segunda-feira, setembro 11, 2006

Posesión del ayer

Sé que he perdido tantas cosas que no podría contarlas y que esas perdiciones, ahora, son lo que es mío. Sé que he perdido el amarillo y el negro y pienso en esos imposibles colores como no piensan los que ven. Mi padre ha muerto y está siempre a mi lado. Cuando quiero escandir versos de Swinburne, lo hago, me dicen, con su voz. Sélo el que ha muerto es nuestro, sólo es nuestro lo que perdimos. Ilión fue, pero Ilión perdura en el hexámetro que la plañe. Israel fue cuando era una antigua nostalgia. Todo poema, con el tiempo, es una elegía. Nuestras son las mujeres que nos dejaron, ya no sujetos a la víspera, que es zozobra, y a las alarmas y terrores de la esperanza. No hay otros paraísos que los paraísos perdidos.

J.L.Borges, Los conjurados.

É um poema sobre as perdas. Ao perder a visão, Borges perdeu as cores, mas pensa cores impossíveis que não pensam os que vêem. Sobre os versos do poeta, possivelmente um amigo, interpreta-os com a voz do outro, preenchendo com ela a sua ausência. O pai morto está sempre ao seu lado. “Só é nosso o que perdemos” é o mote do poema. Mas não se perde o que nunca se teve. “Nossas são as mulheres que nos deixaram”. E estamos livres dos alarmes e terrores da esperança.

segunda-feira, setembro 04, 2006

O fio da fábula

O fio que a mão de Ariadna deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se enfiasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como quer Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, desemaranhar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor. As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar pré-fixado estava Medéia. O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos imprevisível. O nosso bonito dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos em um ato de fé, em uma cadência, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.



J. L. Borges, "Os Conjurados".

Esta imagem do Minotauro no fundo do labirinto, e Teseu a descer com a guia do caminho de volta, de Ariadne para Ariadne, pra mim tem o significado do enfrentamento do civilizado com o selvagem que habita em nós, o desejo físico que tanto nos perturba, o mesmo que a fábula do rei Kong. Em outro plano talvez também o egoísmo e a violência. Posso chutar que o corpo de touro e cabeça de homem do monstro de Dante é por causa disso, o ênfase do selvagem na parte inferior do corpo.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Saga

“A monarquia morreu... Deixemo-la na podridão silenciosa do seu transe, que nem a lira dos bardos entoará por ela sagas épicas, nem a boca dos áugures há de rezar-lhe outros responsos que não sejam desdenhosas vaias por não ter sabido defender-se (Fialho, Saibam Quantos, p. 14, ed. 1912).” Do Caldas Aulete. Saga é uma palavra de origem escandinava que significa a tradição histórica. Epopéia é o poema que narra, por assim dizer uma saga de ações grandiosas e heróicas. Se qualificarem assim suas façanhas, e você não é Ulisses, Erik, o viking, ou Vasco da Gama, você estará sendo tratado com ironia.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Condições anormais de temperatura e pressão

Estou lendo “A vida no limite”, com o sub-título “A ciência da sobrevivência”, de uma fisiologista de Oxford chamada Frances Ashcroft, ciência para leigos. Procura explicar os limites do corpo em situações de altitude, frio, calor, profundidade, falta de ar, esforço, os mecanismos físicos para lidar com essas situações e como tal conhecimento foi adquirido, sempre a custa de muitas mortes. Interessantíssimo pra quem gosta de ciências, como eu, um típico produto do enciclopedismo dos anos sessenta, quando as viagens espaciais, expedições submarinas, e grandes escaladas eram o máximo. Agora, tais atividades, antes reservadas a uma casta de super-homens foram reduzidas a esportes radicais, ou pior, “turismo de aventura”, diversão de fim-de-semana ao alcance de todos. A agradável narrativa é pontuada por casos extravagantes, como um jantar realizado num túnel sob o Tâmisa, quando suas duas pontas se encontraram, em ambiente pressurizado, o que fez com que o champagne não borbulhasse, a não ser depois que os convivas retornassem à superfície, com conseqüências desastrosas. Estou ansioso por chegar ao capítulo que trata de esportes, mas ainda estou nas dificuldades do deserto.

terça-feira, agosto 29, 2006

Rádio brega

Gosto muito de ouvir rádio no carro, pra mim, nada supera a possibilidade de ouvir alguma música inesperada e especial. Mesmo porque é difícil manter o repertório a bordo novo o suficiente para não se tornar uma tediosa repetição. O fato é que há muito tempo não me dedico mais a garimpar e acumular música. Ouço as rádios de velho, a Cultura, a Eldorado, e a Rádio Kiss, e quando estou com adolescentes, Jovem Pan, 89, e outras do gênero. Às vezes escuto um pouco de brega genuíno na Tropical, que tem um horóscopo com vinhetas excelentes. Hoje, vindo para o escritório, escutei o impagável adágio do Samuel Barber, a música do Platoon, que já vi parodiado em Casseta & Planeta ao som do dito cujo. Implico um pouco com o Oliver Stone, acho um pouco grandiloqüente e pomposo, assim como o Ridley Scott, que pra mim tem mais ou menos a mesma posição no panteão do cinema americano, mas até hoje me lembro de ter ficado impressionado com a cena em que o William Dafoe caça o colega no mato, e com o adágio que eu não conhecia. É uma peça fácil e sentimental, que pega qualquer um. Apesar da distância no tempo, me lembra o adágio do Albinoni, trilha do cafona Rollerball, que foi gravado junto com o Canon do Pachelbel, pelo Karajan, nos anos 70, gravação que eu imagino tenha sido responsável por erigir o Cânon na melodia mais tocada em casamentos nos Estados Unidos nas últimas décadas. A dúvida é se entregar ou resistir à essa breguice?

domingo, agosto 27, 2006

Joga as cascas pra lá

Ontem fui dormir cedo depois do churrasco na laje, uma verdadeira carnificina. Grandes pedaços de carne vermelha com uma capa branca de gordura, tripas estufadas com carne moída, e pentes de costela serrados ao meio, parecendo um moquém tupinambá. Uma caipirinha pra começar, e várias cartucheiras de cerveja depois às cinco da tarde não lembro mais o que aconteceu. Lá pelas sete desabei e fui acordar doze horas depois, pus a roupa de esportes, e esperando um dia como o de ontem, me besuntei de protetor solar. Estava encoberto e ventoso, com fortes rajadas vindo de algum lugar entre o norte e o oeste, e fui à raia sabendo que estaria ruim pra remar. Por outro lado, esse vento costuma limpar o tempo rapidamente. Realmente as condições estavam péssimas, com as ondinhas começando a quebrar, e quase ninguém na água. Encontrei um disposto a sair no double, já que single sambaria demais naquela água. A raia é orientada no sentido noroeste-sudeste, e o vento de sul, que traz as frentes frias, é o que predomina na cidade. Conversando sobre isso depois do treino, com o tempo já limpo, localizei o norte no horizonte da cidade, o pico do Jaraguá. Quando o vento vem dessa direção, os aviões aterrisam em Congonhas vindo do sul, e deixam a zona oeste livre da sua aproximação.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Chegando perto


Hellhound On My Trail
by Robert Johnson

I got to keep moving, I got to keep moving
Blues falling down like hail, blues falling down like hail
Mmm, blues falling down like hail, blues falling down like hail
And the day keeps on remindin' me, there's a hellhound on my trail
Hellhound on my trail, hellhound on my trail

If today was Christmas eve, if today was Christmas eve
And tomorrow was Christmas day
If today was Christmas eve and tomorrow was Christmas day
All I would need is my little sweet rider
Just to pass the time away, to pass the time away

You sprinkled hot foot powder, mmm, around my door
All around my door
You sprinkled hot foot powder, all around your daddy's door
It keeps me with ramblin' mind rider
Every old place I go, every old place I go

I can tell the wind is risin', the leaves tremblin' on the tree
Tremblin' on the tree
I can tell the wind is risin', leaves tremblin' on the tree
All I need is my little sweet woman
And to keep my company, hey, hey, hey, hey, my company

segunda-feira, agosto 21, 2006

Roubadas

Neste fim-de-semana, especialmente largado, assisti a um pedaço do “Saia Justa”, as moças comentando um fenômeno da internet, em particular do orkut, que é o reencontro de antigos amores, com várias entrevistas-relâmpago com pessoas na rua, algumas dizendo que o encontro provocava um frio na barriga, outras que preferiam “mudar de calçada”. A Maitê Proença contou um caso complicado, de um namorado da adolescência, que depois de um bom tempo de correspondência ótima que despertou nela uma expectativa grande, resolveram se encontrar, e ela fez vir o sujeito do exterior, baseada numa foto que depois ela qualificou de mentirosa. Quando chegou era um sujeito com problemas de postura, visivelmente “alquebrado pela vida” como ela disse, ou algo assim, que frustrou completamente suas ilusões. Sem graça de despachá-lo prontamente, tentou ajudá-lo levando-o a um terapeuta alternativo e ao candomblé, e se livrou dele assim que pôde. Se um atriz famosa por sua beleza cai nas armadilhas da rede, o que será dos comuns? Nos relacionamentos iniciados ou reiniciados na internet há uma inversão da ordem natural das coisas, parecida com a artificialidade das agências de casamento, ou qualquer forma de encontros arranjados. Não que eu ache que a ordem natural das coisas não possa ser mudada, mas tradicionalmente os relacionamentos se iniciam pela atração física, imediata e palpável, geralmente em uma situação em que alguma identificação social foi rapidamente constatada. Pela internet o ataque pode começar por dentro do cérebro, pelo tatear das fantasias, o que, aliado a uma foto mentirosa, pode dar excelentes resultados, especialmente por estar a outra parte sentindo-se protegida e disposta a expor-se mais na conversa, revelando informações importantes ao manipulador. Aumentam as probabilidades de conhecer mais gente, na mesma proporção em que aumentam as probabilidades de roubada, vindas do passado e do presente.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Trans

Conforme o tempo vai passando a ciência vai identificando os piores venenos que consumimos, voluntariamente ou não, e vamos nos defendendo como dá. O DDT, o mercúrio, o chumbo, o amianto, os aerossóis, aquele gás das geladeiras, foram tanto quanto possível eliminados do nosso contato, outros com os quais o contato é ainda inevitável, como o monóxido de carbono e o tabaco estão sendo também combatidos. Isso pra falar das mais óbvias. A grande vilã do momento é a gordura trans, que nada mais é do que um tipo de gordura hidrogenada, a que é produzida pela indústria, e ao que parece o lobby da indústria alimentícia não conseguiu mais esconder a sua extrema nocividade ao consumo humano. Segundo a Anvisa, toda a gordura hidrogenada produzida pela indústria é trans, que tem a função de tornar sólida a gordura e prolongar a durabilidade dos alimentos, ou seja, a base da fabricação e distribuição de alimentos industrializados.. E não se deve consumir mais que duas gramas de gordura trans por dia. Numa Veja recente se diz que uma batatinha do McDonalds tem dez vezes a quantidade tolerável. O fato é que sobre a gordura trans se construiu toda a indústria alimentícia atual. E a impressão que eu tenho é que houve um gigantesco erro histórico na solução para alimentação das massas. Todo o investimento que foi feito no desenvolvimento da indústria alimentícia, que transforma mares de soja em todo tipo de guloseima envenenada, deveria ter sido canalizado para o abastecimento de produtos frescos, como quitandas, açougues, peixarias e padarias, e não em nestlés e carrefours. Depois da indústria do tabaco, acho que a guerra agora será contra a indústria alimentícia, que está se mostrando tão perigosa para a saúde como o cigarro. Isso sem falar na farmacêutica.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Filme de terror

Vi o Munique ontem, o filme do Spielberg sobre o atentado contra a delegação israelense da olimpíada de 1972, e os seus acontecimentos posteriores. É um filme corrido, difícil de acompanhar, que demanda atenção como aqueles filmes antigos de espionagem, e em que a história é contada aos saltos, dando a impressão que é de propósito, e que só adultos inteligentes e concentrados vão se divertir com aquilo, como se estivessem sendo exigidos como espiões. A diferença é que ao contrário dos filmes de guerra-fria, quase comédias de ação, contém discussões éticas sérias mesmo. E ao contrário de outros filmes, sérios ou não, do Spielberg, neste ele controlou sua tendência ao pieguismo muito bem. Na edição do DVD – ainda com a etiqueta de lançamento - há uma introdução com ele falando sobre o filme, que pode muito bem ser vista depois, em que defende o seu esforço de imparcialidade. O filme é atual como nunca, mostrando que a guerra de guerrilha pode ser, e geralmente é, patrocinada pelos Estados e não brotada de movimentos populares, ou seja, os Estados são secretamente terroristas. Perdidas as causas históricas remotas, todos têm boas razões mais ou menos equivalentes, ou pelo menos sustentáveis, para lutar. O duro é distingüir o que é útil, necessário e eficiente do simples derramamento de sangue. Mais do que nunca, é de pensar-se nos aforismos dos advogados, frutos da experiência e do senso comum, do tipo “é melhor um mau acordo do que uma boa demanda”, “tolo é o advogado que tem a si próprio como cliente”, “o bom acordo é o que deixa as duas partes insatisfeitas”, todos dizendo que os envolvidos nunca têm a serenidade necessária para solucionar seus próprios conflitos.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Júlio de Mesquita


Em bronze, com um tiro na testa, olhando o lugar aonde ficava o seu jornal.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Santos F. C.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Auto-atrapalhação


Foi-se ou não o tempo em que a palavra era definitiva? Para o bem e para o mal, frente aos outros ou pior, a si mesmo. As auto-promessas de dieta, abandonar vícios e outras fixações, parecem ser feitas para serem quebradas. O promitente sabe racionalmente o que é melhor para ele mas uma força superior lhe tolhe a vontade, proporcionando o prazer rápido de um chocolate e uma mais persistente sensação de fraqueza e derrota. Nesta despretensiosa reflexão amadora, eu poderia fazer uma primeira divisão entre as compulsões ativas, de fazer, e as passivas, de não-fazer, se é que podem ser chamadas assim. Destruir um pacote de bolachas doces seria uma compulsão ativa, e faltar à sessão da academia, passiva. Pode-se inverter o sinal, e ver-se o oposto. Não conseguir deixar de atacar a geladeira, ou seja não impedir-se de violar a regra auto-imposta, deixar a vontade baixa escapar do controle pode ser vista como passiva, assim como optar por ir à sorveteria ao invés da academia pode ser vista como ativa. É possível enxergar-se a questão assim, como vetores equivalentes, mas me parece uma certa forçação de barra. Fazer o que não devo e não fazer o que devo pra mim é claro e palpável. Então a luta é para não fazer o que não devo e fazer o que devo. Ambas as posições tratam do dever auto-imposto, mas há uma diferença grande entre elas. A compulsão que supera a vontade é muito mais difícil de ser tolhida do que obter a motivação pra fazer o que se deve, ou executar-se os planos de progresso. Digo isso por experiência própria. Bom é quando a compulsão nos leva para onde queremos ir.

quinta-feira, agosto 03, 2006


Em nova versão gentilmente melhorada por a.
Da minha sala de trabalho, por um bisavô diletante

Demoro pra aprender certas coisas. Há muito tempo que eu sei e reflito sobre o assunto, que numa negociação qualquer, seja um negócio, uma briga familiar, ou mesmo pegar um cavalo no pasto, é necessário deixar espaço para que o interlocutor dê todas as voltas que quiser para aceitar a proposta ou oferecer uma contraproposta, sem confronto. Cercar todas as saídas antes da hora, acuando, é a melhor maneira de perder o negócio. Volta e meia, ansioso, ainda faço isso. Mesmo sabendo que negócio e baile funk tem todo dia.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Fogo


Até tirei uma foto do fogo na lareira ontem à noite, minha modesta contribuição para o aquecimento do planeta, a família reunida depois da dispersão das férias, incluindo os apêndices mais freqüentes, a sogra e o namorado da filha mais velha. Aproveitei para queimar uns arquivos secretos, que devem ter produzido uma boa quantidade de gases tóxicos.

terça-feira, agosto 01, 2006

E as vicunhas?


São camelos selvagens que pastam pedras.

sexta-feira, julho 28, 2006

Una canción desesperada

De carro pela cidade, o trânsito já um pouco esparso depois da hora do congestionamento, desci do espigão da Paulista pela Rebouças, passei por baixo do túnel da Faria Lima, peguei a marginal Pinheiros na direção sul, e fui procurar o bairro da minha infância e adolescência, explorado de bicicleta, skate, motos e motonetas, e até um dodge dart azul, no tempo em que os carros eram coloridos por influência dos hippies, antes da ditadura do prata e do preto. Errei a rua da igrejinha, mas depois achei a rede de neurônios que representava aquela geografia e liguei. Daí refiz todos os circuitos, reconhecendo as casas do meu tempo embaixo daquela glace das reformas e os muros altos, e esquadrinhei o asfalto novo dirigindo suavemente pelas curvas conhecidas, acelerando um pouco mais em um ou outro ponto. Tudo isso ouvindo um pop suave. Então me enfiei pelos túneis por baixo do Rio Pinheiros, Santo Amaro, até submergir por baixo do Ibirapuera no ritmo seriado das luzes a setenta por hora, despontando na Sena Madureira e subindo novamente o espigão, pra chegar em casa só um pouco atrasado.

quinta-feira, julho 27, 2006

Alalaô


Este cone quase perfeito tem o sugestivo nome de Licancabur, dado ao vulcão pelos antigos habitantes do local onde está San Pedro, que o adoravam como deus e mantinham o mau hábito de oferecer-lhe jovens e crianças em sacrifício. Uma montanha de quase seis mil metros como esta merecia uma consistente cobertura de neves eternas, ainda que tal decoração possa ser considerada clichê e até cafona. Intrigado com a ausência, consultei alguns locais que asseveraram que há dez anos atrás o adereço existia de forma permanente, o que confirmei em cartões postais, que não têm em geral preocupação com atualidade. Ao comentar este fato com a recepcionista do hotel, moradora mais ou menos recente, ela o desmentiu e disse que poucas semanas antes da minha chegada o monte estava coberto até a metade de neve. Fiquei pensando nas notícias que têm saído sobre a elevação da temperatura do planeta, e deu-me a dúvida se não haveria algum sensacionalismo nas fotos de geleiras sem gelo e montanhas que estamos acostumados a ver com neve ao cume, como o Kilimanjaro, desprovidas do simpático acessório, e se as tais neves eternas não são tão eternas assim, mas sujeitas a alguma sazonalidade. Mas o calor que tem feito este verão em São Paulo, com temperatura recorde para o mês de julho de mais de trinta graus, as ondas de calor na Califórnia e na França provocando a morte de muita gente, e uma notícia de hoje no Estadão, denunciando significativo e veloz aumento de gás carbônico e outros gases na atmosfera, responsáveis pelo famoso efeito estufa, estão me fazendo começar a acreditar que a coisa é pra valer. Quando essas notícias começaram, houve uma voz dissidente que disse que o fenômeno era cíclico. O planeta esquenta, aumenta a evaporação, conseqüentemente se intensifica o regime de chuvas, a cobertura vegetal se desenvolve e a temperatura volta a baixar. Fez sentido pra mim, e me apeguei a esta idéia. Agora, já estou achando que a onda contrária não vai dar conta. Especialmente depois do fiasco do Protocolo de Kioto graças à negativa daquele país dos automóveis gigantes de motores enormes. Acho que está na hora de começar a andar de bicicleta. Churrasco, nem pensar.

quarta-feira, julho 26, 2006

Lhama



Respondendo a indagações, não só conversei com algumas lhamas, como o bravo Capitão Haddock – sem o privilégio da ducha, característica do animal da qual não consegui apurar a veracidade – como tive o duvidoso prazer de experimentar a sua carne.



No pitoresco pueblito de Machuca, lá no altiplano, que mais parece uma desabitada cidade cenográfica, na qual estavam só três ou quatro habitantes supostamente locais, um deles vendia churrasquinho de lhama, no melhor estilo “de gato”, entremeando à carne rodelas de salsicha barata, para conseguir atender a grande clientela turística a dois dólares o espetinho. Escura e de sabor forte, parece carne de caça. Só não duvidei do pedigree dos moradores porque vi um deles pegar um saquinho de quínoa, que as boas lojas de produtos naturais vendem caro como o cereal dos reis, e macerar num pilão de pedra ao pé de uma casa usando uma outra pedra, igualzinho ao que vi em um museu arqueológico, segundo o qual vem sendo usado há dois mil anos.

segunda-feira, julho 24, 2006

Turista



Este lugar aparentemente intocado, a mais ou menos quatro mil e trezentos metros de altura, entre dois vulcões de altura aproximada de seis mil metros, faz parte de uma região devastada pelo turismo. O turista é sempre um predador. Não adianta se iludir, pode ser jovem, mochileiro, interessado na cultura do lugar visitado, não deixar lixo, viajar discretamente em pequenos grupos para lugares pouco procurados, será sempre um turista, tão danoso como uma grande excursão de pacote. O turismo em San Pedro de Atacama deve ter começado assim, como começou em Canoa Quebrada, Trancoso, e tantos outros lugares. O turista chega, se encanta, e compra a preço de banana, que aos locais parece uma fortuna, tudo o que eles têm, até que às tantas os naturais vão morar na periferia de onde moravam, e trabalhar para os turistas que se radicaram no novo paraíso, armados de capital e “cultura cosmopolita”: basicamente saber o que gostam os turistas. Aconteceu isso tanto no litoral paulista, com os caiçaras, como no Havaí, onde os descendentes dos reis agora são favelados sem vista para o mar, e empregados dos hotéis e estabelecimentos dos norte-americanos. San Pedro continua sendo uma vila de ruas de terra e casas de adobe, só que virtualmente todas as casas – com exceção dos pequenos armazéns – se transformaram em hotéis, restaurantes, lojas de artesanato e agências de turismo, tocados por forasteiros. Como aconteceu num período mais recente, em que o acesso à informação é mais fácil para todos, me pareceu que os atacamenhos não se deram tão mal. Moram em ruas calçadas na periferia, em casas novas com confortos modernos, como bons eletrodomésticos e computadores, alguns recebem polpudos aluguéis por seus imóveis no centro, e a comunidade administra o ingresso dos parques onde estão atrações turísticas, o que não é pouco. Ainda assim perderam a cidade onde viviam, que virou uma espécie de parque temático habitado por turistas do mundo inteiro. A sedução da prosperidade é irresistível, mas é uma acomodação difícil e traumática. Uma hora entrei na igreja do século XVI, ainda viva e em pleno funcionamento que pouco se abre, e dois locais estavam concentrados rezando. A imediata invasão dos turistas, fazendo o piso ranger, e os murmúrios dos comentários quebravam o silêncio sepulcral que a atividade requer, até que um dos circunspectos rezadores, com a concentração já perdida, visivelmente irritado, advertiu um turista que era proibido tirar fotos. É o preço.

terça-feira, julho 11, 2006

Férias

Pronto, liguei o foda-se, tomei duas canjebrinas (por enquanto), amanhã de madrugada zarpo para onze dias de férias sem crianças. Uma passagem, uma gaitinha, e um destino incerto. Se der mando umas novidades. Inté.

Pangaré

Pode ser óbvio, mas segundo a minha experiência, as pessoas tendem a reagir umas às outras de acordo com o modo como são tratadas. O marcador italiano de Zidane, segundo o boato mais recente, reagiu à sua arrogância do francês que teria lhe dito ao ser puxado pela camisa algo como “se você quer minha camisa tanto assim, te dou depois do jogo”, afirmando que “nós sabemos que o seu pai é terrorista e sua mãe uma prostituta”. Moral de lado, a agressão foi magnífica. Zidane fez que se afastava até atingira a distância necessária, e virou-se de repente, aproveitando-se da surpresa, e atingiu o peito do ofensor em cheio, bom de cabeceio como é, derrubando o cara no chão. Foi tratado como terrorista e reagiu como terrorista. Tenho visto isso por aí. Se você tratar o seu mecânico como um desonesto, que vai lhe roubar de tudo que é jeito, ele vai perceber a sua desconfiança e reagirá à altura, se aproveitando mesmo. Acredito que esse tipo de ruído na comunicação tem até o poder de transformar honestos em ladrões. Trate uma pessoa com confiança e respeito, e ela tenderá a te devolver a confiança. Talvez até uma pessoa desonesta te poupe, por ser reconhecida como boa, e aproveitar essa sensação agradável com alguém. Trate sua mulher como uma traidora, e ela te trairá. Pra mim isso é verdade, pelo menos como tendência. O que não pode é exagerar. A carga não pode ser excessiva. Trate um pangaré como campeão e ele só vai se revoltar.

quinta-feira, julho 06, 2006

Amanhã eu conto

Depois de um mês de enrolação, a alteração sem qualquer explicação dos planos, do four skiff (quatro remadores, remos duplos) – para o qual contribuí com uma grana em remos que não vou usar – para o quatro sem (quatro remadores, um remo para cada um), o barco começou a treinar ontem. Nesse dia cheguei à raia todo pimpão às seis e meia, e o técnico, onipotente e insondável como o Javé do antigo testamento, mediu-me com repulsa e desdém, acusando-me da terrível falta de não ter comparecido às cinco da manhã. Claro que não adiantou nada eu ponderar que não tinha sido avisado, defesa que tinha o defeito de transferir a responsabilidade para ele, e assim, de nada valia. Hoje eu acordei às quatro e meia e saí no barco, noite fechada e cerração, só com as luzes dos cartazes da Marginal Pinheiros, e deu pra ver que vai ser preciso muito trabalho pra acertar a remada. Começou mal e vai piorar. O que eu não contei ainda, é que quarta-feira que vem vou viajar e vou perder sete treinos. A regata é no começo de agosto, então não sei se vai dar pra eu permanecer na guarnição. Estou bem animado com o remo, e é muito mais divertido remar em grupo do que sozinho, mas esse sujeito já está me fazendo perder minha enorme paciência.

terça-feira, julho 04, 2006

Viajar leve 2

Boa parte do peso morto que carregamos, obrigações várias, vêm dos nossos próprios bens, que graças à interferência do estado nos atos da vida cotidiana cada vez maior, dão mais trabalho do que evitam, como era de se esperar. Por exemplo, um carro. IPVA, multas, pontos, renovar a carta, escolher um posto honesto para abastecer, pedágio, sem parar, manutenção, revisão, seguro, seguro obrigatório, será que vale a pena? Porque não uma bicicleta pra distâncias curtas, táxi para as médias, e ônibus ou avião para as maiores? Ou a casa. Depois de comprada, o IPTU, o condomínio, o jardineiro, a empregada, as contas de água, luz, gás, tv, telefone, segurança. Fazendo um exercício de futurologia, será que a tendência não é nos livrarmos de tudo isso e entregarmos a profissionais, como já fazemos com as festinhas de criança e a lavanderia? Será que o sistema dos flats com serviços de hotelaria não vai se ampliar e melhorar e nos salvar definitivamente do chatíssimo trabalho doméstico, incluindo a administração da casa? Imagine pegar tudo o que você tem, converter tudo em grana, aplicar e não digo viver, mas morar e se transportar com o rendimento do capital desses itens, e não ter que cuidar de carro nem da casa. Não combinaria melhor com a nova família do casamento dissolúvel? Casou, muda de um apartamento, chalé, bangalô, flat, o que quer se chame, “single”, para um duplo. Teve filho, abre-se uma porta para um anexo. Separou, pega sua malinha e volta para o single. Claro que teria que ter um jeitão mais de casa e menos hotel do que os flats atuais.

segunda-feira, julho 03, 2006

Viajar leve

Sempre fui um mau acumulador. Sou desorganizado, indisciplinado e perdulário. Não tenho grandes aspirações de consumo, embora tenha ocasionalmente algumas urgências para adquirir certos bens, normalmente discos ou livros, atraído por uma referência qualquer do interesse do momento. Já gastei bastante dinheiro com instrumentos musicais, que estão abandonados em seus estojos, não digo se deteriorando muito porque não precisam grandes cuidados, mas quem for usá-los terá que fazer uma boa revisão. Os livros e discos vêm e vão. Poucos ficam. Numa mudança perdi algumas caixas de livros que ficaram guardadas num sítio, e movidas do lugar protegido onde pus tomaram chuva. Os discos, tenho algumas caixas cheias de vinil, alguns sem capa outros só a capa, e mesmo os mais recentes cds, muitos já se perderam. Um amigo meu aspirante a budista diz que essas coisas tem que circular mesmo. Como sou mau zelador, não acho que as mereça. Coisas mal guardadas não servem pra nada, pois quando se precisa não se acha, quando se acha, não está em condições de uso. Melhor não tê-las. Filmes, nunca cogitei comprar uma fita de vhs na minha vida. Ainda que depois de alguns anos rever um filme - vale para livros também - proporcione tanta novidade quanto da primeira vez, pra mim não vale a pena guardar tanto uma coisa para usar tão pouco. Quanto aos discos, a repetição é importante: ou você gosta bastante dele, e ouve a ponto de impregnar o seu cérebro de forma permanente da sua memória, ou não valeu a pena tê-lo comprado. Há pessoas que expressam sua personalidade através do patrimônio, o que eu muito respeito. Um sujeito com que eu toquei tinha uma imensa coleção de discos, organizada por ordem alfabética do artista ou conjunto, com exceção dos clássicos, por autor. O grosso da coleção era de rock. E era ótimo ficar na casa dele conversando sobre música, conversa que era ilustrada por músicas ou trechos de músicas que ele localizava e tocava com uma agilidade impressionante. Ele morava num pequeno apartamento totalmente tomado por discos, algo como um imenso I-pod analógico. Ainda bem que com toda a facilidade de armazenamento, indexação e circulação que há hoje em dia, com tudo isso reduzido a dados binários, nada disso será mais necessário.

sexta-feira, junho 30, 2006

Assédio

Acabei de ver o perigosíssimo filme Assédio, do Bertolucci, e estou completamente espantado. O filme é quase mudo, pouquíssimos diálogos. Uma complexa e profunda história é contada praticamente só com música e imagens. A história se baseia num paradoxo, que escapa no meio do filme da pregação de um padre, comentando a passagem do Gênesis quando Ló se dirige a Sodoma sabendo da sua destruição iminente: “Quem tenta preservar a vida, a perde; quem a perde, fica em segurança”. Nos assuntos mais misteriosos, quem procura não acha, ou acha indo na direção oposta. O par central é formado por pessoas de culturas diferentes, com uma certa dificuldade de comunicação, em posições que não favorecem a confiança. Uma casa vertical com uma imensa escada espiral em torno da qual tudo gira, e um piano que toca sem parar são personagens importantes. As cores, os atores, a levada, a música, a história, as passagens do real para o sonho, os comentários do inconsciente, tudo é ótimo. Minha vontade é contar tudo, detalhadamente. Traduzir em palavras a história visual/musical seria muito divertido. Não falo mais porque não quero estragar a imensa diversão. Fico impressionado por nunca ter nem ouvido falar na existência desse filme, que me foi indicado por um ser tão intangível que parece ter emergido do planeta onde se passa esta história.

quinta-feira, junho 29, 2006

Esperando Bardot

Nelson Motta

Naquele tempo, uma viagem a Búzios era uma aventura que exigia grande paciência, disposição e coragem. Mas o tempo estava do nosso lado, éramos jovens e cheios de energia, era sexta-feira e ficamos dançando cha-cha-cha e hully-gully no Le Bateau até as tantas, quando meu amigo Ratinho propôs a grande aventura. Entusiasmados, decidimos botar o pé, ou melhor, o Fusca, na estrada. De Copacabana fomos até o cais da praça Quinze e entramos numa longa fila de carros que aguardava a chegada da barca que nos levaria a Niterói. Depois de uma longa espera, perdemos a vaga por um carro de diferença e tivemos de esperar a seguinte. Uma hora depois, visivelmente alcoolizados, atravessávamos lentamente a baía de Guanabara sob o céu estrelado, um barco apitava na noite, as luzes da cidade se afastavam como as pérolas de um colar. Com o vento no rosto, cantávamos os novos sucessos da Bossa Nova que tocavam no rádio do carro, João Gilberto, Sylvinha Telles, Nara Leão – não poderia haver trilha sonora mais adequada. De Niterói a Cabo Frio, noite adentro, o Fusca azul enfrentou galhardamente uma pista estreita precariamente asfaltada, cheia de curvas perigosas, bufou e resfolegou numa serra, cruzou pontes balançantes, e duas horas e meia depois chegamos. Quase. Com o dia já amanhecendo entre as salinas, tomamos um café no posto de gasolina na entrada de Cabo Frio e pegamos o caminho para o paraíso.A estrada para Búzios era pouco mais que uma picada aberta no mato, esburacada e poeirenta. Em mais uma hora estaríamos lá, qualquer sacrifício seria bem-vindo diante da possibilidade de ver Brigitte Bardot de perto. Estrela máxima do cinema francês, deusa do sexo que povoava nossas fantasias (e do mundo inteiro), Brigitte veio para o Brasil com o namorado Bob Zagury (um argelino de Ipanema que orgulhosamente a imprensa chamava de “franco-brasileiro”) e se apaixonou por Búzios, uma vila de pescadores onde ninguém a conhecia. Para ela, o Taiti era aqui. Para nós, ela era a encarnação da beleza, da liberdade e do desejo. E Búzios, bem, era uma ruazinha de pedras em frente ao mar azul, com algumas cabanas de pescadores e mais nada. Não tinha luz, gás, água nem telefone. Mas tinha BB! Onde? Perguntamos a um pescador, e ele apontou uma casa de madeira num canto da praia. Subimos numa pequena elevação e nos colocamos atrás de uma grande árvore, em posição privilegiada para a nossa delicada missão, olho vivo e faro fino. Ficamos ali de plantão, caindo de sono, até meio-dia, quando finalmente as janelas verdes se abriram e vislumbramos uma cabeleira loura passando pela sala. Uma Bossa Nova começou a tocar na vitrola. Segunda-feira na faculdade, ninguém vai acreditar. A porta se abriu e, finalmente, em todo seu esplendor, Ela, bronzeada, cabelos ao vento, enrolada num pano estampado. Inundada de luz e alegria, abriu os braços para o sol e, num movimento rápido, desenrolou o pano do corpo, lançou-o ao vento e, nua como em E Deus criou a mulher, correu para o mar azul diante de nossos olhos pasmos e de nossos corações disparados. Na faculdade ninguém acreditou. Quarenta anos depois, saí de Búzios há menos de duas horas, vim escrevendo esta história no laptop e já estou chegando a Ipanema.

Acho ótima a história. Esta mulher é um troço!

quarta-feira, junho 28, 2006

Frio

Hoje, na manhã mais fria do ano, acordei um pouco antes das seis, e logo depois estava de calção e camiseta sentado no skiff, em plena raia. O termômetro da rua marcava onze graus e o vento sul produzia incômodas ondinhas. Nessas condições, o remador inexperiente volta e meia bate a pá numa delas, o que altera a sua trajetória, e a variação da altura do remo balança desconfortavelmente o barco. Fora a água que espirra. Quando se vai a favor quase não se sente o vento, mas quando se chega ao fim da raia o vento gelado bate com tudo nas costas molhadas de suor. Lá pelo quilômetro quatorze começou uma chuva fina e abundante, e só não encostei porque comecei a remar mais rápido pra acabar logo e me animei, completando os dezesseis previstos. Paguei antecipadamente os cajus amigos que vou tomar à noite.

terça-feira, junho 27, 2006

Além de matar o gato

CC – Porquê ser-se curioso?
CF - A curiosidade é aquilo que nos move a querer saber. Sem curiosidade não há ciência. Perguntaram um dia a Einstein o que é que o distinguia das outras pessoas. Ele disse que era uma pessoa como as outras, que talvez a única coisa que tinha de diferente era precisamente uma "curiosidade apaixonada". Fui portanto buscar a Einstein o título do livro. Devemos aprender com os grandes mestres... Einstein tinha uma curiosidade obsessiva, que só a paixão transmite.
CC - Porque é que considera ser importante incentivar a «curiosidade apaixonada» do público?
CF - A mensagem a transmitir ao público é a de que a ciência se faz com curiosidade e paixão. Aliás isso não é exclusivo da ciência, há outras actividades humanas que se podem fazer com curiosidade e paixão...

segunda-feira, junho 26, 2006

Ainda São João

Estava procurando na minha estante caótica uma versão supostamente fiel às primeiras que eu li há muito tempo atrás da lenda de Tristão e Isolda – que eu me lembre da introdução é uma balada que remonta a tradição oral – para saborear um pouco mais o bom filme, quando me deparei com uma edição portuguesa da peça “Sonho duma noite de São João”, de Shakespeare, chamada por aí de “Sonho de uma noite de verão”. Já que acabamos de passar por São João, peguei o volume e dei-lhe uma folheada. No fim há uma nota do heróico tradutor – em versos – justificando, com um comentário de Victor Hugo, a referência no título à noite que corresponde ao solstício de verão no hemisfério norte.

O ilustre habitante do Panteão de Paris, (certo Fitzwilliam?) inicia sua argumentação explicando o significado da expressão do título original Midsummer, que não é o meio do verão, mas a data do solstício, uma noite de festa importante e particular dos britânicos: “Na inglaterra de Shakespeare a véspera de Midsummer era a noite fantástica por excelência. Nessa noite, e no momento a ponto em que nascera S. João, é que saía da terra a afamada semente de feto, que tinha a virtude de tornar invisível. Para haverem esta semente, pelejavam entre si com toda a braveza as fadas capitaneadas da sua rainha e os demônios sob o manto de Satanás. Os mágicos mais destemidos, costumavam ter-se de vela nas solidões, com o intuito de ganharem por mão aos espíritos, e apanharem primeiro que eles, a preciosa semente. Muitas vezes porém lhe sucedia aguentar com eles desavenças pavorosas; e a não terem por si feitiços de grande posse, levavem a vida em contingências. Nesses lances, os mais bem livrados eram os que vinham só sovados do conflito.”

Já inventando, chuto que talvez ou até para afastar o desagradável demônio católico do contexto da sua peça leve e onírica, o bardo inglês tenha situado a história na Grécia antiga, limitando a população de seres intangíveis a fadas e duendes, que, por outro lado, nada têm de bonzinhos. Aliás, por se situar na antiguidade anterior a Cristo, talvez não devesse o tradutor ter usado a efeméride católica como referência. O próprio Victor Hugo, por não reconhecer na cultura francesa o significado fantástico da Noite de São João optou pelo tradicional título “Sonho duma noite de estio”. O português que se assina apenas Castilho concluiu ao contrário que “as práticas supersticiosas, crenças de profecias, e quimeras poéticas” em sua terra nada ficam a dever às britânicas, e assim justificou a sua noite de São João.

Mas é a noite em que as amarras do real ficam soltas e o sobrenatural domina, fazendo o amor triunfar sobre o dever, sob o efeito dos feitiços das fadas e duendes.

domingo, junho 25, 2006

São Vito Mártir

Nessa noite de São João fui ao cinema ver Tristão e Isolda, uma ode ao amor que supera o dever e a morte, e depois fui parar, não sei muito bem como, na festa de São Vito Mártir em pleno Brás, patrocinada pelo petybon grano duro, macarrão ao sugo a cinco reais em pé ou dez reais na "área vip", também conhecida como "cantina", em mesas perto do palco, com show do Maurício Pereira, o cantor luso-italiano acompanhado pelo Turbilhões de Ritmos, cantando músicas italianas, aquelas românticas tradicionais como Dio como te amo, Volare, e outras tantas, algumas tarantelas, e várias bizarrices, como Elvis em italiano (Suspicious mind virou L'ultimo tango em Memphis), Roberto em italiano (Donna de um amico mio), Beatles em italiano, Adoniran, Incríveis nos originais italianos (Era um ragazzo que come el me), e até um medley da Laura Pausini.

sábado, junho 24, 2006

Pura implicância

Hoje de manhã fui ao clube cortar o cabelo, que, como diria a. já estava na fase pompom, e finalmente encontrei o amigo imaginário do barbeiro gordo, que não é o seu duplo nem imaginário. É baixinho e tem um caprichadíssimo capacete de cabelo grisalho e um bem aparado bigode. O outro é enorme e usa um cabelão ondulado, dividido no meio, bem anos setenta. Achei meio sem graça. Lá dei uma olhada no Estadão, coisa que não tenho feito com atenção nessa fase burralda. Encarei só o Caderno 2, e li um artigo de um tal Aluízio Falcão, "especial para o Estado", reclamando do hábito do falar difícil. Discordei de quase tudo o que ele disse.

Ele começa mencionando "a exposição sobre nosso idioma e sua merecida repercussão", sem sequer mencionar que exposição era essa, e demorei - é verdade que ando lento - um pouco para supor que se tratava do Museu da Língua Portuguesa na Estação da Luz. O articulista pelo menos se deu ao trabalho de “defender” - não diz quem, mas se intui os organizadores - da inveja dos "formuladores" de críticas (de onde ele tirou essa expressão?!) por imprecisões históricas, categoria na qual eu o incluiria só por essa menção mesquinha.

E aí envereda em uma cruzada em defesa da clareza da língua, usando uma imagem desagradável: "A Língua Portuguesa precisa de um regime para emagrecer. Deve urgentemente perder celulites que agridem a decantada formosura do seu corpo." Pra mim é um rematado absurdo alguém pregar a redução de palavras de uma língua, ainda que pouco usadas e feias. Como diz o ditado, o que abunda não prejudica. Ele exemplifica com "aleivosia", que qualifica de tenebroso vocábulo, no meu ver adequado ao significado. Prossegue enumerando "jaez, ínterim, encômio, vitupério, entrementes..." que considera "rebarbativas" (isso não é falar difícil?), e segundo ele sempre haveria outra correspondente "mais bonita e mais simples, de igual significado, que todo mundo entende". Pra mim, a sinomínia é sempre aparente, e existem diferenças sutis entre as “iguais”, quanto mais não seja pelo som, e a variedade dá colorido à língua. A sua tese é de que há um gosto pela incomunicabilidade, e falar difícil confere status. E chuta, sem qualquer base ou referência, de que esse gosto vem do latinório dos primeiros bacharéis, e exemplifica com Rui Barbosa, dando a entender que são os primeiros bacharéis brasileiros. Não sei porque o gosto pela retórica pomposa não viria dos antigos gregos, ou dos romanos em decadência, só pra aventar algumas hipóteses.

Há aí uma incoerência na argumentação, porque latim não é português, e o uso de expressões estrangeiras não é exatamente o português rebarbativo, mas sim um outro fenômeno de linguagem. E o Aluízio prossegue no desvio da sua tese inicial, com a seguinte bobagem: "profissionais de outras áreas também criaram jargões próprios, dificultando a compreensão de seus textos pelos outros mortais. Daí o economês, o sociologuês e outros idiomas dentro do idioma." Falcão comete a ingenuidade de ignorar a existência da linguagem científica, estudada pelos intelectuais do chamado Círculo de Viena, que reconheceram a existência de várias linguagens especializadas utilizando ou não o idioma como base, que têm como característica a busca da clareza através dos significados únicos, e só servem aos interlocutores que as conhecem. Não têm nada a ver com o rebarbativo ou o gosto pela incomunicabilidade, muito ao contrário, perseguem a precisão.

Passa a disparar sua metralhadora descontrolada pela literatura, abatendo ao acaso alguns “rebarbadores”, começando em Euclides da Cunha, de quem admite a genialidade que reputa escondida pela afetação, com base no argumento da autoridade de Joaquim Nabuco, novamente construindo seu raciocínio de forma infeliz, pois para Nabuco, segundo o próprio Aluízio, Euclides era um mau escritor. A mim parece óbvio que Euclides não seria Euclides sem a afetação, pois na literatura, ao contrário da linguagem científica, o estilo, ou melhor dizendo o modo de expressão do autor, é indissociável das idéias que expressa. Esperemos só que Aluízo não se proponha a limpar o texto dele.

A vítima seguinte é Augusto dos Anjos, a quem também diz admirar, afirmando porém "que se tornou famoso por seus piores versos, aqueles de linguajar rebarbativo: Cosmopolitismo das moneras/pólipo de recônditas reentrâncias..." É estranho um admirador do poeta não reconhecer o seu escancarado senso de humor nesses poemas gongóricos de metáforas médicas e científicas, esgarçando o idioma ao máximo para dele arrancar imagens de arrepiar, como no genial soneto "Psicologia de um vencido". Igualmente, retire-se essa característica de Augusto, o que sobrará?

No parágrafo seguinte comete um terrível erro de concordância, ao bajular a linguagem jornalística moderna (porque será?): "Inclusive quando incorporam uma linguagem que, pelo uso corrente na oralidade, adquirem o direito de ingressar na linguagem escrita." Esse mérito é no mínimo discutível, primeiro porque o interesse é vender jornais, e também porque não se pode esquecer a responsabilidade dos grandes órgãos de imprensa na manutenção da qualidade lógica e funcional da língua.

Ataca então os parnasianos, e aí falta originalidade à crítica. Desde criança ouço falar mal do apego excessivo às formas e aos temas clássicos e distantes dessa turma. Novidade haveria se tivesse mostrado algo de bom. E falha mais uma vez em seu exemplo: “Mesmo aquele de Olavo Bilac sobre a Língua Portuguesa e que começa com Última flor do Lácio inculta e bela” merece reparos. Primeiro, porque o poeta imaginou que todos os seus leitores tinham a obrigação de saber que o Lácio era uma antiga região da Itália, onde primitivamente se falava o latim.” Foi mal. O Lácio não era, o Lácio é uma importante província da Itália, com mais de cinco milhões de habitantes, onde se encontra Roma, e que tem um famosíssimo time de futebol de mesmo nome, o Lazio. E todos os leitores de Bilac sabem que o português é uma língua latina. Lácio, Latium, latim, não é uma charada tão difícil assim, ainda mais levando em conta o tema do poema e o sentido do verso.

Os dois últimos argumentos também não têm nenhuma lógica, e apontam como culpados pelo falar difícil as teses acadêmicas perdidas no escurinho das bibliotecas – se não são lidas não podem causar dano – e os gramáticos puristas, aos quais, segundo o próprio autor, ninguém presta atenção. É óbvio que as críticas que tais seres retrógrados e obscuros não teriam força nenhuma para barrar o progresso da língua.

É triste ver desperdiçado o espaço nobre de meia página do caderno cultural de um dos mais importantes jornais do país com tanto papo furado.

sexta-feira, junho 23, 2006

Um real por dia

Já disse aqui que desde o carnaval estou emburrecendo. O processo está quase completo. Outro dia recebi uma carta de uma bibilioteca que freqüento, cobrando um livro que deveria ter sido devolvido em abril. É o “Morte a crédito”, do Céline, um livro impossível de ler pra alguém com a mente tão debilitada como eu. Além de ser uma história incrivelmente deprimente de um médico cínico que trabalha com saúde pública num bairro pobre, o livro é inteirinho – inteirinho mesmo – feito de frases interrompidas por reticências, o que depois de um tempo passa a ser um ruído irritante. Algo como uma britadeira ortográfica metralhando o seu cérebro. Outro livro que peguei um pouco antes, um do Saramago, esteve com alguém que marcava o lugar em que tinha parado com um ponto de caneta vermelha. E o cara era tão mesquinho que ele não se contentava em marcar a página, ou o parágrafo (tá certo que são grandes, no caso do Saramago). Marcava a linha, e ainda variava entre o lado esquerdo e o direito, pra não voltar nenhuma palavra atrás. E lia meia página, no máximo uma página por dia, ou então era muito interrompido, porque toda página tinha pelo menos um ponto vermelho. Estabeleci um relacionamento desagradável com esse antecessor, e toda vez que via o ponto vermelho tropeçava, pensava porque ele tinha parado ali, por qual razão, ou simplesmente bufava, o que me atrapalhou muito o ritmo da leitura. Tenho uma pilha parada no meu criado mudo, e faz dois meses que não leio um livro. Só vejo tv e durmo. É por isso que tenho falado tanto em remo.

quinta-feira, junho 22, 2006

Pois é

Meu four-skiff vai voltar a treinar, com a mesma guarnição menos o gigante da sota-proa, que será substituído por um mais jovem, baixando a média para uns quarenta. Teremos um barco e remos só para nós, nada de luxo mas tudo em ordem, regulado de acordo. E, finalmente reconheceram meu talento musical, vou sair da proa e ir para a voga, ditar o ritmo e me livrar do leme de pé. Isso se o treinador não mudar de idéia depois dessa manhã. A raia estava um espelho, eram quase nove horas e eu estava completando vinte quilômetros remando o single-skiff “sem palamenta” - isto é, sem quebrar a munheca no retorno do remo com a pá na horizontal, o que é um exercício muito bom para a entrada e a saída do remo na água e também para o equilíbrio do barco, pois se é obrigado a trazer o remo mais alto e sem raspar na água – quando, ao fazer a última virada, relaxado e cansado, fui inventar, tentando fazer o barco girar sobre si próprio como fazem os craques, um remo avante e outro à ré, e capotei. O barco logo retornou à posição original, quase nenhuma água chegou a entrar. Na água gelada, com cãibra numa das panturrilhas, empurrei o dito cujo até a margem, saí da água entre as tocas dos preás que habitam o barranco, freqüentemente confundidos com ratazanas, e fiquei esperando. Deixar o barco lá não se recomenda, alguma coisa pode acontecer. E também não dá para tentar subir no barco sem a estabilidade do pontão, pois é arriscado quebrar alguma coisa. Esperei por um tempo, até que alguém numa lanchinha que estava acompanhando alguns remadores se ofereceu para avisar alguém do meu clube. Uns quinze minutos se passaram e eu fiquei lá imprensado entre o barranco e a água, molhado e gelado, mal me equilibrando na superfície muito inclinada e escorregadia, sem poder me mexer, até que aquele mesmo sujeito voltou com a lanchinha e se ofereceu para rebocar. Entrei na água novamente, até o peito, para tirar os remos e embarcar. É um evento humilhante, que deixa todos espantados e horrorizados. Amanhã estou lá de novo, um pouco mais modesto.

quarta-feira, junho 21, 2006

Solstício


Hoje é o dia do solstício de inverno, ocorrido às 9:27 da manhã. Como o ponto culminante da órbita foi de manhã, acredito que a noite mais longa do ano foi a de ontem, de 20 para 21. Achei esta figura que mostra como os lugares onde o sol nasce e onde se põe se deslocam durante o ano, aqui no hemisfério sul em direção ao norte, e assim o arco aparente que ele descreve sobre um dado horizonte diminui, bem como a altura máxima que o Sol atinge. Eu acho, mas não tenho certeza, que a inclinação desse arco aparente é constante, e representa a inclinação do eixo de rotação da Terra em relação ao plano da órbita do Sol.

terça-feira, junho 20, 2006

Garotas, suspirem



Está no ar o blog do dândi egocêntrico, autocentrado, conservador e bem educadíssimo Fitzwilliam, pavoneando-se fleugmaticamente da sua peculiar visão do mundo.

segunda-feira, junho 19, 2006

A mãe do Freud

Disse o Freud uma vez, não sei exatamente em que contexto e com que palavras, que o homem que tem o amor incondicional da mãe vai mais longe, possivelmente com base na sua própria experiência. Se alguma coisa me irrita nessa copa é a unanimidade em dizer que o time brasileiro está horrível. Aliás, assim como toda vez que vejo torcida vaiar o seu time. O amor da torcida tem que ser incondicional como o da mãe do Freud, e ficar com o time até o fim, para o bem e para o mal, apoiando a luta mesmo que seja ingrata. Ganhar junto e perder junto. No último jogo, curiosamente, depois de um tempo inteiro com os comentaristas falando mal do Ronaldo e do Adriano, os dois fazem uma magnífica jogada e o primeiro gol. Afinal, qual é a diferença entre o time bom e o time ruim? Justamente estes momentos de gênio. Jogar duro todos sabem, e cada partida da copa é uma guerra. O time está aí e não pode mais ser mudado. São jogadores incríveis que qualquer clube do mundo teria em suas equipes. Vamos fazer o papel de torcida incondicional, porque depois do Japão vem chumbo grosso.

domingo, junho 18, 2006

Ô Jayme

Você nem comentou a vitória de uma das suas bandeiras, pela mão do suspeito Kassab. Aliás, não sei porque todo mundo suspeita do Kassab. Bom, alguma coisa deve ter, mas paciência. Roubou, carregou, escondeu, ninguém viu, o que é que se há de fazer? Perdeu, mano, perdeu, se conforma e fica esperto. Segundo ouvi no rádio, tv, internet, ou jornal, não me lembro, o Kassab vai acabar com todos os out-doors (acho que foi no seu blog que eu li que essa expressão estrangeira só se usa no Brasil) que estão pela cidade, e concentrar o espaço de propaganda nos equipamentos públicos que serão substituídos e mantidos pelos anunciantes, ou melhor, locadores do espaço, ou ainda, futuros donos da rua. Não me interessei em saber como eram as características do negócio pra não ficar procurando os vazamentos de dinheiro público na arquitetura do decreto. Estou só encantado com a possibilidade disso ser verdade e sumirem, por exemplo, os 67 (estimativa grossíssimo modo) cartazes gigantes que estão na marginal entre a ponte do Jaguaré e a da Cidade Jardim, distraindo os motoristas com a sua seqüência de animação, e o nosso cérebro possa se ocupar de objetos, ou sujeitos, escolhidos por nós mesmos. Talvez eu sinta uma ponta de saudade da loira de vinte metros vestindo calcinhas Hope na entrada do Minhocão, de quem vem da São João.

sábado, junho 17, 2006

Na toca

Depois das melancólicas reflexões sobre o isolamento provocadas, provavelmente, pelo o isolamento, melhor voltar ao chão e caprichar na minha pequena rotina da casa vazia. Fora uns dois pratos, dois copos, e três talheres, a cozinha está em ordem. Ontem, mal recuperado da bebedeira de quinta, cheguei do trabalho, embrulhei-me em moletons, usei a colcha como coberta para ver tv e acabei dormindo assim até hoje, de sorte que a cama está arrumada. Na casa vazia, essas poucas alterações na ordem, que passariam desapercebidas com o circo da família em movimento, e se arrumariam por si próprias, crescem em significação. Estou na dúvida se lavo a louça ou não. Acho que vou lavar sim, e depois vou fechar as cortinas, aproveitar a ordem e o silêncio, pra ver se eu consigo vislumbrar o próximo passo. Mas antes vou até a raia ver se há uma embarcação disponível para uma remada.

sexta-feira, junho 16, 2006

Poço sem fundo

Pessoas são virtualmente inesgotáveis, tanto na sua capacidade de dar, como na de querer. Para que as relações funcionem basta que as ligações estejam aptas ao trânsito de dados, ou seja, que haja disponibilidade. São vários os tipos de relações possíveis, e todas podem e devem conter alguma dose de afeto. Se a ligação é mal feita, passa-se a mensagem errada, e a coisa pode se tornar até desagradável. Rompimentos de ligações podem ser dolorosos, mas relações não necessitam substituição. Relações sem trânsito de afeto, sem ligação, não são verdadeiramente relações. São ex-relações ou relações potenciais. O grande limitador é a disponibilidade. Quantos amigos você consegue manter? Existem ex-amigos? Amigos que não se vêem há muito tempo conseguem recuperar a ligação rompida, e fazer fluir o trânsito de afeto? Quais relações são realmente importantes pra você, em quais relações existe o trânsito livre e desinteressado de afeto? O afeto precisa ser desinteressado? Qual a hierarquia das relações? Como quem não trabalha não come, seria de se esperar que no topo da hierarquia estivessem as relações de trabalho, mas obviamente não estão. Relação aqui é a situação de troca entre duas pessoas. Troca de qualquer coisa. Bens e serviços, fluidos corporais, afeto, desafeto. Ligação, também inventando, é o meio pelo qual a relação acontece. Antigamente só havia a ligação física, a oral, e a ligação epistolar. Daí inventaram o telefone, e a ligação oral deixou de reclamar a presença física do interlocutor. A voz um tanto desumanizada pelo aparelho, mas ainda muito do caráter físico da ligação se mantém, pelo timbre, a inflexão, a construção da conversa com o entrelaçamento das frases, e por aí vai. A carta também tinha algo de físico, pela caligrafia única de cada pessoa, a disposição das palavras, as correções e atos falhos, e eventualmente lágrimas borrando a escrita. Agora as ligações contam com outros meios, cada vez mais importantes, os meios eletrônicos. Podemos ir desde o ultra impessoal e-mail, que nada tem de físico, não tem caligrafia, não registra correções, mas mesmo assim pode conter grande carga de emoções somente na transmissão de idéias, ao dinâmico msn, onde ao menos pode haver o entrelaçamento das frases em conversa, e pode-se simular por escrito algumas interjeições e gestos. Há ainda os scraps e fóruns (é isso, aquelas listas das comunidades?) do orkut e assemelhados, que eu não sei como funcionam. E todas essas formas eletrônicas podem ser acompanhadas de carinhas expressando emoções, e outros ideogramas. Claro que os mais ousados podem comunicar-se à distância com câmeras e microfones, e aí o aspecto físico da conversa volta com força total, sobrando apenas o véu da eletrônica, e faltando, se for o caso, o contato realmente físico e a troca de fluidos corporais. O necessário é apenas que algum tipo de ligação entre essas fontes inesgotáveis de afeto, que são as pessoas, exista.

quinta-feira, junho 15, 2006

Corpo de Cristo

Ao que consta “Corpus Christi” é o dia santo dedicado à Eucaristia, o corpo de Cristo simbolizado pela hóstia embebida em vinho, o sacramento celebrado em sua memória. Ligar o divino ao humano é uma idéia muito boa, pois para a espécie se perpetuar e a civilização se aprimorar o indivíduo tem que transcender a si próprio. Sou agnóstico no sentido tradicional e pra mim, o absoluto, ou seja Deus, é inapreensível. As religiões, embora tragam doutrinas socialmente úteis, são baseadas em premissas inconsistentes, os dogmas. A Deus não cabem qualidades humanas como bondade e justiça, construídas para possibilitar a vida em sociedade, a comunhão dos homens entre si. E cada um tem que desenvolver em si os atributos necessários para a vida em grupo, as várias faces do altruísmo organizado em regras que vão dos grandes tabus erigidos em crimes capitais à boa etiqueta.

quarta-feira, junho 14, 2006

Não vou

Como dizem as minhas filhas, “todo mundo” vai para Campos do Jordão no feriado de Corpus Christi. Gosto muito da Serra da Mantiqueira, com suas florestas de pinhais, rios cristalinos e altas montanhas com picos de pedra, as belas vistas, e o clima de altitude. Acrescentados pelos caras pálidas foram as trutas, os plátanos, os chalés estilo alpino, os cavalos, os gramados, os hotéis e restaurantes e outras tantas benfeitorias. Campos está a mais ou menos mil e setecentos metros de altura, e é a estância turística mais desenvolvida da serra. Pra quem mora lá e vive do turismo, a sazonalidade é difícil de administrar. Chove muito no verão, e poucos se interessam pela montanha fora do inverno. Neste feriado abre-se a curta alta temporada da estância, que vai até o fim do inverno. Acredito que este feriado seja o pico da ocupação por turistas. Tudo congestionado, tudo lotado, preços exorbitantes, e um desfile de vaidades e ostentações concentrado como poucas vezes se vê. Lá os consumidores do mercado de luxo se encontram e sentem-se seguros para exibir seus sinais exteriores de riqueza, como diz o leão. A isso se resume Campos neste feriado, uma grande aglomeração da fina flor da juventude paulista para exibir riqueza e beleza. Minha mulher, num gesto nobre, consentiu que eu ficasse aqui, enquanto ela pilota uma casa lotada de meninas-moças e enfrenta sozinha as forças escuras do inverno, manifestas nessa horda exibindo o que tem de pior.

terça-feira, junho 13, 2006

A nação em chuteiras


Começa a copa, no dia de Santo Antônio, do qual Zagalo, o pé-quente, é devoto. Anda com um santinho no bolso. Há quem se irrite com a copamania. Um dos argumentos mais usados é o do patriotismo barato, ou até nocivo, que sujeita a nação à manipulação do estado. Tendo a discordar. Aprendi, lendo notícias sobre escândalos, que a CBF é uma associação privada sem fins lucrativos, tipo de instituição hoje comumente chamada de ONG. Um clube de federações estaduais de futebol, por sua vez clubes de clubes de futebol, também associações sem fins lucrativos. Ou seja, toda a estrutura do futebol brasileiro é da iniciativa privada sem fins lucrativos. Clubes formados por amigos amantes do esporte amador, que o amor pelo esporte tornou gigantes, hoje um tanto descontrolados, vá lá. Ou seja, forçando um pouco a barra pode-se dizer que a nossa seleção tem origem remota em sonhos de garotos que organizaram seus times de bairro para jogar peladas nas várzeas. E essa ainda é a origem dos nossos gloriosos craques, milionários que jogam futebol como ninguém no mundo. Dá pra se perceber em cada garoto – e agora garotas também jogam – que joga ou jogou futebol a capilaridade da sustentação popular da seleção brasileira, que transcende manipulações de políticos e patrocinadores, e representa um pouco do que esta nação tem de melhor, nação no sentido humano de identidade cultural e étnica, e não na acepção do falido modelo do estado moderno. Por isso alterei a expressão rodrigueana do título.

Agradeço aos convites dos amigos mas vou ver esse jogo com a família na casa dos meus pais, alguns dos meus irmãos, espero que com filhos e sobrinhos presentes, e quem mais aparecer será muito bem vindo. A celebração das copas está na raiz mais funda da nossa formação.

segunda-feira, junho 12, 2006

Ainda remo

Ontem teve uma regata interna do clube, com alguns convidados externos. Participei de uma prova na iole, que é um barco largo de treinamento, numa guarnição heterogênea e improvisada entre 16 e 60 anos, e tiramos o segundo em quatro barcos, batendo dois clubes, o que foi muito bom. Corri também um páreo no double misto, junto com a Sra. Bilis, contra três guarnições contra as quais não tínhamos a menor chance, de remadores experientes e cheios de títulos. Mas vencemos um outro double mais jovem e que rema há um pouco mais de tempo do que nós, e assim ficamos em quarto de cinco. Não pude participar da prova que eu mais queria, que era o skiff master estreante, porque encavalou com a do double misto. Quando cheguei, os barcos já estavam a um quilômetro de distância, na largada.

Depois da prova fomos conversar com os vencedores no tempo real, trazidos a segundo no tempo corrigido, uma dupla de um famoso clube carioca. Começamos a conversar sobre o praticamente inexistente circuito de remo master, e o homem da dupla – que também ganhou a prova de skiff master – disse meio sem graça que irá participar dos outgames em Montreal, em julho ou agosto deste ano, explicando que era uma olimpíada das minorias. Depois pesquisei e vi que são os gay games, ou pelo menos um racha da sua sétima edição. Ele não precisava ter feito isso, mas fiquei com a impressão que ele fez questão de declarar a sua opção sexual naquele ambiente presumidamente homofóbico, onde o humor cotidiano é feito basicamente à base de piadas preconceituosas. Foi tratado com todo o respeito mesmo depois da cerveja do churrasco de confraternização.

domingo, junho 11, 2006

Responsabilidade social

Que o altruísmo é um forma um pouco mais sofisticada de comportamento auto-interessado é mais ou menos óbvio. Ninguém é bonzinho por ser bonzinho, contrariando seus instintos animais egoístas, mas porque considera uma postura mais recompensadora. Trata-se de pensar a longo prazo, como investir tempo, dinheiro, energia, ou o que quer que se tenha para aplicar. Na nossa sociedade moderna às vezes o altruísmo fica tão longe da recompensa que são usadas metas abstratas anteriores para simulá-las, como medalhas, prêmios e outros tipos de homenagens, que podem ser ainda mais tênues e impalpáveis. Sábado fiquei duas horas no caixa de uma festa junina beneficente e ninguém me agradeceu. Não que eu esperasse agradecimento, quer dizer, quem iria me agradecer? Os beneficiados, credores de uma sociedade injusta na distribuição das oportunidades, que eu nem sei quem são?

sexta-feira, junho 09, 2006

Fogo de palha

Tenho quarenta e cinco anos. Surfo há trinta e três anos. Toco guitarra há trinta e um anos. Trabalho na mesma sala, na mesma profissão, há vinte e três anos. Sou casado há vinte anos. Moro na mesma casa há oito anos. Comecei o blog há treze meses. Remo a nove meses.


Afora ventos e trovões, a direção é mais ou menos a mesma. Devo estar indo para algum lugar.

quinta-feira, junho 08, 2006

O profeta do deserto

Era noite de São João mas ali na megalópole não tinha festa junina nem quadrilha, pelo menos que quisesse ir. Apesar da lua nova, invisível, só a luz das estrelas de primeira grandeza atravessava o clarão da cidade. Na noite mais longa do ano o negócio era ir comer uma massa leve e ir dançar música negra. Como única concessão às festas juninas da sua infância no interior vestiu um vestido rodado vermelho, que nada tinha de caipira. Dançando, sentiu-se Salomé com seus véus. Pouco se importava com a cabeça do Batista. A um dos muitos amigos que assistia ao espetáculo pareceu que ela era a incumbida de acordar a Terra da sua hibernação.

quarta-feira, junho 07, 2006

Opositores

Encontraram-se por acaso no velório. Nenhum dos dois conhecia mais ninguém, além da morta. Tinham estado em lados opostos de uma lenta e dolorosa aquisição de uma decadente e antiga empresa açambarcada por um inescrupuloso empresário ligado ao novo governo. A luta havia sido dura e suja e nenhum dos dois tinha muito do que se orgulhar, a não ser o fato de terem desempenhado a contento suas desagradáveis tarefas. Depois dos dois verificarem que não havia risco de nenhum deles conhecer alguém, resolveram se aproximar. Começaram a conversar sobre a morta, e reconheceram que habitaram o mesmo gueto na juventude, e por pouco não foram amigos. Aquele que tinha ficado do lado mais forte rapidamente rompeu a membrana agora inútil imposta pelo negócio, comentando que na hipocrisia da nova ordem a sua cabeça tinha composto o acordo, sabendo que o mesmo acontecera ao outro. Identificaram-se como complementares, saíram amigos, muito provavelmente sócios.

terça-feira, junho 06, 2006

Maratona

O movimento coordenado por si só gera uma sensação agradável. Domingo fui ver a maratona passar perto da minha casa, e, crime premeditado, deixei passar os primeiros pelotões e acompanhei a tropa por dezesseis quilômetros, um a mais do que tinha planejado, e num ritmo bem mais forte que o habitual, aproveitando indevidamente os postos de água. Parei porque sabia não estar preparado para tanto. A alegria da corrida induz os corredores a incitarem-se a correr. Quando parei estava longe de casa e tive uma longa caminhada de volta. Há algo de eqüino em correr, esporte tão na moda. Correr atrás dos outros, atrás de nada e ser seguido por uma multidão que corre atrás de mim.

Hoje, na raia, o treinador me deu senão o melhor, um dos melhores barcos do clube pra eu treinar, cheio de dedos, recomendações, admoestações e ameaças pela integridade física da embarcação, verdadeira casquinha de ovo. O que eu vinha usando estava com sua arcaica estrutura literalmente desmontando. Foi demais.

segunda-feira, junho 05, 2006

Granola

Sabia que aquilo não iria durar muito, e que teria que tomar uma atitude mais ou menos rápido. Lembrou de Saramago ter dito uma vez em algum lugar que "não ter pressa não é incompatível com não perder tempo". Não se tratava propriamente de uma decisão, porque aquela grande e harmoniosa estrutura que ele tentava manter, apesar da sua aparente solidez e dos muitos anos de bons serviços estava prestes a ruir. A carga ultimamente, tanto do bom como do ruim, tinha se tornado excessiva. Escoras elegantes e aparentando pertencer ao projeto original vinham sendo colocadas, mas as rachaduras depois de calafetadas e envernizadas reapareciam cada vez maiores. Estava na hora de irem embora e as perspectivas eram novas e atraentes.

sábado, junho 03, 2006

O filho predileto de Xangô


Ontem fui ao N.Ex.t. Cabaré, na Rua Rego Freitas, assistir a um show do Jorge Mautner, o profeta do Kaos. Fui a muitos shows dele quando era moleque, sempre acompanhado do seu polêmico violino (agora vermelho metálico), e o inseparável Jacobina. São profissionais competentes. Por estar num cabaré, e provavelmente identificar-se com esse tipo de estabelecimento, começou com um longo discurso sobre a história do cabaré e sua importância cultural, partindo dos poetas românticos franceses, com o absinto e o flerte da arte com o crime, passando pela época áurea da República de Weimar no entre-guerras, e contou que os cabarés foram um dos alvos do nazismo, porque Hitler considerava os comediantes tão perigosos como os judeus. Falou dos cabarés brasileiros, onde poetas parnasianos declamavam ao lado de sambistas e orquestras de gafieira. E até cantou uma canção de Kurt Weil em alemão, fazendo a tradução simultânea para o português nas pausas da letra. Cantou canções novas, como “O Homem-bomba”, com uma perspectiva umbandista dos suicidas fundamentalistas, em parceria com o Caetano, uma outra que tocou em uma novela da Globo, e várias das antigas. Para o “Maracatu Atômico” subiu ao palco uma berimbalista (?). A segunda atração era um grupo de rappers chamado “As funcionárias”, acompanhadas por um tecladista com visual inspirado em Austin Powers, que não agradou muito. Depois entrou uma banda de cozinha velha, um jovem cantor guitarrista, e um trompetista, com um repertório inusitado de compositores esquecidos como Sérgio Sampaio, e um som de qualidade. Com eles, que pareciam ter uma ligação íntima com o Mautner, ele cantou e tocou mais algumas, entre elas “O vampiro”, e terminou com uma antiga marchinha de carnaval. O cabaré estava lotado, e no teatro ao fundo acontecia uma leitura dramática (é isso), também bastante concorrida.

Foto tirada do site dele.

sexta-feira, junho 02, 2006

Chá ou café?


Há séculos, ou milênios, os filósofos discutem destino e escolha. Traçamos nosso próprio destino ou estamos a ele condenados, como o pobre Édipo, que quanto mais dele tentou fugir mais na sua direção correu. Existe uma escolha errada, ou existe só uma escolha possível, aquela que se toma? Ainda que se possa ouvir o futuro, as palavras da sibila são sempre entendidas errado. Não vou entrar nessa briga de cachorro grande. Mas assim como não acredito em vocação, aceito que há momentos em que várias escolhas certas são possíveis, e não há como errar.




Uma das sibilas da Capela Sixtina

quinta-feira, junho 01, 2006

Auto ajuda

Todos conhecem a fábula de Esopo da menina e o leite. A doce garotinha levando o leite ao mercado, no caminho começa a viajar: vendo o leite compro ovos, que darão pintinhos, que virarão galinhas, e assim por diante. Quando ela está prestes a comprar a Parmalat, distraída, derruba o leite. Daí a expressão “não adianta chorar sobre o leite derramado”. O mecanismo funciona para o sonho e para o pesadelo. O filho adolescente sai à noite e o pai fica preocupado porque ele vai beber, se beber vai tomar drogas, se tomar drogas vai bater o carro, se bater o carro vai causar danos que ele terá que suportar, ou machucar alguém, ou ainda se matar. Nesse momento, depois de passar a noite em claro, o pobre pai ouve o filhão entrando em casa são e salvo. O fato é que o pensamento voa. Rédea curta nele.

quarta-feira, maio 31, 2006

Partidas dobradas

O maravilhoso e perfeito mundo dos contadores está em equilíbrio constante graças escrituração em partidas dobradas, no qual a soma dos passivos é sempre igual à soma dos ativos com o sinal invertido, redundando num redondo zero.

Esta matemática simples e cartesiana retrata fielmente a situação de uma universalidade com sentido econômico. Qualquer pessoa física ou imaterial pode apurar os seus deveres e haveres, ainda que este patrimônio esteja em constante mutação, e tirar um instantâneo deste conjunto dinâmico, o famoso balanço.

Do ponto de vista humano dá pra imaginar alguém alinhando lado a lado suas forças e fraquezas, abundâncias e carências, para constatar se esta universalidade dinâmica que é uma pessoa, na trajetória em que se encontra, é viável ou caminha para o desastre. Se viável, pode melhorar? Se caminha para o desastre, o que pode ser feito para evitá-lo?

Todo balanço tem algo de incerto, expectativas boas e más que podem ou não se confirmar, e a sua função é orientar a administração e fundamentar suas deliberações, dando referenciais de probabilidade. Nas companhias a sua confecção de acordo com certos princípios e regras, e a sua publicação, é forma de cumprir o dever de transparência com o mercado, especialmente investidores e credores. Ainda bem que os humanos podem – e talvez devam mesmo - guardar seus balanços pessoais para si próprios. Ia ser muito engraçado se a divulgação fosse obrigatória.

terça-feira, maio 30, 2006

Fazer o que?

Faltam dez dias para o dia 9 de junho, quando começa a Copa do Mundo, com Alemanha enfrentando a bela Costa Rica. Mal posso esperar. O Brasil estréia só no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, contra a dura Croácia. 13 é o número de sorte do Zagalo, e ele anda justamente com uma imagem do santinho no bolso, de amuleto. Ninguém vai muito com a cara do Zagalo, mas como ele diz, a gente tem que enguli-lo. É o pagé do penta, o grande mistificador, o velho bruxo que assusta as criancinhas chacoalhando o seu maracá e entoando canções agourentas. Acho o velho Lobo um embuste, assim como o Felipão e o Leão. Acredito no Telê, Parreira e Luxemburgo, ainda que este último seja aparentemente um mau caráter.
Gravura: Theodor de Bry

segunda-feira, maio 29, 2006

Andando em círculos

Nos arquivos deste blog, no dia de 22 de maio do ano passado, há uma menção a um certo evento aeronáutico no interior deste estado de São Paulo. Esse fim de semana estive lá de novo, e vi voar uma maravilhosa réplica do Demoiselle, do Santos Dumont. Suas asas de tela branca iluminadas contra o sol, no céu azul, ao som do ronronar do pequeno motor, compuseram uma visão e tanto, e fiquei pensando nas façanhas do rapaz em Paris. É um elegante ultraleve que voa perfeitamente bem. Vi também a esquadrilha da fumaça, que me fascinou quando estive lá há dois anos (o ano passado a esquadrilha não compareceu), mas que dessa vez não teve tanta graça, pela repetição. Vou a esse evento todo ano porque é próximo da casa de uns amigos, que freqüento há mais de vinte anos, onde sempre encontramos outros tantos amigos. Nossos filhos cresceram juntos e são bastante íntimos, apesar de não se verem com tanta freqüência. Depois, chegando a São Paulo, fui buscar minha filha que estuda no colégio que estudei, que vinha de uma viagem organizada pela escola que igual a eu fiz há uns trinta anos. Claro que deve haver forças identificadas por leis, como as newtonianas, amarrando todas essas trajetórias. Uma delas é certamente similar à inércia, ou seja, a ausência de forças.

sexta-feira, maio 26, 2006

Marés

As marés são muito mais fáceis de entender do que as estações. Sempre a porção da Terra que está virada pra Lua está com a maré alta. E sua parte oposta também porque a Lua, ao atrair a face de mar que está na sua frente, estica, alonga, todo o oceano, formando uma maré alta do outro lado. Assim, a cada rotação da Terra, temos duas marés altas, e obviamente, duas baixas.

Quando a Lua está alinhada com o Sol, nas fases cheia e nova, acumula-se a gravidade dos dois e as marés são mais altas.

Segundo "A distância da Lua" do Italo Calvino, em "Cosmicômicas", houve um tempo em que a Lua era tão próxima da Terra e produzia marés tão altas, que na maré cheia, em certos lugares, pondo uma escada numa barquinha era possível ir passear na Lua.

"Na verdade, no alto da escada conseguia-se de fato tocá-la: bastava erguer os braços, apoiando-se no último degrau. Havíamos tomado cuidadosamente as medidas (sem suspeitar ainda que ela estava se afastando); a única coisa para a qual se devia estar bem atento era o lugar onde se punham as mãos. Eu escolhia uma escama que me parecesse sólida (devíamos subir todos, por turnos, em grupos de cinco ou seis), agarrava-se com uma das mãos, e depois com a outroa, e imediatamente sentia a escada e a barca escapar debaixo de mim, e o movimento da lua arrancar-me da atração terrestre. Sim, a Lua tinha uma força que o arrancava e de que você se dava conta no momento da passagem de uma para a outra; era preciso fazê-lo bem rápido, com uma espécie de cambalhota, agarrar-se às escamas, atirar as pernas para o alto, para vir se encontrar de pé sobre o solo lunar. Visto da Terra, era como se você estivesse dependurado de cabeça para baixo,mas para você mesmo era a costumeira posição de sempre, e a única coisa que parecia estranha era, ao erguer os olhos, ver-se embaixo a capa cintilante do mar com a barca e os companheiros de cabeça para baixo, a balançar como um cacho de uva na parreira."

quinta-feira, maio 25, 2006

A mão invisível e o seu calo

O plano era simples. Tratava-se de comprar o mais barato possível e vender pelo máximo que conseguisse os artigos que as pessoas que passavam por ali precisavam, queriam ou pudessem querer. A diferença entre as compras e vendas teria que cobrir as todas as despesas e possibilitar pelo menos a recompra do estoque, curva que seria aferida digamos, mês a mês. Ao final de um ano mediria os resultados, e planejaria o que fazer no ano seguinte. Crescer ou diminuir, enxugar custos ou investir, manter o rumo, mudar de direção ou diversificar. Um parceiro com quem pudesse trocar idéias seria muito conveniente. Os antigos do ramo diziam que o difícil era contentar o dono da rua, o insasciável Gargântua, e o seu filho mimado Pantagruel.

terça-feira, maio 23, 2006

Não confunda inverno austral com inferno astral

Este ano o solstício de inverno, que varia entre o dia 21 e o dia 23 de junho no hemisfério sul, será às 9:27 horas do dia 21 de junho. É um dos dois pontos mais distantes da órbita da Terra em relação ao sol (posição 1 da figura do Inpe), e a noite mais longa do ano, tradicionalmente a véspera da noite de São João, 24 de junho. Aparentemente a variação da distância da Terra ao Sol proporcionada pelo formato elíptico da órbita não tem relevância na temperatura. Outra coisa me intriga na classificação das estações. O início do inverno, demarcado pelo solstício, salvo engano, é o dia tendente a ser o mais frio, por ser o ápice da órbita. Não consigo entender porque o inverno, a estação mais fria, não começa 45 dias antes do solstício e termina 45 dias depois, abrangendo todo o período mais frio do ano. Ou será que só após a noite mais longa é que os dias ficam mais frios? Não me parece muito lógico. Mas acho bacana a marcação astrofísica da festa pagã da noite de São João, que celebra o início do caminho de volta para os dias longos de verão.

segunda-feira, maio 22, 2006

Uma questão gramática

Estive discutindo outro dia com alguém que conhece a língua portuguesa bem melhor do que eu – o que não é lá nada difícil – a velha questão do “namorar alguém” ou “namorar com alguém”. Desde a minha adolescência a geração dos meus pais se gabava em nos corrigir, brincando que “namorar com alguém” significaria “namorar alguém” com um terceiro segurando vela. Até hoje não me convenci disso. Argumentei, na tal discussão recente, que pra mim o namoro é uma espécie de estado civil informal, e assim “namorar com” equivaleria ao “casado com”. Fui submetido ao sofisma de ser o casamento um evento pontual, ritual ou cerimônia, no qual se esgota, embora produza a tal alteração de estado de forma permanente, enquanto o namoro era uma situação transitória com sentido de ação, e assim, “estar namorando”, no gerúndio, era muito diferente de “estar casado”. A inconsistência do argumento é evidente, pois gerúndio ou não, é a descrição de duas situações de estado, patentes pela utilização do verbo estar. Continuo acreditando que, como diz o Saramago, o verbo namorar mudou de opinião. Antigamente namorar significava admirar, cobiçar, desejar, era como se qualificava a corte das virgens, pelo menos em termos ideais sem o contato físico. Hoje o namoro tem conotação de compromisso – quase equivalendo ao antigo noivado, não fosse a ausência de um efetivo projeto de casamento – e quanto ao contato físico, além do “ficar” ou concorrendo com o sexo descompromissado ou casual, o que demonstra que este critério não é mais útil para a determinação do estado, nem do verbo.

sexta-feira, maio 19, 2006

Ísquios


Desde que comecei a remar o skiff não consigo dar mais que três voltas na raia. Me dá uma dor danada na bunda. Hoje percebi que deve ser o banquinho do barco, pré-histórico como ele, quase plano, e sem os furos redondos que todos os banquinhos de remo têm. Os furos redondos se encaixam perfeitamente nos ísquios, os ossos em ponta do fundo da bacia, aliviando a pressão nos glúteos. Um gênio inventou esta maravilha ergonômica, e revolucionou o esporte. Preciso arrumar outro banquinho.

quarta-feira, maio 17, 2006

Kung fu

Ontem encontrei por acaso um ex-colega de trabalho, de muito tempo atrás, e tomamos um café. É um sujeito tranqüilo, comedido, com bom senso de humor, totalmente desinteressado das artes e cultura, o que redunda num perfil de direita, fisiológico. Outra peculiaridade, talvez seu traço mais marcante, é a luta. Pratica artes marciais orientais desde sempre, participando de campeonatos rotineiramente e conquistando alguns títulos. E desde os dezoito anos anda armado (acho que agora não mais, porque é proibido, mas nunca se sabe). Casou com uma das mulheres mais bonitas que eu já conheci, também fisiológica como ele, e tiveram filhos, um dos quais está com oito anos. O infante pratica artes marciais junto com o pai desde os cinco anos, e costuma assistir suas lutas. Ele me contou que outro dia esse garoto sofreu um ataque na escola, um gravata por trás, ou seja teve o pescoço envolvido por um braço, por outro garoto que estava às suas costas. Ele segurou o braço com as duas mãos, procurando afastá-lo do pescoço, e jogou a cabeça violentamente pra trás. Acertou com tudo o nariz do agressor, e ato contínuo curvou-se para frente puxando o garoto pelo braço, que passou por cima dele e estatelou-se de costas no chão, com a respiração suspensa. Quando ele ia começara sapatear no agressor, separaram a briga. O pai foi chamado ao colégio, e concordou em punir o seu filho, com quem argumentou ter havido um excesso de reação, escondendo o orgulho. Está preocupado e pensando em parar de lutar. Concluímos que não tem jeito. Por mais filosofice que se invente, quem se dedica anos a fio às artes marciais quer ver se a coisa funciona mesmo. E vai brigar pra ver até onde pode chegar. Pelo menos até passar a adolescência, correndo o risco de encontrar uma bala no caminho.

segunda-feira, maio 15, 2006

Gás

Foto: Estadão

O sistema de aquecimento de água da minha casa é a gás, de passagem, alimentado por um grande bujão de 190 quilos, que é abastecido por um caminhão com uma mangueira. Era uma boa opção quando instalei em 1997, e agora deve ser uma das piores. O aquecedor é “computadorizado”, e a despeito das minhas fantasias do que isso podia significar quando comprei, nada mais é do que termostato digital. Essa gracinha funciona muito bem com um pressurizador, e garante banhos magníficos. Acontece que o tal aparelho tem um controle remoto ligado por um fio, que os instaladores se recusaram a passar pelo mesmo conduíte do cabo de força, o único que conduzia até a laje superior. O controle remoto ficou lá no telhado, junto com o aquecedor. Cada vez que falta energia, sou obrigado a subir no telhado e “reprogramar” o termostato, que volta para o zero. Pra subir na laje superior, há uma escada “de marinheiro”, que sai de um terracinho do piso superior, chumbada na parede. Quando mudei minhas filhas eram pequenas, e eu fiquei com medo que elas se aventurassem no telhado. Cortei a escadinha, que ficou com o primeiro degrau a um pouco mais de um metro do chão. Por conta dessas falhas, volta e meia subo no telhado, o que é um pouco trabalhoso, mas não é uma experiência de todo má. Às vezes está frio, ou chovendo, ou estou dormindo, de pijama, e tenho que subir, apertar os botõezinhos, pi-pi-pi-pi-pi-pi, e o aparelho volta a funcionar. É forçado, mas é razoavelmente esporádico, e assim acaba sendo legal. Gosto de subir no telhado, e jamais subiria não fosse esta característica da casa. Não é nenhum alpinismo, mas é um ponto de vista aéreo da redondeza, uma sensação muito agradável, com o friozinho na barriga das beiradas a uns sete metros de altura. Se eu vestisse uma máscara de esqui, um pijama laranja, pegasse o facão do jardineiro e um celular, me sentiria o próprio presidiário amotinado. Na vida real, a altura seria maior e o frio na barriga também, pois envolveria risco de ser morto, e causar muitas mortes. Na pele de um dirigente de uma organização criminosa, haveria a sensação de poder de estar orquestrando uma rebelião de dimensões estaduais, em comunicação com outros líderes, cada um no telhado de um outro presídio cercado pelas forças mais letais da polícia, contidas apenas pela vida sem valor de alguns reféns. Uma causa tão sem razão como tantas outras. Eu no telhado estaria dando telefonemas muito menos interessantes. Mesmo assim, acho que a próxima vez que faltar energia, vou subir lá com um celular.

PCC

Não consigo entender como a polícia não consegue impedir os presos de terem acesso a celulares. E não deve ser preguiça, má vontade ou cumplicidade. Dá a impressão de ser impossível revistar uma penitenciária, tanto que no Estadão havia uma pequena notícia perdida no caderno Metrópole todo tomado pelo PCC, sobre o pleito dos policiais de serem desligadas as antenas que dão cobertura aos presídios, ainda que com prejuízo da população vizinha.

Deve ser por causa do meu processo de emburrecimento iniciado no carnaval, que está quase completo. Passei o fim de semana dormindo e vendo tv, depois de longas sessões matinais de esporte.

quinta-feira, maio 11, 2006

Skiff

Assisti ontem “O sol de cada manhã” ou “The weather man” com o Nicolas Cage. Ele tem quase a minha idade, e o primeiro filme que me lembro com ele foi o “Rumble fish”, do seu tio Francis Ford. Tenho a impressão que nesses vinte anos já vi tantos filmes com ele, que quase não consigo mais ver o personagem. Ainda que ele mude o cabelo, e tente disfarçar, está lá sempre o ator, com sua feição familiar e sua voz inconfundível, seja um soldado italiano, um imigrante polonês, ou o homem do tempo. O filme é bom, e tem componentes que facilitam a identificação de gente da nossa idade, minha e do Cage. No meu caso foi pior, pois o pai dele é o Michael Caine, com quem o meu pai é bastante parecido. O assunto é a dificuldade de se aceitar, depois que as infinitas possibilidades da juventude foram embora, e somos o que somos. Fora o fardo de erros e bobagens.

Estou remando agora o single skiff. Tem 8,40 metros de comprimento e 36 centímetros de largura. É bastante instável, o que demanda concentração permanente. É muito gostoso. Aliás, o Nicolas Cage fez em 86 um filme sobre Ned Hanlan (“The boy in blue”), um remador de skiff (ou scull, como dizem por aí) canadense do século XIX, que foi uma estrela do esporte no seu tempo. Morava numa ilha, e o acesso era por remo. Quando atingiu o ápice da carreira, a regata mais famosa era uma em Londres, com mil libras de prêmio. Dizem que no meio ele parou, acenou para a platéia, tomou água, deixou os concorrentes passarem e ganhou a prova. Ainda não consegui ver este filme.

quarta-feira, maio 10, 2006

Vergonha é roubar e não conseguir carregar


Este é um dos meus ditados preferidos. Crimes todos nós cometemos. Falo por mim. Minto, sonego, desvio, machuco, abuso, e a maioria é de crimes perfeitos. Ninguém nota, as ofensas são invisíveis, os álibis consistentes, o proveito mascarado. Às vezes me deixo apanhar de propósito, e aceito o castigo merecido. Atire a primeira pedra.

terça-feira, maio 09, 2006

Riviera?


Domingo fui surfar na Riviera de São Lourenço. Nunca tinha ido lá. Um amigo sugeriu, porque a praia tem um grande ponta com um morro projetada para o oceano oferecendo uma certa proteção ao vento sul, que estava um tanto forte e deixando o mar mexido. Deu certo. O canto sul da praia realmente estava com uma formação razoável, em comparação com a parte mais exposta ao vento. É uma praiona grande, de uns quatro a cinco quilômetros, meio sem graça, aquele jeitão Bertioga. A urbanização é pouco atraente. Avenidas de bloquete (aqueles hexágonos de concreto) um tanto irregulares, arborizadas com palmeiras, setores de prédios de oito andares azulejados, e casas, muitas bizarras. Não tem cara de cidade, mas de empreendimento imobiliário. Todos pareciam haoles ali, o que não é mau.

quinta-feira, maio 04, 2006

Uma lágrima


Ontem ouvi na rádio Eldorado o programículo do Nelson Mota. A novidade era a versão do Pato Fu da música do Odair José “Uma lágrima”, contida num disco homenagem de vários artistas não-bregas, chamado “Vou tirar você desse lugar – Tributo a Odair José” (tem na íntegra na radio UOL, ainda não ouvi), que é realmente uma joinha. A Fernanda Takai é uma dessas cantoras ditas “sem voz”. Adoro os cantores “sem voz” e acho esse tipo de crítica detestável, de gente que aprecia o abominável e desumano belcanto, que fica mais abominável ainda quando retirado do seu contexto erudito – se bem que pra mim ópera seja um breguice popular que só se tornou erudita por ser coisa de museu – e enxertado na música popular. Uma lista de cantores “sem voz”: Arnaldo Antunes, Fernanda Abreu, Keith Richards (que caiu do coqueiro ontem), Lou Reed, Paula Toler, Jimi Hendrix, Tom Jobim, quem mais?

quarta-feira, maio 03, 2006

Porto Alegre


Depois da chegada

Na proa.

terça-feira, maio 02, 2006

VTNCDB

A regata foi estupenda. O clube ocupa uma grande área na ponta da ilha totalmente arborizada, com espaçosas garagens de barcos, uma sala de barco-escola (tanquinhos para aprender a remar), musculação e remoergômetro (a esteira do remador, uma máquina que simula o movimento do remo), grande com enorme pé-direito, toda envidraçada e com uma linda vista, uma estrutura realmente impressionante. A organização foi impecável, com setenta e cinco provas em um dia e uma manhã, com mais de 350 remadores de 46 clubes de todo o cone sul. Mal se dava a chegada de uma, a outra já estava largando. Como as provas demoram de três a cinco minutos, não havia como se entediar. No sábado, as condições estavam perfeitas: sol, temperatura amena, e nenhum vento. No domingo, piorou um pouco, entrou um pouco de vento, mais ainda estava legal. Conheci figuras interessantíssimas, ganhei só experiência, e um pouco de peso. Na prova do four, fizemos um tempo pior que vínhamos fazendo nos treinos e ficamos em último alguns segundos atrás do quarto, depois de andarmos juntos metade da prova. No double, competimos contra duplas mais jovens, em um mal aprovietamento do regulamento. Meu parceiro tinha 62, média de 53, contra duplas de média de 45. Também em último chegamos pouco atrás do terceiro, e bem atrás dos primeiros. Os caras são grandes, competitivos e remam há muito tempo. Em outubro tem um campeonato brasileiro de masters, na nova raia da Lagoa, no Rio, feita para o Pan. Se a compulsão se mantiver, acho que posso obter melhores resultados. Fotos em breve.