro fora atira,
Levanta, limpa o rabo, e puxa a água



Da mesma fonte, a lição de português:

Ao bilheteiro:

"Por favor, uma passagem para Guaratinguetá".

Que responde, pedante:

"Em primeiro lugar, não é Guaratinguetá, mas Guaratingüetá. Em segundo lugar, o trem acabou de partir".

Ao que replica:

"Então cagüei-me".

No post anterior, sim, é o Copan. O prêmio é um expresso no Café Floresta, a todos os acertadores.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Onde é?

terça-feira, janeiro 30, 2007

Primeiro a do Caçador de Pipas, depois a do Neve

O livro favorito de Hassan era o Shahnamah, a epopéia dos antigos heróis persas do século X. Gostava de todos os capítulos, os shahs do passado, Feridoun, Zal e Rudabeh. Sua História Favorita, porém, e minha também, era “Rostam e Sohrab”, um conto sobre o grande guerreiro Rostam e seu cavalo velocíssimo, Rakhsh. Durante uma batalha, Rostam fere mortalmente seu valente adversário, Sohrab, e acaba descobrindo que o rapaz é, na verdade, o filho que tinha perdido há muito tempo. Atormentado pela dor, Rostam ouve as últimas palavras do filho moribundo:

Se sois efetivamente meu pai, então manchastes vossa espada com o sangue do vosso filho. E fizestes isto por vossa própria obstinação. Pois procurei convertê-lo ao amor e implorei chamando o vosso nome, já que julguei encontrar em vós as qualidades de que minha mãe tanto falava. Mas foi em vão que apelei para vosso coração, e, agora, é tarde demais para qualquer aproximação...

- Leia outra vez, por favor, Amir agha – dizia Hassan. Às vezes ficava com os olhos cheios de lágrimas enquanto eu lia a passagem e, nessas horas, sempre me perguntei por quem ele estaria chorando: seria pelo sofrimento de Rostam, que rasga as próprias roupas e cobre a cabeça com cinzas, ou pelo moribundo Soharab, que só desejava o do pai? Eu, pessoalmente, não era capaz de perceber a tragédia do destino de Rostam. Afinal de contas, todos os pais, no fundo de seu coração, não abrigam o desejo de matar os filhos?


***

“Há muito, muito tempo atrás houve um guerreiro incansável, corajoso como ninguém, que vivia no Irã. Todos os que o conheciam o amavam. Eles o chamavam Rüstem, e assim também o chamaremos. Certo dia, quando caçava, ele se perdeu na floresta, e à noite, enquanto dormia, perdeu o cavalo. Enquanto procurava Raksh, seu cavalo, Rüstem foi parar em Turan, que era uma terra inimiga. Mas como sua fama o precedeu, eles o trataram bem. O xá de Turam acolheu-o como hóspede e organizou uma festa em sua homenagem. Depois da festa a filha do xá procurou Rüstem em seu quarto para declarar seu amor por ele. Ela lhe disse que queria ter um filho seu. Ela o seduziu com sua beleza e com suas belas palavras, e logo os dois estavam fazendo amor.

“Na manhã seguinte, Rüstem voltou para seu país, mas deixou uma lembrança – um pequeno bracelete – para que o filho que ia nascer. Quando a criança nasceu, chamaram-no Suhrab, então assim também vamos chamá-lo. Anos depois, sua mãe lhe contou que seu pai eram ninguém menos que o legendário Rüstem. ‘Eu vou para o Irã’, disse o rapaz, ‘para deporo perverso xá Keykavus e colocar meu pai no lugar dele... e então vou voltar para Turan e fazer exatamente a mesma coisa com o perverso xá Efrasiyab, e quando tiver feito isso, assumo o lugar dele. E então meu pai Rüstem e eu reinaremos com justiça sobre o Irã e Turan – em outras palavras, todo o universo!’

“Assim falou o puro e generoso Suhrab, mal sabendo que seu inimigos eram muito mais espertos e astutos que ele. Porque Efrasiyab, o xá de Turan, dava seu apoio na guerra contra o Irã, mas ao mesmo tempo colocou espiões no exército para garantir que Suhrab não iria reconhecer o pai.

“Depois de muitas trapaças, astúcias, cruéis reviravoltas do destino e coincidências, tramadas todas elas, ao que ele sabia, pelo Sublime Todo-Poderoso, chegou o dia em que Suhrab e seu pai Rüstem se viram face a face no campo de batalha, cada um com um exército atrás de si. Nenhum dos dois conhecia o rosto do outro, mas pouco importa: ambos estavam com armadura – e nem é preciso dizer que não se reconheceram. Rüstem, naturalmente, desejava continuar anônimo dentro da sua armadura: do contrário, quele herói à sua frente poderia investir com toda a sua fúria e sua força especialmente contra ele, Rüstem. Quanto a Suhrab, seu coração infantil só parava para se perguntar quem era seu adversário. E assim aconteceu que esses dois grandes e generosos guerreiros, que eram pai e filho, à frente de seus respectivos exércitos e observados por eles, lançaram-se para a frente e sacaram suas espadas.”

Azul fez uma pausa. Antes de olhar Ka nos olhos, acrescentou numa voz infantil: “Embora eu tenha lido essa história centenas de vezes, sempre sinto um arrepio ao chegar nessa parte, e meu coração dispara. Não sei porque, mas por alguma razão me identifico com suhrab quando ele se preara para matar o pai. Quem poderia querer matar o próprio pai? Que alma poderia suportar a dor desse crime, o peso desse pecado? Especialmente meu próprio Suhrab com seu coração inocente! A única esperança é que a essa altura Suhrab mate seu adversário sem saber quem ele é”.

“Enquanto esses pensamentos perpassam minha cabeça, os dois guerreiros começam a lutar, e numa luta que dura horas nenhum dos dois consegue derrotar o outro. Molhados de suor e exaustos, eles embainham suas espadas. Quando chegamos ao anoitecer do primeiro dia, estou tão preocupado pelo pai, como pelo filho, e quando continuo a história, é como se eu a estivesse lendo pela primeira vez. Ouso sonhar que o pai e o filho não serão capazes de matar um ao outro e encontrarão alguma forma de contornar aquela terrível situação.

“No segundo dia, os dois exércitos se alinham mais uma vez, e mais uma vez o pai e o filho, protegidos por suas armaduras, travam um combate implacável. Depois de uma longa luta, a sorte sorri para Suhrab – mas podemos chamar isto de sorte? – e ele derruba Rüstem do cavalo e o imobiliza no chão. Ele saca da espada e, quando está prestes a cortar o pescoço do pai, falam para ele: ‘No Irã um herói não costuma cortar a cabeça de um inimigo na primeira ocasião. Não o mate; seria cruel demais’. Então Suhrab não mata o pai.

“Quando leio essa parte fico muito confuso. Sinto muito amor por Shrab. Qual o sentido desse destino que Deus traçou para esse pai e esse filho? Quanto ao terceiro dia de luta, um dia que esperei com tanta ansiedade – contra todas as minhas expectativas, ele acaba num instante. Rüstem derruba Suhrab do cavalo e, slatando para a frente, enfia a espada nele e o mata. A rapidez desse ato é terrível, chocante. Quando vê o bracelete e se dá conta de que matou o filho, Rüstem se ajoelha, toma nos braços o corpo do filho e chora.”

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Shahnameh


Este é o nome de uma coletânia de épicos persas, escritos por volta do ano 1000 por um certo Ferdosi. É enorme. Curiosamente, uma de suas histórias, a de Sohrab, é uma referência importante não só do "Neve", do Orhan Pamuk, o turco ganhador do Nobel 2006 de literatura, como do manjado "O Caçador de Pipas", do afegão Khaled Housseini, que eu li neste último feriado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Controle

Entreguei todos os meios de comunicação à distância da minha casa a uma operadora de tv a cabo. Telefone, tv e internet. Numa perspectiva paranóica, supondo que eles (paranóico sempre fala “eles”) auscultassem tudo o que se passa na minha casa, aprendessem nossos hábitos de consumo de cultura e de contato, identificassem as nossas redes sociais, saberiam exatamente quem é aquele cara, cujo cadastro tem em mãos. Foda, né? Uma parte disso eles podem fazer sem violar (isso é uma palavra) a minha privacidade tantas vezes remendada.

Acabei de assistir “Pequena Jerusalém”, um filme cabeça sobre o autocontrole, entre outras grandes questões.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

One nesgow

Os livros de aventura que eu li na minha primeira adolescência, depois do Monteiro Lobato e assemelhados, foram os de uma coleção de quarenta e oito volumes de Júlio Verne (hoje não se traduz mais nome próprio, seria Jules), que eu escolhia pelo título, e de uma coleção de Tarzan, Terramarear, assim, tudo junto. Depois passei para os que tinham, preferencialmente, cenas de sexo, como os de Jorge Amado, e best-sellers americanos da década de setenta, como “Os Insasciáveis”, título cheio de promessas efetivamente cumpridas. O Zorro da Isabel Allende é um nascido clássico da literatura de ação. O peso do livro é centrado na formação do herói, como ele adquiriu suas inúmeras habilidades, um engenharia reversa muito bem encaixada. A esgrima, o cavalo, o chicote, as cordas, as alturas, a roupa preta, a personalidade dividida e sorrateira. E também o contexto é muito bem construído, de um ponto de vista de uma socialista da América Latina, no ocaso das monarquias absolutas da Europa, a libertação das colônias e a formação da república moderna. Claro que numa visão idealista e utópica de justiça social, como convém aos muito jovens, a quem é dirigido, com um balizamento histórico sério. E por ser escrito por uma moça, o cotê romântico do Zorro é tão importante quanto sua atuação como herói.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

...

É, a virada do ano não foi fácil, fui acometido de uma macunaímica preguiça de blogar. Não será certamente falta de assunto, na pior das hipóteses a função diário preenche qualquer espaço, disfarçar os fatos potencialmente constrangedores revelando o máximo possível, e tentar não enfeitar a jogada, mas mostrar o que há de interessante na morbidez do cotidiano. O fato é que quando não estou cansado não tenho tempo, e quando tenho tempo estou cansado, ou simplesmente com preguiça. Poderia também falar os outros hits de natal que eu li, “A Neve”, de Orhan Pamuk, e “Zorro” de Isabel Allende, se não estivesse com tanta preguiça. E ainda as cambaleantes tentativas culinárias, os espaçados excessos alcoólicos, o remo intermitente das férias, ou só uma pausa de mil compassos, como diz o Paulinho da Viola.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Vendeta

Uns três ou quatro anos atrás minha filha teve que ler para o colégio uma interessantíssima história de amor passada no Cáucaso, no começo do século XX, do qual acabamos lendo todos juntos boa parte em voz alta numa longa viagem de carro. Foi em “Ali e Nino”, de Kurban Said, que eu achei uma boa explicação para a vendeta. Na guerra entre clãs, quando um membro é morto, cria-se uma desvantagem numérica que deve ser compensada, matando-se um membro do outro clã. E se o morto ainda não procriou, a desvantagem se multiplica. É a morte justa, segundo os padrões tribais. Imagino que esta deve ser a origem da pena de morte, um resquício desta compensação, agora inútil e desnecessária. O respeito incondicional à vida é um dos principais esteios do contrato social moderno, e as exceções como o aborto e a pena de morte são perigosíssimas, brechas por onde a arbitrariedade sobre-humana pode se infiltrar. Nunca acreditei que as penas físicas ou de restrição da liberdade tenham um efeito retributivo. Ninguém paga nada na cadeia, não faz sentido imaginar que o sofrimento do criminoso causa qualquer benefício à sociedade, sobrando de útil só o duvidoso caráter educativo em mostrar que o crime não compensa. O dano do crime só pode ser indenizado em dinheiro, na estranha matemática da avaliação das vidas, membros e faculdades, e traumas. Claro que bandido perigoso não pode andar solto, e assim fica preso por um prazo que se presume suficiente para a reabilitação, de acordo com a gravidade da ofensa, como o castigo “para pensar” das crianças. Pra mim também é claro que o criminoso precisa de ajuda. Salvo os doentes mentais, ninguém se exclui da sociedade – a terrível conseqüência do crime – sem um motivo grave. Também acho difícil convencer alguém com uma formação moral fraca a se contentar com um trabalho braçal remunerado com salário mínimo, ou suportar pacificamente o drama do desemprego, enquanto sujeitos como o Cinqüenta Centavos, o rapper americano, declamam canções dizendo “fique rico ou morra tentando”. Mas estou tegiversando. Porque mataram o Saddam mesmo?