quinta-feira, julho 12, 2007

Despertador


Assisti anteontem a “The Painted Veil”, baseado em romance de Somerset Maugham, que já havia sido filmado em 1934, com Greta Garbo. Tem o título traduzido por “Despertar de uma paixão”. É uma tradição dos distribuidores nacionais este tipo de ridículo, talvez seja o preciosismo de manter o título da primeira versão. “Despertar” é um verbo que se usa pouco, um resquício de uso com o rádio-relógio, ex-despertador, cada vez mais alarm-clock, tendendo a alarme.

Na tela escura o que primeiro aparece é o “WB” que todos conhecem. O “B” sai para o lado e do bico central do “W” salta um pingo vermelho, revelando a “Warner Independent Movies”. Em seguida os créditos mostram como produtores as estrelas do filme, a linda Naomi Watts, ex-namorada do Rei Kong, e Edward Norton, do “Clube da Luta” . É uma grande produção, filmada na China, com cidade cenográfica e muitos extras com roupas de época, naquelas montanhas de pedra pontudas em meio as quais corre um rio verde - o que deve ser o mais manjado cartão postal chinês depois da Grande Muralha - , ou seja, nada barato. É engraçado a Warner montar uma companhia de filmes independentes, para abocanhar também esta beirada do mercado, e imagino que a produção dos atores, do ponto de vista de sua contribuição econômica, deve se resumir a trocarem seus cachês milionários por participação nos lucros.

O filme é sério, sóbrio, bonito de ver, sem cenas de nudez, com a questão central de costumes já superada, do adultério como crime, mas ainda assim traz relevância pela maneira que olha as nossas fraquezas. Gostei muito da cena em que o inglês, com sua concubina chinesa e o casal protagonista relaxados e bêbados, ao atender ao pedido da heroína para que perguntasse à moça o que ela tinha visto nele, obtém a resposta em chinês e traduz: “disse que sou um homem bom”. A heroína replica com desdém algo assim: “até parece que as mulheres se apaixonam pelos homens por causa das suas virtudes”. A frase deve ter ficado ótima na Greta Garbo.

domingo, julho 08, 2007

Beijos voadores


Assisti ontem a outro lançamento em DVD, “Beijos Proibidos” (Baisers Volés), de 1968, o terceiro da série com o personagem Antoine Doinel, segundo se diz o alter ego de François Truffaut, realizada em um período de vinte anos. São cinco filmes, o primeiro de 1959, “Os incompreendidos” (400 coups), o segundo, de 1962, um episódio de um filme de cinco diretores diferentes, “O amor aos vinte anos”, e mais “Domicílio Conjugal”, de 1970, e “O amor em fuga”, de 1979. O ator é sempre o mesmo, Jean Pierre Léaud.

É um filme antigo, de uma época em que a experimentação e a qualidade autoral do filme eram muito valorizadas, e permitia uma linguagem muito pessoal para falar de si mesmo. Não tem uma história no sentido tradicional, mas uma seqüência de acontecimentos mais ou menos independentes entre si, que têm como ligação o desenvolvimento da personalidade do autor, declarações que explicam a sua visão do mundo.

sexta-feira, junho 29, 2007

O livro de cabeceira


Assisti quarta-feira a um lançamento em DVD, “O Livro de cabeceira”, de 1996, do diretor inglês Peter Greenaway. É uma história intensa, erótica e violenta, narrada com uma estética espetacular e única, que tem como tema a escrita sobre corpos humanos. O sintético roteiro original está transcrito e traduzido aqui, pra quem não se impressiona em conhecer a história antes de ver o filme. O que você escreveria?

sexta-feira, maio 25, 2007

Bico-de-lacre



Aves bem pequenas de origem africana, bastante comuns em São Paulo, andam em grandes bandos, e quando não tem ninguém olhando às vezes vêm ciscar no meu pequeno gramado. Quando são surpreendidas, decolam com estardalhaço.

quarta-feira, maio 23, 2007

Prisão 3



(ouça aqui com o autor) Elliott Simth


drink up, baby, stay up all night

the things you could do,

you won't but you might

the potential you'll be,

that you'll never see

the promises you'll only make

drink up with me now

and forget all about

the pressure of days

do what I say

and I'll make you okay

and drive them away

the images stuck in your head


people you've been before

that you don't want around anymore

that push and shove and won't bend to your will

I'll keep them still


drink up, baby,

look at the stars

I'll kiss you again

between the bars

where I'm seeing you there

with your hands in the air,

waiting to finally be caught

drink up one more time

and I'll make you mine

keep you apart

deep in my heart

separate from the rest

where I like you the best

and keep the things you forgot

segunda-feira, maio 21, 2007

Prisão 2


Uma vez uma filha minha inventou de ter um canarinho e eu li um pouco sobre o assunto. O livro, escrito por um criador e por isso mesmo suspeito, dizia que são aves tão frágeis e temerosas dos predadores que são mais felizes na gaiola do que na natureza. E para reforçar o seu ponto sustentava que a gaiola de um canário tem sempre que ficar encostada a uma parede, para que ele possa controlar os lados restantes, como um gangster no restaurante. Pendurada livre, a recomendação era de que um dos lados fosse coberto por um papelão. É uma tese.

sexta-feira, maio 18, 2007

Prisão 1


Acordar minutos antes do despertador tocar, consultar o relógio com pouca esperança de ainda haja tempo pra dormir um pouco. Esfregar os olhos, tomar coragem pra sair das cobertas quentes como quem mergulha na piscina sem saber a temperatura da água. Lá fora ainda está escuro e provavelmente frio, talvez até ventando ou ainda uma leve garoa.. Dez minutos para a seqüência de providências: tomar água, urinar, por as lentes de contato no olho remelento, escovar os dentes apressadamente, ficar nu, pesar, vestir, a dúvida em evacuar agora ou na volta. Encher o “squeeze” de água, comer uma barra de cereais, pegar a chave, a carteirinha, a bicicleta com os pneus já um pouco murchos, e pedalar pelo asfalto irregular, os músculos ainda doloridos do dia anterior, a força extra da subida da ponte, a troca de marchas nada suave do câmbio barato, o freio guinchando na descida, bater na porta da passagem de pedestres da alça da ponte da cidade universitária para que o sonolento guarda abra, contornar os bloqueios que seguram os pedais e acelerar já paralelo à raia. Abrir com a mão o portão automático há meses quebrado, deixar a bicicleta no apoio, tirar a chave da meia, pegar o squeeze, ir até a garagem, cumprimentar o pessoal tomando várias decisões rápidas da modalidade de cumprimento a cada um, de acordo com a circunstância, alongar-se se não estiver atrasado, ouvir as piadinhas bobas de sempre, levar os remos para o flutuante, tirar o barco da estante, por no cavalete, checar as peças móveis, por o barco sobre a cabeça, andar até o flutuante, por o barco na água, encaixar os remos nas braçadeiras, embarcar com cuidado, remada um dois três quatro, um ou outro educativo, treino, tiro, ignorar como os outros os inúteis comandos do chefinho na proa, se a ressaca for braba torcer pra acabar logo, se estiver inteiro achar pouco. Encostar, soltar o parafuso da braçadeira, tirar o remo, calçar o tênis, por o barco sobre a cabeça, levar até o cavalete, secar o barco ou buscar o remo, por o barco na estante, escamotear o alongamento, despedir-se vagamente, pegar a bicicleta no cavalete, pedalar até em casa já tendo que contornar os pedestres na ponte, largar a bicicleta debaixo da escada, sentar pra tomar café ou correr até o trono, se for necessário, de qualquer jeito folhear o jornal. Ficar nu, pesar-se, tomar banho, pentear-se, fazer a barba, escovar os dentes, passar fio dental, vestir-se, pegar as contas sobre o móvel da sala, entrar no carro, acionar o controle remoto para abrir o portão, ligar o rádio, e pegar o caminho da roça.

quarta-feira, maio 16, 2007

O animal que pensa que já não vale mais

Parei de fumar no dia 26 de agosto de 2000. Foi nessa época que comecei a fazer check-ups, e estive com o colesterol um pouco elevado. Descobri que as carnes de animais silvestres têm pouco colesterol, são menos gordurosas. Ao contrário dos porcos, bois e frangos, selecionados ao longo de milênios pela característica do maior acúmulo de gordura no menor tempo possível, os animais silvestres tem uma alimentação variada e uma vida ativa, são magros atletas. E mesmo os criados em cativeiro mantêm tais características, por que não foram submetidos à seleção pela aptidão para engorda. Resolvi comê-los. Descobri uma loja na Oscar Freire que vendia uma boa variedade de animais silvestres, e comecei pelo búfalo. Fiz alguns churrascos, e a carne, apesar de boa, vinha em cortes grandes e desajeitados. Daí experimentei o javali, que já tinha comido antes, talvez na Argentina. Comprei um pernilzinho, e perguntei à vendedora o modo mais fácil de preparar. Ela me indicou um vinho fortificado temperado que ela vendia, um aspirante a madeira. Usei e ficou muito gostoso, de um dia para o outro no vinho, mais alguns temperos. E fiz uma cinco ou seis vezes assim. Há um ano ou dois a tal loja fechou. Resolvi fazer o bicho para alguns amigos, e fui ao mercadão procurar. Achei um outro corte de pernil, chamado “corte Fleury”, maior, mais carnudo e com menos osso, e com uma capa de gordura, com um pouco mais de três quilos. Mais macio, mais ajeitado e fácil de cortar. Quando a Sra. Bílis resolveu retribuir o gentil convite da Franka para jantar, no qual foi servida uma maravilhosa moqueca, lembrei do javali e fui ao mercadão comprar. Mas não encontrei o vinho fortificado. Fiz uns cálculos mentais de equivalência e resolvi comprar um porto, pois achei que daria um efeito similar para melhor, devido à qualidade da bebida. Comprei um tawny mais para o seco. Em casa cortei a ponta do saco que continha o pernil na medida de caber a mão, enfiei os temperos de praxe, salsinha, cebolinha, tomilho, um raminho de alecrim – é um tempero perigoso, dominante – cebola, alho, pimenta-do-reino, louro e um pouco de sal, despejei a garrafa inteira do vinho, e fechei o plástico com elástico em torno da ponta do osso. Ficou bem vedado, a pata praticamente mergulhada no vinho, e foi virada várias vezes na noite e no dia que antecederam a assadura. Na hora do forno, pus mais um pouco de sal diretamente sobre a carne, e foi pouco, o que não chegou a ser um grande problema, pois foi fácil corrigir o sal do molho abundante. Da próxima vez usarei o método do Bassi para salgar. Na hora de por no forno, à temperatura ambiente, salgar com sal grosso e deixar por dez minutos (é uma carne grande, para uma picanha seriam cinco minutos) e depois tirar tudo. Uma hora de forno para cada quilo de carne, a primeira hora com papel alumínio, guardei um pouco do molho pra depois. Ficou legal, macio e saboroso.

terça-feira, maio 15, 2007

Utilidade pública

Existe um cacoete de linguagem horrível que anda por aí, em textos profissionais de quem quer se meter a falar difícil, que é o ridículo "no que pertine". O verbo "pertinir" não existe. Existe o verbo pertencer, que deriva de pertinência, pertence, pertença, a relação de propriedade, atribuição, domínio, o necessário.

segunda-feira, maio 14, 2007

Ingratidão

Depois de dar o melhor de mim, em parceria com a Sra. Bilis, em um jantar oferecido à Franka, seu famoso marido Zé, e mais dois simpáticos casais, executando o melhor do meu limitado repertório culinário e mantendo os copos ininterruptamente cheios do melhor vinho da minha modesta adega, vejam o que a Franka aprontou comigo lá no Frankamente.

sexta-feira, maio 11, 2007

Tá bom eu confesso


Frei Galvão, canonizado hoje, aquele ao centro com a mãozinha levantada, é meu parente. Tenho 1.024 avos do seu sanguinho bom.

terça-feira, maio 08, 2007

Monossilábicos




Ando meio silencioso por falta de assunto. Meu interesse está voltado para o mar, e todo mundo sabe que surfistas se comunicam por monossílabos. Embora eu não seja mais que um diletante de fim-de-semana, meu bom condicionamento atual tem me proporcionado bons momentos. Estamos na temporada das ondas, e toda semana entra um marzão novo. Vejam só o que entra amanhã, o qual espero pegar, já em declínio, no sábado de manhã.

sexta-feira, maio 04, 2007

Blues & Jazz



New York Jazz - Inauguração do Birdland em 1949 com o homenageado Charlie Parker presente







Chicago Blues - Buddy Guy e Junior Wells

segunda-feira, abril 30, 2007

quinta-feira, abril 19, 2007

Há dois anos, o primeiríssimo post


O presente da Franka



Dia cheio.
Aniversário do Rei Roberto, Dia do Índio, do Santo Expedito. Nasceram Bento XVI e Pecus Bilis.

sexta-feira, abril 13, 2007

Presente de grego


Fui a uma festa de 50 anos ontem, e alguns amigos do aniversariante o presentearam com um show de um Elvis Presley. Realmente, era um Elvis muito bom, como vocês podem ver. Cantava bem, uma boa presença, e tinha as qualidades de animador de auditório para divertir os convidados. Disse ser o Elvis mais antigo ainda em atividade, e que suas roupas eram “originais”, certificadas pela Graceland Foundation ou coisa que o valha. Na foto é o traje Red Dragon, segundo esclareceu, o mesmo que usou na festa. Todos os Elvis escolhem a fase Vegas para interpretar, possivelmente pela facilidade. É só comprar a fantasia e pronto. O Elvis com roupa de super-herói, capinha e tudo, de lantejoulas, gordo, com as grandes suíças, o cabelão, e o óculos escuros é uma triste caricatura de si mesmo. E apesar de ter perdido completamente a noção e o enorme charme dos primeiros anos, mantinha intacto seu gigantesco talento. Mais uma vítima do chamado celebrity system.

quinta-feira, abril 12, 2007

Não é que eu queira me gambá




mas apesar dos abusos mais ou menos freqüentes, o músculo cardíaco está tinindo. Nada que impeça uma repentina boa morte.

segunda-feira, abril 09, 2007

Mil livros


Chegou na minha casa um brinde da Mastercard, "Mil livros que você precisa ler antes de morrer", e resolvi começar pelo "Grande Sertão: veredas". Estou mais ou menos na metade e começo a desconfiar que o tal Diadorim é uma mulher disfarçada de homem.

sexta-feira, março 23, 2007

O cheiro do ralo

Fui assistir no Unibanco 2 “O cheiro do ralo”, filme de Heitor Dhalia sobre romance de Lourenço Mutarelli, o sombrio quadrinista de quem falei aqui uma vez, a propósito de um inacreditável documentário sobre sua vida, o “Tarja Preta”. Cansado de desenhar, uma atividade que dá muito trabalho, o autor resolveu escrever, e, porque não, atuar, no filme feito a partir do seu livro. Ao que consta no guia deste fim de semana do Estadão, os patrocinadores quando viram o tamanho da encrenca recusaram a associação com o filme, que acabou sendo realizado quase de graça, com o esforço pessoal dos envolvidos. Liberdade total e um roteiro pouco exigente em termos de produção resultou num produto bem acabado em todos os aspectos. Os ângulos mais sinistros da alma humana vistos com a ótica inocente e mecânica de um neutro olho de vidro. Selton Mello arrasa como protagonista em tempo integral coadjuvado por uma bunda enorme e maravilhosa.

terça-feira, março 20, 2007

Ficou assim


quinta-feira, março 15, 2007

sexta-feira, março 02, 2007

Eclipse

No dia 3 de março, sábado, haverá uma eclipse total da Lua no começo da noite, segundo o INPE:

Eclipse lunar total em 03/03/2007
Nascer da Lua: 18h29min
Ocaso da Lua: 05h36min
Magnitude: 1,23
Fase umbral começa às 18h34min
Fase total começa às 19h48min
Instante do máximo do eclipse: 20h24min
Fase total termina às 21h00min
Fase umbral termina às 22h13min
No Brasil, é avistado praticamente de todo país no início da noite (nascer da Lua).

Como a Lua estará cheia, se o tempo estiver bom deverá ser um belo espetáculo. Para os paulistanos, a previsão é de parcialmente nublado, com 40% de possibilidade de chuva, então precisaremos de um pouco de sorte. A fase umbral não deve ser muito perceptível, mas a total deve ser legal. A sombra da Terra avançará sobre a Lua cheia e a devorará completamente em 36 minutos. O tempo de tomar um drinque ao ar livre antes do jantar.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Um pequeno mistério

Segunda-feira de madrugada, um pouco antes das cinco, estava eu saindo de bicicleta para ir remar quando deparei com uma latinha de cerveja vazia, na cobertura de cerâmica da caixa de cartas, que fica meio escondida num canto do jardim da frente. Era de uma marca que eu não costumo comprar, e fiquei preocupado que alguém tivesse entrado em casa à noite, tomado a cerveja e deixado ali, de propósito, pra assinalar uma presença maligna. Como as fitas de vídeo do filme Cachê, pra quem não se lembra, longas gravações da frente de uma casa, entregues na casa só para intrigar a família. Cogitei das possibilidades. Uns dias atrás perdi um chaveiro que eu montei pra usar com a bicicleta, com as chaves da casa, e uma leve e controlada paranóia se instalou, de que alguém pudesse ter achado, identificado e usado. Lembrei que o meu cunhado tinha vindo almoçar no sábado, e havia uma improvável possibilidade dele ter chegado tomando a cerveja e largado lá. Transferi a preocupação para a minha mulher, e esqueci do assunto. Ela também se preocupou, consultou o irmão, que negou a deselegância. A nossa empregada solucionou o mistério. Ao sair no sábado à tarde, encontrou a latinha na calçada, e zelosa, mas nem tanto, porque devia estar com um pouco de pressa, pegou a latinha e deixou lá para jogar fora depois, ou “reciclar”, sei lá, que ficou o domingo inteiro ali, sem ser notada.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Milhas acumuladas

Este fim de semana cozinhei pra minha sogra. O aniversário dela caiu no Carnaval, e lamentavelmente não pudemos estar juntos. Também era o aniversário de uma netinha dela, filha do meu cunhado, que teria sua festinha outro dia. Minhas filhas fizeram um bolo e brigadeiros, e eu me arrisquei – ou melhor, arrisquei a sogra e o cunhado – num ragu de cordeiro que já tinha executado uma vez, com algumas falhas que pretendia corrigir.

Usei uma receita que achei a esmo na internet, que me pareceu simpática porque recomendava tomates passados comprados na xepa da feira para o molho, e que seu usasse a carne de carneiro mais gorda que se encontrasse. Me fiando nessas recomendações, da primeira vez fui ao açougue e comprei uma paleta desossada, que me pareceu mais de um carneiro do que de um cordeirinho. Cortei em cubos sem maiores preocupações, e as moças reclamaram dos nervos e gorduras na carne misturada ao molho.

Desta vez comprei as duas únicas paletas que encontrei no supermercado, com osso e de cordeiro mesmo. Sabia que a perda ia ser grande, e daqueles mais de três quilos deveria sobrar pouco mais de um quilo de carne absolutamente limpa. Fiquei um tempão desossando e limpando aquela pouca carne, lamentando os lindos nacos descartados por estarem entremeados de um simples nervinho. A operação me custou três pequenos cortes na ponta dos dedos da mão esquerda.

A receita é simples. Peguei os cubos de carne lavados e secados, joguei todos de uma vez numa panela com azeite quente, para dourar. Depois do início do processo, pus as ervas recomendadas, alecrim e orégano fresco em quantidade menor que da primeira vez, que ficou exagerado, e um pouco de sal e pimenta do reino. Era um dos passos que eu pretendia aprimorar, mas fiquei com preguiça. Em vez de pôr para dourar toda a carne ao mesmo tempo, pensei em “saltear” aos poucos, três ou quatro cubos de cada vez, pra não soltar toda aquela água como aconteceu da primeira vez, o que impede de dourar e põe a carne a cozinhar. Repeti o erro, mas ao meu lado estava descascando e picando os tomates a nossa cozinheira, que sugeriu tirar o excesso de líquido, e ir pondo aos poucos, o que eu fiz e deu muito certo. Dourada a carne, pus os dois copos de vinho branco como recomendado, e esperei evaporar. Ao ver toda a imensa quantidade de cebola picada – oriunda de uma única translúcida redoma – achei melhor refogar tudo aquilo no azeite, antes de pôr na panela com os dois quilos de tomate descascados, limpos de sementes e picados. Ficou um molho de macarrão aceitável, nenhuma princesa reclamou da ervilha sob o décimo-sexto colchão de plumas de ganso.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Onde é?


Não digo a autoria agora pra não facilitar.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Bilac

Hoje no almoço meu pai declamou um soneto que aprendeu com meu avô, por este atribuído a Bilac:

VIDA PRIVADA

Cigarro aceso, o fumo em espirais
Formando vai a nuvem azulina.
O cabra, sobraçando alguns jornais,
Arria a calça e senta na latrina.

Enquanto caga, lê os editais,
Notícias, telegramas, a mofina,
Lê depois os anúncios garrafais,
E peida, com saudade da menina.

A coisa aperta um pouco, apavorante.
Uma careta faz, franze o semblante,
E sai um cagalhão que ao cu faz mágoa!

Está tudo acabado. Ele suspira,
A ponta do cigarro fora atira,
Levanta, limpa o rabo, e puxa a água



Da mesma fonte, a lição de português:

Ao bilheteiro:

"Por favor, uma passagem para Guaratinguetá".

Que responde, pedante:

"Em primeiro lugar, não é Guaratinguetá, mas Guaratingüetá. Em segundo lugar, o trem acabou de partir".

Ao que replica:

"Então cagüei-me".

No post anterior, sim, é o Copan. O prêmio é um expresso no Café Floresta, a todos os acertadores.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Onde é?

terça-feira, janeiro 30, 2007

Primeiro a do Caçador de Pipas, depois a do Neve

O livro favorito de Hassan era o Shahnamah, a epopéia dos antigos heróis persas do século X. Gostava de todos os capítulos, os shahs do passado, Feridoun, Zal e Rudabeh. Sua História Favorita, porém, e minha também, era “Rostam e Sohrab”, um conto sobre o grande guerreiro Rostam e seu cavalo velocíssimo, Rakhsh. Durante uma batalha, Rostam fere mortalmente seu valente adversário, Sohrab, e acaba descobrindo que o rapaz é, na verdade, o filho que tinha perdido há muito tempo. Atormentado pela dor, Rostam ouve as últimas palavras do filho moribundo:

Se sois efetivamente meu pai, então manchastes vossa espada com o sangue do vosso filho. E fizestes isto por vossa própria obstinação. Pois procurei convertê-lo ao amor e implorei chamando o vosso nome, já que julguei encontrar em vós as qualidades de que minha mãe tanto falava. Mas foi em vão que apelei para vosso coração, e, agora, é tarde demais para qualquer aproximação...

- Leia outra vez, por favor, Amir agha – dizia Hassan. Às vezes ficava com os olhos cheios de lágrimas enquanto eu lia a passagem e, nessas horas, sempre me perguntei por quem ele estaria chorando: seria pelo sofrimento de Rostam, que rasga as próprias roupas e cobre a cabeça com cinzas, ou pelo moribundo Soharab, que só desejava o do pai? Eu, pessoalmente, não era capaz de perceber a tragédia do destino de Rostam. Afinal de contas, todos os pais, no fundo de seu coração, não abrigam o desejo de matar os filhos?


***

“Há muito, muito tempo atrás houve um guerreiro incansável, corajoso como ninguém, que vivia no Irã. Todos os que o conheciam o amavam. Eles o chamavam Rüstem, e assim também o chamaremos. Certo dia, quando caçava, ele se perdeu na floresta, e à noite, enquanto dormia, perdeu o cavalo. Enquanto procurava Raksh, seu cavalo, Rüstem foi parar em Turan, que era uma terra inimiga. Mas como sua fama o precedeu, eles o trataram bem. O xá de Turam acolheu-o como hóspede e organizou uma festa em sua homenagem. Depois da festa a filha do xá procurou Rüstem em seu quarto para declarar seu amor por ele. Ela lhe disse que queria ter um filho seu. Ela o seduziu com sua beleza e com suas belas palavras, e logo os dois estavam fazendo amor.

“Na manhã seguinte, Rüstem voltou para seu país, mas deixou uma lembrança – um pequeno bracelete – para que o filho que ia nascer. Quando a criança nasceu, chamaram-no Suhrab, então assim também vamos chamá-lo. Anos depois, sua mãe lhe contou que seu pai eram ninguém menos que o legendário Rüstem. ‘Eu vou para o Irã’, disse o rapaz, ‘para deporo perverso xá Keykavus e colocar meu pai no lugar dele... e então vou voltar para Turan e fazer exatamente a mesma coisa com o perverso xá Efrasiyab, e quando tiver feito isso, assumo o lugar dele. E então meu pai Rüstem e eu reinaremos com justiça sobre o Irã e Turan – em outras palavras, todo o universo!’

“Assim falou o puro e generoso Suhrab, mal sabendo que seu inimigos eram muito mais espertos e astutos que ele. Porque Efrasiyab, o xá de Turan, dava seu apoio na guerra contra o Irã, mas ao mesmo tempo colocou espiões no exército para garantir que Suhrab não iria reconhecer o pai.

“Depois de muitas trapaças, astúcias, cruéis reviravoltas do destino e coincidências, tramadas todas elas, ao que ele sabia, pelo Sublime Todo-Poderoso, chegou o dia em que Suhrab e seu pai Rüstem se viram face a face no campo de batalha, cada um com um exército atrás de si. Nenhum dos dois conhecia o rosto do outro, mas pouco importa: ambos estavam com armadura – e nem é preciso dizer que não se reconheceram. Rüstem, naturalmente, desejava continuar anônimo dentro da sua armadura: do contrário, quele herói à sua frente poderia investir com toda a sua fúria e sua força especialmente contra ele, Rüstem. Quanto a Suhrab, seu coração infantil só parava para se perguntar quem era seu adversário. E assim aconteceu que esses dois grandes e generosos guerreiros, que eram pai e filho, à frente de seus respectivos exércitos e observados por eles, lançaram-se para a frente e sacaram suas espadas.”

Azul fez uma pausa. Antes de olhar Ka nos olhos, acrescentou numa voz infantil: “Embora eu tenha lido essa história centenas de vezes, sempre sinto um arrepio ao chegar nessa parte, e meu coração dispara. Não sei porque, mas por alguma razão me identifico com suhrab quando ele se preara para matar o pai. Quem poderia querer matar o próprio pai? Que alma poderia suportar a dor desse crime, o peso desse pecado? Especialmente meu próprio Suhrab com seu coração inocente! A única esperança é que a essa altura Suhrab mate seu adversário sem saber quem ele é”.

“Enquanto esses pensamentos perpassam minha cabeça, os dois guerreiros começam a lutar, e numa luta que dura horas nenhum dos dois consegue derrotar o outro. Molhados de suor e exaustos, eles embainham suas espadas. Quando chegamos ao anoitecer do primeiro dia, estou tão preocupado pelo pai, como pelo filho, e quando continuo a história, é como se eu a estivesse lendo pela primeira vez. Ouso sonhar que o pai e o filho não serão capazes de matar um ao outro e encontrarão alguma forma de contornar aquela terrível situação.

“No segundo dia, os dois exércitos se alinham mais uma vez, e mais uma vez o pai e o filho, protegidos por suas armaduras, travam um combate implacável. Depois de uma longa luta, a sorte sorri para Suhrab – mas podemos chamar isto de sorte? – e ele derruba Rüstem do cavalo e o imobiliza no chão. Ele saca da espada e, quando está prestes a cortar o pescoço do pai, falam para ele: ‘No Irã um herói não costuma cortar a cabeça de um inimigo na primeira ocasião. Não o mate; seria cruel demais’. Então Suhrab não mata o pai.

“Quando leio essa parte fico muito confuso. Sinto muito amor por Shrab. Qual o sentido desse destino que Deus traçou para esse pai e esse filho? Quanto ao terceiro dia de luta, um dia que esperei com tanta ansiedade – contra todas as minhas expectativas, ele acaba num instante. Rüstem derruba Suhrab do cavalo e, slatando para a frente, enfia a espada nele e o mata. A rapidez desse ato é terrível, chocante. Quando vê o bracelete e se dá conta de que matou o filho, Rüstem se ajoelha, toma nos braços o corpo do filho e chora.”

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Shahnameh


Este é o nome de uma coletânia de épicos persas, escritos por volta do ano 1000 por um certo Ferdosi. É enorme. Curiosamente, uma de suas histórias, a de Sohrab, é uma referência importante não só do "Neve", do Orhan Pamuk, o turco ganhador do Nobel 2006 de literatura, como do manjado "O Caçador de Pipas", do afegão Khaled Housseini, que eu li neste último feriado.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Controle

Entreguei todos os meios de comunicação à distância da minha casa a uma operadora de tv a cabo. Telefone, tv e internet. Numa perspectiva paranóica, supondo que eles (paranóico sempre fala “eles”) auscultassem tudo o que se passa na minha casa, aprendessem nossos hábitos de consumo de cultura e de contato, identificassem as nossas redes sociais, saberiam exatamente quem é aquele cara, cujo cadastro tem em mãos. Foda, né? Uma parte disso eles podem fazer sem violar (isso é uma palavra) a minha privacidade tantas vezes remendada.

Acabei de assistir “Pequena Jerusalém”, um filme cabeça sobre o autocontrole, entre outras grandes questões.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

One nesgow

Os livros de aventura que eu li na minha primeira adolescência, depois do Monteiro Lobato e assemelhados, foram os de uma coleção de quarenta e oito volumes de Júlio Verne (hoje não se traduz mais nome próprio, seria Jules), que eu escolhia pelo título, e de uma coleção de Tarzan, Terramarear, assim, tudo junto. Depois passei para os que tinham, preferencialmente, cenas de sexo, como os de Jorge Amado, e best-sellers americanos da década de setenta, como “Os Insasciáveis”, título cheio de promessas efetivamente cumpridas. O Zorro da Isabel Allende é um nascido clássico da literatura de ação. O peso do livro é centrado na formação do herói, como ele adquiriu suas inúmeras habilidades, um engenharia reversa muito bem encaixada. A esgrima, o cavalo, o chicote, as cordas, as alturas, a roupa preta, a personalidade dividida e sorrateira. E também o contexto é muito bem construído, de um ponto de vista de uma socialista da América Latina, no ocaso das monarquias absolutas da Europa, a libertação das colônias e a formação da república moderna. Claro que numa visão idealista e utópica de justiça social, como convém aos muito jovens, a quem é dirigido, com um balizamento histórico sério. E por ser escrito por uma moça, o cotê romântico do Zorro é tão importante quanto sua atuação como herói.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

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É, a virada do ano não foi fácil, fui acometido de uma macunaímica preguiça de blogar. Não será certamente falta de assunto, na pior das hipóteses a função diário preenche qualquer espaço, disfarçar os fatos potencialmente constrangedores revelando o máximo possível, e tentar não enfeitar a jogada, mas mostrar o que há de interessante na morbidez do cotidiano. O fato é que quando não estou cansado não tenho tempo, e quando tenho tempo estou cansado, ou simplesmente com preguiça. Poderia também falar os outros hits de natal que eu li, “A Neve”, de Orhan Pamuk, e “Zorro” de Isabel Allende, se não estivesse com tanta preguiça. E ainda as cambaleantes tentativas culinárias, os espaçados excessos alcoólicos, o remo intermitente das férias, ou só uma pausa de mil compassos, como diz o Paulinho da Viola.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Vendeta

Uns três ou quatro anos atrás minha filha teve que ler para o colégio uma interessantíssima história de amor passada no Cáucaso, no começo do século XX, do qual acabamos lendo todos juntos boa parte em voz alta numa longa viagem de carro. Foi em “Ali e Nino”, de Kurban Said, que eu achei uma boa explicação para a vendeta. Na guerra entre clãs, quando um membro é morto, cria-se uma desvantagem numérica que deve ser compensada, matando-se um membro do outro clã. E se o morto ainda não procriou, a desvantagem se multiplica. É a morte justa, segundo os padrões tribais. Imagino que esta deve ser a origem da pena de morte, um resquício desta compensação, agora inútil e desnecessária. O respeito incondicional à vida é um dos principais esteios do contrato social moderno, e as exceções como o aborto e a pena de morte são perigosíssimas, brechas por onde a arbitrariedade sobre-humana pode se infiltrar. Nunca acreditei que as penas físicas ou de restrição da liberdade tenham um efeito retributivo. Ninguém paga nada na cadeia, não faz sentido imaginar que o sofrimento do criminoso causa qualquer benefício à sociedade, sobrando de útil só o duvidoso caráter educativo em mostrar que o crime não compensa. O dano do crime só pode ser indenizado em dinheiro, na estranha matemática da avaliação das vidas, membros e faculdades, e traumas. Claro que bandido perigoso não pode andar solto, e assim fica preso por um prazo que se presume suficiente para a reabilitação, de acordo com a gravidade da ofensa, como o castigo “para pensar” das crianças. Pra mim também é claro que o criminoso precisa de ajuda. Salvo os doentes mentais, ninguém se exclui da sociedade – a terrível conseqüência do crime – sem um motivo grave. Também acho difícil convencer alguém com uma formação moral fraca a se contentar com um trabalho braçal remunerado com salário mínimo, ou suportar pacificamente o drama do desemprego, enquanto sujeitos como o Cinqüenta Centavos, o rapper americano, declamam canções dizendo “fique rico ou morra tentando”. Mas estou tegiversando. Porque mataram o Saddam mesmo?

segunda-feira, dezembro 25, 2006

L'Incroyable

Ba-ai James Brown


Natal, inúmeras garrafas de vinho, peru, tender, e até um rato atravessou o quintal, subiu pelas folhagens junto ao muro e desapareceu, no melhor estilo quebra-nozes, para terror da criançada. Hoje de manhã fui procurar os gargalos ainda com as rolhas dos espumantes decepados com L’Incroyable. Melhor que soltar rojão. Toc, pou, e o projétil vai fácil a uns sete, oito metros de distância. Todas na primeira, estou ficando craque, faria isso a noite inteira.

Hits literários de natal: “Travessuras da menina má”, do Vargas Llosa, uma eletrizante história de amor, melhor não contar nada, li do dia 22 (as mulheres resolveram fechar o escritório) ao 23, na cama, com três travesseiros, o janelão aberto, o ventilador ligado, depois de muito esporte, todo aquele algodão branco e fresquinho, entremeado com blitzes de última hora no super e no shopping.

No 23, a última volta no four do ano, inéditas quatro raias, a última na maciota com equilíbrio e sincronia também inéditos, pouco barulho na água, o barco andando muito bem, a sensação de evolução. Falta um pouco de força neste barco, temo que eu seja o mais forte, mas criamos uma ligação muito simpática, parece uma banda de rock, sem chefinho. Aliás, nada mais detestável que um cara metido a chefinho. Quem sabe conseguimos alguma coisa o ano que vem, se mantivermos a regularidade. Janeiro já não vai dar pra juntar os quatro nenhuma vez, por causa das férias.

Agora vou ler “A neve” de Orhan Pamuk, turco, Nobel 2006. Se tem uma cidade que tenho curiosidade de conhecer é Constantinopla, portal da Ásia e da Europa, o Bósforo que ouço falar desde as minhas primeiras leituras de Júlio Verne, aos doze, treze anos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Rádio passat


Acho que o meu futuro de consumidor de produtos de cultura vem de serviços tipo rádio uol, com alguns canais para você ouvir música de qualidade, de graça e sem pirataria. Agora, por exemplo, estou ouvindo o canal Bob Marley. Uma barriga cheia é uma barriga cheia, uma mãe com fome é uma mãe com fome. Às vezes frustra-se a esperança de uma vasta amostragem de um artista, tem só uma palhinha para dar vontade. Bob Dylan já vi que tem bastante. Tenho preguiça de ficar gravando, guardando, colecionando. Tem tanta música boa por aí, é tão fácil ouvir o que o acaso traz, fora o grande estímulo da surpresa. Sempre gostei de rádio por isso. Já descobri muita música legal no rádio. Lembro até hoje de estar descendo a Pamplona no banco do passageiro do Passat verde musgo da minha mãe, que por um tempo eu usaria como meu, não sei se algum jovem lê este blog, mas posso esclarecer que não é o passatão de seis cilindros que se vê por aí, mas o primeiro quatro cilindros com radiador selado, o primeiro Volkswagen refrigerado a água, quatro marchas curtas, uma delícia de carro, o mais moderno carro nacional. Mas estava neste carro quando ouvi pela primeira vez o “Vicious”, do Lou Reed, que eu nem sabia quem era, ou melhor, sabia pelo “Take a walk” talvez, a esta altura dos acontecimentos não lembro mais exatamente a ordem das coisas. E o que me impressionou e me fez ir correndo comprar o disco, uma coletânea. foi o som de guitarra agudo e distorcido que comentava o refrão: “Vicious ... ta-na-ná ...”.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Parangolé

O Parangolé me questionou ter sido racista no meu último post, em que conto a história de um advogado duplamente uxoricida. Sim, ele era nordestino. Mas eu começo o texto “falando em Pimenta Neves”, presumidamente paulista, já que era um importante jornalista do Estadão. Em segundo lugar, nordestino não é raça, e assim, seria uma questão de regionalismo, que pode ser discriminatório como o racismo, mas tem uma conotação mais equilibrada de mão dupla. Tentei mostrar isso nos comentários, dizendo que o único traço distintivo que usei foi mencionar o sotaque carregado do advogado, pois assim parece o sotaque nordestino ao paulista, assim como ao carioca o sotaque paulista soa italianado: “cê tá intendeindo?” Falei ainda que existia uma questão cultural no uxoricídio, de cultura vencida e ultrapassada, a velha e gasta alegação de “legítima defesa da honra”, inconsistente em qualquer sentido. Não cola mais, e é este o sentido do post, a distinção das situações, o assassinato da primeira mulher, onde a impunidade foi completa, e o da segunda, em que o sujeito estava preso, e a comunidade reclamava a sua condenação. O Parangolé argumentaria que a discriminação do post estava na preocupação com o contexto geográfico. Porque dizer que era um paulista comprando uma empresa nordestina? Nesse ponto ele teria razão. Embora fosse um referencial real da história, como me foi contada, era desnecessário. A violência é um estereótipo nordestino, que vem de uma sociedade mais primitiva, do agreste, onde o coronel faz justiça com as próprias mãos, e o cangaceiro também. O que dá um pouco mais de cor à história.


Foto de Cláudio Oiticica, de 1964.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Uxoricídio

Falando em Pimenta Neves, um caso que eu ouvi há vários anos. Um empresário paulista foi comprar uma empresa de um tradicional grupo nordestino. Feitas várias reuniões, diligências, exames e minutas, o grupo vendedor fazia questão absoluta de que o advogado do comprador encontrasse o seu advogado, para acertarem os detalhes finais. Só que a reunião não podia ser feita no estado onde se encontravam, mas num estado vizinho. Criou-se um clima de mistério em torno da tal reunião. Quando a comitiva chegou na capital do estado vizinho, foi ao local da reunião, estranhamente num quartel. O tal advogado estava em prisão especial, aguardando julgamento. E explicou que infelizmente tinha assassinado a mulher, e o processo precisou ser desaforado para garantir a imparcialidade, em função das constantes manifestações de feministas a cada movimentação, na tentativa de pressionar juízes, promotores, júri e a opinião pública. E reclamou, com seu sotaque carregado: “quando matei minha primeira mulher não teve nada disso”.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Vitória

Domingo foi a regata interna do clube, e o meu desempenho me deixou bastante satisfeito. Fui o terceiro no single master, atrás de dois mais jovens e mais experientes do que eu, que eu vou tentar pegar o ano que vem. Larguei bem, mas depois desviei um pouco e perdi algumas remadas batendo nas bóias. Acho que dava pra ter chegado em segundo. E o nosso four, último do paulista em fiasco causado pela afobação, evoluiu surpreendentemente nas duas últimas semanas, e vencemos por um bico de vantagem o barco que foi anunciado como o campeão virtual da prova, com uma guarnição improvisada de remadores de qualidade, além de dois outros barcos de respeito. Com isso, dou por completada a minha formação e vou atrás de resultados mais consistentes para o ano. Nada como um pequena vitória pra manter a motivação.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Táxis

Já há algum tempo tenho notado a institucionalização de um comportamento no trânsito por parte dos motoristas de táxi. Quando precisa mudar de faixa o sujeito, em vez reduzir a velocidade e esperar um espaço vago, ou negociar com o pisca-pisca esperando que o sujeito que vem pela outra faixa voluntariamente ceda a passagem, simplesmente vai empurrando o carro do lado para a outra pista, ou até que ele freie abrindo o espaço. E empurra o carro do lado mesmo, espelhinho com espelhinho, até encostar se o outro não sair, como aconteceu hoje comigo. Instintivamente a tendência do motorista empurrado é afastar o carro, às vezes até propagando o aperto para a outra faixa. É uma atitude nociva e violenta, e a resistência reclama uma violência igual, que a maioria das pessoas não está disposta a exercer, o que favorece a repetição da agressão. O que fazer?

sábado, dezembro 02, 2006

Cordeiro

Outro dia a Leila Couceiro, que mora na Califórnia, estava falando do peru de ação de graças americano. Uns comentaristas comentaram do peru de natal brasileiro, e acendeu-me a lâmpada do óbvio: imitação servil, do prato mais bobo que existe. Peru assado com purê não sei de que, farofa, arroz com passas e champagne e outros insossos. Fora com o peru de natal. Este ano a ceia de natal da família nuclear do meu pai, que deve dar umas vinte pessoas, será na minha casa. Não vai ter peru. O peru, que minha mãe costuma orgulhosamente apresentar, com não sei quantos quilos, não virá este ano. Uns anos atrás, quando a ceia foi na casa do meu irmão que mora em Minas, a sogra dele fez um tremendo e magnífico pernil, acompanhado da lendária farofa de cem ingredientes. Faz sentido lá pra ela. Poderia se argumentar que a origem das tradições não importa, quase todas se iniciam com emulação e mimetismo. Afinal, comemos peru já há algumas gerações. Talvez desde que aqueles alemães de Santa Catarina começaram a criar os grandes glu-glus (Asterix na América), ou perdizes gigantes, perdigões, como queiram. O problema não é a origem da tradição. É a sua falta de sabor.

Puxando pelo gancho religioso, vou tentar implementar uma comida que é cada vez mais comum na paulicéia, que é o cordeiro, feito à moda italiana, tendendo ao ragu, com tomates, ou à francesa, caçulezado com feijões, que eu gosto muito. E as costeletinhas greladas, que não fazem tanto a minha cabeça como o pernil, o famoso gigô. Outro dia comi um excelente na mítica goma do a., como já comera outro ótimo feito pelo Parangolé e vislumbrei a possibilidade de um cozinheiro inepto e preguiçoso como eu desenvolver um prato neste sentido, a paleta na caçarola, que espero seja apenas montar os ingredientes na panela larga e baixa e no forno, ou talvez mesmo no fogo baixo, ficar olhando o milagre. Deve ter uma ordem de cozimento dos ingredientes, o próprio repertório e proporção dos ingredientes, os temperos, e as questões básicas, marina ou não marina, refoga ou não refoga, o que refoga, etc. Vou pesquisar receitas, e aceito sugestões. Imagino que seja um prato muito prático para um domingão tranqüilo.

Voltando ao gancho religioso, o cordeiro de natal rimaria com a metáfora utilizada pelo próprissimo Jesus, o cordeiro de deus, aquele que tira os pecados do mundo, o animal de sacrifício por excelência, o símbolo da docilidade e da aceitação da nossa miséria astral.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Vamos ao teatro

Outro dia fui ao teatro por acidente, acompanhando alguns amigos. Não pretendia entrar, queria só ficar tomando cerveja no bar da entrada. Era um monólogo de um importante autor estrangeiro, e eu e metade do grupo não tínhamos a menor intenção de nos concentrar em tanta seriedade naquela hora. Depois de uma ou duas cervejas, o amigo que puxou o programa, já com os ingressos comprados, insistiu para que fôssemos todos, que seria rápido, indolor e até divertido. Considerando a sem-gracice de ficar esperando naquele bar bobo tomando cerveja até a hora de jantar, acabamos de última hora entrando na peça. Depois de uns bons cinco minutos no escuro completo em silêncio, começou o monólogo, muito bem interpretado, o texto excelente, uma terrível história de amor, um suplício interminável pra quem queria comer e beber. Qual não foi nossa surpresa ao constatar, no fim da peça, que o mentor e inventor do “vamos ao teatro”, no último momento ficou de fora, tomando cerveja com outros amigos que não assistiram o monólogo.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Dim dim donde

Outro dia falei de uma casa no meu quarteirão que havia sido vendida, e vendo a placa do arquiteto, achei que ia ser reformada. Que nada. Está sendo completamente demolida. Talvez seja o certo mesmo, o valor da velha construção em relação ao terreno é tão pequeno que não compensa mantê-la em pé. Mas que dá um sentimento “Saudosa Maloca” dá.

terça-feira, novembro 28, 2006

Parar

O tempo tudo resolve, transforma tragédias e perdas em doces memórias. Como parar de fumar. O primeiro dia é insuportável, o segundo dia é insuportável, o terceiro dia é insuportável, quando completa um mês se vê que foi possível agüentar. Daí vem a fase da agressividade, o inconformismo, a projeção nos outros da fonte da dor. Depois de seis meses passou, vida normal. Pelo menos com o cigarro foi assim.

segunda-feira, novembro 27, 2006

No donut for you

Sábado na regata chegamos 22 segundos na frente do primeiro colocado, o que dá uns cem metros de distância. Fomos os terceiros no tempo real, e melhoramos uma posição no geral dos barcos, pois tínhamos sido terceiros na nossa eliminatória. Como houve duas eliminatórias que classificaram apenas dois barcos, e fomos os segundos da repescagem, significa que estávamos com o quarto tempo real, pois na repescagem chegamos na frente do que fora segundo na nossa eliminatória. Mas caímos para quinto no tempo corrigido. No tempo real, primeiro foi um barco categoria “b” (são faixas de idade), o segundo foi um valoroso barco “d”, e em terceiro o nosso, “c”. Um “e” e um “f” passaram na nossa frente no tempo corrigido, e chegamos na frente só do outro “c”. Estou evoluindo, e acho que o handicap favorece as classes mais idosas, o que dá uma boa perspectiva de futuro.

Chegando em casa rolou o almoço de aniversário de dezessete anos da minha filha mais velha, e fiquei impressionado com o baixo consumo de bebida alcoólica. Quase nada. O que saiu mais foram aqueles sucos de caixinha, chamados néctares de frutas, dos mais variados sabores e muito, muito doces, com bastante vantagem sobre os refrigerantes.

E domingo assisti, segundo a recomendação da Anna, o documentário do sumido Herzog chamado “O homem urso”, sobre um sujeito um tanto desajustado que elege como missão na vida proteger os enormes e ferozes ursos pardos do Alasca. A utilidade da sua missão é duvidosa e pouco realista, pois a população de ursos de 35 mil indivíduos é estável e protegida. Depois de treze verões acampando sozinho entre os ursos, registrando belíssimas imagens em vídeo, ele e a namorada são mortos e devorados por um velho urso faminto. São os elementos de uma reflexão interessantíssima do cineasta alemão.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Pequenas memórias

Sábado passado depois de remar fui à FNAC com as minhas filhas, a mais velha comprou a Rolling Stone 2, a mais moça queria comprar a primeira temporada do OC, e eu comprei, com vinte por cento de desconto, as pequenas memórias do Saramago. É um livro pequeno, e eu li de uma tacada só, entre sonecas e muitos líquidos, seguindo as instruções do técnico para a regata do dia seguinte. Visivelmente a raiz é um trecho do discurso proferido pelo Saramago ao receber o Nobel em 1998, que está senão reproduzido, pelo menos reescrito no livro. Até a incrível frase da avó, “o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer”, assim como a história de levar os bacorinhos para a cama, as noites ao relento e muito mais. Não conto pra não perder a graça. Não é um livro fácil, porque a reconstrução das memórias da infância e da adolescência segue a ordem do seu próprio fluxo, nada cronológica, e as imprecisões não são atenuadas ou arredondadas, mas confessadas e ampliadas, como as fraquezas do autor. Alguns episódios até se repetem.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Falso

Outro dia um amigo me contou o seguinte caso. Ele estava em uma cidade oriental, talvez na Tailândia, numa rua cheia de lojas vendendo todo o tipo de falsificações, de boa qualidade, produtos de marcas famosas. Em meio a tais lojas ele encontrou uma galeria de arte chamada de “o rei do fake” ou algo assim. Lá havia centenas de cópias de quadros de autores famosos, e uma grande equipe trabalhando em reproduções a partir de livros e fotografias. Viu um “Botero” pelo qual se interessou, um sonho de consumo seu. Poderia comprar ali, por quinhentos dólares, um quadro cujo original valeria em torno de mil vezes este valor. A primeira objeção que fez ao impulso, foi o fato de que teria que explicar aos amigos, que o grande Botero era falso, uma brincadeira. Depois raciocinou que um quadro falso na parede implicaria uma dúvida sobre toda a sua coleção, que tem uma finalidade de investimento. Uma coisa leva a outra, começou a questionar arte como investimento, pois afinal, o que não poderia ser falsificado? Certificados de autenticidade e procedência podem ser sempre falsificados, e, por exemplo, mesmo uma foto da obra ao lado do autor, pode sustentar a multiplicação criminosa de cópias. Daqui a duas ou três gerações, quem poderá atestar a origem posta em dúvida de uma obra, com artistas, galeristas e especialistas mortos?

terça-feira, novembro 21, 2006

Classificado

Domingo teve a eliminatória do barco de um, e do barco duplo, provas que tinham muitos inscritos. Eu ia correr a prova de single. Na última hora o treinador todo-poderoso perguntou se eu remaria também um double. Concordei, e no domingo de manhã ele me disse que tinha abortado minha participação no single. Não sei se achei bom ou ruim, é a vantagem de ter alguém que decida por você. Acabei correndo no double com um cara novo no clube, vindo há alguns meses de outro estado, super bom, que rema há décadas sem parar, com a estatura um pouco baixa, o que significa uma remada muito rápida. Ele estava meio desapontado de remar com um iniciante, e de não remar na prova de single, sem saber porque não tinha sido inscrito. O seu parceiro deveria ser um ótimo remador do clube, que se recusou a entrar dizendo que não participa de prova em “barco de rampa”, improvisado, o que faz muito sentido. Dei uma volta com o cara, tentamos algumas largadas, o que ainda não aprendi a fazer direito, e ele ficou bastante preocupado. Nossa primeira bateria foi um desastre, mas só o primeiro estaria automaticamente classificado. Todos os outros iriam para a repescagem. Perdemos muito tempo na largada, e eu, querendo acompanhar o sujeito sem fazer feio, fiz uma força enorme no ritmo acelerado dele. Lá pelos três quartos da raia o gás acabou e eu travei. Batemos remos, mas conseguimos retomar, e chegamos em terceiro. Ele reclamou que eu estava fazendo força demais, dando trancos e segurando o barco. Antes da segunda regata, entramos cedo na água, treinamos mais algumas largadas, algumas saíram boas. A largada na prova foi medíocre, mas ele baixou o ritmo, eu diminuí a força, e o barco andou bem melhor. Baixamos o tempo em nove segundos, e ficamos em segundo lugar, na frente do segundo da nossa eliminatória. Temos alguma chance de brigar pelo terceiro no próximo sábado.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Auto-flagelação

Estou com as mãos em péssimo estado porque estou treinando todo dia com o four e o single, para uma regata que vai haver na semana que vem. Ao remar o mais rápido possível, com remos diferentes, novas áreas de atrito são acionadas. Onde até a semana passada haviam civilizados calos, surgiram bolhas, que rasgaram e tenho seis buracos abertos nas mãos, ardidos e doloridos. Quem vê pensa que eu pus as mãos na grelha de uma churrasqueira. E provavelmente, não tenho chance nenhuma.

terça-feira, novembro 14, 2006

Sexo selvagem

Falando em sexo, estive pensando sobre “O Selvagem da Ópera”, do Rubem Fonseca, que li uns dias atrás. Não gosto nem do Rubem Fonseca, nem de ópera, e muito menos do Carlos Gomes. Assisti uma vez uma luxuosa montagem do Guarani no teatro Alfa, com legendas e tudo, e o tenor gordinho com um tórax de plástico com barriga de tanquinho cantando em italiano foi das coisas mais deprimentes que já vi na vida, vários furos abaixo dos índios de faroeste italiano. Segundo o livro, Carlos Gomes é um fruto do seu tempo. Protegido do imperador Pedro II, pegou o fim do império e ficou órfão; sua arte também estava moribunda, mais moço que ele, de renome, que eu saiba (e não sei nada deste assunto), só o Puccini; e a ópera padecia de ser uma forma de arte popular e decadente, que fazia todas as concessões possíveis ao público, aos mecenas (como se chamavam os patrocinadores de então) e empresários. Os libretos eram todos horríveis, previsíveis, o herói e a heroína com um amor impossível que acabava em morte, num contexto histórico sempre totalmente deformado e ridículo. Mas porque sexo? Pegando o mote do Saramago, e da força indiscutível que o impulso erótico exerce sobre humanos e outros animais, estive pensando na questão da miscigenação e preconceito. Carlos Gomes era muito moreno, e com certa fantasia ou marketing, se dizia descendente de índios. Era a época do romantismo indigenista ou indianista, e o país tentava construir sua identidade manipulando a cultura nativa, o que pegava bem com os europeus. Segundo o Rubem Fonseca era boa pinta e mulherengo, e teve inúmeras mulheres, principalmente cantoras e condessas aficcionadas da ópera. As européias, ainda que tivessem preconceito contra a pele escura do artista, sucumbiam ao seu charme e físico. É o que sempre aconteceu, o preconceito é vencido pelo impulso irresistível, e a miscigenação acontece. Não adianta discutir com o sexo, como diz o Saramago. A tese do Rubem Fonseca é que o pobre Carlos foi tragado por este gênero artístico menor e decadente, e sua necessidade de sucesso e atenção, por um suposto complexo de inferioridade de sua rude origem cabocla, o fez compactuar com as concessões que o gênero exigia, e viver em altos e baixos ao sabor dos aplausos e apupos ditados por circunstâncias que quase nada tinham a ver com arte. Um homem do seu tempo, que como Freud, morreu de câncer na boca, possivelmente causado pelo vício do charuto.
Tem um post novo do Fitzwilliam muito engraçado sobre Citibank e Odair José.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Sábado no Estadão

Que importância tem e o que significa o sexo para Saramago?

O sexo é. Especular sobre a importância e o significado dele não levará a outra conclusão: o sexo é, e não só é, como tem as suas razões. Não discutamos com o sexo, ele acabará sempre por ganhar a partida. Às vezes, para justificar as nossas tentações, dizemos que a carne é fraca. E não se repara que se a carne cede é porque o espírito já havia cedido antes...

segunda-feira, novembro 06, 2006

Horário de verão

Bem que eu tentei dormir o máximo possível ontem, porque eu sabia que iria remar às quatro da manhã, horário de padeiro. A lua cheia se pondo exatamente na direção da raia, causando todos aqueles reflexos, e depois na direção oposta o sol nascendo, compensaram um pouco o absurdo de acordar àquela hora. É uma verdadeira violência.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Estresse


A propósito da recente discussão sobre os controladores de vôo e suas vicissitudes, vale a pena ver ou rever o excelente "Pushing tin" (não lembro o título em português), de 1999, com personagens tirados da atividade mais estressante que existe. De brinde a Angelina Jolie de calça de couro.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Incrível

Tudo está aparentemente bem nesta manhã ensolarada de segunda-feira, conforme posso ver aqui desta gávea refrigerada de onde vejo só os prédios em frente e a avenida embaixo. Lula eleito, nada muda. Muito trabalho pra fazer, muitas contas pra pagar, o dia que começou cedo já vai longe, depois das muitas alegrias do fim-de-semana. Aquela ausência de sempre teima em se fazer presente. As figuras desagradáveis também. Ainda não comecei a “ver coisas”. Outro dia vi uma notícia no jornal de um recente estudo feito sobre um neurotransmissor, a dopamina, que sempre foi considerada pouco influente no sono, já que sua quantidade não se alterava com o estado de vigília, ao contrário de outros. Experimentando com camundongos transgênicos (sério) os cientistas concluíram que a falta de dopamina pode ser relacionada ao mal de Parkinson, que induz um estado de sono sem sonhos, e o excesso com a esquizofrenia, porque causaria um estado de sonhar acordado, ou seja, a misteriosa matéria do inconsciente, tradicionalmente manifesta nos sonhos, invadiria a realidade do superdopaminado, que passaria a “ver coisas” acordado. Segundo os cientistas, Freud estaria certo, por isso, ao relacionar a loucura aos sonhos. E a imaginação ativa junguiana?

quarta-feira, outubro 25, 2006

Seinfeldiana

É engraçado como quando você vai digitar a sua senha nas leitoras de cartão, ao pagar uma compra, a pessoa que “passa o cartão” ostensivamente olha para outro lado, para deixar bem claro que não tem a intenção de ver o que você está digitando. Mais engraçado ainda é este gesto estranho se incorporar à rotina profissional de uma pessoa, que passa a repeti-lo centenas de vezes por dia.

terça-feira, outubro 24, 2006

Continue remando

Ontem remei com um garotão de vinte e quatro anos, um pouco mais verde no remo do que eu. Remamos dezesseis quilômetros num bom ritmo, uma hora e vinte, um treino pesado, considerando que fui e voltei da raia correndo, o que dá uns seis quilômetros, mais uns quarenta minutos. Hoje remei oito quilômetros com um garotão inteiraço de setenta e oito anos, com a remada forte e a voga baixa, que estava feliz da vida de andar em velocidade mais alta do que a que tem andado ultimamente. Deixamos alguns barcos para trás. Me deu várias dicas técnicas importantes, reproduzindo as frases do seu treinador de sessenta anos atrás, ouvidas em pleno rio Tietê. Amanhã parece que o four encantado, que já teve várias formações fantasmas nos últimos tempos, assumindo até algumas vezes a forma de um quatro sem (aquela história de remos duplos ou simples, o four com duplos, o quatro sem com um por remador), volta a treinar para uma regata que haverá no fim de novembro. Perdi duas oportunidades de regatas. Uma em São Paulo, porque o treinador não queria interferir na disputa entre dois outros clubes, uma questão ética não muito complicada com uma solução evidentemente errada, e outra no Rio, porque não conseguimos treinar o suficiente. Mas não estou nem aí. O legal é treinar.

sábado, outubro 21, 2006

Onan

De ontem pra hoje topei com três cenas de masturbação. A primeira me foi contada por uma professora, de um aluno de sete anos que se esfolava compulsivamente em plena sala de aula por baixo da carteira como se fosse imperceptível, mesmo que às tantas se utilizasse das duas mãos e se chacoalhasse freneticamente. Outra cena ontem, muitíssimo parecida, no filme “A lula e a baleia” – um filme sobre separação muito bom, com ênfase nos filhos – em que um pré-adolescente na biblioteca da escola vê uma menina bonita, saca uma foto de mulher pelada rasgada do bolso, faz o serviço atrás de uma estante e espalha o sêmem pelos livros. Em outra cena beija o armário da coleguinha e depois pincela a porta com suas secreções. E hoje, depois do almoço, assistindo ao chique “LavourArcaica” – me pareceu um pouco pomposo – que começa com uma longa cena do Selton Mello celebrando Onan ao som de um trem que vem vindo de longe, e passa na hora agá. Lembro que a pensão onde André está era realmente perto dos trilhos, mas não lembro da prática do ato solitário. Será que foi insinuada e eu, na minha inocência, não percebi? Não tenho mais o livro pra conferir.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Asno

Lembrando o famoso asno de Buridan, aquele que entre dois montes de feno igualmente apetitosos trava, imagem utilizada para solucionar dilemas morais, determinada a escolha do maior bem ou menor mal, dificuldade semelhante é vencer a inércia, princípio intuído pelo mesmo filósofo bem antes de Newton, que o formulou como a sua primeira lei. Assim como é difícil despir-se para entrar no banho no inverno, é difícil sair do chuveiro. É necessária a aplicação de uma força de caráter, por menor que seja, para vencer a inércia da preguiça, a tendência a ficar como está. Tenho sempre esse dilema moral antes de começar um trabalho: começar ou não começar? Quase sempre, antes de começar um trabalho, daqueles duros, longos e trabalhosos, adio com outras tarefas mais fáceis e rápidas, que existem em quantidade infinita a serem feitas, até o limite máximo da segurança de que pode ser feito no prazo. Esse limite máximo também é mais ou menos móvel, dependendo do estado de espírito. Depois que começo, como quando entro no chuveiro, é agradável, e faz passar o tempo com velocidade. Também é difícil parar. Rever, revisar, melhorar. Não sei se todo mundo é assim, preguiçoso como eu, sempre a lutar contra a inércia, mas aposto que o Buridan era.

terça-feira, outubro 17, 2006

O selvagem da ópera

Estou lendo, já bem adiantado, “O Selvagem da Ópera”, do Rubem Fonseca. É mais uma leitura acidental, de pegar qualquer coisa na estante pra ler antes de dormir. Carrego há muito tempo uma implicância com esse incensado autor, se não gratuita pelo menos exagerada. Li nos anos 80 alguns contos, sem dúvida impressionantes, dos quais não lembro nada, só que me pareceram impressionantes demais. Depois li “A grande arte” e o “Bufo Spalanzani”, e nos dois impliquei com o protagonista masculino, que identifiquei com o autor, e mesmo com os enredos, um pouco afetados, metidos a besta, apesar de reconhecer o grande talento do escritor. “O Selvagem da Ópera”, sobre o Carlos Gomes, tem uma originalidade que muito me surpreendeu e atraiu. É um romance histórico, que é narrado como se fosse um texto básico para roteiristas, ou seja, a história é contada como se o autor estivesse explicando tudo o que os roteiristas precisam saber para fazer um roteiro cinematográfico, considerado a inclusão desta ou daquela cena, prevendo trechos que provavelmente serão cortados, alternando possibilidades biográficas, e louvando as qualidades da história como vocação para o cinema, como o sucesso de Carlos com as mulheres, o que possibilita as tão desejadas cenas de sexo. Como venho de uma leitura de um romance e o roteiro dele tirado, achei uma feliz coincidência. Rubem Fonseca tem uma longa e profícua convivência com o cinema e a tv, e sabe do que está falando. Curiosamente, que eu saiba, “O Selvagem da Ópera”, de 1994, ainda não virou filme.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Aí vai meu coração

Nesse feriado chuvoso, fiquei horas e horas numa rede, lendo o fascinante “Aí vai meu coração”, cartas de Tarsila do Amaral e Anna Maria Martins ao jornalista e escritor Luís Martins. O bordão do título é de Tarsila. A história é surpreendente. Tarsila era dezoito anos mais velha que Luís, com quem manteve uma união por dezoito anos, até que Luís se apaixona por uma sobrinha de Tarsila, por sua vez dezoito anos mais jovem do que ele. A autora do livro é Ana Luísa Martins, filha de Anna Maria e Luís, a partir de cartas que achou em casa. As cartas de Luís às mulheres parece que não foram encontradas, e ele muitas vezes comunicou-se com elas, principalmente com Anna Maria, através de crônicas que publicava nos jornais, em uma linguagem mais ou menos cifrada, também transcritas no livro. Foi acusado de aproveitador pela família de Anna Maria – parentes de Tarsila – que eram contra a união, e até uma boa parte do livro também achei isso. Depois mudei de idéia, tamanho o respeito e a amizade que Tarsila dedica a ele, mesmo após a separação. A história, dessas em que a realidade supera a ficção, já foi comentada pelo Jayme, no “Dito Assim”, já faz tempo.

terça-feira, outubro 10, 2006

Jules e Jim, o filme

Vi finalmente o Jules e Jim, e foi emocionante, depois de tanta preparação, que neutralizou um pouco o meu senso crítico. O modo como os personagens ganharam vida superou totalmente as minhas expectativas. É uma produção barata, de locações simples entremeadas com imagens jornalísticas de arquivo, pra mostrar as viagens de trem, as cidades antigas e a guerra. Os quarenta e quatro anos do filme, referindo-se há quase cem anos atrás, dão a sensação de viagem no tempo, para um outro mundo, onde o presente foi arquitetado e o projeto esquecido. A amizade, o amor e a cultura são os valores em torno dos quais aquelas vidas desprendidas gravitam, e não consigo achar que é um filme ingênuo. É assustador pensar que realmente possa ser autobiográfico, como dizem. A luta pessoal em contraposição à luta coletiva, e a busca dos próprios caminhos sociais, afetivos, e profissionais numa sociedade opressiva. Muito atual.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Reforma

Vi a placa de um escritório de arquitetura no quarteirão detrás da minha casa. Aquela casa era do pai de uma amiga da minha filha mais moça, que a recebeu de herança de uma tia há pouco tempo atrás. Contou isso um dia que foi buscar a filha, e perguntou quanto eu achava que valia. Disse não ter a menor idéia, pois depois de comprar o meu terreno, há quase dez anos, nunca mais me preocupei com essa questão, o que a minha mulher considerou um pouco antipático.

Sempre reparei naquela casa, há tempos meio abandonada, e o seu bom potencial, apesar de dar frente para a uma rua meio avenida, bastante movimentada, graças ao seu grande recuo na frente e à sua entrada pelos fundos por uma agradável rua tranqüila. A primeira idéia de uma reforma lá é a óbvia inversão da frente. A face leste é a da avenida, o que é um desafio. Mas a parte de cima da casa mais exposta ao barulho hoje já está mesmo fechada. Os quartos são abertos para o norte, como na minha casa, o que funciona muito bem.

Em termos ideais deveria se aproveitar a grande tolerância que a autoridade municipal tem hoje em dia com os muros altos, e o caimento do terreno em direção à rua tranqüila, para produzir uma espécie de campana anti-ruído, defendendo a fronteira leste e norte do terreno, e abaixando tanto quanto possível o andar superior, empurrando-o em direção oposta à avenida. O projeto da minha casa tem esta intenção, apesar da rua ser calma na frente e nos fundos, os quartos recuados em relação à grande parede fechada da frente, protegendo do ruído branco de uma outra avenida já um tanto distante, agora muito minimizado pela construção de uns predinhos.

A defesa contra o ruído é sempre difícil, porque ele reflete em tudo e contorna os obstáculos, mas o problema pode ser bem diminuído. Tem muita gente morando nas valorizadíssimas e não tão sossegadas ruas do Jardim América e Europa, e a solução que se dá é a utilização de clima artificial e janelas anti-ruído, o que pra mim é banal e esquisito.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Ainda Jules e Jim


Bom, acabei de ler o romance e o roteiro do Jules e Jim. O roteiro é surpreendentemente fiel ao livro, apenas uma edição com os recursos mais óbvios: a concentração de alguns personagens e fatos, a transformação de alguns pensamentos em diálogos, e algumas inversões de ordem. A intenção de ser fiel ao texto é tanta que a narração em off, um artifício pouco cinematográfico no sentido de ser uma arte essencialmente visual, é utilizada com bastante intensidade. As escolhas necessárias para contar a história da melhor maneira possível, são as decisões do autor. Ao contrário do que me pareceu antes, quando comecei a ler o livro e a narrativa era um cipoal de acontecimentos e pessoas, a vida agitada dos dois jovens em Paris antes de conhecerem Kathe, depois a história encontra o seu eixo no famoso triângulo, e fica muito bem definida. A alemã Kathe vira Catherine, possivelmente por causa da atriz, francesa. Agora, vou ver o filme sabendo exatamente tudo o que vai acontecer.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Textículos


Continua em cartaz no NEXT os Textículos de Antônio Rocco. São seis ou sete peças ou como quer que se chame os pequenos e redondos textos, de situações de alta intensidade, mostrando a vida como ela é, em uma montagem de qualidade. Tudo isso servido rapidamente nos dois pequenos palcos do Cabaré Next, com muita agilidade e sem intervalo. Um programa diferente, barato e divertido, fácil de chegar e estacionar, uma ótima alternativa para a muvuca do fim-de-semana.

terça-feira, outubro 03, 2006

Como disse o Groucho

jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio.

Jules et Magda firent un séjour dans le Midi. Ils envoyrènt à Jim des photos émouvantes qui les montraient comme lunaires et très unis. Jim eut un espoir pour Jules.
Peu de temps après leur retour, Jules dit à Jim :
- J’aime Magda. Mais c’est une habitude. Ce n’est pas le grand amour. Elle est à la fois ma jeune mère et ma fille attentive.
- C’est beau ! dit Jim.
- Ce n’est pas l’amour dont je rêve.
- Sûrement. J l’ai pour Lucie.
Jim se retint de dire : « Parce que vous ne la possédez pas. »
- Et d’ailleurs, poursuivit Jules, je ne pardonnerai jamais à une femme de m’aimer, tel que je ne connais. Cela indique une perversion, un compromis... dont Lucie est exempte. Elle n’accepte pas une parcelle de moi.
- Chaque homme pourrait penser cela, dit Jim.
- Oui... pourrait... dit Jules. Mais mot je le fais.
- Eh bien, dit Jim, c’est héroïque, et respectable. C’est un peu d’un martyr. C’est la clef de votre vie. Si Lucie vous aimait...
- Ele ne serai plus Lucie, dit Jules.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Jules e Jim

Ainda na falando de autoria, romances e filmes, comprei na locadora de vídeo o “Jules e Jim”, uma edição recente que traz o romance original de Henry-Pierre Roche, um autor bissexto, o roteiro – na verdade “decupado”, ou seja, reconstituído a partir do filme acho eu – e ainda algumas resenhas. O romance é um jorro de acontecimentos mais ou menos desconexos, que parece um diário, ou um blog, abrangendo um longo período de tempo, tendo como figuras centrais os dois amigos, Jules, alemão, e Jim, francês, e muitos outros personagens que vêm e vão. Não há propriamente uma história, mas interessantíssimas observações sobre as relações entre os amigos e suas mulheres, baseadas em episódios mais ou menos independentes. Há uma tênue espinha dorsal, mas não sei ainda se se sustenta e se resolve. É daqueles que parece infilmável. Estou curisoso pra ver como o processo acontece. Vou ver o filme por último.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Ainda sobre autoria

Um trecho ótimo do Jorge Furtado:

Aliás, quase todas as inovações nas estruturas da narrativa surgem na linguagem popular, o mesmo berço da língua. Os escritores só tem o trabalho de botar no papel, citando a fonte ou não. Guimarães Rosa aprendeu quase tudo com os sertanejos. Simões Lopes Neto, segundo o Aurélio, recebia "gente simples para longas conversas". Shakespeare, que eu saiba, nunca inventou uma história. E olha o que o Mário de Andrade escreveu quando foi acusado de "se inspirar" num livro do naturalista Koch-Grünberg para escrever Macunaíma: "Copiei sim. O que me espanta, e acho sublime de bondade, é dos maldizentes se esquecerem de tudo quanto sabem, restringindo a minha cópia a Koch-Grünberg, quando copiei todos. Confesso que copiei, copiei as vezes textualmente. Quer saber mesmo? Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndicos, mas ainda, na Carta pras Icamiabas, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais..." O genial de Mário (assim como de Rosa, Shakespeare e Lopes Neto) não está na "originalidade", adjetivo muito usado por quem desconhece o passado, mas sim no talento com que mescla conhecimento e "convicções audazes". Quem antes dele poderia terminar um romance com a frase "Tem mais não"?

terça-feira, setembro 26, 2006

Autores

O romance não morreu, mas que perdeu um enormíssimo terreno na circulação de histórias de entretenimento para o cinema, e a televisão, perdeu. Sei lá, chutaria uns 95 %. Antes do cinema não tinha jeito. Para apreciar uma história, tinha que ler ou ir ao teatro. O cinema demorou a substituir a leitura, por estar vendendo mais o deslumbramento das imagens animadas do que a história em si, suponho eu. O teatro também arrisco afirmar nunca teve o volume necessário para competir com os livros e folhetins, pela limitação física da montagem, quantos conseguem assistir. Mas o cinema atual tem um monumental poder de fogo, e consegue contar uma mesma história a centenas de milhões de pessoas em poucos dias. E depois vem outro, e outro, e outro, e o volume de produção é enorme, ficando difícil acompanhar todos os lançamentos interessantes. Engraçado é como mudou o foco da autoria. No cinema, a figura do autor está muito mais centrada no diretor, que é quem conta a história, do que no roteirista, que é quem prepara a história para ser contada, que não é necessariamente o criador da história. Esta constatação me fez pensar que no romance não é diferente. Só que no romance, no mais das vezes, o criador da história se confunde com quem conta. Mas não necessariamente, e nem mesmo tão freqüentemente como pode parecer. Muitos romances são criados a partir de histórias reais, disfarçadas ou não, como nos romances históricos, sobre lendas antigas vindas da tradição oral, ou a partir da colagem de vários elementos, incluindo histórias de outros autores. Não importa. A autoria não é do criador da história, ou da idéia ou do argumento. A autoria é de quem conta a história, a forma com que se conta a história. No caso da literatura, a exata ordem das palavras. No cinema, é daquele que determina como vão ser captadas e ordenadas as imagens e sons, ou seja, o autor das imagens e sons. O mais incrível é que qualquer história pode ser contada nas duas horas de um filme.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Fluxo da consciência

Fui visitar meu pai em sua casa de campo este fim de semana e li o “Lavoura Arcaica”, um exemplar presenteado a ele pela minha irmã, condições propícias para sanar mais uma lacuna da minha infinita ignorância. Um traço curioso do livro é por o complexo discurso em primeira pessoa do narrador na boca de um adolescente. Está na cara que é a recuperação reflexiva do adulto, um outro narrador oculto sob a figura do autor, do processo natural de rompimento com a família, o amor da mãe e a autoridade do pai, necessário à conquista da autonomia. Um lar tão bem construído sobre bons princípios e amor abundante, que o conflito necessário exige a violência do maior tabu, o incesto. Uma jóia de projeto, construção e acabamento, que não deixa de ter seus momentos de humor, como a descrição de uma cabra como objeto erótico.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Equinócio

A primavera está voltando, chega na cidade de São Paulo no dia 23, à uma e quatro da manhã. Gostei de ver que correspondendo à expectativa tradicional voltou a chover nos últimos dias, dando a impressão que os grandes ciclos climáticos estão razoavelmente nos eixos, apesar do decantado aquecimento do planeta. E com ela virão as flores e os amores, pra quem está atrás disso. Pra quem não está, outros caminhos devem se abrir, lavados pela chuva, ao som do trovão, São Pedro fazendo a faxina no céu.

quarta-feira, setembro 20, 2006

Redução

Uma das táticas fisiológicas usadas pelo corpo na luta pela sobrevivência é a redução do metabolismo em situações especiais. No frio diminui-se o próprio tamanho do corpo pela eliminação de líquidos – daí a vontade de urinar – para obter-se a redução da circulação de sangue pelos vasos sangüíneos periféricos, e assim perder menos calor, tentando manter quentes os centros essenciais, cabeça e tronco. Exatamente como as empresas em momentos de crise, que reduzem as atividades e proporcionalmente os custos, diminuindo despesas e mandando embora empregados. Talvez a estratégia valha também para a economia emocional. Pretende-se que a redução seja temporária, necessária até ser superada a escassez, sempre buscando-se a saída para a abundância.

terça-feira, setembro 19, 2006

Duas polegadas a mais

Minhas filhas adolescentes dividiam um computador, até que percebemos não ser mais possível o uso compartilhado de algo tão íntimo e pessoal, a mais profunda extensão da personalidade que posso conceber, prenhe da produção, a rede social, e os segredos e preferências de cada um. Acredito que a próxima evolução da proteção aos direitos da personalidade terá que dar inviolabilidade a tais máquinas, não sendo mais possível distinguir quanto de nós está dentro ou fora delas. Compramos um novo para uma que aniversariou, que foi por isso promovida de um monitor de 15 para 17 polegadas, e o seu mundo visível tomou outra dimensão. Dos cabalísticos 1024 x 768 para os não menos cabalísticos 1280 x 800, o retângulo para o qual ela passa horas e horas do dia e da noite olhando, seu espelho, seu horizonte, enfim, foi ampliado. Muda alguma coisa?

Não contem pras crianças

Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006 (entra em vigor 45 dias após a publicação, ou seja, no dia 6 de outubro).
CAPÍTULO III
DOS CRIMES E DAS PENAS
Art. 27. As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor.
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
§ 1o Às mesmas medidas submete-se quem, para seu consumo pessoal, semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou produto capaz de causar dependência física ou psíquica.
§ 2o Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos antecedentes do agente.
§ 3o As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 5 (cinco) meses.
§ 4o Em caso de reincidência, as penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo prazo máximo de 10 (dez) meses.
§ 5o A prestação de serviços à comunidade será cumprida em programas comunitários, entidades educacionais ou assistenciais, hospitais, estabelecimentos congêneres, públicos ou privados sem fins lucrativos, que se ocupem, preferencialmente, da prevenção do consumo ou da recuperação de usuários e dependentes de drogas.
§ 6o Para garantia do cumprimento das medidas educativas a que se refere o caput, nos incisos I, II e III, a que injustificadamente se recuse o agente, poderá o juiz submetê-lo, sucessivamente a:
I - admoestação verbal;
II - multa.
§ 7o O juiz determinará ao Poder Público que coloque à disposição do infrator, gratuitamente, estabelecimento de saúde, preferencialmente ambulatorial, para tratamento especializado.
Art. 29. Na imposição da medida educativa a que se refere o inciso II do § 6o do art. 28, o juiz, atendendo à reprovabilidade da conduta, fixará o número de dias-multa, em quantidade nunca inferior a 40 (quarenta) nem superior a 100 (cem), atribuindo depois a cada um, segundo a capacidade econômica do agente, o valor de um trinta avos até 3 (três) vezes o valor do maior salário mínimo.
Parágrafo único. Os valores decorrentes da imposição da multa a que se refere o § 6o do art. 28 serão creditados à conta do Fundo Nacional Antidrogas.
Art. 30. Prescrevem em 2 (dois) anos a imposição e a execução das penas, observado, no tocante à interrupção do prazo, o disposto nos arts. 107 e seguintes do Código Penal.

segunda-feira, setembro 18, 2006

O coronel

Gostei de uma frase que o assassinado Coronel Ubiratan gostava de repetir, citada por um de seus filhos em entrevista ao Estadão no sábado, algo assim como “a coisa tá ruim, morde o freio e agüenta”, denotando suas origens de cavalaria. Engraçado o cavaleiro tomar a perspectiva do cavalo. A expressão, vinda de quem está no alto da hierarquia militar, pode não ser exatamente uma auto-ironia, ou a identificação do cavaleiro com sua montaria, mas do subalterno com a animália. É uma interpretação maldosa. E a frase é curiosamente próxima daquela outra “tomar o freio nos dentes”, que significa a rebeldia do animal contra o cavaleiro. Será que tudo isso tem alguma relação oculta e invisível com o massacre do Carandiru?

terça-feira, setembro 12, 2006

Estréia e festa



Parece que o a. vai.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Posesión del ayer

Sé que he perdido tantas cosas que no podría contarlas y que esas perdiciones, ahora, son lo que es mío. Sé que he perdido el amarillo y el negro y pienso en esos imposibles colores como no piensan los que ven. Mi padre ha muerto y está siempre a mi lado. Cuando quiero escandir versos de Swinburne, lo hago, me dicen, con su voz. Sélo el que ha muerto es nuestro, sólo es nuestro lo que perdimos. Ilión fue, pero Ilión perdura en el hexámetro que la plañe. Israel fue cuando era una antigua nostalgia. Todo poema, con el tiempo, es una elegía. Nuestras son las mujeres que nos dejaron, ya no sujetos a la víspera, que es zozobra, y a las alarmas y terrores de la esperanza. No hay otros paraísos que los paraísos perdidos.

J.L.Borges, Los conjurados.

É um poema sobre as perdas. Ao perder a visão, Borges perdeu as cores, mas pensa cores impossíveis que não pensam os que vêem. Sobre os versos do poeta, possivelmente um amigo, interpreta-os com a voz do outro, preenchendo com ela a sua ausência. O pai morto está sempre ao seu lado. “Só é nosso o que perdemos” é o mote do poema. Mas não se perde o que nunca se teve. “Nossas são as mulheres que nos deixaram”. E estamos livres dos alarmes e terrores da esperança.

segunda-feira, setembro 04, 2006

O fio da fábula

O fio que a mão de Ariadna deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se enfiasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como quer Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, desemaranhar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor. As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar pré-fixado estava Medéia. O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos imprevisível. O nosso bonito dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos em um ato de fé, em uma cadência, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.



J. L. Borges, "Os Conjurados".

Esta imagem do Minotauro no fundo do labirinto, e Teseu a descer com a guia do caminho de volta, de Ariadne para Ariadne, pra mim tem o significado do enfrentamento do civilizado com o selvagem que habita em nós, o desejo físico que tanto nos perturba, o mesmo que a fábula do rei Kong. Em outro plano talvez também o egoísmo e a violência. Posso chutar que o corpo de touro e cabeça de homem do monstro de Dante é por causa disso, o ênfase do selvagem na parte inferior do corpo.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Saga

“A monarquia morreu... Deixemo-la na podridão silenciosa do seu transe, que nem a lira dos bardos entoará por ela sagas épicas, nem a boca dos áugures há de rezar-lhe outros responsos que não sejam desdenhosas vaias por não ter sabido defender-se (Fialho, Saibam Quantos, p. 14, ed. 1912).” Do Caldas Aulete. Saga é uma palavra de origem escandinava que significa a tradição histórica. Epopéia é o poema que narra, por assim dizer uma saga de ações grandiosas e heróicas. Se qualificarem assim suas façanhas, e você não é Ulisses, Erik, o viking, ou Vasco da Gama, você estará sendo tratado com ironia.