Segunda-feira de madrugada, um pouco antes das cinco, estava eu saindo de bicicleta para ir remar quando deparei com uma latinha de cerveja vazia, na cobertura de cerâmica da caixa de cartas, que fica meio escondida num canto do jardim da frente. Era de uma marca que eu não costumo comprar, e fiquei preocupado que alguém tivesse entrado em casa à noite, tomado a cerveja e deixado ali, de propósito, pra assinalar uma presença maligna. Como as fitas de vídeo do filme Cachê, pra quem não se lembra, longas gravações da frente de uma casa, entregues na casa só para intrigar a família. Cogitei das possibilidades. Uns dias atrás perdi um chaveiro que eu montei pra usar com a bicicleta, com as chaves da casa, e uma leve e controlada paranóia se instalou, de que alguém pudesse ter achado, identificado e usado. Lembrei que o meu cunhado tinha vindo almoçar no sábado, e havia uma improvável possibilidade dele ter chegado tomando a cerveja e largado lá. Transferi a preocupação para a minha mulher, e esqueci do assunto. Ela também se preocupou, consultou o irmão, que negou a deselegância. A nossa empregada solucionou o mistério. Ao sair no sábado à tarde, encontrou a latinha na calçada, e zelosa, mas nem tanto, porque devia estar com um pouco de pressa, pegou a latinha e deixou lá para jogar fora depois, ou “reciclar”, sei lá, que ficou o domingo inteiro ali, sem ser notada.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
terça-feira, fevereiro 27, 2007
Milhas acumuladas
Este fim de semana cozinhei pra minha sogra. O aniversário dela caiu no Carnaval, e lamentavelmente não pudemos estar juntos. Também era o aniversário de uma netinha dela, filha do meu cunhado, que teria sua festinha outro dia. Minhas filhas fizeram um bolo e brigadeiros, e eu me arrisquei – ou melhor, arrisquei a sogra e o cunhado – num ragu de cordeiro que já tinha executado uma vez, com algumas falhas que pretendia corrigir.
Usei uma receita que achei a esmo na internet, que me pareceu simpática porque recomendava tomates passados comprados na xepa da feira para o molho, e que seu usasse a carne de carneiro mais gorda que se encontrasse. Me fiando nessas recomendações, da primeira vez fui ao açougue e comprei uma paleta desossada, que me pareceu mais de um carneiro do que de um cordeirinho. Cortei em cubos sem maiores preocupações, e as moças reclamaram dos nervos e gorduras na carne misturada ao molho.
Desta vez comprei as duas únicas paletas que encontrei no supermercado, com osso e de cordeiro mesmo. Sabia que a perda ia ser grande, e daqueles mais de três quilos deveria sobrar pouco mais de um quilo de carne absolutamente limpa. Fiquei um tempão desossando e limpando aquela pouca carne, lamentando os lindos nacos descartados por estarem entremeados de um simples nervinho. A operação me custou três pequenos cortes na ponta dos dedos da mão esquerda.
A receita é simples. Peguei os cubos de carne lavados e secados, joguei todos de uma vez numa panela com azeite quente, para dourar. Depois do início do processo, pus as ervas recomendadas, alecrim e orégano fresco em quantidade menor que da primeira vez, que ficou exagerado, e um pouco de sal e pimenta do reino. Era um dos passos que eu pretendia aprimorar, mas fiquei com preguiça. Em vez de pôr para dourar toda a carne ao mesmo tempo, pensei em “saltear” aos poucos, três ou quatro cubos de cada vez, pra não soltar toda aquela água como aconteceu da primeira vez, o que impede de dourar e põe a carne a cozinhar. Repeti o erro, mas ao meu lado estava descascando e picando os tomates a nossa cozinheira, que sugeriu tirar o excesso de líquido, e ir pondo aos poucos, o que eu fiz e deu muito certo. Dourada a carne, pus os dois copos de vinho branco como recomendado, e esperei evaporar. Ao ver toda a imensa quantidade de cebola picada – oriunda de uma única translúcida redoma – achei melhor refogar tudo aquilo no azeite, antes de pôr na panela com os dois quilos de tomate descascados, limpos de sementes e picados. Ficou um molho de macarrão aceitável, nenhuma princesa reclamou da ervilha sob o décimo-sexto colchão de plumas de ganso.
Usei uma receita que achei a esmo na internet, que me pareceu simpática porque recomendava tomates passados comprados na xepa da feira para o molho, e que seu usasse a carne de carneiro mais gorda que se encontrasse. Me fiando nessas recomendações, da primeira vez fui ao açougue e comprei uma paleta desossada, que me pareceu mais de um carneiro do que de um cordeirinho. Cortei em cubos sem maiores preocupações, e as moças reclamaram dos nervos e gorduras na carne misturada ao molho.
Desta vez comprei as duas únicas paletas que encontrei no supermercado, com osso e de cordeiro mesmo. Sabia que a perda ia ser grande, e daqueles mais de três quilos deveria sobrar pouco mais de um quilo de carne absolutamente limpa. Fiquei um tempão desossando e limpando aquela pouca carne, lamentando os lindos nacos descartados por estarem entremeados de um simples nervinho. A operação me custou três pequenos cortes na ponta dos dedos da mão esquerda.
A receita é simples. Peguei os cubos de carne lavados e secados, joguei todos de uma vez numa panela com azeite quente, para dourar. Depois do início do processo, pus as ervas recomendadas, alecrim e orégano fresco em quantidade menor que da primeira vez, que ficou exagerado, e um pouco de sal e pimenta do reino. Era um dos passos que eu pretendia aprimorar, mas fiquei com preguiça. Em vez de pôr para dourar toda a carne ao mesmo tempo, pensei em “saltear” aos poucos, três ou quatro cubos de cada vez, pra não soltar toda aquela água como aconteceu da primeira vez, o que impede de dourar e põe a carne a cozinhar. Repeti o erro, mas ao meu lado estava descascando e picando os tomates a nossa cozinheira, que sugeriu tirar o excesso de líquido, e ir pondo aos poucos, o que eu fiz e deu muito certo. Dourada a carne, pus os dois copos de vinho branco como recomendado, e esperei evaporar. Ao ver toda a imensa quantidade de cebola picada – oriunda de uma única translúcida redoma – achei melhor refogar tudo aquilo no azeite, antes de pôr na panela com os dois quilos de tomate descascados, limpos de sementes e picados. Ficou um molho de macarrão aceitável, nenhuma princesa reclamou da ervilha sob o décimo-sexto colchão de plumas de ganso.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
sexta-feira, fevereiro 16, 2007
quarta-feira, fevereiro 14, 2007
Bilac
Hoje no almoço meu pai declamou um soneto que aprendeu com meu avô, por este atribuído a Bilac:
VIDA PRIVADA
Cigarro aceso, o fumo em espirais
Formando vai a nuvem azulina.
O cabra, sobraçando alguns jornais,
Arria a calça e senta na latrina.
Enquanto caga, lê os editais,
Notícias, telegramas, a mofina,
Lê depois os anúncios garrafais,
E peida, com saudade da menina.
A coisa aperta um pouco, apavorante.
Uma careta faz, franze o semblante,
E sai um cagalhão que ao cu faz mágoa!
Está tudo acabado. Ele suspira,
A ponta do cigarro fora atira,
Levanta, limpa o rabo, e puxa a água
Da mesma fonte, a lição de português:
Ao bilheteiro:
"Por favor, uma passagem para Guaratinguetá".
Que responde, pedante:
"Em primeiro lugar, não é Guaratinguetá, mas Guaratingüetá. Em segundo lugar, o trem acabou de partir".
Ao que replica:
"Então cagüei-me".
No post anterior, sim, é o Copan. O prêmio é um expresso no Café Floresta, a todos os acertadores.
terça-feira, fevereiro 06, 2007
terça-feira, janeiro 30, 2007
Primeiro a do Caçador de Pipas, depois a do Neve
O livro favorito de Hassan era o Shahnamah, a epopéia dos antigos heróis persas do século X. Gostava de todos os capítulos, os shahs do passado, Feridoun, Zal e Rudabeh. Sua História Favorita, porém, e minha também, era “Rostam e Sohrab”, um conto sobre o grande guerreiro Rostam e seu cavalo velocíssimo, Rakhsh. Durante uma batalha, Rostam fere mortalmente seu valente adversário, Sohrab, e acaba descobrindo que o rapaz é, na verdade, o filho que tinha perdido há muito tempo. Atormentado pela dor, Rostam ouve as últimas palavras do filho moribundo:
Se sois efetivamente meu pai, então manchastes vossa espada com o sangue do vosso filho. E fizestes isto por vossa própria obstinação. Pois procurei convertê-lo ao amor e implorei chamando o vosso nome, já que julguei encontrar em vós as qualidades de que minha mãe tanto falava. Mas foi em vão que apelei para vosso coração, e, agora, é tarde demais para qualquer aproximação...
- Leia outra vez, por favor, Amir agha – dizia Hassan. Às vezes ficava com os olhos cheios de lágrimas enquanto eu lia a passagem e, nessas horas, sempre me perguntei por quem ele estaria chorando: seria pelo sofrimento de Rostam, que rasga as próprias roupas e cobre a cabeça com cinzas, ou pelo moribundo Soharab, que só desejava o do pai? Eu, pessoalmente, não era capaz de perceber a tragédia do destino de Rostam. Afinal de contas, todos os pais, no fundo de seu coração, não abrigam o desejo de matar os filhos?
***
“Há muito, muito tempo atrás houve um guerreiro incansável, corajoso como ninguém, que vivia no Irã. Todos os que o conheciam o amavam. Eles o chamavam Rüstem, e assim também o chamaremos. Certo dia, quando caçava, ele se perdeu na floresta, e à noite, enquanto dormia, perdeu o cavalo. Enquanto procurava Raksh, seu cavalo, Rüstem foi parar em Turan, que era uma terra inimiga. Mas como sua fama o precedeu, eles o trataram bem. O xá de Turam acolheu-o como hóspede e organizou uma festa em sua homenagem. Depois da festa a filha do xá procurou Rüstem em seu quarto para declarar seu amor por ele. Ela lhe disse que queria ter um filho seu. Ela o seduziu com sua beleza e com suas belas palavras, e logo os dois estavam fazendo amor.
“Na manhã seguinte, Rüstem voltou para seu país, mas deixou uma lembrança – um pequeno bracelete – para que o filho que ia nascer. Quando a criança nasceu, chamaram-no Suhrab, então assim também vamos chamá-lo. Anos depois, sua mãe lhe contou que seu pai eram ninguém menos que o legendário Rüstem. ‘Eu vou para o Irã’, disse o rapaz, ‘para deporo perverso xá Keykavus e colocar meu pai no lugar dele... e então vou voltar para Turan e fazer exatamente a mesma coisa com o perverso xá Efrasiyab, e quando tiver feito isso, assumo o lugar dele. E então meu pai Rüstem e eu reinaremos com justiça sobre o Irã e Turan – em outras palavras, todo o universo!’
“Assim falou o puro e generoso Suhrab, mal sabendo que seu inimigos eram muito mais espertos e astutos que ele. Porque Efrasiyab, o xá de Turan, dava seu apoio na guerra contra o Irã, mas ao mesmo tempo colocou espiões no exército para garantir que Suhrab não iria reconhecer o pai.
“Depois de muitas trapaças, astúcias, cruéis reviravoltas do destino e coincidências, tramadas todas elas, ao que ele sabia, pelo Sublime Todo-Poderoso, chegou o dia em que Suhrab e seu pai Rüstem se viram face a face no campo de batalha, cada um com um exército atrás de si. Nenhum dos dois conhecia o rosto do outro, mas pouco importa: ambos estavam com armadura – e nem é preciso dizer que não se reconheceram. Rüstem, naturalmente, desejava continuar anônimo dentro da sua armadura: do contrário, quele herói à sua frente poderia investir com toda a sua fúria e sua força especialmente contra ele, Rüstem. Quanto a Suhrab, seu coração infantil só parava para se perguntar quem era seu adversário. E assim aconteceu que esses dois grandes e generosos guerreiros, que eram pai e filho, à frente de seus respectivos exércitos e observados por eles, lançaram-se para a frente e sacaram suas espadas.”
Se sois efetivamente meu pai, então manchastes vossa espada com o sangue do vosso filho. E fizestes isto por vossa própria obstinação. Pois procurei convertê-lo ao amor e implorei chamando o vosso nome, já que julguei encontrar em vós as qualidades de que minha mãe tanto falava. Mas foi em vão que apelei para vosso coração, e, agora, é tarde demais para qualquer aproximação...
- Leia outra vez, por favor, Amir agha – dizia Hassan. Às vezes ficava com os olhos cheios de lágrimas enquanto eu lia a passagem e, nessas horas, sempre me perguntei por quem ele estaria chorando: seria pelo sofrimento de Rostam, que rasga as próprias roupas e cobre a cabeça com cinzas, ou pelo moribundo Soharab, que só desejava o do pai? Eu, pessoalmente, não era capaz de perceber a tragédia do destino de Rostam. Afinal de contas, todos os pais, no fundo de seu coração, não abrigam o desejo de matar os filhos?
***
“Há muito, muito tempo atrás houve um guerreiro incansável, corajoso como ninguém, que vivia no Irã. Todos os que o conheciam o amavam. Eles o chamavam Rüstem, e assim também o chamaremos. Certo dia, quando caçava, ele se perdeu na floresta, e à noite, enquanto dormia, perdeu o cavalo. Enquanto procurava Raksh, seu cavalo, Rüstem foi parar em Turan, que era uma terra inimiga. Mas como sua fama o precedeu, eles o trataram bem. O xá de Turam acolheu-o como hóspede e organizou uma festa em sua homenagem. Depois da festa a filha do xá procurou Rüstem em seu quarto para declarar seu amor por ele. Ela lhe disse que queria ter um filho seu. Ela o seduziu com sua beleza e com suas belas palavras, e logo os dois estavam fazendo amor.
“Na manhã seguinte, Rüstem voltou para seu país, mas deixou uma lembrança – um pequeno bracelete – para que o filho que ia nascer. Quando a criança nasceu, chamaram-no Suhrab, então assim também vamos chamá-lo. Anos depois, sua mãe lhe contou que seu pai eram ninguém menos que o legendário Rüstem. ‘Eu vou para o Irã’, disse o rapaz, ‘para deporo perverso xá Keykavus e colocar meu pai no lugar dele... e então vou voltar para Turan e fazer exatamente a mesma coisa com o perverso xá Efrasiyab, e quando tiver feito isso, assumo o lugar dele. E então meu pai Rüstem e eu reinaremos com justiça sobre o Irã e Turan – em outras palavras, todo o universo!’
“Assim falou o puro e generoso Suhrab, mal sabendo que seu inimigos eram muito mais espertos e astutos que ele. Porque Efrasiyab, o xá de Turan, dava seu apoio na guerra contra o Irã, mas ao mesmo tempo colocou espiões no exército para garantir que Suhrab não iria reconhecer o pai.
“Depois de muitas trapaças, astúcias, cruéis reviravoltas do destino e coincidências, tramadas todas elas, ao que ele sabia, pelo Sublime Todo-Poderoso, chegou o dia em que Suhrab e seu pai Rüstem se viram face a face no campo de batalha, cada um com um exército atrás de si. Nenhum dos dois conhecia o rosto do outro, mas pouco importa: ambos estavam com armadura – e nem é preciso dizer que não se reconheceram. Rüstem, naturalmente, desejava continuar anônimo dentro da sua armadura: do contrário, quele herói à sua frente poderia investir com toda a sua fúria e sua força especialmente contra ele, Rüstem. Quanto a Suhrab, seu coração infantil só parava para se perguntar quem era seu adversário. E assim aconteceu que esses dois grandes e generosos guerreiros, que eram pai e filho, à frente de seus respectivos exércitos e observados por eles, lançaram-se para a frente e sacaram suas espadas.”
Azul fez uma pausa. Antes de olhar Ka nos olhos, acrescentou numa voz infantil: “Embora eu tenha lido essa história centenas de vezes, sempre sinto um arrepio ao chegar nessa parte, e meu coração dispara. Não sei porque, mas por alguma razão me identifico com suhrab quando ele se preara para matar o pai. Quem poderia querer matar o próprio pai? Que alma poderia suportar a dor desse crime, o peso desse pecado? Especialmente meu próprio Suhrab com seu coração inocente! A única esperança é que a essa altura Suhrab mate seu adversário sem saber quem ele é”.
“Enquanto esses pensamentos perpassam minha cabeça, os dois guerreiros começam a lutar, e numa luta que dura horas nenhum dos dois consegue derrotar o outro. Molhados de suor e exaustos, eles embainham suas espadas. Quando chegamos ao anoitecer do primeiro dia, estou tão preocupado pelo pai, como pelo filho, e quando continuo a história, é como se eu a estivesse lendo pela primeira vez. Ouso sonhar que o pai e o filho não serão capazes de matar um ao outro e encontrarão alguma forma de contornar aquela terrível situação.
“No segundo dia, os dois exércitos se alinham mais uma vez, e mais uma vez o pai e o filho, protegidos por suas armaduras, travam um combate implacável. Depois de uma longa luta, a sorte sorri para Suhrab – mas podemos chamar isto de sorte? – e ele derruba Rüstem do cavalo e o imobiliza no chão. Ele saca da espada e, quando está prestes a cortar o pescoço do pai, falam para ele: ‘No Irã um herói não costuma cortar a cabeça de um inimigo na primeira ocasião. Não o mate; seria cruel demais’. Então Suhrab não mata o pai.
“Quando leio essa parte fico muito confuso. Sinto muito amor por Shrab. Qual o sentido desse destino que Deus traçou para esse pai e esse filho? Quanto ao terceiro dia de luta, um dia que esperei com tanta ansiedade – contra todas as minhas expectativas, ele acaba num instante. Rüstem derruba Suhrab do cavalo e, slatando para a frente, enfia a espada nele e o mata. A rapidez desse ato é terrível, chocante. Quando vê o bracelete e se dá conta de que matou o filho, Rüstem se ajoelha, toma nos braços o corpo do filho e chora.”
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Shahnameh

Este é o nome de uma coletânia de épicos persas, escritos por volta do ano 1000 por um certo Ferdosi. É enorme. Curiosamente, uma de suas histórias, a de Sohrab, é uma referência importante não só do "Neve", do Orhan Pamuk, o turco ganhador do Nobel 2006 de literatura, como do manjado "O Caçador de Pipas", do afegão Khaled Housseini, que eu li neste último feriado.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Controle
Entreguei todos os meios de comunicação à distância da minha casa a uma operadora de tv a cabo. Telefone, tv e internet. Numa perspectiva paranóica, supondo que eles (paranóico sempre fala “eles”) auscultassem tudo o que se passa na minha casa, aprendessem nossos hábitos de consumo de cultura e de contato, identificassem as nossas redes sociais, saberiam exatamente quem é aquele cara, cujo cadastro tem em mãos. Foda, né? Uma parte disso eles podem fazer sem violar (isso é uma palavra) a minha privacidade tantas vezes remendada.
Acabei de assistir “Pequena Jerusalém”, um filme cabeça sobre o autocontrole, entre outras grandes questões.
Acabei de assistir “Pequena Jerusalém”, um filme cabeça sobre o autocontrole, entre outras grandes questões.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
One nesgow
Os livros de aventura que eu li na minha primeira adolescência, depois do Monteiro Lobato e assemelhados, foram os de uma coleção de quarenta e oito volumes de Júlio Verne (hoje não se traduz mais nome próprio, seria Jules), que eu escolhia pelo título, e de uma coleção de Tarzan, Terramarear, assim, tudo junto. Depois passei para os que tinham, preferencialmente, cenas de sexo, como os de Jorge Amado, e best-sellers americanos da década de setenta, como “Os Insasciáveis”, título cheio de promessas efetivamente cumpridas. O Zorro da Isabel Allende é um nascido clássico da literatura de ação. O peso do livro é centrado na formação do herói, como ele adquiriu suas inúmeras habilidades, um engenharia reversa muito bem encaixada. A esgrima, o cavalo, o chicote, as cordas, as alturas, a roupa preta, a personalidade dividida e sorrateira. E também o contexto é muito bem construído, de um ponto de vista de uma socialista da América Latina, no ocaso das monarquias absolutas da Europa, a libertação das colônias e a formação da república moderna. Claro que numa visão idealista e utópica de justiça social, como convém aos muito jovens, a quem é dirigido, com um balizamento histórico sério. E por ser escrito por uma moça, o cotê romântico do Zorro é tão importante quanto sua atuação como herói.
quinta-feira, janeiro 11, 2007
...
É, a virada do ano não foi fácil, fui acometido de uma macunaímica preguiça de blogar. Não será certamente falta de assunto, na pior das hipóteses a função diário preenche qualquer espaço, disfarçar os fatos potencialmente constrangedores revelando o máximo possível, e tentar não enfeitar a jogada, mas mostrar o que há de interessante na morbidez do cotidiano. O fato é que quando não estou cansado não tenho tempo, e quando tenho tempo estou cansado, ou simplesmente com preguiça. Poderia também falar os outros hits de natal que eu li, “A Neve”, de Orhan Pamuk, e “Zorro” de Isabel Allende, se não estivesse com tanta preguiça. E ainda as cambaleantes tentativas culinárias, os espaçados excessos alcoólicos, o remo intermitente das férias, ou só uma pausa de mil compassos, como diz o Paulinho da Viola.
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Vendeta
Uns três ou quatro anos atrás minha filha teve que ler para o colégio uma interessantíssima história de amor passada no Cáucaso, no começo do século XX, do qual acabamos lendo todos juntos boa parte em voz alta numa longa viagem de carro. Foi em “Ali e Nino”, de Kurban Said, que eu achei uma boa explicação para a vendeta. Na guerra entre clãs, quando um membro é morto, cria-se uma desvantagem numérica que deve ser compensada, matando-se um membro do outro clã. E se o morto ainda não procriou, a desvantagem se multiplica. É a morte justa, segundo os padrões tribais. Imagino que esta deve ser a origem da pena de morte, um resquício desta compensação, agora inútil e desnecessária. O respeito incondicional à vida é um dos principais esteios do contrato social moderno, e as exceções como o aborto e a pena de morte são perigosíssimas, brechas por onde a arbitrariedade sobre-humana pode se infiltrar. Nunca acreditei que as penas físicas ou de restrição da liberdade tenham um efeito retributivo. Ninguém paga nada na cadeia, não faz sentido imaginar que o sofrimento do criminoso causa qualquer benefício à sociedade, sobrando de útil só o duvidoso caráter educativo em mostrar que o crime não compensa. O dano do crime só pode ser indenizado em dinheiro, na estranha matemática da avaliação das vidas, membros e faculdades, e traumas. Claro que bandido perigoso não pode andar solto, e assim fica preso por um prazo que se presume suficiente para a reabilitação, de acordo com a gravidade da ofensa, como o castigo “para pensar” das crianças. Pra mim também é claro que o criminoso precisa de ajuda. Salvo os doentes mentais, ninguém se exclui da sociedade – a terrível conseqüência do crime – sem um motivo grave. Também acho difícil convencer alguém com uma formação moral fraca a se contentar com um trabalho braçal remunerado com salário mínimo, ou suportar pacificamente o drama do desemprego, enquanto sujeitos como o Cinqüenta Centavos, o rapper americano, declamam canções dizendo “fique rico ou morra tentando”. Mas estou tegiversando. Porque mataram o Saddam mesmo?
segunda-feira, dezembro 25, 2006
Ba-ai James Brown

Natal, inúmeras garrafas de vinho, peru, tender, e até um rato atravessou o quintal, subiu pelas folhagens junto ao muro e desapareceu, no melhor estilo quebra-nozes, para terror da criançada. Hoje de manhã fui procurar os gargalos ainda com as rolhas dos espumantes decepados com L’Incroyable. Melhor que soltar rojão. Toc, pou, e o projétil vai fácil a uns sete, oito metros de distância. Todas na primeira, estou ficando craque, faria isso a noite inteira.
Hits literários de natal: “Travessuras da menina má”, do Vargas Llosa, uma eletrizante história de amor, melhor não contar nada, li do dia 22 (as mulheres resolveram fechar o escritório) ao 23, na cama, com três travesseiros, o janelão aberto, o ventilador ligado, depois de muito esporte, todo aquele algodão branco e fresquinho, entremeado com blitzes de última hora no super e no shopping.
No 23, a última volta no four do ano, inéditas quatro raias, a última na maciota com equilíbrio e sincronia também inéditos, pouco barulho na água, o barco andando muito bem, a sensação de evolução. Falta um pouco de força neste barco, temo que eu seja o mais forte, mas criamos uma ligação muito simpática, parece uma banda de rock, sem chefinho. Aliás, nada mais detestável que um cara metido a chefinho. Quem sabe conseguimos alguma coisa o ano que vem, se mantivermos a regularidade. Janeiro já não vai dar pra juntar os quatro nenhuma vez, por causa das férias.
Agora vou ler “A neve” de Orhan Pamuk, turco, Nobel 2006. Se tem uma cidade que tenho curiosidade de conhecer é Constantinopla, portal da Ásia e da Europa, o Bósforo que ouço falar desde as minhas primeiras leituras de Júlio Verne, aos doze, treze anos.
Hits literários de natal: “Travessuras da menina má”, do Vargas Llosa, uma eletrizante história de amor, melhor não contar nada, li do dia 22 (as mulheres resolveram fechar o escritório) ao 23, na cama, com três travesseiros, o janelão aberto, o ventilador ligado, depois de muito esporte, todo aquele algodão branco e fresquinho, entremeado com blitzes de última hora no super e no shopping.
No 23, a última volta no four do ano, inéditas quatro raias, a última na maciota com equilíbrio e sincronia também inéditos, pouco barulho na água, o barco andando muito bem, a sensação de evolução. Falta um pouco de força neste barco, temo que eu seja o mais forte, mas criamos uma ligação muito simpática, parece uma banda de rock, sem chefinho. Aliás, nada mais detestável que um cara metido a chefinho. Quem sabe conseguimos alguma coisa o ano que vem, se mantivermos a regularidade. Janeiro já não vai dar pra juntar os quatro nenhuma vez, por causa das férias.
Agora vou ler “A neve” de Orhan Pamuk, turco, Nobel 2006. Se tem uma cidade que tenho curiosidade de conhecer é Constantinopla, portal da Ásia e da Europa, o Bósforo que ouço falar desde as minhas primeiras leituras de Júlio Verne, aos doze, treze anos.
terça-feira, dezembro 19, 2006
Rádio passat

Acho que o meu futuro de consumidor de produtos de cultura vem de serviços tipo rádio uol, com alguns canais para você ouvir música de qualidade, de graça e sem pirataria. Agora, por exemplo, estou ouvindo o canal Bob Marley. Uma barriga cheia é uma barriga cheia, uma mãe com fome é uma mãe com fome. Às vezes frustra-se a esperança de uma vasta amostragem de um artista, tem só uma palhinha para dar vontade. Bob Dylan já vi que tem bastante. Tenho preguiça de ficar gravando, guardando, colecionando. Tem tanta música boa por aí, é tão fácil ouvir o que o acaso traz, fora o grande estímulo da surpresa. Sempre gostei de rádio por isso. Já descobri muita música legal no rádio. Lembro até hoje de estar descendo a Pamplona no banco do passageiro do Passat verde musgo da minha mãe, que por um tempo eu usaria como meu, não sei se algum jovem lê este blog, mas posso esclarecer que não é o passatão de seis cilindros que se vê por aí, mas o primeiro quatro cilindros com radiador selado, o primeiro Volkswagen refrigerado a água, quatro marchas curtas, uma delícia de carro, o mais moderno carro nacional. Mas estava neste carro quando ouvi pela primeira vez o “Vicious”, do Lou Reed, que eu nem sabia quem era, ou melhor, sabia pelo “Take a walk” talvez, a esta altura dos acontecimentos não lembro mais exatamente a ordem das coisas. E o que me impressionou e me fez ir correndo comprar o disco, uma coletânea. foi o som de guitarra agudo e distorcido que comentava o refrão: “Vicious ... ta-na-ná ...”.
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Parangolé
O Parangolé me questionou ter sido racista no meu último post, em que conto a história de um advogado duplamente uxoricida. Sim, ele era nordestino. Mas eu começo o texto “falando em Pimenta Neves”, presumidamente paulista, já que era um importante jornalista do Estadão. Em segundo lugar, nordestino não é raça, e assim, seria uma questão de regionalismo, que pode ser discriminatório como o racismo, mas tem uma conotação mais equilibrada de mão dupla. Tentei mostrar isso nos comentários, dizendo que o único traço distintivo que usei foi mencionar o sotaque carregado do advogado, pois assim parece o sotaque nordestino ao paulista, assim como ao carioca o sotaque paulista soa italianado: “cê tá intendeindo?” Falei ainda que existia uma questão cultural no uxoricídio, de cultura vencida e ultrapassada, a velha e gasta alegação de “legítima defesa da honra”, inconsistente em qualquer sentido. Não cola mais, e é este o sentido do post, a distinção das situações, o assassinato da primeira mulher, onde a impunidade foi completa, e o da segunda, em que o sujeito estava preso, e a comunidade reclamava a sua condenação. O Parangolé argumentaria que a discriminação do post estava na preocupação com o contexto geográfico. Porque dizer que era um paulista comprando uma empresa nordestina? Nesse ponto ele teria razão. Embora fosse um referencial real da história, como me foi contada, era desnecessário. A violência é um estereótipo nordestino, que vem de uma sociedade mais primitiva, do agreste, onde o coronel faz justiça com as próprias mãos, e o cangaceiro também. O que dá um pouco mais de cor à história. Foto de Cláudio Oiticica, de 1964.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Uxoricídio
Falando em Pimenta Neves, um caso que eu ouvi há vários anos. Um empresário paulista foi comprar uma empresa de um tradicional grupo nordestino. Feitas várias reuniões, diligências, exames e minutas, o grupo vendedor fazia questão absoluta de que o advogado do comprador encontrasse o seu advogado, para acertarem os detalhes finais. Só que a reunião não podia ser feita no estado onde se encontravam, mas num estado vizinho. Criou-se um clima de mistério em torno da tal reunião. Quando a comitiva chegou na capital do estado vizinho, foi ao local da reunião, estranhamente num quartel. O tal advogado estava em prisão especial, aguardando julgamento. E explicou que infelizmente tinha assassinado a mulher, e o processo precisou ser desaforado para garantir a imparcialidade, em função das constantes manifestações de feministas a cada movimentação, na tentativa de pressionar juízes, promotores, júri e a opinião pública. E reclamou, com seu sotaque carregado: “quando matei minha primeira mulher não teve nada disso”.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Vitória
Domingo foi a regata interna do clube, e o meu desempenho me deixou bastante satisfeito. Fui o terceiro no single master, atrás de dois mais jovens e mais experientes do que eu, que eu vou tentar pegar o ano que vem. Larguei bem, mas depois desviei um pouco e perdi algumas remadas batendo nas bóias. Acho que dava pra ter chegado em segundo. E o nosso four, último do paulista em fiasco causado pela afobação, evoluiu surpreendentemente nas duas últimas semanas, e vencemos por um bico de vantagem o barco que foi anunciado como o campeão virtual da prova, com uma guarnição improvisada de remadores de qualidade, além de dois outros barcos de respeito. Com isso, dou por completada a minha formação e vou atrás de resultados mais consistentes para o ano. Nada como um pequena vitória pra manter a motivação.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Táxis
Já há algum tempo tenho notado a institucionalização de um comportamento no trânsito por parte dos motoristas de táxi. Quando precisa mudar de faixa o sujeito, em vez reduzir a velocidade e esperar um espaço vago, ou negociar com o pisca-pisca esperando que o sujeito que vem pela outra faixa voluntariamente ceda a passagem, simplesmente vai empurrando o carro do lado para a outra pista, ou até que ele freie abrindo o espaço. E empurra o carro do lado mesmo, espelhinho com espelhinho, até encostar se o outro não sair, como aconteceu hoje comigo. Instintivamente a tendência do motorista empurrado é afastar o carro, às vezes até propagando o aperto para a outra faixa. É uma atitude nociva e violenta, e a resistência reclama uma violência igual, que a maioria das pessoas não está disposta a exercer, o que favorece a repetição da agressão. O que fazer?
sábado, dezembro 02, 2006
Cordeiro
Outro dia a Leila Couceiro, que mora na Califórnia, estava falando do peru de ação de graças americano. Uns comentaristas comentaram do peru de natal brasileiro, e acendeu-me a lâmpada do óbvio: imitação servil, do prato mais bobo que existe. Peru assado com purê não sei de que, farofa, arroz com passas e champagne e outros insossos. Fora com o peru de natal. Este ano a ceia de natal da família nuclear do meu pai, que deve dar umas vinte pessoas, será na minha casa. Não vai ter peru. O peru, que minha mãe costuma orgulhosamente apresentar, com não sei quantos quilos, não virá este ano. Uns anos atrás, quando a ceia foi na casa do meu irmão que mora em Minas, a sogra dele fez um tremendo e magnífico pernil, acompanhado da lendária farofa de cem ingredientes. Faz sentido lá pra ela. Poderia se argumentar que a origem das tradições não importa, quase todas se iniciam com emulação e mimetismo. Afinal, comemos peru já há algumas gerações. Talvez desde que aqueles alemães de Santa Catarina começaram a criar os grandes glu-glus (Asterix na América), ou perdizes gigantes, perdigões, como queiram. O problema não é a origem da tradição. É a sua falta de sabor.
Puxando pelo gancho religioso, vou tentar implementar uma comida que é cada vez mais comum na paulicéia, que é o cordeiro, feito à moda italiana, tendendo ao ragu, com tomates, ou à francesa, caçulezado com feijões, que eu gosto muito. E as costeletinhas greladas, que não fazem tanto a minha cabeça como o pernil, o famoso gigô. Outro dia comi um excelente na mítica goma do a., como já comera outro ótimo feito pelo Parangolé e vislumbrei a possibilidade de um cozinheiro inepto e preguiçoso como eu desenvolver um prato neste sentido, a paleta na caçarola, que espero seja apenas montar os ingredientes na panela larga e baixa e no forno, ou talvez mesmo no fogo baixo, ficar olhando o milagre. Deve ter uma ordem de cozimento dos ingredientes, o próprio repertório e proporção dos ingredientes, os temperos, e as questões básicas, marina ou não marina, refoga ou não refoga, o que refoga, etc. Vou pesquisar receitas, e aceito sugestões. Imagino que seja um prato muito prático para um domingão tranqüilo.
Voltando ao gancho religioso, o cordeiro de natal rimaria com a metáfora utilizada pelo próprissimo Jesus, o cordeiro de deus, aquele que tira os pecados do mundo, o animal de sacrifício por excelência, o símbolo da docilidade e da aceitação da nossa miséria astral.
Puxando pelo gancho religioso, vou tentar implementar uma comida que é cada vez mais comum na paulicéia, que é o cordeiro, feito à moda italiana, tendendo ao ragu, com tomates, ou à francesa, caçulezado com feijões, que eu gosto muito. E as costeletinhas greladas, que não fazem tanto a minha cabeça como o pernil, o famoso gigô. Outro dia comi um excelente na mítica goma do a., como já comera outro ótimo feito pelo Parangolé e vislumbrei a possibilidade de um cozinheiro inepto e preguiçoso como eu desenvolver um prato neste sentido, a paleta na caçarola, que espero seja apenas montar os ingredientes na panela larga e baixa e no forno, ou talvez mesmo no fogo baixo, ficar olhando o milagre. Deve ter uma ordem de cozimento dos ingredientes, o próprio repertório e proporção dos ingredientes, os temperos, e as questões básicas, marina ou não marina, refoga ou não refoga, o que refoga, etc. Vou pesquisar receitas, e aceito sugestões. Imagino que seja um prato muito prático para um domingão tranqüilo.
Voltando ao gancho religioso, o cordeiro de natal rimaria com a metáfora utilizada pelo próprissimo Jesus, o cordeiro de deus, aquele que tira os pecados do mundo, o animal de sacrifício por excelência, o símbolo da docilidade e da aceitação da nossa miséria astral.
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