A foto é da regata do sábado passado, campeonato estadual. O barco que chegou na frente é aquele do qual só se vê o bico. Depois dele chegou o dos uniformes vermelho e branco, e por fim o nosso, em primeiro plano. Os tempos foram respectivamente 3'14", 3'16" e 3'23". Só que o barco vermelho e branco tem guarnição classe master "A", ou seja, garotões que ainda correm as provas senior de 2000 metros. Aquele que chegou na frente, também, três competidores de elite mais um master master, pra subir a média, que foi pra "B". O nosso tem dois "C" (entre os quais me incluo) e dois "D", e a média deu "D". A federação se atrapalhou nas contas do handicap e aumentou 9 segundos o tempo do "A", e 6 segundos o tempo do "B", o que nos dava o segundo lugar. Corrigido o erro, uma semana depois virei o primeiro. Estava demorando. Pelo regulamento, mas vencedor.
sábado, março 21, 2009
sexta-feira, março 20, 2009
BiCi

Moro a exatos três quilômetros do portão da raia da USP, segundo o Google Earth, se considerado o atalho pela alça da ponte da Cidade Universitária, franqueado a pedestres e ciclistas. É um trajeto seguro e agradável, por ruas tranqüilas até a alça da ponte, e de feio e barulhento só tem a ponte mesmo. Dá uns vinte minutos trotando, uns dez minutos de bicicleta, e cinco minutos de carro. Mas de carro, na hora de voltar, já se pega um pouco de trânsito, o que pode dar uns 15 ou mesmo 20 minutos nos piores dias. Fui muitas vezes correndo, mas achei que isso consumia muito da energia necessária para o treino em si, e acabei comprando uma bicicleta de cento e poucos reais, pela internet. Acho que de carro eu gasto um litro e meio de gasolina pra ir e voltar, considerando o trajeto um pouco maior e o trânsito que se pega na volta, o que dá uns R$3,60 por dia, o que dá uns 86 reais a cada quatro semanas. Ou seja, em dois meses paguei a bicicleta. Em um ano dá mais de mil e cem reais, o que dá pra voar uns quatro mil quilômetros. Fora que dá certinho pra fazer um aquecimento e esfriamento adequados. O problema é que quando está frio, ou se está atrasado, ou se está com preguiça, usa-se o carro. E depois de uns seis meses de bicicleta, abandonei completamente o veículo, que jaz com pneus murchos encostado em uma parede. Hoje fui com uma bici emprestada, e apreciei pedalar tranqüilamente pelas ruas vazias, na hora fria que antecede a aurora. E agora, como querem os arautos pelados das pedaladas, é uma questão de sobrevivência.
quinta-feira, março 19, 2009
Cool

Como contei no antepenúltimo post estive em Buenos Aires no carnaval, e aproveitei a oportunidade para comprar alguns bons vinhos pela metade do que se paga aqui. Logo depois fomos atropelados por aquela incrível canícula saariana, e comecei a temer pela integridade do precioso líquido, ao que dizem sensível a variações de temperatura e calores excessivos. Esta circunstância me impeliu a ir atrás de um antigo sonho de consumo – pra usar a expressão desgastada, porque não sonhava tanto assim – uma “adega climatizada”, ou seja, uma geladeirinha pra vinhos, ou um frigobar especializado. Um perfeito símbolo de status pequeno burguês.
Entre tantas ofertas nas lojas online fiquei meio perdido na escolha das dimensões e modelos, de preços tão díspares. É claro que as caríssimas devem ser ótimas, mas não achei o caso de gastar muito. Assuntei com alguns proprietários e concluí que, para as minhas pretensões comedidas, uma de 30 garrafas seria suficiente. E fui tentar descobrir as características técnicas desejáveis.
Não basta ser uma geladeira com suporte de garrafas. Tem que ter um termostato para manutenção de temperatura constante independente das variações externas, e poucas vibrações, que ao que consta também prejudicam o armazenamento a longo prazo, a chamada guarda, que os vinhos de maior qualidade suportam e agradecem. E, dependendo de onde se vai colocar – de preferência perto de onde se bebe, e porque não, onde as visitas possam vislumbrar o símbolo do seu gosto refinado – baixo nível de ruído.
A breve pesquisa me levou às adeguinhas com o chamado sistema termoelétrico de refrigeração, baseado no efeito Peltier, que não utiliza o compressor, eliminando de uma só tacada a vibração e o ruído. Agora está lá, debaixo da escada, visível ao observador atento, ronronando imperceptivelmente, e mantendo o meu pequeno tesouro a declarados 16ºC. Tão legal que dá pena de beber.
Entre tantas ofertas nas lojas online fiquei meio perdido na escolha das dimensões e modelos, de preços tão díspares. É claro que as caríssimas devem ser ótimas, mas não achei o caso de gastar muito. Assuntei com alguns proprietários e concluí que, para as minhas pretensões comedidas, uma de 30 garrafas seria suficiente. E fui tentar descobrir as características técnicas desejáveis.
Não basta ser uma geladeira com suporte de garrafas. Tem que ter um termostato para manutenção de temperatura constante independente das variações externas, e poucas vibrações, que ao que consta também prejudicam o armazenamento a longo prazo, a chamada guarda, que os vinhos de maior qualidade suportam e agradecem. E, dependendo de onde se vai colocar – de preferência perto de onde se bebe, e porque não, onde as visitas possam vislumbrar o símbolo do seu gosto refinado – baixo nível de ruído.
A breve pesquisa me levou às adeguinhas com o chamado sistema termoelétrico de refrigeração, baseado no efeito Peltier, que não utiliza o compressor, eliminando de uma só tacada a vibração e o ruído. Agora está lá, debaixo da escada, visível ao observador atento, ronronando imperceptivelmente, e mantendo o meu pequeno tesouro a declarados 16ºC. Tão legal que dá pena de beber.
segunda-feira, março 09, 2009
Uma questão de saúde pública
Prezados senhores,
Há onze anos moro muito próximo ao Parque ****, espaço que sempre utilizei para a prática de corrida. Nos últimos anos tenho ido com menos freqüência, pois pratico outro esporte em outro lugar. Mas já participei de dois grupos de corrida organizados que treinavam lá, sob orientação técnica. E aprendi, não só dessas fontes como de muitas outras, que o piso de concreto não é adequado para a prática da corrida, pois a sua elasticidade é praticamente zero, ao contrário do asfalto, que tem um bom coeficiente de amortecimento para o forte impacto que a corrida produz nas articulações inferiores do corredor, especialmente joelho e calcanhar. Ou seja, qualquer profissional do ramo dos esportes, seja atleta, preparador físico, treinador, técnico ou professor, ou ligado à medicina esportiva, como ortopedistas, fisioterapeutas, e quiropratas, sabe que correr no concreto aumenta muito o risco de lesão no corredor. Mas o fato é que muitos corredores de fim-de-semana, como os que freqüentam o parque, não sabem disso, e são obrigados pela administração do parque, através da sinalização, a correrem no concreto ao invés de o fazerem no asfalto, sob pena de serem admoestados pelos seguranças. É claro que este grave erro administrativo, de destinar as pistas de concreto aos pedestres, e as pistas de asfalto aos ciclistas, irá produzir uma enorme quantidade de lesões nas articulações dos frequentadores do parque, transformando em mal o que só deveria fazer bem. Muitas soluções são possíveis, como possibilitar a coexistência de corredores e ciclistas - que têm na verdade um ritmo muito parecido, já que a velocidade das bicicletas está limitada a 10km/h; ou delimitar uma faixa no asfalto para a ciclovia, como no Parque do Ibirapuera; ou transferir a ciclovia para o concreto. O que é inaceitável, inadmissível porque perigoso para a saúde e assim contrário ao bom senso é obrigar os corredores a utilizarem o concreto. No aguardo de solução urgente,
P.
Há onze anos moro muito próximo ao Parque ****, espaço que sempre utilizei para a prática de corrida. Nos últimos anos tenho ido com menos freqüência, pois pratico outro esporte em outro lugar. Mas já participei de dois grupos de corrida organizados que treinavam lá, sob orientação técnica. E aprendi, não só dessas fontes como de muitas outras, que o piso de concreto não é adequado para a prática da corrida, pois a sua elasticidade é praticamente zero, ao contrário do asfalto, que tem um bom coeficiente de amortecimento para o forte impacto que a corrida produz nas articulações inferiores do corredor, especialmente joelho e calcanhar. Ou seja, qualquer profissional do ramo dos esportes, seja atleta, preparador físico, treinador, técnico ou professor, ou ligado à medicina esportiva, como ortopedistas, fisioterapeutas, e quiropratas, sabe que correr no concreto aumenta muito o risco de lesão no corredor. Mas o fato é que muitos corredores de fim-de-semana, como os que freqüentam o parque, não sabem disso, e são obrigados pela administração do parque, através da sinalização, a correrem no concreto ao invés de o fazerem no asfalto, sob pena de serem admoestados pelos seguranças. É claro que este grave erro administrativo, de destinar as pistas de concreto aos pedestres, e as pistas de asfalto aos ciclistas, irá produzir uma enorme quantidade de lesões nas articulações dos frequentadores do parque, transformando em mal o que só deveria fazer bem. Muitas soluções são possíveis, como possibilitar a coexistência de corredores e ciclistas - que têm na verdade um ritmo muito parecido, já que a velocidade das bicicletas está limitada a 10km/h; ou delimitar uma faixa no asfalto para a ciclovia, como no Parque do Ibirapuera; ou transferir a ciclovia para o concreto. O que é inaceitável, inadmissível porque perigoso para a saúde e assim contrário ao bom senso é obrigar os corredores a utilizarem o concreto. No aguardo de solução urgente,
P.
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Boa tarde,
Agradeço seu contato, trabalhamos muito para que o Parque se torne um local agradável para lazer e a prática de esporte para todos os usuários, estamos trocando o piso de concreto por um piso inter-travado que é mais macio e absorve a água das chuvas não permitindo a impermeabilização do solo, já concluímos nesta semana uma primeira etapa, trocando mais de dois mil metros quadrados do concreto pelo intertravado, esperando em breve trocar o restante, e infelizmente a coexistência de ciclistas e pedestre na mesma via é inviável, os seguranças nos finais de semana trabalham muito no sentido de orientar os usuários e prevenir acidentes, durante a semana de segunda a sexta liberamos a ciclovia para pedestre, porque o movimento do Parque nos permite essa prática mas mesmo assim eles acontecem. De qualquer maneira *****, estou aqui na Administração do Parque sempre a sua disposição para podermos achar uma solução, volto a te dizer que estamos trabalhando pelo bem estar e não queremos de maneira alguma prejudicar quem quer que seja. Obrigado,
J************
Diretor do Parque ***********
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Agradeço a pronta resposta e admito o meu desconhecimento da situação atual do parque, no sentido de ser a vedada a utilização das vias de asfalto aos pedestres apenas nos fins de semana (por isso expliquei não ser mais um frequentador assíduo do parque). Sem dúvida a substituição do concreto (piso rígido) pelo piso inter-travado (piso semi-rígido) diminui o problema, mas ainda assim é um piso menos adequado à corrida do que oasfalto (piso flexível).Não sou especialista em nenhum dos assuntos, mas na minha experiência de senso comum posso afirmar que o parque pode ser adequado para a prática de corrida pedestre intensa e de alto nível, sem prejudicar os demais frequentadores, enquanto a prática do ciclismo, prudentemente limitada aos 10 km/h, permite apenas o passeio recreativo, uma vez que o ciclismo de alto nível necessita espaços muito maiores e velocidades muito mais elevadas. Assim sugiro sejam consultados especialistas para que seja traçado um trajeto tão longo quanto possível, em piso adequado, para a prática de corrida, com quilometragem demarcada, facilitando a prática deste esporte cada vez mais popular e intensamente praticado, para o qual o parque é evidentemente vocacionado (prioridade 1). A ciclovia, destinada aos passeios recreativos, pode ser demarcada nos trajetos restantes (prioridade 2), uma vez que para as bicicletas tanto faz ser o piso de concreto, intertravado, ou asfalto.Agradecendo mais uma vez a atenção dispensada, e insistindo na ausência de propósitos egoísticos na sugestão, por não ser mais um corredor assíduo do parque, subscrevo-me,
Atenciosamente,
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Boa tarde ******, gostei de vc, precisamos nos conhecer, como te disse estou a sua disposição na adm do Parque, um abraço, ******
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******, acho ótimo. Qual o melhor horário?
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Estou sempre aqui no Parque *****, raramente saio. e qdo. saio é para alguma reunião fora do parque, veja qdo. é bom para vc, e me liga marcando, um abraço, ******
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VOU?
quinta-feira, março 05, 2009
PL 4547/2008
Prezado Deputado,
Cachaça de Alambique, Cachaça de Coluna ou Aguardente de Cana-de-Açúcar: seria mais coerente a utilização de só duas denominações, “cachaça de alambique”, que especifica uma qualidade no modo de fabricação, e “cachaça”, a denominação genérica. “Cachaça de Coluna” é ridículo e inútil, e “Aguardente de Cana-de-Açúcar” não diz nada, contraria a denominação que se quer reforçar. É a simples definição de “Cachaça”.
Estandardização: embora seja um anglicismo há muito reconhecido, é danado de feio. Porque não “padronização” mesmo, ou a derivação de “estandarte”, de mesma origem que “standard”, “estandartização”, também aceita?
Vasilhame: o litro deve ser obrigatório, como de praxe nos destilados, para não confundir o consumidor quanto a quantidade.
Rótulo e regulação: deve constar do rótulo se o produto é “engarrafado na origem” ou alhures, uma garantia ao consumidor de não adulteração posterior; e informações sobre envelhecimento em madeira (qual madeira), e adição de açúcar, melado ou rapadura para adoçamento ou colorização, características que devem ser regulamentadas para não desvirtuar a cachaça.
Cachaça x rum: “Art. 5º Para efeito desta Lei, entende-se por Cachaça de Alambique e por Cachaça de Coluna ou Aguardente de Cana-de-Açúcar todos os fermento-destilados produzidos no Brasil, elaborados a partir do caldo da cana-de-açúcar, do melado e da rapadura”. S.m.j., a cachaça é feita só do caldo de cana-de-açúcar. Melado e rapadura podem ser adicionados depois para adoçar e colorir a bebida – eu particularmente sou contra, e pode induzir o consumidor a erro quanto ao envelhecimento em madeira, que também altera a cor da bebida. A adição do melado na fermentação, ou melhor, a própria fermentação do melado, não é característica do rum?.
Deve ser estimulada a produção de cachaça sem quaisquer aditivos, mesmo melado e rapadura, e já que se procura qualidade, porque não limitar a cabeça e a cauda a 15% cada?
Eu gosto de branca, não envelhecida e não adoçada.
Estandardização: embora seja um anglicismo há muito reconhecido, é danado de feio. Porque não “padronização” mesmo, ou a derivação de “estandarte”, de mesma origem que “standard”, “estandartização”, também aceita?
Vasilhame: o litro deve ser obrigatório, como de praxe nos destilados, para não confundir o consumidor quanto a quantidade.
Rótulo e regulação: deve constar do rótulo se o produto é “engarrafado na origem” ou alhures, uma garantia ao consumidor de não adulteração posterior; e informações sobre envelhecimento em madeira (qual madeira), e adição de açúcar, melado ou rapadura para adoçamento ou colorização, características que devem ser regulamentadas para não desvirtuar a cachaça.
Cachaça x rum: “Art. 5º Para efeito desta Lei, entende-se por Cachaça de Alambique e por Cachaça de Coluna ou Aguardente de Cana-de-Açúcar todos os fermento-destilados produzidos no Brasil, elaborados a partir do caldo da cana-de-açúcar, do melado e da rapadura”. S.m.j., a cachaça é feita só do caldo de cana-de-açúcar. Melado e rapadura podem ser adicionados depois para adoçar e colorir a bebida – eu particularmente sou contra, e pode induzir o consumidor a erro quanto ao envelhecimento em madeira, que também altera a cor da bebida. A adição do melado na fermentação, ou melhor, a própria fermentação do melado, não é característica do rum?.
Deve ser estimulada a produção de cachaça sem quaisquer aditivos, mesmo melado e rapadura, e já que se procura qualidade, porque não limitar a cabeça e a cauda a 15% cada?
Eu gosto de branca, não envelhecida e não adoçada.
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
Remero em Porto Madero
Domingo de carnaval, usufruindo das benesses do Mercosul, inconformado com as barreiras alfandegárias ao bom vinho de lá, flagrei este desinibido e exposto esportista metropolitano. Há quem tema que o vinho barato argentino possa matar o vinho barato de cá. É provável. Quanto aos bons, com ou sem proteção não se compara. Preconiza-se um valor fixo por garrafa, independente do preço, o que derrubaria a importação do barato, e baratearia os bons. Perderíamos alguns dólares para eles, mas eu tenho certeza que não é essa a questão. É o trocado aos cofres públicos.
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Massa, matéria, dinheiro

“Matéria atrai matéria, na razão direta das massas, e na razão inversa do quadrado das distâncias”. Vi a primeira vez a fórmula da gravidade de Newton em algum dos livros da coleção infantil de Monteiro Lobato, um daqueles em que o Visconde de Sabugosa tem um papel importante, e a turma viaja pelo Sistema Solar cheirando pó de pirlimpimpim. Outro dia, pensando sobre as bolhas dos mercados e a crise, países pobres e países ricos, lembrei do dito popular “dinheiro chama dinheiro”. E não pude deixar de fazer o paralelo entre os dois enunciados. “Dinheiro atrai dinheiro, na razão direta das massas, e na razão inversa do quadrado das distâncias”. Quanto mais rico, mais rico, e quanto mais pobre e mais longe do dinheiro, mais pobre.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Globalista

abc news
O que anda pela minha cabeça, além dos piolhos (externos) e minhocas (internas) de sempre, é a velha discussão em torno do futuro do mercado globalizado, aquecida pela crise mundial global total, entre os defensores do livre comércio e os protecionistas. Estou iniciando a leitura do livro para leigos, “Bad Samaritans – The Myth of Free-Trade and the Secret History of Capitalism”, de Ha-Joon Chang, um economista coreano que esteve por aqui há algumas semanas, professor de Cambridge e chapa do prêmio Nobel Stiglitz, que ao que parece repete as mesmas idéias em vários livros, e vou saboreando o seu inglês fácil de estrangeiro pra me manter também eu globalizado. É engraçado como o que ele diz, ou disse, em 2007, contrasta com o que estamos vendo dia a dia nos jornais, os EUA levantando a bandeira do protecionismo pra reduzir a velocidade da sua acachapante marcha de desemprego, e o Brasil armando uma força-tarefa para ir à OMC em defesa do livre comércio. Chang acha que o comércio entre países deve ser ponderado por regras de equilíbrio, pois não se pode pôr no mesmo ringue um lutador de sumô de duzentos quilos para lutar com um etíope de quarenta e cinco. Diz que a história não deturpada pelos ricos mostra que os ricos só ficaram ricos com medidas protecionistas, e o papo do livre-comércio é imposição dos ricos pra enfiar seus produtos à vontade nos pobres, por eles nunca adotado. E que os ricos, depois que ficam ricos, chutam a escada pra ninguém mais poder subir. E que a OMC, o FMI e o Banco Mundial são instituições controladas pelos ricos para enfiar goela abaixo dos pobres o livre comércio, condicionado os empréstimos e ajutórios à adoção das políticas do mau samaritano. O rei Obama está nu?
terça-feira, fevereiro 03, 2009
quinta-feira, dezembro 11, 2008
Não sou corintiano

Fucei, procurei, mas não consegui nada muito concreto. O John Lade abaixo mencionado era um “corinthian”, assim como o seu amigo o Príncipe de Gales que virou o rei George IV, depois de um período de regência durante a doença mental do seu pai, o George III. Existe até uma obra sobre este George IV chamada “The Great Corinthian”. Não sei ao certo se houve de fato um primeiro clube Corinthians no século XVIII ou não, mas parece que é certo que enquanto se preparava a Revolução Francesa, os jovens nobres ingleses dissolutos se aplicavam nos esportes, como o box, o turfe, a esgrima, a caça, o cricket, e também, ao reverso da moeda, em apostas, jogos de azar, bebida e mulheres. E, por algum motivo que eu não sei qual é, se intitularam “sportsmen” e “corinthians”. Parece que há alguma ligação com o fato da antiga Corinto grega ter uma certa fama. O fato é que a expressão “corinthian” assumiu o significado do ideal amador do esporte, e assim aparece na crônica londrina do período da regência, sempre para identificar um nobre esportista. Nessa época surgiram os personagens de Pierce Egan, que fizeram muito sucesso, “Tom and Jerry” (expressão que virou sinônimo de confusão), ou melhor, Corinthian Tom e Jerry Hawthorn, em “Life in London or The Day and Night Scenes of Jerry Hawthorn Esq. and his Elegant Friend Corinthian Tom”, certamente os avós literários do gato e rato do desenho animado. Há uma referência mais antiga em Shakespeare, “I am no proud Jack, like Falstaff; but a Corinthian, a lad of mettle, a good boy.” — Henry IV., ii. 4”, que deve estar na origem de tudo, significando um cara durão e legal, eu acho. Com a popularização da expressão e o seu significado de ideal esportivo centenas de clubes foram criados no mundo inteiro, particularmente clubes de vela, e especialmente, o famoso clube de futebol inglês, de elevado padrão ético, que em passagem por aqui inspirou a criação do famoso clube paulista de nobre origem operária. O engraçado é que o nome "Corinthians" significa "corintianos".
quinta-feira, novembro 27, 2008
Lady Lade

A mulher neste retrato é Lady Lade, nascida, segundo algumas fontes internéticas e inseguras Smith, segundo outras, na improvável família Derby. Improvável porque, como se vê na pintura, o negócio da moça era mesmo cavalo. Maneja as quatro rédeas com tranqüilidade – não entendo nada de equitação, mas imagino serem duas para o freio, e duas para o bridão, para controlar cavalos difíceis – com postura perfeita, montada em um cilhão, ou seja, o arreio do tempo em que não ficava bem para uma dama abrir as pernas em público, nem em cima de um cavalo. Nota-se também que o cavalo, por própria indocilidade ou exibicionismo da amazona, empina sobre as patas traseiras, indicando que o artista pretendeu salientar as virtudes eqüestres da retratada.
É um quadro encomendado pelo então Príncipe de Gales, no século XVIII, que veio a ser o rei George IV da Inglaterra, a George Stubbs, um especialista em pinturas eqüestres. Ao que consta, o retrato sempre foi pouco visto, pois nas últimas centenas de anos esteve pendurado em uma das mais recônditas câmaras do Castelo de Windsor.
Conhecendo a história da ginete, fica fácil imaginar o porquê. Nascida no seio magro da “working class”, biógrafos (eufemistas talvez) dizem que ela trabalhou como “servant” em um bordel, mas o fato dela ser jovem, bonita, mal nascida e morando em um lupanar nos autoriza a imaginar que provavelmente a futura amiga do rei tenha recebido alguns presentes em retribuição a favores sexuais.
Quem a tirou daquele lugar foi o lendário criminoso salteador de estradas (highwayman), John “Sixteen String Jack” Rann. O apelido entre aspas é porque o dândi se vestia de maneira extravagante e exuberante. Como assaltante, era um craque nos cavalos e veículos de tração eqüina, habilidades que transmitiu à namorada. Quando foi preso e enforcado em 1774, Laetitia Smith ou Derby tornou-se amante do Duque de York e algum tempo depois, do milionário Sir John Lade, seduzido por sua perícia eqüestre, com quem veio a se casar, sob protestos da sociedade e da família, em 1787.
Sir John era um estróina, pródigo, perdulário, gastador, viciado em corridas de cavalos, que dissipou toda a sua imensa fortuna futilmente, enfim, um genuíno e pioneiro “sportsman” britânico, de quem se cogita uma ligação com o famoso salteador nos negócios de cavalo, ele próprio um ousado ginete colecionador de façanhas. Daí a sua proximidade com o Príncipe de Gales, também aficcionado do turfe. A histórica fofoca prossegue com a insinuação de que o futuro rei arrastava uma asa real para a moça, proibida por ser mulher do amigo (será?), daí a encomenda do retrato. E Laetitia se destacava na turma, que tinha o mau hábito de tirar perigosos rachas, montados ou pilotando poderosos carros de quatro cavalos, nos locais mais inconvenientes.
Figura interessantíssima, não é? Pra apimentar um pouco mais a história, podemos imaginar que Laetitia e o salteador John Rann, com suas extravagantes indumentárias, fossem a mesma pessoa, e tenham enforcado alguém no seu lugar para que ela pudesse livremente flanar com o Duque de York, Sir John Lade, e sua majestade.
É um quadro encomendado pelo então Príncipe de Gales, no século XVIII, que veio a ser o rei George IV da Inglaterra, a George Stubbs, um especialista em pinturas eqüestres. Ao que consta, o retrato sempre foi pouco visto, pois nas últimas centenas de anos esteve pendurado em uma das mais recônditas câmaras do Castelo de Windsor.
Conhecendo a história da ginete, fica fácil imaginar o porquê. Nascida no seio magro da “working class”, biógrafos (eufemistas talvez) dizem que ela trabalhou como “servant” em um bordel, mas o fato dela ser jovem, bonita, mal nascida e morando em um lupanar nos autoriza a imaginar que provavelmente a futura amiga do rei tenha recebido alguns presentes em retribuição a favores sexuais.
Quem a tirou daquele lugar foi o lendário criminoso salteador de estradas (highwayman), John “Sixteen String Jack” Rann. O apelido entre aspas é porque o dândi se vestia de maneira extravagante e exuberante. Como assaltante, era um craque nos cavalos e veículos de tração eqüina, habilidades que transmitiu à namorada. Quando foi preso e enforcado em 1774, Laetitia Smith ou Derby tornou-se amante do Duque de York e algum tempo depois, do milionário Sir John Lade, seduzido por sua perícia eqüestre, com quem veio a se casar, sob protestos da sociedade e da família, em 1787.
Sir John era um estróina, pródigo, perdulário, gastador, viciado em corridas de cavalos, que dissipou toda a sua imensa fortuna futilmente, enfim, um genuíno e pioneiro “sportsman” britânico, de quem se cogita uma ligação com o famoso salteador nos negócios de cavalo, ele próprio um ousado ginete colecionador de façanhas. Daí a sua proximidade com o Príncipe de Gales, também aficcionado do turfe. A histórica fofoca prossegue com a insinuação de que o futuro rei arrastava uma asa real para a moça, proibida por ser mulher do amigo (será?), daí a encomenda do retrato. E Laetitia se destacava na turma, que tinha o mau hábito de tirar perigosos rachas, montados ou pilotando poderosos carros de quatro cavalos, nos locais mais inconvenientes.
Figura interessantíssima, não é? Pra apimentar um pouco mais a história, podemos imaginar que Laetitia e o salteador John Rann, com suas extravagantes indumentárias, fossem a mesma pessoa, e tenham enforcado alguém no seu lugar para que ela pudesse livremente flanar com o Duque de York, Sir John Lade, e sua majestade.
segunda-feira, novembro 24, 2008
Uma história pra contar

Como dizem os esportistas, uns voltam com a medalha, outros com uma história pra contar. Sábado fiz a minha melhor prova, um tempo ótimo, mas não tive lá muita sorte. Meu contato em Porto Alegre, que ficou de arrumar o barco, não conseguiu nada até o fim da tarde da véspera. Acabei conseguindo um legal de um clube daqui, que ia usar um barco do meu clube pra outra prova. Mas só deu pra dar uma voltinha, com um vento infernal, sem poder regular nada. Na hora da largada, no dia seguinte, cheguei na cabeceira da raia e tinha partidor pra todos menos pra mim, porque haviam instalado errado e um dos partidores estava na raia de retorno. Havia um forte vento lateral e fui muito prejudicado, já que todos tinham gente para segurar o barco menos eu. Larguei em último, com o juiz na lancha gritando pra eu me afastar dos outros barcos, me ameaçando de desclassificação, quando na verdade os outros que estavam vindo pra cima de mim (lá não tem balizamento), o que me atrapalhou um pouco. Deixei estes dois barcos pra trás, e quando vi estava emparelhado com o terceiro, que vinha pelo lado oposto da raia, no lado protegido do vento, perto dos clubes. Fui olhar de novo só quando estava já ouvindo a gritaria do público, lá no final, e ele estava do meu lado (segundo meu time, eu estava um pouco à frente), e remei forte até o final, com a impressão de ter chegado na frente. Cheguei na premiação depois, pois estava lá no meio do canal, na raia de fora, e ouvi que o terceiro havia sido o cara. Depois saíram os tempos e o meu era menos de 1 segundo atrás do cara (3'52"6 e ele 3'51"7). Na outra bateria da minha classe, que veio logo na seqüência, meu tempo daria o segundo lugar. Pena.
segunda-feira, novembro 17, 2008
quarta-feira, outubro 22, 2008
Samuel Pallache

Foi na casa dele que a Maria Nunes Pereira foi trabalhar quando chegou em Amsterdam. E foi o grande patrocinador da primeira sinagoga daquela cidade, fundada em 1598, ano do registro do casamento da Maria, e o mesmo ano em que Grócio se doutorou na Universidade de Orleans, aos 15 anos.
Segundo o verbete da Wikipedia, Samuel Pallache intermediou um acordo de mútua assistência Holanda-Marrocos contra a Espanha com Maurício de Nassau, encontrando o príncipe em Haia em 23 de junho de 1608, (um ano antes da trégua e da publicação do Mare Liberum), tratado assinado em 24 de dezembro de 1610. Nassau mexendo os seus pauzinhos. Depois se descobriu que Pallache era agente duplo, e também atuava em favor da Espanha. Nassau lhe outorgou licença de corso e ele capturava os seus naviozinhos portugueses, sustentado pelo parecer do Grócio. Pena que todas as fontes do verbete estão em dutch. Mas há um livro inteiro escrito sobre esta interessantíssima figura.
Maria Nunes Pereira e Hugo Grócio poderiam ter se conhecido na casa de Pallache.
terça-feira, outubro 21, 2008
Oldenbarnevelt

“In January 1609, Grotius attended a series of three-way meetings in The Hague between Oldenbarnevelt, the VOC directors and members of de Dutch Admiralty Board. He was invited on the basis of hes credentials as VOC lobbyst, not in his official capacity as Advocate-Fiscal of Holland. Oldenbarnevelt had called the meetings to discuss the implications of a Truce treaty for the VOC and, more importantly, to reassure its directors that they could continue to 'borrow' warships, guns and ammunition from the Dutch Admiralty Board." (Martine Julia van Ittersum, "Preparing Mare Liberum for the press: How Hugo Grotius Rewrote Chapter 12 of De Jure Praedae, November 1608 - February 1609.").
É uma nota de rodapé de um artigo recente dessa Martine, uma historiadora holandesa. VOC é a Companhia Holandesa das Índias Orientais, a cliente do Hugo, para quem escreveu o De Jure Praedae, do qual o Mare Liberum é o capítulo 12, a fim de justificar a captura da nau portuguesa Santa Catarina (um monstro de 1400 toneladas, com 700 pessoas a bordo), no estreito de Singapura, em 1603.
No mesmo artigo ela conta que a trégua entre Holanda e Espanha (Felipe III na época era o rei também de Portugal) seria arbitrada pelo rei da França e o rei da Inglaterra, e havia a possibilidade real das atividades da VOC serem afetadas pelas negociações. O propósito inicial do trabalho era obter uma sentença favorável no tribunal do almirantado a respeito da legitimidade do butim, e persuadir acionistas protestantes e sisudos preocupados com a honestidade da façanha a aceitá-la como justa. Obtida a decisão e confortados os acionistas, com a evolução das negociações da trégua a VOC passou a instar Hugo a publicar o capítulo 12, a fim de manipular a opinião pública e os intermediários da trégua, para que o tratado não impedisse suas atividades na Ásia. Só que o negociador da trégua pela Holanda era o Oldenbarnevelt (um nome super legal), o chefe do Grócio na carreira pública, que entendeu que a divulgação do Mare Liberum seria nociva às negociações, e mandou o Grócio adiar a publicação até a assinatura (em abril de 1609), e expurgá-la de referências à América e abrandar os termos ofensivos à Espanha e Portual. Em compensação, excluiu da trégua as operações bélicas da VOC na Ásia (“privateering”, embarcações militares privadas comissionadas pelo governo holandês), atendendo assim aos interesses da Companhia. Quem saiu perdendo foi o Maurício de Nassau, que era o comandante militar da Holanda e tinha o seu poder e prestígio dependentes da guerra, e depois veio pegar o Grócio na curva.
Certamente podemos imaginar a heróica Pereira nas reuniões da VOC com Oldenbarnevelt, ou melhor ainda, em uma reunião secreta do Oldenbarnevelt (adoro esse nome), Jeannin (o representante da França) e Wotton (da Inglaterra), para negociar a emenda secreta ao tratado de trégua que garantiu os interesses da VOC.
É uma nota de rodapé de um artigo recente dessa Martine, uma historiadora holandesa. VOC é a Companhia Holandesa das Índias Orientais, a cliente do Hugo, para quem escreveu o De Jure Praedae, do qual o Mare Liberum é o capítulo 12, a fim de justificar a captura da nau portuguesa Santa Catarina (um monstro de 1400 toneladas, com 700 pessoas a bordo), no estreito de Singapura, em 1603.
No mesmo artigo ela conta que a trégua entre Holanda e Espanha (Felipe III na época era o rei também de Portugal) seria arbitrada pelo rei da França e o rei da Inglaterra, e havia a possibilidade real das atividades da VOC serem afetadas pelas negociações. O propósito inicial do trabalho era obter uma sentença favorável no tribunal do almirantado a respeito da legitimidade do butim, e persuadir acionistas protestantes e sisudos preocupados com a honestidade da façanha a aceitá-la como justa. Obtida a decisão e confortados os acionistas, com a evolução das negociações da trégua a VOC passou a instar Hugo a publicar o capítulo 12, a fim de manipular a opinião pública e os intermediários da trégua, para que o tratado não impedisse suas atividades na Ásia. Só que o negociador da trégua pela Holanda era o Oldenbarnevelt (um nome super legal), o chefe do Grócio na carreira pública, que entendeu que a divulgação do Mare Liberum seria nociva às negociações, e mandou o Grócio adiar a publicação até a assinatura (em abril de 1609), e expurgá-la de referências à América e abrandar os termos ofensivos à Espanha e Portual. Em compensação, excluiu da trégua as operações bélicas da VOC na Ásia (“privateering”, embarcações militares privadas comissionadas pelo governo holandês), atendendo assim aos interesses da Companhia. Quem saiu perdendo foi o Maurício de Nassau, que era o comandante militar da Holanda e tinha o seu poder e prestígio dependentes da guerra, e depois veio pegar o Grócio na curva.
Certamente podemos imaginar a heróica Pereira nas reuniões da VOC com Oldenbarnevelt, ou melhor ainda, em uma reunião secreta do Oldenbarnevelt (adoro esse nome), Jeannin (o representante da França) e Wotton (da Inglaterra), para negociar a emenda secreta ao tratado de trégua que garantiu os interesses da VOC.
sexta-feira, outubro 17, 2008
A reta razão

Parece que o Grócio foi muito feliz com seu casamento arranjado, e a sua mulher desempenhou um importantíssimo papel quando o jurista foi preso por Maurício de Nassau, no castelo de Loevestein. Ele obteve do seu ex-cliente permissão para receber livros, que eram transportados em um baú, e numa dessas idas e vindas, em um momento que que a rotina fez relaxar a vigilância, sua esposa Maria Reigersberg fez furos disfarçados no baú, nele introduzindo Hugo, que conseguiu fugir para a França.
O seu gosto pela polêmica, pela defesa de posições perigosas e minoritárias, o habilita à parceria com a heróica Pereira. Dizem que, ainda adolescente, converteu a mãe ao protestantismo porque ela seria inteligente demais para ser papista, o que mostra o seu respeito pela inteligência feminina, talvez incomum para a época (o respeito, não a inteligência, é claro).
E no “De jure belli ac pacis” não considera justa a guerra religiosa: “a melhor razão em favor da opinião que nega que tais guerras sejam justas é aquela que Deus basta para punir as faltas que se cometem contra Ele”, argumento suficiente para derrubar a Inquisição e seus processos, caso fossem suscetíveis à reta razão.
quinta-feira, outubro 16, 2008
Porque não?

A Maria Nunes Pereira, forçada a se mudar para os Países Baixos em busca de liberdade religiosa, poderia, por uma reviravolta do destino, ter conhecido Hugo Grócio, Huig de Groot, ou Grotius, um dos pais do direito internacional e do direito natural, de quem poderia ter se tornado protegida. Talvez ele se encantasse com a sua brilhante inteligência e assustadora beleza e a tomasse como assistente. Grócio estaria escrevendo o capítulo da sua obra sobre o direito ao butim, por encomenda da Companhia Holandesa das Índias Orientais, e a Pereira, conhecedora da obra dos escolásticos ibéricos, como Francisco de Vitória, que teria estudado antes da fuga para tentar uma eventual defesa frente a inquisição, que rapidamente perceberia inútil, auxiliaria o mestre a derrubar os argumentos de tratados como Tordesilhas, que estabeleciam privilégios marítimos e territoriais às potências ibéricas, utilizando os argumentos dos próprios juristas ibéricos, desenvolvidos para tentar justificar catolicamente a conquista e subjugação dos gentios dentro de certos limites.
Por uma outra reviravolta do destino, a Pereira seria incumbida de entregar o manuscrito que iria mudar o mundo em uma reunião de reis com o papa, ou no mínimo com altíssimos dignatários, talvez por ser necessário um portador com condições de discutir o trabalho, ante um súbito impedimento de Grócio.
Por uma outra reviravolta do destino, a Pereira seria incumbida de entregar o manuscrito que iria mudar o mundo em uma reunião de reis com o papa, ou no mínimo com altíssimos dignatários, talvez por ser necessário um portador com condições de discutir o trabalho, ante um súbito impedimento de Grócio.
quarta-feira, outubro 15, 2008
A heróica Pereira

(http://www.esnoga.com/)
“Os criptojudeus de Portugal sentiram então, em toda a sua plenitude, a tirania espanhola e nenhum perigo era considerado demasiado em se tratando de fugir do País e procurar liberdade e tolerância em outro canto da terra.
Uma corajosa mulher portuguesa, Mayor Rodrigues, com seu marido Gaspar Lopes Homem, seus filhos Manuel e Antônio Lopes Pereira e suas filhas Maria Nunes e Justa Lopes Pereira, prepararam-se para emigrar no ano de 1590. Os irmãos Manuel e Maria, esta de rara beleza, embarcaram com seu tio Miguel Lopes, com destino à Holanda. Durante a viagem foram capturados por um navio inglês que perseguia os que navegavam sob a bandeira hispano-portuguesa e levados prisioneiros para Londres. A beleza de Maria seduziu o capitão do navio, um duque inglês, a ponto de pedir-lhe a mão em casamento. As relações da bela portuguesa com o duque chegaram aos ouvidos da Rainha Elisabeth que ordenou que lhe trouxessem Maria, a qual tratou com especial consideração: levou-a de carruagem pelas ruas da capital a fim de que os habitantes pudessem ver esta deslumbrante beleza. Maria não deu importância a tais honrarias, não deu atenção aos insistentes pedidos de sua majestade, nem às ofertas honrosas do duque: apenas pediu sua liberdade. Deixou a Inglaterra e, com seus parentes, lançou, por assim dizer, o fundamento da grande comunidade de Amsterdão.” (Kayserling, História dos judeus em Portugal).
Pode ser verdade.
Li em outra fonte que logo ao chegar em Amsterdam, ela e outros criptojudeus tiveram sua cultura religiosa restaurada por um rabino ashkenazem, incluindo a circuncisão dos adultos, e foram trabalhar na casa de Don Samuel Pallache, um famoso espanhol sefaradi embaixador do imperador do Marrocos, agente duplo entre Espanha e Países Baixos, e corsário no Índico. O registro do casamento de Maria é de 1598, ano em que se iniciaram as atividades da sinagoga de Amsterdam.
Uma corajosa mulher portuguesa, Mayor Rodrigues, com seu marido Gaspar Lopes Homem, seus filhos Manuel e Antônio Lopes Pereira e suas filhas Maria Nunes e Justa Lopes Pereira, prepararam-se para emigrar no ano de 1590. Os irmãos Manuel e Maria, esta de rara beleza, embarcaram com seu tio Miguel Lopes, com destino à Holanda. Durante a viagem foram capturados por um navio inglês que perseguia os que navegavam sob a bandeira hispano-portuguesa e levados prisioneiros para Londres. A beleza de Maria seduziu o capitão do navio, um duque inglês, a ponto de pedir-lhe a mão em casamento. As relações da bela portuguesa com o duque chegaram aos ouvidos da Rainha Elisabeth que ordenou que lhe trouxessem Maria, a qual tratou com especial consideração: levou-a de carruagem pelas ruas da capital a fim de que os habitantes pudessem ver esta deslumbrante beleza. Maria não deu importância a tais honrarias, não deu atenção aos insistentes pedidos de sua majestade, nem às ofertas honrosas do duque: apenas pediu sua liberdade. Deixou a Inglaterra e, com seus parentes, lançou, por assim dizer, o fundamento da grande comunidade de Amsterdão.” (Kayserling, História dos judeus em Portugal).
Pode ser verdade.
Li em outra fonte que logo ao chegar em Amsterdam, ela e outros criptojudeus tiveram sua cultura religiosa restaurada por um rabino ashkenazem, incluindo a circuncisão dos adultos, e foram trabalhar na casa de Don Samuel Pallache, um famoso espanhol sefaradi embaixador do imperador do Marrocos, agente duplo entre Espanha e Países Baixos, e corsário no Índico. O registro do casamento de Maria é de 1598, ano em que se iniciaram as atividades da sinagoga de Amsterdam.
sexta-feira, outubro 10, 2008
terça-feira, dezembro 25, 2007
Pacote difícil
Acabei de ler “O jardineiro fiel” e rever o filme. Os dois são ótimos, a mesmíssima história contada em linguagens diferentes, uma experiência profunda. A força das imagens da África com as cores estouradas e a câmara na mão, ao som da música dos coros e tambores. Dou a mão à palmatória e o Ralph Fiennes faz perfeitamente o papel do Justin Quayle. Quem tem bons olhos para o cinema percebeu logo, eu tive que ler o livro pra compreender o personagem tão fielmente traduzido. O livro explica uma série de códigos de classe e as sutilezas dos diplomatas ingleses na condução de suas guerras, como uma passagem em que se acusa os recém saídos da universidade de terem sotaques insossos, ou o estilo tory de fazer um relato, como se fosse uma lista de compras. Não lembrava que a Tessa era advogada. Tem uma pesquisa sólida sobre a indústria farmacêutica, antecipando as denúncias de Marcia Angell.
Mas todo esse pacote foi atropelado pelo maravilhoso “A vida dos outros”, assistido meio por acaso enquanto procurávamos um lugar pra comer no 23, quase todos os restaurantes fechados, quando resolvemos checar a renovada Sala Ig, ex-Uol (uma vez fiameta, sempre fiameta), e tinha lá uma sessão dali a quarenta minutos. Só sobrava tempo para um x-salada no fiel hamburguinho. Sobre o filme não dá para falar pouco. Rendeu uma conversa de uns quinze minutos com o sócio, na manhã do 24. 25, “O amor nos tempos do cólera” no shopping deserto. Feliz Natal.
Mas todo esse pacote foi atropelado pelo maravilhoso “A vida dos outros”, assistido meio por acaso enquanto procurávamos um lugar pra comer no 23, quase todos os restaurantes fechados, quando resolvemos checar a renovada Sala Ig, ex-Uol (uma vez fiameta, sempre fiameta), e tinha lá uma sessão dali a quarenta minutos. Só sobrava tempo para um x-salada no fiel hamburguinho. Sobre o filme não dá para falar pouco. Rendeu uma conversa de uns quinze minutos com o sócio, na manhã do 24. 25, “O amor nos tempos do cólera” no shopping deserto. Feliz Natal.
sábado, dezembro 08, 2007
Feérica

A gloriosa blogueira dramaturga cronista arquiteta Lúcia Carvalho publicou dias atrás em sua coluna mensal na revista Morar, da Folha, um ataque às luzinhas de natal, quando mal se iniciava a temporada. Agora, que elas efetivamente já tomaram conta da cidade, depois de intensa e ponderada reflexão, falo das minhas perplexidades sobre o tema profundo e complexo, com o perdão da flexibilização das aliterações em x. É claro que ela tem razão. É infantil, é cafona, e além disso um enorme e inútil desperdício de energia, totalmente incorreto nesses tempos de aquecimento global. Mas temos que assumir que é lindo, com sempre são as luzes na escuridão, especialmente com o intencional efeito de joalheria. Diamantes, pérolas, rubis e esmeraldas sobre o veludo negro da noite. A cidade à noite, sóbria e séria, de repente vira uma animada quermesse, um parque de diversões, um baile mítico e atemporal que incita o departamento de fantasias a tomar conta do ambiente mental do cidadão. Todo ano penso em comprar na Santa Ifigênia uma rolão dessas luzinhas e empetecar a minha casa, mas sempre deixo pra lá. No máximo as modestas coloridas piscantes da árvore de natal que temos já há um tempão. Falta pra mim, como falta pra muita gente, assim como provavelmente à própria Lúcia, a convicção necessária pra superar a autocrítica do ridículo que é despender dinheiro, tempo e energia elétrica numa inutilidade fútil e cafona dessas. Mas é de se admirar quem se dá ao trabalho de contribuir para a iluminação espiritual de todos, especialmente quando se faz sem intuito de lucro, como o comerciante que só quer chamar a atenção para o seu negócio. Fiquei impressionado com a iluminação das pontes sobre o Rio Pinheiros, ao que eu saiba inéditas. Será que o Kassab está em campanha? E não posso concordar com a idéia da Lúcia de que para organizar o bandalho e proteger o landscape seria melhor que os arquitetos prevessem no projeto a localização de luzes natalinas fixas. Seria esquisito como maquiagem permanente.
terça-feira, novembro 20, 2007
Amêndoas Amargas
Ontem fui assistir ao "Leões e cordeiros", filme-planfeto anti-bush anti-guerra anti-terror anti-apatia dos comedores de hambúrgueres e batatas fritas. Previsível, pra dizer o mínimo. E antes o trailer do "Amor nos tempos do cólera", baseado no livro do Gabriel Garcia Marquez. Lembrei que li o livro nos oitenta e seis, oitenta e sete, e não me lembrava nada além do título. Depois de perder uns bons dez minutos procurando na nossa bagunçada estante, sofregamente reli de cabo a rabo, na modorra do feriado. O livro abre com a descrição de uma cena de suicídio descoberta pela manhã, a partir do cheiro de amêndoas amargas. Logo se sabe que a morte foi pela vaporização do cianureto, que exala este aroma característico. Lembrei que quando parei de fumar uma das distrações para a ansiedade eram ameixas pretas, que eu comia e ficava roendo o caroço, até uma vez o caroço quebrou e descobri lá dentro uma pequena amêndoa, com um acentuado sabor de amêndoa, um que não é evidente na noz em natura, mas no amareto ou no marzipan. Conversando por acaso com um médico sobre o fato, ele disse que esta amêndoazinha da ameixa tinha um alto teor de cianureto, ou uma substância aparentada a ele. Mas só lendo o livro do Garcia pude fazer a relação entre o aroma, o veneno, e a sua vaporização. Comentei espantado com a minha filha vestibulanda que passava, que acrescentou que era o aroma sentido nos campos de concentração nazistas quando se ligava o gás, conforme aprendeu no cursinho. Isso tudo só no primeiro parágrafo. No livro todo os aromas, odores, cheiros e fedores têm papel importante, assim como a berinjela.
domingo, novembro 18, 2007
Pura ficção


A pujante vegetação do baldio do lado, outrora objeto da minha cobiça.
XVI
Victor, na seqüência da sua pesquisa, foi dar em um médico do interior que logo ao início da epidemia do vírus HIV elaborou um programa de saúde pública de combate a este e demais DSTs, aproximou-se do governo do estado e conseguiu implantá-lo. O sucesso evidente em nível estadual e a conquista do governo tucano levaram o programa para a esfera federal. A sua permanência na evolução da discussão das patentes de medicamentos na OMC, a conquista da brecha para a licença forçada em caso de estado de necessidade. A luta contra os grandes laboratórios que tentaram fechar a brecha em regulamentos posteriores, e a aparente virada do jogo, com a implantação dos planos estatais de administração do mercado de medicamentos e o seu enorme poder de negociação de preços, pelo menos nas praças pobres. E quando a corda estourou, foi licenciada à força a patente de um medicamento da primeira linha de combate ao vírus. Mais ou menos contemporâneo a estes fatos foi a sua prematura demissão na coordenação do programa de combate ao vírus na OMS, e andava agora em discussões, debates em Harvard. Teria mordido a isca? Victor não acreditava nisso. Estava entrando na boca do dragão, novamente. Tinha que falar com ele.
Victor, na seqüência da sua pesquisa, foi dar em um médico do interior que logo ao início da epidemia do vírus HIV elaborou um programa de saúde pública de combate a este e demais DSTs, aproximou-se do governo do estado e conseguiu implantá-lo. O sucesso evidente em nível estadual e a conquista do governo tucano levaram o programa para a esfera federal. A sua permanência na evolução da discussão das patentes de medicamentos na OMC, a conquista da brecha para a licença forçada em caso de estado de necessidade. A luta contra os grandes laboratórios que tentaram fechar a brecha em regulamentos posteriores, e a aparente virada do jogo, com a implantação dos planos estatais de administração do mercado de medicamentos e o seu enorme poder de negociação de preços, pelo menos nas praças pobres. E quando a corda estourou, foi licenciada à força a patente de um medicamento da primeira linha de combate ao vírus. Mais ou menos contemporâneo a estes fatos foi a sua prematura demissão na coordenação do programa de combate ao vírus na OMS, e andava agora em discussões, debates em Harvard. Teria mordido a isca? Victor não acreditava nisso. Estava entrando na boca do dragão, novamente. Tinha que falar com ele.
Sua outra linha de pesquisa foi ler, com um copo de uísque com gelo lentamente derretendo ao seu lado, ouvindo música que o fazia sentir-se inteligente, como as peças de câmara de Bach, ou os quartetos de Beethoven, o livro de Márcia Angell, “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, uma médica de Harvard, editora de uma importante revista médica da Nova Inglaterra, denunciando a cobiça desumana dos laboratórios farmacêuticos, as mais lucrativas indústrias do mundo, abusando dos medos da população com a exploração da ganância dos médicos. Ou algo tão tenebroso quanto. O cruzamento desta três fontes, a trajetória de médico do interior, a explosiva história do laboratório nacional de genéricos Mercury, dentro do panorama pessimista da indústria mundial pintado por Marcia determinariam o seu plano. Só tinha que pensar como o bandido.
sábado, novembro 17, 2007
Zumbido na linha

Acabou de sair daqui o terceirizado da telefônica, o que faz o telefone funcionar pra dentro da casa, mediante um contrato de dois, três reais por mês. Tem umidade no conduíte. Quando mudamos, lutamos uns dois anos até matar um ponto contaminado, substituir os conduítes por um caminho mais seco, e estávamos já há vários anos sem problemas. Mas de uns tempos pra cá o zumbido da linha voltou. O Francisco cordialmente se apresentou, estendeu a mão perguntando o meu nome, disse e apertei a sua mão com firmeza. Logo descobriu onde estavam as caixinhas de passagem externas e foi correndo para elas. Avisei que eram duas linhas e a que estava com problemas era a que está conectada ao alarme. Mostrei a caixinha de passagem interna e esperei o diagnóstico óbvio. Umidade. Cortou a ponta dos fios, substituiu a tomada do primeiro ponto, e gritou que estava pronto. Ponderei com ele que se havia a infiltração era uma questão de tempo para o problema voltar. Quando percebeu que eu não esperava nenhum milagre, disse que como eu era um cara “que entende”, sugeria a utilização da rede elétrica para transmitir o sinal do telefone, podendo utilizar qualquer tomada para isso. Legal, eu disse, vamos esvaziar os conduítes. Despedimo-nos cordialmente e bati o portão de treliça. Alguém sabe alguma coisa sobre isso?
sexta-feira, novembro 16, 2007
O vulto

Tinha um mendigo parado na minha porta há um tempão. Eu, da minha torre, via o vulto atrás da treliça. Tocou a campainha e a empregada ignorou. Às vezes elas usam a tática de fingir de morto, pra ver se o cara vai embora. Só que este não ia. Pegou um “folder” (né, Jayme) mal enfiado na caixa do correio, desdobrou ele inteiro, deu uma longa olhada e enfiou de novo. Daí fui procurar a câmera pra tirar uma foto do vulto, talvez uma depois que ele saísse andando, pra mostrar aqui. O flash (fleche, como diria a Franka) que não devia ter disparado talvez tenha chamado a sua atenção. Ele conseguiu dar um grito telepático, e eu acabei descendo, pensando em enxotá-lo dali, polidamente. Fui lá e era o piscineiro polidamente irritado, falando que tocou a campainha três vezes e ninguém atendeu. É nosso piscineiro há uns nove anos, desbancou o anterior com uma proposta irrecusável de cenzão por mês com produto, a piscina está sempre limpa e nunca o vejo, vêm religiosamente terça e sexta. Sempre andou de carro legal, lembro de uma saveiro vermelha tunada. Achei que era um rapaz empreendedor, que ia subir na vida. Hoje não estou vendo o carrão. Traz o seu próprio equipamento. Hoje me ocorreu que o cara é um verdadeiro elvis, um galã clássico. Será um estereótipo de filme pornô, que come patroas, filhas e empregadas, o homem da mangueira grande? Ele me parece ser um cara super sério e objetivo, que caiu numa armadilha. Acho que ele gasta meia-hora, quarenta minutos com cada casa. Assim, em um dia, ele deve conseguir fazer dez casas. Cinqüenta casas por semana, o que, dividido por dois dá umas vinte e cinco casas, o que rende (agora está em uns cento e trinta por mês) Três mil duzentos e cinqüenta, uma boa grana, deu pra pagar a faculdade mas não dá mais pra largar, pra dar o próximo passo. Agora a piscina está toda agitada, feliz, limpinha, e eu ouço a bomba durante as pausas do “Let it bleed” que eu estou ouvindo. A empregada estava arrumando as camas, por isso não ouviu a campainha.
quinta-feira, novembro 15, 2007
Quando passar dê tchauzinho


O feriado chuvoso e fresco inspira divagações melancólicas. As plantas túrgidas e intumescidas de clorofila balançam com os saltos dos grandes sabiás que tentam cloacar as barulhentas fêmeas no cio. Quarenta e seis minutos e quarenta e um segundos do terceiro dos primeiros quartetos de Beethoven, em ré majeur, o tipo de música que te deixa mais inteligente, já associado a doces memórias de longas divagações alcoólicas andando de um lado para o outro sozinho na sala com um uiscão na mão, com muito gelo para controlar a velocidade e a hidratação, um ritmo todo próprio determinado pela fusão do gelo no álcool amarelo. Aqui na minha torre controlo tudo. A grande parede de vidro à minha esquerda, e o ripado com as mirradas e maltratadas orquídeas penduradas, felizes apesar de tudo, a vista do escritório plantado em cima do pé direito e meio da sala. Por este vidro esquerdo vejo o corpo principal da casa. Primeiro, na quina mais distante de onde estou, o quarto da filha mais nova, pendurado sobre o terracinho em um palito de concreto, desses feito com tubo de papelão espiralado. Depois, o janelão fosco do seu banheiro, de vidro jateado esverdeado, com um dos basculantes permanentemente aberto. Daí a janela igual do banheiro da filha mais velha, e o seu basculante aberto. Na seqüência, a janela do quarto desta filha, quadradona de correr, como as outras, todas ligadas por uma régua de concreto estreito à guisa de beiral pequeno demais, as folhas por fora penduradas num travessão. Continuando, a janela do meu quarto, e a grande chaminé da lareira supostamente alentejana, os tijolos arrumados como castelo de cartas na grelha da saída, em vermelhão de pó xadrez já desbotado, de novo o terracinho do orquidário onde amarro a minha rede, um lugar íntimo porque dá na altura do pé o janelão do meu banheiro, com o inevitável basculante aberto. Esses basculantes são certamente os responsáveis pelo vazamento de pernilongos, uma constatação importante neste início de temporada. Olhando à minha frente, voltado para o sul, o longo corredor sobre a caixa da escada, seis degraus para descer o meio pé direito extra, e um grande vidrão, agora vertical, de pé direito e meio, a falha na privacidade da casa, que devassa parte da cozinha do vizinho, mal coberta por um bambu que nunca chegou lá. Esse espaço estreito de doze metros e altura variável é forrado por uma taquara genuinamente mineira de Botucatu, ainda quase totalmente inteira com dez anos de idade, fora um leve desbeiçamento lateral, nenhum sinal de cupim. No canto direito oposto ao vidrão vertical, um janelão de um metro e meio quadrado e fixo na face oeste, virado para a rua, protegido do poente por uma persiana comum. Vigio o movimento, escrevo sentado para a frente e volta e meia minha visão periférica é acionada por um movimento qualquer, pedintes, garis, carroceiros, distribuidores de panfletos, serviços de gás, tv a cabo, coisas do gênero, nos sábados de manhã esportistas de fim de semana, gente com cachorro, passantes. Mas com essa chuvinha criadeira em pleno feriado não passa ninguém. Consulto o jogador de média, e o disco ainda vai pelo meio.
sexta-feira, outubro 05, 2007
E viva o Guga*
Senhor Fausto Wolff,
Compreendo a sua difícil posição, de ser obrigado a confessar o furto da propriedade intelectual de um colega de profissão, mas lamento o uso da ironia como cortina de fumaça da sua própria vergonha, denunciando o plágio de um outro colega, o Salomão Schwartzman, e pior, atacando um leitor indignado (leitores, além do autor, são também vítimas do plágio) que com toda justiça reclama indenização ao plagiado, expondo seu nome e endereço não para conseguir seus quinze minutos que um e-mail jamais proporcionaria, mas para evitar ostensivamente o escudo do anonimato.
Não sou um leitor do seu blog ou do JB, mas me interessei pela discussão porque a questão do plágio me atrai. A maioria das denúncias de plágio me parece infundada, fruto da incompreensão da atividade criadora, como aqueles que acusam Jobim de ter plagiado Chopin em "A insensatez". Eu imagino a cena do Jobim mostrando ao Vinícius a molecagem de tocar o prelúdio em ritmo de bossa nova, e o poeta já aproveitando o mote da insensatez de assim interpretar a obra. A carga de novidade é tão grande que o prelúdio passa a ser o simples chassis de uma obra original de grande qualidade.
A idéia desvinculada do produto final que a suporta não tem proteção legal, um conceito que contraria a intuição, em um primeiro momento, mas está bem fundado nos limites do alcance da lei e da atividade jurisdicional. O leigo intuitivamente compreende que o autor não é quem inventa a história, mas quem a conta. É o que fica claro no cinema, que apesar de ser considerado para efeitos jurídicos uma criação coletiva, todo mundo reconhece maior - para não dizer toda - carga autoral para a figura do diretor, que é quem efetivamente conta a história. São muitos os exemplos da mesma história contada por diversos autores, como a história de Canudos, por Euclides da Cunha e Vargas LLosa, ou mais recentemente a história do Zorro, recontada pela Isabel Allende.
A baixeza da sua defesa, servilmente se desculpando do autor como se fosse crime menor roubar de um anônimo criador perdido na internet, impede qualquer empatia ou compaixão com a sua confissão. Melhor solução seria mudar de nome ou de profissão.
Anonimamente
Pecus Bilis
Compreendo a sua difícil posição, de ser obrigado a confessar o furto da propriedade intelectual de um colega de profissão, mas lamento o uso da ironia como cortina de fumaça da sua própria vergonha, denunciando o plágio de um outro colega, o Salomão Schwartzman, e pior, atacando um leitor indignado (leitores, além do autor, são também vítimas do plágio) que com toda justiça reclama indenização ao plagiado, expondo seu nome e endereço não para conseguir seus quinze minutos que um e-mail jamais proporcionaria, mas para evitar ostensivamente o escudo do anonimato.
Não sou um leitor do seu blog ou do JB, mas me interessei pela discussão porque a questão do plágio me atrai. A maioria das denúncias de plágio me parece infundada, fruto da incompreensão da atividade criadora, como aqueles que acusam Jobim de ter plagiado Chopin em "A insensatez". Eu imagino a cena do Jobim mostrando ao Vinícius a molecagem de tocar o prelúdio em ritmo de bossa nova, e o poeta já aproveitando o mote da insensatez de assim interpretar a obra. A carga de novidade é tão grande que o prelúdio passa a ser o simples chassis de uma obra original de grande qualidade.
A idéia desvinculada do produto final que a suporta não tem proteção legal, um conceito que contraria a intuição, em um primeiro momento, mas está bem fundado nos limites do alcance da lei e da atividade jurisdicional. O leigo intuitivamente compreende que o autor não é quem inventa a história, mas quem a conta. É o que fica claro no cinema, que apesar de ser considerado para efeitos jurídicos uma criação coletiva, todo mundo reconhece maior - para não dizer toda - carga autoral para a figura do diretor, que é quem efetivamente conta a história. São muitos os exemplos da mesma história contada por diversos autores, como a história de Canudos, por Euclides da Cunha e Vargas LLosa, ou mais recentemente a história do Zorro, recontada pela Isabel Allende.
A baixeza da sua defesa, servilmente se desculpando do autor como se fosse crime menor roubar de um anônimo criador perdido na internet, impede qualquer empatia ou compaixão com a sua confissão. Melhor solução seria mudar de nome ou de profissão.
Anonimamente
Pecus Bilis
*Guga aqui.
quinta-feira, outubro 04, 2007
terça-feira, setembro 25, 2007
Genérico
Gíria criada em 1999 pelo então ministro da saúde José Serra, significando artigo pirata, contrafação, sósia, cópia, diluição, imitação de qualquer tipo.
sexta-feira, setembro 14, 2007
Frases de efeito
Sou contra frases de efeito. Pra mim, frases de efeito são só frases de efeito. Esta é uma frase de efeito. E outra: o único pecado do Poder é o abuso. Desde as relações pessoais às institucionais, o abuso do poder é o crime. Pode se manifestar na indiferença, na sujeição, na afetação de superioridade, ou na obtenção de vantagem pura e simples. O problema é quando se dá de forma involuntária, sem a consciência da detenção do poder, daí é difícil julgar. Aliás, julgar, só em último caso. Muito melhor apreciar as maravilhas da miséria humana, e se divertir com os fiodores.
terça-feira, setembro 11, 2007
Outra generalização
Sou contra generalizações, mas falando em superação, separações são quase mortes. Tem a indignação, a revolta, o inconformismo e a dor, que só o tempo supera. O período em que isso acontece é o luto, que não pode ser suprimido. Velório, enterro, sétimo-dia, e um ano, quando já se aceita. A morte normalmente é sem culpa do morto, o que facilita. Na separação, ainda que a dor do deixante seja quase igual, é um direito inalienável do deixado falar mal, muito mal, do deixante, pra quem quer que seja, do porteiro do prédio ao inimigo. Equivale ao luto, deixar a alma desencarnar.
Em tempo: Relendo hoje, 12, preciso fazer um reparo mais ou menos óbvio. A ausência de vontade do morto facilita quanto a revolta. É claro que a dor da perda é muito maior.
segunda-feira, setembro 10, 2007
A grande guerra pela civilização
Li por enquanto umas 330 páginas do livro do jornalista Robert Fisk, correspondente de guerra no oriente médio por quase três décadas. Ainda estou no comecinho, na década de oitenta, e já foram narradas suas experiências na invasão soviética no Afeganistão, a tomada de poder no Iraque por Saddam, a revolução islâmica de Khomeini (lembra da marchinha? “Kho-kho-kho-meini...”), e a guerra Irã-Iraque. É engraçado como o terror e a guerra nos fazem perder um pouco da perspectiva histórica óbvia do imperialismo inglês substituído pelo norte-americano, com a “diplomacia” intervencionista de terrorismo de estado da CIA, em convivência com o soviético, ambos fomentando as piores ditaduras e as guerras mais sujas, vendendo armas para todos os lados, pra tentar controlar o petróleo e o mercado das armas, principalmente, e tudo mais que for possível. Aliás quase nenhum país europeu escapa, e todos têm sua parcela de responsabilidade. Dá pra entender o fundamentalismo islâmico como única resposta possível à arrogância do Grande Satã Americano.
quinta-feira, setembro 06, 2007
quinta-feira, julho 12, 2007
Despertador

Assisti anteontem a “The Painted Veil”, baseado em romance de Somerset Maugham, que já havia sido filmado em 1934, com Greta Garbo. Tem o título traduzido por “Despertar de uma paixão”. É uma tradição dos distribuidores nacionais este tipo de ridículo, talvez seja o preciosismo de manter o título da primeira versão. “Despertar” é um verbo que se usa pouco, um resquício de uso com o rádio-relógio, ex-despertador, cada vez mais alarm-clock, tendendo a alarme.
Na tela escura o que primeiro aparece é o “WB” que todos conhecem. O “B” sai para o lado e do bico central do “W” salta um pingo vermelho, revelando a “Warner Independent Movies”. Em seguida os créditos mostram como produtores as estrelas do filme, a linda Naomi Watts, ex-namorada do Rei Kong, e Edward Norton, do “Clube da Luta” . É uma grande produção, filmada na China, com cidade cenográfica e muitos extras com roupas de época, naquelas montanhas de pedra pontudas em meio as quais corre um rio verde - o que deve ser o mais manjado cartão postal chinês depois da Grande Muralha - , ou seja, nada barato. É engraçado a Warner montar uma companhia de filmes independentes, para abocanhar também esta beirada do mercado, e imagino que a produção dos atores, do ponto de vista de sua contribuição econômica, deve se resumir a trocarem seus cachês milionários por participação nos lucros.
O filme é sério, sóbrio, bonito de ver, sem cenas de nudez, com a questão central de costumes já superada, do adultério como crime, mas ainda assim traz relevância pela maneira que olha as nossas fraquezas. Gostei muito da cena em que o inglês, com sua concubina chinesa e o casal protagonista relaxados e bêbados, ao atender ao pedido da heroína para que perguntasse à moça o que ela tinha visto nele, obtém a resposta em chinês e traduz: “disse que sou um homem bom”. A heroína replica com desdém algo assim: “até parece que as mulheres se apaixonam pelos homens por causa das suas virtudes”. A frase deve ter ficado ótima na Greta Garbo.
Na tela escura o que primeiro aparece é o “WB” que todos conhecem. O “B” sai para o lado e do bico central do “W” salta um pingo vermelho, revelando a “Warner Independent Movies”. Em seguida os créditos mostram como produtores as estrelas do filme, a linda Naomi Watts, ex-namorada do Rei Kong, e Edward Norton, do “Clube da Luta” . É uma grande produção, filmada na China, com cidade cenográfica e muitos extras com roupas de época, naquelas montanhas de pedra pontudas em meio as quais corre um rio verde - o que deve ser o mais manjado cartão postal chinês depois da Grande Muralha - , ou seja, nada barato. É engraçado a Warner montar uma companhia de filmes independentes, para abocanhar também esta beirada do mercado, e imagino que a produção dos atores, do ponto de vista de sua contribuição econômica, deve se resumir a trocarem seus cachês milionários por participação nos lucros.
O filme é sério, sóbrio, bonito de ver, sem cenas de nudez, com a questão central de costumes já superada, do adultério como crime, mas ainda assim traz relevância pela maneira que olha as nossas fraquezas. Gostei muito da cena em que o inglês, com sua concubina chinesa e o casal protagonista relaxados e bêbados, ao atender ao pedido da heroína para que perguntasse à moça o que ela tinha visto nele, obtém a resposta em chinês e traduz: “disse que sou um homem bom”. A heroína replica com desdém algo assim: “até parece que as mulheres se apaixonam pelos homens por causa das suas virtudes”. A frase deve ter ficado ótima na Greta Garbo.
domingo, julho 08, 2007
Beijos voadores

Assisti ontem a outro lançamento em DVD, “Beijos Proibidos” (Baisers Volés), de 1968, o terceiro da série com o personagem Antoine Doinel, segundo se diz o alter ego de François Truffaut, realizada em um período de vinte anos. São cinco filmes, o primeiro de 1959, “Os incompreendidos” (400 coups), o segundo, de 1962, um episódio de um filme de cinco diretores diferentes, “O amor aos vinte anos”, e mais “Domicílio Conjugal”, de 1970, e “O amor em fuga”, de 1979. O ator é sempre o mesmo, Jean Pierre Léaud.
É um filme antigo, de uma época em que a experimentação e a qualidade autoral do filme eram muito valorizadas, e permitia uma linguagem muito pessoal para falar de si mesmo. Não tem uma história no sentido tradicional, mas uma seqüência de acontecimentos mais ou menos independentes entre si, que têm como ligação o desenvolvimento da personalidade do autor, declarações que explicam a sua visão do mundo.
É um filme antigo, de uma época em que a experimentação e a qualidade autoral do filme eram muito valorizadas, e permitia uma linguagem muito pessoal para falar de si mesmo. Não tem uma história no sentido tradicional, mas uma seqüência de acontecimentos mais ou menos independentes entre si, que têm como ligação o desenvolvimento da personalidade do autor, declarações que explicam a sua visão do mundo.
sexta-feira, junho 29, 2007
O livro de cabeceira

Assisti quarta-feira a um lançamento em DVD, “O Livro de cabeceira”, de 1996, do diretor inglês Peter Greenaway. É uma história intensa, erótica e violenta, narrada com uma estética espetacular e única, que tem como tema a escrita sobre corpos humanos. O sintético roteiro original está transcrito e traduzido aqui, pra quem não se impressiona em conhecer a história antes de ver o filme. O que você escreveria?
sexta-feira, maio 25, 2007
Bico-de-lacre
quarta-feira, maio 23, 2007
Prisão 3

(ouça aqui com o autor) Elliott Simth
drink up, baby, stay up all night
the things you could do,
you won't but you might
the potential you'll be,
that you'll never see
the promises you'll only make
drink up with me now
and forget all about
the pressure of days
do what I say
and I'll make you okay
and drive them away
the images stuck in your head
people you've been before
that you don't want around anymore
that push and shove and won't bend to your will
I'll keep them still
drink up, baby,
look at the stars
I'll kiss you again
between the bars
where I'm seeing you there
with your hands in the air,
waiting to finally be caught
drink up one more time
and I'll make you mine
keep you apart
deep in my heart
separate from the rest
where I like you the best
and keep the things you forgot
segunda-feira, maio 21, 2007
Prisão 2

Uma vez uma filha minha inventou de ter um canarinho e eu li um pouco sobre o assunto. O livro, escrito por um criador e por isso mesmo suspeito, dizia que são aves tão frágeis e temerosas dos predadores que são mais felizes na gaiola do que na natureza. E para reforçar o seu ponto sustentava que a gaiola de um canário tem sempre que ficar encostada a uma parede, para que ele possa controlar os lados restantes, como um gangster no restaurante. Pendurada livre, a recomendação era de que um dos lados fosse coberto por um papelão. É uma tese.
sexta-feira, maio 18, 2007
Prisão 1

Acordar minutos antes do despertador tocar, consultar o relógio com pouca esperança de ainda haja tempo pra dormir um pouco. Esfregar os olhos, tomar coragem pra sair das cobertas quentes como quem mergulha na piscina sem saber a temperatura da água. Lá fora ainda está escuro e provavelmente frio, talvez até ventando ou ainda uma leve garoa.. Dez minutos para a seqüência de providências: tomar água, urinar, por as lentes de contato no olho remelento, escovar os dentes apressadamente, ficar nu, pesar, vestir, a dúvida em evacuar agora ou na volta. Encher o “squeeze” de água, comer uma barra de cereais, pegar a chave, a carteirinha, a bicicleta com os pneus já um pouco murchos, e pedalar pelo asfalto irregular, os músculos ainda doloridos do dia anterior, a força extra da subida da ponte, a troca de marchas nada suave do câmbio barato, o freio guinchando na descida, bater na porta da passagem de pedestres da alça da ponte da cidade universitária para que o sonolento guarda abra, contornar os bloqueios que seguram os pedais e acelerar já paralelo à raia. Abrir com a mão o portão automático há meses quebrado, deixar a bicicleta no apoio, tirar a chave da meia, pegar o squeeze, ir até a garagem, cumprimentar o pessoal tomando várias decisões rápidas da modalidade de cumprimento a cada um, de acordo com a circunstância, alongar-se se não estiver atrasado, ouvir as piadinhas bobas de sempre, levar os remos para o flutuante, tirar o barco da estante, por no cavalete, checar as peças móveis, por o barco sobre a cabeça, andar até o flutuante, por o barco na água, encaixar os remos nas braçadeiras, embarcar com cuidado, remada um dois três quatro, um ou outro educativo, treino, tiro, ignorar como os outros os inúteis comandos do chefinho na proa, se a ressaca for braba torcer pra acabar logo, se estiver inteiro achar pouco. Encostar, soltar o parafuso da braçadeira, tirar o remo, calçar o tênis, por o barco sobre a cabeça, levar até o cavalete, secar o barco ou buscar o remo, por o barco na estante, escamotear o alongamento, despedir-se vagamente, pegar a bicicleta no cavalete, pedalar até em casa já tendo que contornar os pedestres na ponte, largar a bicicleta debaixo da escada, sentar pra tomar café ou correr até o trono, se for necessário, de qualquer jeito folhear o jornal. Ficar nu, pesar-se, tomar banho, pentear-se, fazer a barba, escovar os dentes, passar fio dental, vestir-se, pegar as contas sobre o móvel da sala, entrar no carro, acionar o controle remoto para abrir o portão, ligar o rádio, e pegar o caminho da roça.
quarta-feira, maio 16, 2007
O animal que pensa que já não vale mais
Parei de fumar no dia 26 de agosto de 2000. Foi nessa época que comecei a fazer check-ups, e estive com o colesterol um pouco elevado. Descobri que as carnes de animais silvestres têm pouco colesterol, são menos gordurosas. Ao contrário dos porcos, bois e frangos, selecionados ao longo de milênios pela característica do maior acúmulo de gordura no menor tempo possível, os animais silvestres tem uma alimentação variada e uma vida ativa, são magros atletas. E mesmo os criados em cativeiro mantêm tais características, por que não foram submetidos à seleção pela aptidão para engorda. Resolvi comê-los. Descobri uma loja na Oscar Freire que vendia uma boa variedade de animais silvestres, e comecei pelo búfalo. Fiz alguns churrascos, e a carne, apesar de boa, vinha em cortes grandes e desajeitados. Daí experimentei o javali, que já tinha comido antes, talvez na Argentina. Comprei um pernilzinho, e perguntei à vendedora o modo mais fácil de preparar. Ela me indicou um vinho fortificado temperado que ela vendia, um aspirante a madeira. Usei e ficou muito gostoso, de um dia para o outro no vinho, mais alguns temperos. E fiz uma cinco ou seis vezes assim. Há um ano ou dois a tal loja fechou. Resolvi fazer o bicho para alguns amigos, e fui ao mercadão procurar. Achei um outro corte de pernil, chamado “corte Fleury”, maior, mais carnudo e com menos osso, e com uma capa de gordura, com um pouco mais de três quilos. Mais macio, mais ajeitado e fácil de cortar. Quando a Sra. Bílis resolveu retribuir o gentil convite da Franka para jantar, no qual foi servida uma maravilhosa moqueca, lembrei do javali e fui ao mercadão comprar. Mas não encontrei o vinho fortificado. Fiz uns cálculos mentais de equivalência e resolvi comprar um porto, pois achei que daria um efeito similar para melhor, devido à qualidade da bebida. Comprei um tawny mais para o seco. Em casa cortei a ponta do saco que continha o pernil na medida de caber a mão, enfiei os temperos de praxe, salsinha, cebolinha, tomilho, um raminho de alecrim – é um tempero perigoso, dominante – cebola, alho, pimenta-do-reino, louro e um pouco de sal, despejei a garrafa inteira do vinho, e fechei o plástico com elástico em torno da ponta do osso. Ficou bem vedado, a pata praticamente mergulhada no vinho, e foi virada várias vezes na noite e no dia que antecederam a assadura. Na hora do forno, pus mais um pouco de sal diretamente sobre a carne, e foi pouco, o que não chegou a ser um grande problema, pois foi fácil corrigir o sal do molho abundante. Da próxima vez usarei o método do Bassi para salgar. Na hora de por no forno, à temperatura ambiente, salgar com sal grosso e deixar por dez minutos (é uma carne grande, para uma picanha seriam cinco minutos) e depois tirar tudo. Uma hora de forno para cada quilo de carne, a primeira hora com papel alumínio, guardei um pouco do molho pra depois. Ficou legal, macio e saboroso.
terça-feira, maio 15, 2007
Utilidade pública
Existe um cacoete de linguagem horrível que anda por aí, em textos profissionais de quem quer se meter a falar difícil, que é o ridículo "no que pertine". O verbo "pertinir" não existe. Existe o verbo pertencer, que deriva de pertinência, pertence, pertença, a relação de propriedade, atribuição, domínio, o necessário.
segunda-feira, maio 14, 2007
Ingratidão
Depois de dar o melhor de mim, em parceria com a Sra. Bilis, em um jantar oferecido à Franka, seu famoso marido Zé, e mais dois simpáticos casais, executando o melhor do meu limitado repertório culinário e mantendo os copos ininterruptamente cheios do melhor vinho da minha modesta adega, vejam o que a Franka aprontou comigo lá no Frankamente.
sexta-feira, maio 11, 2007
Tá bom eu confesso
terça-feira, maio 08, 2007
Monossilábicos


Ando meio silencioso por falta de assunto. Meu interesse está voltado para o mar, e todo mundo sabe que surfistas se comunicam por monossílabos. Embora eu não seja mais que um diletante de fim-de-semana, meu bom condicionamento atual tem me proporcionado bons momentos. Estamos na temporada das ondas, e toda semana entra um marzão novo. Vejam só o que entra amanhã, o qual espero pegar, já em declínio, no sábado de manhã.
sexta-feira, maio 04, 2007
Blues & Jazz
segunda-feira, abril 30, 2007
quinta-feira, abril 19, 2007
Há dois anos, o primeiríssimo post
sexta-feira, abril 13, 2007
Presente de grego

Fui a uma festa de 50 anos ontem, e alguns amigos do aniversariante o presentearam com um show de um Elvis Presley. Realmente, era um Elvis muito bom, como vocês podem ver. Cantava bem, uma boa presença, e tinha as qualidades de animador de auditório para divertir os convidados. Disse ser o Elvis mais antigo ainda em atividade, e que suas roupas eram “originais”, certificadas pela Graceland Foundation ou coisa que o valha. Na foto é o traje Red Dragon, segundo esclareceu, o mesmo que usou na festa. Todos os Elvis escolhem a fase Vegas para interpretar, possivelmente pela facilidade. É só comprar a fantasia e pronto. O Elvis com roupa de super-herói, capinha e tudo, de lantejoulas, gordo, com as grandes suíças, o cabelão, e o óculos escuros é uma triste caricatura de si mesmo. E apesar de ter perdido completamente a noção e o enorme charme dos primeiros anos, mantinha intacto seu gigantesco talento. Mais uma vítima do chamado celebrity system.
quinta-feira, abril 12, 2007
Não é que eu queira me gambá
segunda-feira, abril 09, 2007
Mil livros
sexta-feira, março 23, 2007
O cheiro do ralo
Fui assistir no Unibanco 2 “O cheiro do ralo”, filme de Heitor Dhalia sobre romance de Lourenço Mutarelli, o sombrio quadrinista de quem falei aqui uma vez, a propósito de um inacreditável documentário sobre sua vida, o “Tarja Preta”. Cansado de desenhar, uma atividade que dá muito trabalho, o autor resolveu escrever, e, porque não, atuar, no filme feito a partir do seu livro. Ao que consta no guia deste fim de semana do Estadão, os patrocinadores quando viram o tamanho da encrenca recusaram a associação com o filme, que acabou sendo realizado quase de graça, com o esforço pessoal dos envolvidos. Liberdade total e um roteiro pouco exigente em termos de produção resultou num produto bem acabado em todos os aspectos. Os ângulos mais sinistros da alma humana vistos com a ótica inocente e mecânica de um neutro olho de vidro. Selton Mello arrasa como protagonista em tempo integral coadjuvado por uma bunda enorme e maravilhosa.
terça-feira, março 20, 2007
quinta-feira, março 15, 2007
sexta-feira, março 02, 2007
Eclipse
No dia 3 de março, sábado, haverá uma eclipse total da Lua no começo da noite, segundo o INPE:
Eclipse lunar total em 03/03/2007
Eclipse lunar total em 03/03/2007
Nascer da Lua: 18h29min
Ocaso da Lua: 05h36min
Magnitude: 1,23
Fase umbral começa às 18h34min
Fase total começa às 19h48min
Instante do máximo do eclipse: 20h24min
Fase total termina às 21h00min
Fase umbral termina às 22h13min
No Brasil, é avistado praticamente de todo país no início da noite (nascer da Lua).
Como a Lua estará cheia, se o tempo estiver bom deverá ser um belo espetáculo. Para os paulistanos, a previsão é de parcialmente nublado, com 40% de possibilidade de chuva, então precisaremos de um pouco de sorte. A fase umbral não deve ser muito perceptível, mas a total deve ser legal. A sombra da Terra avançará sobre a Lua cheia e a devorará completamente em 36 minutos. O tempo de tomar um drinque ao ar livre antes do jantar.
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Um pequeno mistério
Segunda-feira de madrugada, um pouco antes das cinco, estava eu saindo de bicicleta para ir remar quando deparei com uma latinha de cerveja vazia, na cobertura de cerâmica da caixa de cartas, que fica meio escondida num canto do jardim da frente. Era de uma marca que eu não costumo comprar, e fiquei preocupado que alguém tivesse entrado em casa à noite, tomado a cerveja e deixado ali, de propósito, pra assinalar uma presença maligna. Como as fitas de vídeo do filme Cachê, pra quem não se lembra, longas gravações da frente de uma casa, entregues na casa só para intrigar a família. Cogitei das possibilidades. Uns dias atrás perdi um chaveiro que eu montei pra usar com a bicicleta, com as chaves da casa, e uma leve e controlada paranóia se instalou, de que alguém pudesse ter achado, identificado e usado. Lembrei que o meu cunhado tinha vindo almoçar no sábado, e havia uma improvável possibilidade dele ter chegado tomando a cerveja e largado lá. Transferi a preocupação para a minha mulher, e esqueci do assunto. Ela também se preocupou, consultou o irmão, que negou a deselegância. A nossa empregada solucionou o mistério. Ao sair no sábado à tarde, encontrou a latinha na calçada, e zelosa, mas nem tanto, porque devia estar com um pouco de pressa, pegou a latinha e deixou lá para jogar fora depois, ou “reciclar”, sei lá, que ficou o domingo inteiro ali, sem ser notada.
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