quarta-feira, maio 31, 2006

Partidas dobradas

O maravilhoso e perfeito mundo dos contadores está em equilíbrio constante graças escrituração em partidas dobradas, no qual a soma dos passivos é sempre igual à soma dos ativos com o sinal invertido, redundando num redondo zero.

Esta matemática simples e cartesiana retrata fielmente a situação de uma universalidade com sentido econômico. Qualquer pessoa física ou imaterial pode apurar os seus deveres e haveres, ainda que este patrimônio esteja em constante mutação, e tirar um instantâneo deste conjunto dinâmico, o famoso balanço.

Do ponto de vista humano dá pra imaginar alguém alinhando lado a lado suas forças e fraquezas, abundâncias e carências, para constatar se esta universalidade dinâmica que é uma pessoa, na trajetória em que se encontra, é viável ou caminha para o desastre. Se viável, pode melhorar? Se caminha para o desastre, o que pode ser feito para evitá-lo?

Todo balanço tem algo de incerto, expectativas boas e más que podem ou não se confirmar, e a sua função é orientar a administração e fundamentar suas deliberações, dando referenciais de probabilidade. Nas companhias a sua confecção de acordo com certos princípios e regras, e a sua publicação, é forma de cumprir o dever de transparência com o mercado, especialmente investidores e credores. Ainda bem que os humanos podem – e talvez devam mesmo - guardar seus balanços pessoais para si próprios. Ia ser muito engraçado se a divulgação fosse obrigatória.

terça-feira, maio 30, 2006

Fazer o que?

Faltam dez dias para o dia 9 de junho, quando começa a Copa do Mundo, com Alemanha enfrentando a bela Costa Rica. Mal posso esperar. O Brasil estréia só no dia 13 de junho, dia de Santo Antônio, contra a dura Croácia. 13 é o número de sorte do Zagalo, e ele anda justamente com uma imagem do santinho no bolso, de amuleto. Ninguém vai muito com a cara do Zagalo, mas como ele diz, a gente tem que enguli-lo. É o pagé do penta, o grande mistificador, o velho bruxo que assusta as criancinhas chacoalhando o seu maracá e entoando canções agourentas. Acho o velho Lobo um embuste, assim como o Felipão e o Leão. Acredito no Telê, Parreira e Luxemburgo, ainda que este último seja aparentemente um mau caráter.
Gravura: Theodor de Bry

segunda-feira, maio 29, 2006

Andando em círculos

Nos arquivos deste blog, no dia de 22 de maio do ano passado, há uma menção a um certo evento aeronáutico no interior deste estado de São Paulo. Esse fim de semana estive lá de novo, e vi voar uma maravilhosa réplica do Demoiselle, do Santos Dumont. Suas asas de tela branca iluminadas contra o sol, no céu azul, ao som do ronronar do pequeno motor, compuseram uma visão e tanto, e fiquei pensando nas façanhas do rapaz em Paris. É um elegante ultraleve que voa perfeitamente bem. Vi também a esquadrilha da fumaça, que me fascinou quando estive lá há dois anos (o ano passado a esquadrilha não compareceu), mas que dessa vez não teve tanta graça, pela repetição. Vou a esse evento todo ano porque é próximo da casa de uns amigos, que freqüento há mais de vinte anos, onde sempre encontramos outros tantos amigos. Nossos filhos cresceram juntos e são bastante íntimos, apesar de não se verem com tanta freqüência. Depois, chegando a São Paulo, fui buscar minha filha que estuda no colégio que estudei, que vinha de uma viagem organizada pela escola que igual a eu fiz há uns trinta anos. Claro que deve haver forças identificadas por leis, como as newtonianas, amarrando todas essas trajetórias. Uma delas é certamente similar à inércia, ou seja, a ausência de forças.

sexta-feira, maio 26, 2006

Marés

As marés são muito mais fáceis de entender do que as estações. Sempre a porção da Terra que está virada pra Lua está com a maré alta. E sua parte oposta também porque a Lua, ao atrair a face de mar que está na sua frente, estica, alonga, todo o oceano, formando uma maré alta do outro lado. Assim, a cada rotação da Terra, temos duas marés altas, e obviamente, duas baixas.

Quando a Lua está alinhada com o Sol, nas fases cheia e nova, acumula-se a gravidade dos dois e as marés são mais altas.

Segundo "A distância da Lua" do Italo Calvino, em "Cosmicômicas", houve um tempo em que a Lua era tão próxima da Terra e produzia marés tão altas, que na maré cheia, em certos lugares, pondo uma escada numa barquinha era possível ir passear na Lua.

"Na verdade, no alto da escada conseguia-se de fato tocá-la: bastava erguer os braços, apoiando-se no último degrau. Havíamos tomado cuidadosamente as medidas (sem suspeitar ainda que ela estava se afastando); a única coisa para a qual se devia estar bem atento era o lugar onde se punham as mãos. Eu escolhia uma escama que me parecesse sólida (devíamos subir todos, por turnos, em grupos de cinco ou seis), agarrava-se com uma das mãos, e depois com a outroa, e imediatamente sentia a escada e a barca escapar debaixo de mim, e o movimento da lua arrancar-me da atração terrestre. Sim, a Lua tinha uma força que o arrancava e de que você se dava conta no momento da passagem de uma para a outra; era preciso fazê-lo bem rápido, com uma espécie de cambalhota, agarrar-se às escamas, atirar as pernas para o alto, para vir se encontrar de pé sobre o solo lunar. Visto da Terra, era como se você estivesse dependurado de cabeça para baixo,mas para você mesmo era a costumeira posição de sempre, e a única coisa que parecia estranha era, ao erguer os olhos, ver-se embaixo a capa cintilante do mar com a barca e os companheiros de cabeça para baixo, a balançar como um cacho de uva na parreira."

quinta-feira, maio 25, 2006

A mão invisível e o seu calo

O plano era simples. Tratava-se de comprar o mais barato possível e vender pelo máximo que conseguisse os artigos que as pessoas que passavam por ali precisavam, queriam ou pudessem querer. A diferença entre as compras e vendas teria que cobrir as todas as despesas e possibilitar pelo menos a recompra do estoque, curva que seria aferida digamos, mês a mês. Ao final de um ano mediria os resultados, e planejaria o que fazer no ano seguinte. Crescer ou diminuir, enxugar custos ou investir, manter o rumo, mudar de direção ou diversificar. Um parceiro com quem pudesse trocar idéias seria muito conveniente. Os antigos do ramo diziam que o difícil era contentar o dono da rua, o insasciável Gargântua, e o seu filho mimado Pantagruel.

terça-feira, maio 23, 2006

Não confunda inverno austral com inferno astral

Este ano o solstício de inverno, que varia entre o dia 21 e o dia 23 de junho no hemisfério sul, será às 9:27 horas do dia 21 de junho. É um dos dois pontos mais distantes da órbita da Terra em relação ao sol (posição 1 da figura do Inpe), e a noite mais longa do ano, tradicionalmente a véspera da noite de São João, 24 de junho. Aparentemente a variação da distância da Terra ao Sol proporcionada pelo formato elíptico da órbita não tem relevância na temperatura. Outra coisa me intriga na classificação das estações. O início do inverno, demarcado pelo solstício, salvo engano, é o dia tendente a ser o mais frio, por ser o ápice da órbita. Não consigo entender porque o inverno, a estação mais fria, não começa 45 dias antes do solstício e termina 45 dias depois, abrangendo todo o período mais frio do ano. Ou será que só após a noite mais longa é que os dias ficam mais frios? Não me parece muito lógico. Mas acho bacana a marcação astrofísica da festa pagã da noite de São João, que celebra o início do caminho de volta para os dias longos de verão.

segunda-feira, maio 22, 2006

Uma questão gramática

Estive discutindo outro dia com alguém que conhece a língua portuguesa bem melhor do que eu – o que não é lá nada difícil – a velha questão do “namorar alguém” ou “namorar com alguém”. Desde a minha adolescência a geração dos meus pais se gabava em nos corrigir, brincando que “namorar com alguém” significaria “namorar alguém” com um terceiro segurando vela. Até hoje não me convenci disso. Argumentei, na tal discussão recente, que pra mim o namoro é uma espécie de estado civil informal, e assim “namorar com” equivaleria ao “casado com”. Fui submetido ao sofisma de ser o casamento um evento pontual, ritual ou cerimônia, no qual se esgota, embora produza a tal alteração de estado de forma permanente, enquanto o namoro era uma situação transitória com sentido de ação, e assim, “estar namorando”, no gerúndio, era muito diferente de “estar casado”. A inconsistência do argumento é evidente, pois gerúndio ou não, é a descrição de duas situações de estado, patentes pela utilização do verbo estar. Continuo acreditando que, como diz o Saramago, o verbo namorar mudou de opinião. Antigamente namorar significava admirar, cobiçar, desejar, era como se qualificava a corte das virgens, pelo menos em termos ideais sem o contato físico. Hoje o namoro tem conotação de compromisso – quase equivalendo ao antigo noivado, não fosse a ausência de um efetivo projeto de casamento – e quanto ao contato físico, além do “ficar” ou concorrendo com o sexo descompromissado ou casual, o que demonstra que este critério não é mais útil para a determinação do estado, nem do verbo.

sexta-feira, maio 19, 2006

Ísquios


Desde que comecei a remar o skiff não consigo dar mais que três voltas na raia. Me dá uma dor danada na bunda. Hoje percebi que deve ser o banquinho do barco, pré-histórico como ele, quase plano, e sem os furos redondos que todos os banquinhos de remo têm. Os furos redondos se encaixam perfeitamente nos ísquios, os ossos em ponta do fundo da bacia, aliviando a pressão nos glúteos. Um gênio inventou esta maravilha ergonômica, e revolucionou o esporte. Preciso arrumar outro banquinho.

quarta-feira, maio 17, 2006

Kung fu

Ontem encontrei por acaso um ex-colega de trabalho, de muito tempo atrás, e tomamos um café. É um sujeito tranqüilo, comedido, com bom senso de humor, totalmente desinteressado das artes e cultura, o que redunda num perfil de direita, fisiológico. Outra peculiaridade, talvez seu traço mais marcante, é a luta. Pratica artes marciais orientais desde sempre, participando de campeonatos rotineiramente e conquistando alguns títulos. E desde os dezoito anos anda armado (acho que agora não mais, porque é proibido, mas nunca se sabe). Casou com uma das mulheres mais bonitas que eu já conheci, também fisiológica como ele, e tiveram filhos, um dos quais está com oito anos. O infante pratica artes marciais junto com o pai desde os cinco anos, e costuma assistir suas lutas. Ele me contou que outro dia esse garoto sofreu um ataque na escola, um gravata por trás, ou seja teve o pescoço envolvido por um braço, por outro garoto que estava às suas costas. Ele segurou o braço com as duas mãos, procurando afastá-lo do pescoço, e jogou a cabeça violentamente pra trás. Acertou com tudo o nariz do agressor, e ato contínuo curvou-se para frente puxando o garoto pelo braço, que passou por cima dele e estatelou-se de costas no chão, com a respiração suspensa. Quando ele ia começara sapatear no agressor, separaram a briga. O pai foi chamado ao colégio, e concordou em punir o seu filho, com quem argumentou ter havido um excesso de reação, escondendo o orgulho. Está preocupado e pensando em parar de lutar. Concluímos que não tem jeito. Por mais filosofice que se invente, quem se dedica anos a fio às artes marciais quer ver se a coisa funciona mesmo. E vai brigar pra ver até onde pode chegar. Pelo menos até passar a adolescência, correndo o risco de encontrar uma bala no caminho.

segunda-feira, maio 15, 2006

Gás

Foto: Estadão

O sistema de aquecimento de água da minha casa é a gás, de passagem, alimentado por um grande bujão de 190 quilos, que é abastecido por um caminhão com uma mangueira. Era uma boa opção quando instalei em 1997, e agora deve ser uma das piores. O aquecedor é “computadorizado”, e a despeito das minhas fantasias do que isso podia significar quando comprei, nada mais é do que termostato digital. Essa gracinha funciona muito bem com um pressurizador, e garante banhos magníficos. Acontece que o tal aparelho tem um controle remoto ligado por um fio, que os instaladores se recusaram a passar pelo mesmo conduíte do cabo de força, o único que conduzia até a laje superior. O controle remoto ficou lá no telhado, junto com o aquecedor. Cada vez que falta energia, sou obrigado a subir no telhado e “reprogramar” o termostato, que volta para o zero. Pra subir na laje superior, há uma escada “de marinheiro”, que sai de um terracinho do piso superior, chumbada na parede. Quando mudei minhas filhas eram pequenas, e eu fiquei com medo que elas se aventurassem no telhado. Cortei a escadinha, que ficou com o primeiro degrau a um pouco mais de um metro do chão. Por conta dessas falhas, volta e meia subo no telhado, o que é um pouco trabalhoso, mas não é uma experiência de todo má. Às vezes está frio, ou chovendo, ou estou dormindo, de pijama, e tenho que subir, apertar os botõezinhos, pi-pi-pi-pi-pi-pi, e o aparelho volta a funcionar. É forçado, mas é razoavelmente esporádico, e assim acaba sendo legal. Gosto de subir no telhado, e jamais subiria não fosse esta característica da casa. Não é nenhum alpinismo, mas é um ponto de vista aéreo da redondeza, uma sensação muito agradável, com o friozinho na barriga das beiradas a uns sete metros de altura. Se eu vestisse uma máscara de esqui, um pijama laranja, pegasse o facão do jardineiro e um celular, me sentiria o próprio presidiário amotinado. Na vida real, a altura seria maior e o frio na barriga também, pois envolveria risco de ser morto, e causar muitas mortes. Na pele de um dirigente de uma organização criminosa, haveria a sensação de poder de estar orquestrando uma rebelião de dimensões estaduais, em comunicação com outros líderes, cada um no telhado de um outro presídio cercado pelas forças mais letais da polícia, contidas apenas pela vida sem valor de alguns reféns. Uma causa tão sem razão como tantas outras. Eu no telhado estaria dando telefonemas muito menos interessantes. Mesmo assim, acho que a próxima vez que faltar energia, vou subir lá com um celular.

PCC

Não consigo entender como a polícia não consegue impedir os presos de terem acesso a celulares. E não deve ser preguiça, má vontade ou cumplicidade. Dá a impressão de ser impossível revistar uma penitenciária, tanto que no Estadão havia uma pequena notícia perdida no caderno Metrópole todo tomado pelo PCC, sobre o pleito dos policiais de serem desligadas as antenas que dão cobertura aos presídios, ainda que com prejuízo da população vizinha.

Deve ser por causa do meu processo de emburrecimento iniciado no carnaval, que está quase completo. Passei o fim de semana dormindo e vendo tv, depois de longas sessões matinais de esporte.

quinta-feira, maio 11, 2006

Skiff

Assisti ontem “O sol de cada manhã” ou “The weather man” com o Nicolas Cage. Ele tem quase a minha idade, e o primeiro filme que me lembro com ele foi o “Rumble fish”, do seu tio Francis Ford. Tenho a impressão que nesses vinte anos já vi tantos filmes com ele, que quase não consigo mais ver o personagem. Ainda que ele mude o cabelo, e tente disfarçar, está lá sempre o ator, com sua feição familiar e sua voz inconfundível, seja um soldado italiano, um imigrante polonês, ou o homem do tempo. O filme é bom, e tem componentes que facilitam a identificação de gente da nossa idade, minha e do Cage. No meu caso foi pior, pois o pai dele é o Michael Caine, com quem o meu pai é bastante parecido. O assunto é a dificuldade de se aceitar, depois que as infinitas possibilidades da juventude foram embora, e somos o que somos. Fora o fardo de erros e bobagens.

Estou remando agora o single skiff. Tem 8,40 metros de comprimento e 36 centímetros de largura. É bastante instável, o que demanda concentração permanente. É muito gostoso. Aliás, o Nicolas Cage fez em 86 um filme sobre Ned Hanlan (“The boy in blue”), um remador de skiff (ou scull, como dizem por aí) canadense do século XIX, que foi uma estrela do esporte no seu tempo. Morava numa ilha, e o acesso era por remo. Quando atingiu o ápice da carreira, a regata mais famosa era uma em Londres, com mil libras de prêmio. Dizem que no meio ele parou, acenou para a platéia, tomou água, deixou os concorrentes passarem e ganhou a prova. Ainda não consegui ver este filme.

quarta-feira, maio 10, 2006

Vergonha é roubar e não conseguir carregar


Este é um dos meus ditados preferidos. Crimes todos nós cometemos. Falo por mim. Minto, sonego, desvio, machuco, abuso, e a maioria é de crimes perfeitos. Ninguém nota, as ofensas são invisíveis, os álibis consistentes, o proveito mascarado. Às vezes me deixo apanhar de propósito, e aceito o castigo merecido. Atire a primeira pedra.

terça-feira, maio 09, 2006

Riviera?


Domingo fui surfar na Riviera de São Lourenço. Nunca tinha ido lá. Um amigo sugeriu, porque a praia tem um grande ponta com um morro projetada para o oceano oferecendo uma certa proteção ao vento sul, que estava um tanto forte e deixando o mar mexido. Deu certo. O canto sul da praia realmente estava com uma formação razoável, em comparação com a parte mais exposta ao vento. É uma praiona grande, de uns quatro a cinco quilômetros, meio sem graça, aquele jeitão Bertioga. A urbanização é pouco atraente. Avenidas de bloquete (aqueles hexágonos de concreto) um tanto irregulares, arborizadas com palmeiras, setores de prédios de oito andares azulejados, e casas, muitas bizarras. Não tem cara de cidade, mas de empreendimento imobiliário. Todos pareciam haoles ali, o que não é mau.

quinta-feira, maio 04, 2006

Uma lágrima


Ontem ouvi na rádio Eldorado o programículo do Nelson Mota. A novidade era a versão do Pato Fu da música do Odair José “Uma lágrima”, contida num disco homenagem de vários artistas não-bregas, chamado “Vou tirar você desse lugar – Tributo a Odair José” (tem na íntegra na radio UOL, ainda não ouvi), que é realmente uma joinha. A Fernanda Takai é uma dessas cantoras ditas “sem voz”. Adoro os cantores “sem voz” e acho esse tipo de crítica detestável, de gente que aprecia o abominável e desumano belcanto, que fica mais abominável ainda quando retirado do seu contexto erudito – se bem que pra mim ópera seja um breguice popular que só se tornou erudita por ser coisa de museu – e enxertado na música popular. Uma lista de cantores “sem voz”: Arnaldo Antunes, Fernanda Abreu, Keith Richards (que caiu do coqueiro ontem), Lou Reed, Paula Toler, Jimi Hendrix, Tom Jobim, quem mais?

quarta-feira, maio 03, 2006

Porto Alegre


Depois da chegada

Na proa.

terça-feira, maio 02, 2006

VTNCDB

A regata foi estupenda. O clube ocupa uma grande área na ponta da ilha totalmente arborizada, com espaçosas garagens de barcos, uma sala de barco-escola (tanquinhos para aprender a remar), musculação e remoergômetro (a esteira do remador, uma máquina que simula o movimento do remo), grande com enorme pé-direito, toda envidraçada e com uma linda vista, uma estrutura realmente impressionante. A organização foi impecável, com setenta e cinco provas em um dia e uma manhã, com mais de 350 remadores de 46 clubes de todo o cone sul. Mal se dava a chegada de uma, a outra já estava largando. Como as provas demoram de três a cinco minutos, não havia como se entediar. No sábado, as condições estavam perfeitas: sol, temperatura amena, e nenhum vento. No domingo, piorou um pouco, entrou um pouco de vento, mais ainda estava legal. Conheci figuras interessantíssimas, ganhei só experiência, e um pouco de peso. Na prova do four, fizemos um tempo pior que vínhamos fazendo nos treinos e ficamos em último alguns segundos atrás do quarto, depois de andarmos juntos metade da prova. No double, competimos contra duplas mais jovens, em um mal aprovietamento do regulamento. Meu parceiro tinha 62, média de 53, contra duplas de média de 45. Também em último chegamos pouco atrás do terceiro, e bem atrás dos primeiros. Os caras são grandes, competitivos e remam há muito tempo. Em outubro tem um campeonato brasileiro de masters, na nova raia da Lagoa, no Rio, feita para o Pan. Se a compulsão se mantiver, acho que posso obter melhores resultados. Fotos em breve.

sexta-feira, abril 28, 2006

Guaíba



Vou viajar 1100 quilômetros pra remar duas ou três vezes pouco mais de três minutos, do lado esquerdo dessa Ilha do Pavão, no Delta do Guaíba, em Porto Alegre.

quarta-feira, abril 26, 2006

Rei do terreiro

Uma coisa me intriga. Porque, ainda hoje, nesses tempos civilizados, ainda tentamos nos impor pela atitude física, a postura, a entonação, a tergiversação, os gestos, os olhos, enfim, o jogo de cena do galinho no terreiro? Mesmo em situações em que a violência real não é possível, tentamos intimidar, intimidamos e somos intimidados, como se houvesse risco ao corpo. Somos racionais só por escrito?

Ontem à noite, chegando num sinal para cruzar uma grande avenida, vi um carro uns cinqüenta metros na minha frente desperdiçar a luz verde e estacionar junto ao meio-fio. Parei na faixa oposta, e vi do que se tratava. Um sujeito desceu de seu carrão para encrencar com o flanelinha que tinha vindo lavar o vidro do seu carro com a água suja e o rodinho. Eu de vidro filmado e fechado, ouvindo música, não ouvia o que diziam. Mas durante todo o longo tempo do semáforo, e até eu ir embora ao abrir, os dois ficaram se empombando, vendo quem intimidava quem. Fiquei imaginando que o sujeito do carro devia ter tido um dia ruim no trabalho e estava descontando no flanelinha, que era grande e mal-encarado.

terça-feira, abril 25, 2006

Kong




















Vi ontem o longo King Kong e gostei muito. Achei o personagem cineasta do Jack Black, pra mim inspirado no Orson Welles, um pouco histriônico. As longas seqüências de perseguições de monstros também me aborreceram, apesar de muito bem feitas. Mas é uma linda fábula e está muito bem contada. A exploração comercial da tensão entre a beleza e o desejo. A dificuldade da contenção do instinto animal que habita em nós, quando provocado pela visão da beleza. A luta entre o social civilizado e o indivíduo bestial, e como o bem e o mal, o útil e o nocivo, o inocente e o perverso atuam misturados nas duas pontas. A Naomi Watts está excelente como pureza estereotipada. Lamentei não ter visto no cinema.

segunda-feira, abril 24, 2006

Assento ejetável

Vi “Estrela Solitária” (Don’t come knocking) do Wim Wenders com o Sam Shepard, o autor da história e do roteiro. Conto só a primeira cena, que imagino a idéia tenha sido tão sedutora a ponto de gerar todo o filme. Um ator já velhão, todo paramentado como cowboy de cinema, monta no seu belo cavalo ator, muito bem arreado, e simplesmente sai do set em Monument Valley ou coisa que o valha, abandonando as filmagens com destino ignorado. É o conceito do assento ejetável. Quem nunca pensou e largar tudo e ir morar no litoral da Bahia, abrir um boteco ou viver de um aluguelzinho, de papo pro ar. Quando eu era moleque achava que isso sempre seria possível. Casei pensando isso, virei profissional pensando nisso. Mas na verdade vamos nos enredando nessa trama de vínculos e responsabilidades de tal forma que apertar o botão implica arrancar um pouco de pele de muita gente. É uma operação perigosa, que só deve ser tomada quando o avião já está perdido, como única alternativa.

quinta-feira, abril 20, 2006

Abundância

Sua casa encontra-se na abundância. Ele voa pelas fronteiras do céu. Ele esconde sua família, espreita através do portão e já não percebe mais ninguém. Durante três anos não vê mais nada. Ele se esconde. Por sua arrogância e obstinação, atinge o oposto do que anseia. Deseja a todo custo ser o senhor absoluto em sua casa, mas isto o afasta de sua própria família a tal ponto que, ao final, ele se vê completamente só. Cai numa situação desesperada e solitária pela qual ele próprio é o único responsável.

quarta-feira, abril 19, 2006

segunda-feira, abril 17, 2006

Dogtown

Vi ontem o “Lords of Dogtown”, a história da turma que revolucionou o uso do skateboard em Venice Beach, Califórnia, em 75/76. Mexeu tanto comigo que sonhei que estava comprando um, longboard. O primeiro skate que eu vi na minha vida foi o meu. Minha mãe me trouxe um Hobie da Califórnia, em 1972, muito bonito e bem acabado. Minha única referência era alguma série antiga de tv, que tinha mostrado alguém andando com um pé reto para frente, e o de trás atravessado, andado pelas calçadas. Jamais me ocorreu me jogar ladeira abaixo com aquilo, simulando manobras do surfe. Uns dois ou três anos depois teve a primeira grande onda de skate por aqui, a minha pranchinha já estava com as rodas gastas, e era bem menor do que as que se usavam então. Íamos a uma fábrica de patins que havia na Barra Funda, a Torlay, onde comprávamos os eixos, que adaptávamos a pranchas improvisadas. Descíamos ladeiras em bairros tranqüilos, como o Sumaré e o Morumbi, fazendo curvas agachados, e as manobras eram as batidas para pegar impulso, os 180°, e os 360° sobre um dos eixos. E enquanto fazíamos isso, esse pessoal de Dogtown começava a inventar o skate vertical nas piscinas amebóides vazias de San Diego, Santa Monica e adjacências. As músicas, as roupas e as pranchas de surfe eram as da minha época, antes da invenção do leash. E o pouco de informação que havia era das revistas importadas, das quais eu tinha aquela compreensão enevoada de quem não conhece bem a língua, e alguém que fosse viajar e contasse histórias mais incertas ainda. A Califórnia com a qual eu sonhava era muito diferente da Dogtown que aparece no filme, um gueto latino violento, drogado, onde surfava-se um pico embaixo de um velho píer com um parque de diversões abandonado, poluído e dominado pelos locais. Me deu a impressão que a cultura adolescente de hoje foi formada naquela época e mudou muito pouco. A grande diferença é a circulação da informação.

quarta-feira, abril 12, 2006

Aleluia

Depois desse momento de reflexão e contrição, próprio da quaresma, que chega ao fim no sábado, este blogueiro promete sair dos tediosos planos gerais ideológicos, visões platônicas do impalpável mundo das idéias, e chafurdar na lama dos fluidos corporais secretados nas situações humanas reais. Com a melhor das intenções, malhar o judas que há em nós.

terça-feira, abril 11, 2006

Valores

Ainda pretendendo influir na forma como a civilização evolui, com a voz pequena de um blog dos menores, sem o embasamento teórico de que a Franka sempre fala, o palpite agora é um lugar comum sobre valores. Todo mundo sabe que ter grana é bom, e quanto mais melhor. Não há limites. Quanto mais não seja pra não ter que se preocupar com a falta. O perigo é se encantar com a coisa, transformar o meio em fim, e querer o que é “bom”, só porque é “o melhor”. E pior, muito pior, é sofrer por não ter. Sejamos estóicos. Não pode ir pra sua casa na montanha de helicóptero, vá no seu carrão e não reclame. Mas sem polianices. Há quem diga que o patrimônio, em certa medida, é uma expressão da personalidade, e nessa acepção merece a garantia dos direitos da personalidade. Acho razoável essa idéia. As roupas, a casa, os livros, discos, instrumentos musicais, equipamentos esportivos, culinários, tudo aquilo que a pessoa utiliza para se apresentar na comunidade e nas atividades que a caracterizam como tal. Mas há limites. Quem precisa de um cavalo do preço de uma casa? No mínimo um cavaleiro de primeira linha. E um barco caro? Depende, se a vida do sujeito for o barco e o mar, pode ser aceitável. Mas ninguém precisa ter um barco caro pra passar a vida no mar. O luxo pelo luxo é uma questão de gosto, ainda que digam que a indústria do luxo gera empregos e distribui renda, o que não me convence. E aí que a comissão de frente precisa lançar modas e combater a futilidade do luxo como distintivo social, como valor e conquista, não de modo policialesco, mas exibindo com convicção seus próprios valores. Pra mim o conforto espartano e utilitário, de acordo com a natureza, vai ser sempre o mais bonito. E nada como passar o tempo cultivando a saúde em esportes ao ar livre, ou consumindo arte, culta ou de entretenimento, a transmissão da experiência interior dos semelhantes, que é o que há de mais rico e é sempre barato.

segunda-feira, abril 10, 2006

Perfume de mulher 2

Ontem à noite inspirado pelo “Perfume de mulher” que passou na tv, tomei um uiscão e escrevi um post falando bobagem sobre o filme e fundamentalismo. Apaguei porque poderia ser mal interpretado. Acho esse neologismo esquisito. É a substantivação do adjetivo “fundamental” com sentido de doutrina, significando a postura daqueles que seguem de forma estrita os comandos de uma religião. Seria muito fácil se o manual de instruções da humanidade estivesse todo contido em um livro, claro e inquestionável. Mas, como diz o Saramago, temos que tomar cuidado com as palavras, pois elas vivem a mudar de opinião. E bem assim tudo o que com elas é construído, como as leis, religiosas ou laicas. O que fazem os fundamentalistas? Extraem em interpretações força-barra das suas escrituras em linguagem simbólica e muitas vezes hermética um rígido código de conduta, e o sacrifício que a sua observância implica lhes confere um sentimento de superioridade sobre nós outros, falhos pecadores. Humanos submetidos a limitações severas demais explodem.

sábado, abril 08, 2006

One of us



Edu utilizou comentando, a propósito de ponderações sobre as fraquezas humanas, às quais todos somos vulneráveis, a expressão “um de nós”. Lembrei imediatamente de um filme que eu já vi na prateleira da locadora mas nunca tive a manha de pegar. É o “Freaks”, um filme americano, antigo, que ouvi dizer gerou a primeira auto-regulamentação, digamos assim, ética, dos produtores de cinema de Hollywood. Pra quem não sabe o filme conta uma história muito humana, do casamento de uma linda trapezista de circo com um horroroso anão, seu colega de trabalho. Às tantas os amigos do anão descobrem que ela se casou por interesse, e pretende limpar o anão que é cheio da nota, pra fugir com o homem-forte. Os amigos do anão são os “freaks” do título, todos monstros colegas do circo de horrores, do tipo mulher-barbada, xipófagos, homem-tronco, gigante deformado, e a grande curiosidade do filme é que os atores são realmente monstros de circo. E acabam assassinando a trapezista, de forma macabra. Naquele filme que enfileira citações de filmes famosos, “Os sonhadores” do Bertolucci, como vocês devem se lembrar, há uma cena desse filme, que mostra os monstros recebendo a bela em sua turma, e cantarolando como crianças, repetem que a partir daquele momento ela era “one of us, one of us, one of us”. É uma fábula eloqüente, que fala por si só. Os personagens bonitões não valem nada, mas os monstros também não são grande coisa.


Já que ninguém levou a sério meu palpite sobre o fim das fronteiras, volto ao artigo XXII da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Ainda que os humanos possam não merecer: “Todo homem, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.” Ou seja, todo homem tem direito à dignidade, e assim, aos meios necessários para tanto, que todos sabemos quais são. E de obtê-los mediante o esforço nacional e a cooperação internacional. A cooperação internacional é voluntária ou obrigatória? Quanto? A ausência dos meios mínimos à dignidade não é uma negativa do mais fundamental dos direitos humanos, como dizia Hannah Arendt, “o direito a ter direitos”? Qual dos ricos vai por a mão no bolso, pra atender o africano faminto? O fechamento das fronteiras não é a fórmula da hipocrisia para impedir que o miserável vá pleitear o que é do seu direito onde existem os meios? “Todo homem, como membro da sociedade”, não distingue, e eu entendo que viola todas as constituições inspiradas nessa declaração, a distinção do nacional de um país do nacional de outro.


O tal do "Crash" é mesmo um filmão.

sexta-feira, abril 07, 2006

Enquanto o Gilberto Vil briga com o Hélio Bosta...

Uma vez por semana vou almoçar na casa dos meus pais. A última vez cheguei lá e estava um sujeito ensinando a minha mãe a pilotar a tv nova. Meus pais, a cada três ou quatro anos, mudam de casa, por variados motivos incontornáveis. Nessa última mudança, a tv de 33 polegadas não coube na estante que já havia no apartamento, então compraram uma de 29. A de 29 ficou um pouco longe do sofá, e eles a estavam achando muito pequena. Depois de muitas dúvidas e pesquisas, plasma, não plasma 9:6, 4:3, alta-definição, baixa-definição, acabaram optando pelo atual carro-chefe do mercado, a de plasma de 42 polegadas, por “apenas” 9.999 bagarotes (eu acho uma loucura por essa grana numa tv), como meu pai diz quando quer brincar com a coisa. Como todos sabem a tv wide-screen, quando se assiste a uma transmissão convencional, não pode ser aproveitada inteira. Ou ocupa-se o centro da tela, mantendo a proporção 4:3, sobrando uma faixa morta de cada lado, ou se ocupa a tela inteira, espichando e distorcendo a imagem. Meu pai ficou decepcionadíssimo. A enorme tv, que exigiu a reforma da estante, e custou cinco ou seis vezes o preço da 29 tela plana, exibia uma imagem praticamente igual. Estava revoltado, com todo o investimento, a tv, a estante, a nova assinatura de sinal a cabo digital, e a mesmíssima imagem. Acabou optando por tentar se acostumar com a imagem distorcida, ocupando a tela inteira. Para consolá-lo, disse que parece que a copa, um dos principais objetivos da troca do equipamento, vai ser transmitida em 9:6.

quinta-feira, abril 06, 2006

Comissão de frente - Salvação 4


É aí que entra a comissão de frente. Abre o desfile, apresenta a escola, e saúda o respeitável público. Os arautos das novidades, os verdadeiros contemporâneos, os que olham pra frente, e anunciam as curvas da estrada que vai a lugar nenhum. As mudanças são lentas e vacilantes, um pra trás, dois pra frente, assim caminha a humanidade, diz o filósofo Lulu Santos, com passo de formiga e sem vontade. Enquanto na Europa as fronteiras caem, muros vergonhosos se constroem entre Israel e a Palestina, e os Estados Unidos falam em erguer um na fronteira com o México. Não haverá um comissário de frente capaz de sustentar que o controle de trânsito de pessoas nas fronteiras ofende os direitos humanos garantidos pelas constituições de todos os países do mundo civilizado? A declaração de direitos humanos da ONU, cujos princípios estão incorporados às constituições de todos os seus membros, no seu artigo XIII, diz que todo homem tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado, e que todo homem tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar. Aí está a restrição odiosa. Curiosamente, existe o direito de sair, e não o direito de entrar. A soberania do estado, supostamente em benefício da coletividade, suplanta o direito individual. Apesar de todos os países membros garantirem a presunção de inocência, e a igualdade de todos, inclusive o estrangeiro, perante a lei, no momento do ingresso em outro país se julga conveniente suspender a boa-fé que unge o cidadão para tratá-lo como um criminoso. É a hora de revistá-lo, interrogá-lo sobre os seus propósitos, e perquirir os meios de subsistência em sua permanência. Se aprovado, recebe um visto de acordo com suas possibilidades. E depois que passa a roleta readquire todo o status de cidadão, tal qual o natural. Mas o mais misterioso dos artigos da declaração é o XXII: “Todo homem, como membro da sociedade, tem direito à segurança social, à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.” Pra mim, isso só pode significar uma coisa: o estado inglês, francês, ou norte-americano é tão responsável pela dignidade do cidadão etíope como o estado etíope.

quarta-feira, abril 05, 2006

A salvação do mundo parte 3

A mesma contradição gregário/individualista se manifesta na tensão bem estar geral/bem estar individual, e que também está na tensão pecado e culpa/arrependimento e perdão. O pecado é contra o outro, o perdão é a reconciliação com a comunidade. O grande mérito no processo civilizatório de Jesus Cristo foi instalar este mecanismo, que era externo e dirigido por um deus paternalista e justiceiro, dentro da mente humana. E essa mesma contradição ainda é visível dezessete séculos depois na discussão iluminista do bom selvagem/homem lobo do homem. Me parece bastante evidente que cada um de nós carrega essa contradição, em todos os seus aspectos, e somos mais ou menos vulneráveis aos impulsos contrários ao bem geral, como a luxúria, a cobiça, a avareza, e suas variações, deixando de lado as precisões tomistas. Todos sabemos que o poder corrompe. Já estávamos mais ou menos livres da igreja no fim do século XVIII, quando foram lançadas as bases do estado burguês, com a revolução que derrubou os privilégios da nobreza, e conquistamos a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Debaixo do palavrório e da patriotada leia-se liberdade de contratar, igualdade formal perante a lei, e a fraternidade dos filhos da pátria, a força do estado organizado com condições de proteger a burguesia nacional e seus negócios dos vários predadores. Esse é o modelo de estado que está chegando ao fim na Europa, o velho mundo, onde tudo acontece primeiro, com o fim das fronteiras dentro da União Européia. O ingrediente novo e revolucionário é a invasão de hordas de africanos e asiáticos, e como vão resolver essa parada.

terça-feira, abril 04, 2006

Ainda a salvação

Ou, mais importante, como bem ponderou o Substantia, como vamos? Pra mim o modelo político que melhor representa o sistema de forças sociais a que estamos submetidos ainda é o feudalismo, as relações de suserania e vassalagem entre os nobres, com os servos presos à terra. O que mudou, e que há muito tempo não cola, é a legitimidade do poder baseada no sangue, na sucessão, ou como pior já foi, na vontade divina. Não aceitamos mais a existência de privilégios. Agora existe alguma mobilidade nas falanges da elite. Nos organizamos em torno de interesses, satisfeitos na medida do possível. Troca, comércio, negócio. Cada vez menos a violência resolve, porque são raras as hipóteses em que o seu uso é aceito. É só ver o trabalhão que o George W. teve pra fazer essa última guerrinha, e os enormes problemas que está causando a ele. Na era da informação, fica difícil manipular fatos e forjar justificativas. Vivo dizendo por aí que as religiões e seus engodos não funcionam mais como balizadores de comportamento – o apocalipse já aconteceu - e só temos ao nosso alcance a racionalidade e a ética que dela decorre, de que o bem estar individual depende do bem estar geral. O bom, velho e ingênuo pacto social. O corrupto, o desonesto, e o bandido são burros e ignorantes. O ingrediente novo e importante, além do fim das religiões, é a capilaridade da informação. Está cada vez mais difícil dominar pela enganação. É uma pena, mas é só o começo.

segunda-feira, abril 03, 2006

Continua


Com o risco de inventar a roda, chover no molhado, usar os mais surrados clichês, resolvi salvar o mundo, por estar um pouco entediado. Parto do princípio de que o mundo não precisa ser salvo. A vida neste planeta, como tudo, é transitória, e mais bilhão de anos, menos bilhão de anos, um dia acabará. Como um vaso, hoje está em boas condições de luz e temperatura, com bastante água, o que não durará para sempre. Deixo pra lá a questão da possibilidade de migração para outras galáxias, necessidade ainda um pouco distante, pra me concentrar no que eu entendo ser o cerne da questão: a vida dos humanos. Simplificando ao simplório, o objetivo dos viventes é viver e reproduzir-se o máximo possível, movidos por um instinto de auto preservação e de preservação da espécie, uma força interna superior e incompreensível. Acho que não é necessário saber, ou melhor, ter como ponto de partida, mais que isso. A raça humana expandiu-se e dominou todas as extensões de terra firme que cobrem este planeta, não importando quão inóspitas, áridas, quentes, geladas, inundadas, íngremes, pedregosas pudessem ser, e conseguindo, bem ou mal, delas tirar o seu sustento. A capacidade de adaptação é apuradíssima, e uma das razões do sucesso dessa espécie visivelmente dominante. Somos uma espécie gregária, que gosta de viver em grupos tão grandes quanto as condições permitirem, e desde que preservada a nossa individualidade, o que é uma das nossas maiores e melhores contradições. Outro ponto aparentemente importante é o isolamento geográfico, decantado por Darwin. Por termos nos espalhado por todo o globo desde priscas eras, o isolamento e a adaptação acabaram por consolidar diferenças externas, físicas, e internas, culturais, entre os grupos. A contradição gregário/individualista, as diferenças físicas e culturais, aliados à competitividade natural na luta pela prosperidade e reprodução, criaram o cenário permanente da luta entre os grupos, e dentro dos grupos. A velha história dos círculos concêntricos de amizade e inimizade. Sou aliado do meu irmão contra o meu primo, sou aliado do meu primo contra o meu vizinho, sou aliado do meu vizinho contra o estrangeiro. Esse quadro, temperado com complexos freios culturais de religião, justiça e ética, nos trouxe até onde estamos. E para onde vamos? Infelizmente continua.

sábado, abril 01, 2006

Me dê motivo

Como previsto no carnaval, emburreci. Ontem fui ao cinema ver um filme muito simpático, o inglesíssimo “Mentiras sinceras”, e dormi aos quarenta minutos. Tá certo que eu tinha dormido pouco, acordado cedo, feito esporte, era sexta-feira, mas isso não costuma acontecer. Faz tempo não consigo ler um livro, vou à locadora não consigo escolher um filme, a tv anda chatíssima, e assaltar a geladeira não produz mais muita adrenalina. Foi-se a motivação, ou o que quer que seja que nos põe a caminho, no fim de semana, quando o açoite da necessidade deixa a lebre em paz. Qual era mesmo a minha quimera?

quinta-feira, março 30, 2006

Luvas?


Essa foto é da edição do ano passado, a 151ª, da mais tradicional regata do mundo, conhecida como “the boat race”, travada entre as universidades de Oxford e Cambridge, e assim como o Flaflu é apelidada de Oxbridge. A corrida é disputada no Tamisa e é muito popular, como pode se ver da maçaroca de gente assistindo. É bem, longa, 6.779 metros, bem maior que as provas olímpicas, de dois quilômetros. São remadores peso-pesado, de mais de 1,90 e cerca de 100 quilinhos. E a conta é de 600 remadas. Teremos a próxima no dia 2 de abril. Mas o importante é que, como se vê, nenhum deles usa luvas. O voga que está com o punho do remo azul, pode ter passado o turn-a-grip das raquetes de tênis. Os outros, será que usam Salompas?

Etelvina, acertei no milhar...

Ganhei 241 reais na quadra da mega-sena, e vou continuar a trabalhar.

terça-feira, março 28, 2006

Show me the money

Até uns dois anos atrás, minhas filhas eram grande consumidoras de cds, objetos preciosos e cobiçados, arrancados dos pais, avós, ou adquiridos com a mesada. Há muito tempo que nem passa por suas cabeças comprar os disquinhos. Tudo vem da internet para o itunes, daí para os ipods. Ligam os ipods em qualquer aparelho de som, e está feita a festa. Agora, gastam tudo o que tem em shows. Então, chuto a seguinte análise. Ninguém mais vende disco, porque tudo se pirateia. Assim, os artistas são obrigados a trabalhar, isto é, dar shows, para manter seu elevado padrão de vida. E realmente, o número de atrações nacionais e internacionais em cartaz nessa cidade tem aumentado muito. Não me parece tão injusto assim. Ouve-se a música de graça, paga-se uma fortuna por uma atuação ao vivo. O problema é a ganância dos músicos e produtores. O recente show do Oasis, por exemplo. O empresário constrói um mega teatro, que deve ter custado talvez uma centena de milhões de dólares, com capacidade para 7.000 pessoas, e faz o show no estacionamento, para poder vender o dobro disso em ingressos. Iluminação primária, nada de cenário, sob a desculpa do rock despojado, e toda aquela gente a 120 reais o ingresso na chuva, assistindo uma banda blasé, tocando para si própria, o cantor deixando o palco por longos momentos, ou seja, um desrespeito danado. Agora é o Jack Johnson. Mais acústico impossível, o cara é quase um João Gilberto, canta baixinho suas gostosas baladas, e vai dar um show na praça da apoteose do Sambódromo, a trocentos reais o ingresso, todos já esgotados, para zilhares de pessoas. Nada contra o artista ganhar bem com seu trabalho. Mas podia tratar bem o seu público, e por esse preço dar o show durante quatro ou cinco dias num lugar quatro ou cinco vezes menor, e um dia em um lugar enorme a preços populares, para ser um pouco mais honesto no negócio. O problema é que o gigantismo do mercado torna a demanda ilimitada, e o público fica dependendo só dos escrúpulos do artista e os empresários. E a molecada que se foda.

segunda-feira, março 27, 2006

Gripe portuguesa

Convivi com alguns gripados a semana passada, e como previsto sexta-feira amanheci com a boca irritada. É o primeiro sintoma, e eu sabia o que viria depois. À noite a moleza característica já me atingia, e o ardor da mucosa evoluíra para uma leve dor de garganta, que borrifei com um spray de própolis. Tomei um desses combinados que combatem sintomas (paracetamol, maleato de clorfenamina e cloridato de fenilefrina, contra coriza, febre, cefaléia, e dores musculares), e fui a uma festa, um pouco constrangido de contaminar os outros com o vírus. Ainda tomei bebidas geladas. Fui dormir tarde e com a garganta um pouco afetada. De manhã tomei outro dos combinados e fui fazer esportes, porque equipes amadoras são muito frágeis e sensíveis a faltas. Voltei e me entreguei à terapia de raios catódicos, e até escapei de um aniversário de criança. Passei o dia inteiro na cama, com a mesma medicação, própolis e os combinados. À noite começaram uns ataques de espirros espasmódicos, com a conseqüente coriza. De manhã fiz esporte novamente, e voltei aos raios catódicos. Depois do almoço, em atitude totalmente incivil, fui à Estação Luz da Nossa Língua, misto de exposição, museu e parque temático muito bem instalada na Estação da Luz, um espetáculo multimídia que é uma verdadeira injeção de informações sobre o nascimento e desenvolvimento da última flor do Lácio, esse latim falado pelos legionários romanos quando estavam bêbados, e suas miscigenações e manifestações artísticas em todos os tempos. O máximo. Hoje de manhã os sintomas continuam sob controle e mantenho a terapia, ainda que com algumas reservas sobre os efeitos nocivos do paracetamol no meu bem rodado fígado. Se nenhuma bactéria oportunista se instalar nas minhas aerovias, à noite devo estar livre do ciclo do vírus e os seus desagradáveis sintomas.

sexta-feira, março 24, 2006

Mora na filosofia

Tudo começou com o “Julie is her name”. Julie London, a atriz loira gostosa atriz desempregada que ia matar o tempo cantando nos botecos de Hollywood, acompanhada de uma guitarra e um contrabaixo. A voz de contralto quase sussurrada, de afinação e ritmo impecável, e a expressão simpática e risonha (sim, é fácil perceber quando quem canta está sorrindo). Um produtor viu, se apaixonou, casou com a moça e produziu o LP, logo no começo do som estéreo, com um dos melhores guitarristas da praça, contrabaixo idem. Encomendou uma composição especialmente para ela, que veio a ser nada menos do que “Cry me a river”. Sucesso total, logo veio o “Julie is her name 2”, igualmente magnífico.

Um trompetista caipira, de nome Chet Baker, que estava começando a bombar na costa leste, e gostava de cantar, ouviu e imitou. Gravou um disco com a mesma formação, alternando trompete com o vocal, e algumas das mesmas canções. É o “Embraceable you”, igualmente genial, ainda que o som da guitarra, e a qualidade da gravação não chegue no dedinho do pé dos da Julie.


Um baiano maconheiro, cansado de gritar nos conjuntos vocais tipo quatro ases e um coringa, percebeu que cantada se faz falando baixinho, ouviu esses discos, baixou o volume e limpou a batida, e inventou a bossa-nova, que depois reinventou o jazz da costa leste.

Um outro baiano magrinho, ouviu todos eles e fez lá também o seu arrulho, muito bem aceito e cotado. Um desavisado que ouvir o “Embraceable you” vai achar que o Chet Baker, jovem e de voz limpa antes da detonação total, imitava o Caetano. A semelhança de timbre é surpreendente. Eu tinha todos esses discos, mas como eu sou um relapso, fui deixando por aí, na mão até de quem não merecia (opa, isso dá samba). São teorias do Ruy Castro, se não têm um fundo de verdade são muito bem chutadas.

Fumantes ou não fumantes?

Lembro muito bem como parei de fumar, há pouco mais de cinco anos. Eu estava chegando aos dois maços por dia, e a vida sem tabaco me parecia totalmente sem sentido. Seguindo uma orientação que tinha lido em algum lugar, marquei uma data distante, um ano e meio, ou dois, e quando chegou parei abruptamente, sem qualquer preparação. Foi num sábado. No domingo, lá pelas seis da tarde, não agüentei, e acendi um cigarro. Dei umas duas tragadas, e tive o estalo de inteligência: “se eu não parar de fumar, não vou parar de fumar”, e apaguei o cigarro. No dia seguinte, estava na porta do prédio esperando um amigo para almoçar, e comecei a enlouquecer de abstinência. Lembrei dos chicletes de nicotina, fui até a farmácia, comprei uma caixa, logo enfiei um na boca e masquei com sofreguidão. Deu uma overdose, com um forte travo na garganta. Só depois fui ler a bula, e descobri que cada pastilha tem a nicotina de muitos cigarros, e deve ser mascada aos poucos, guardando embaixo da língua. Usei o tal chiclete uns quinze dias, e ajudava a racionalizar que não estava sentindo falta da droga em si, mas apenas do gesto do cigarro. Depois de um mês, o desespero foi passando. Daí, de vez em quando, fumava um charuto. Parei com os puros porque era bom demais, e a convivência com a nicotina me preocupava. Aquele papo do AA, ainda sou um viciado. Depois de um almoção com vinho, o charuto com um digestivo me fazia levitar como a lagarta da Alice. Depois de seis meses não sentia mais nem vontade. Às vezes ainda brinco com um cigarro, mas agora não consigo mais tragar. É como se livrar de qualquer paixão.

quinta-feira, março 23, 2006

Chulé

Na tal foto tirada com o Dudi que está no Frankamente e no Carne Crua, dá pra ver no dorso da minha mão uma mancha escura ovalada. Como vocês sabem, tenho praticado remo. O ano passado não usava nenhum tipo de proteção para as mãos, e fiquei com calos por toda a palma e na face interna dos dedos. Quando saí de férias, fiquei duas semanas sem remar e os calos sumiram. Ao voltar, percebi que arrebentaria toda a mão, e comecei a usar uma luva de musculação de neoprene, a primeira coisa que encontrei. Ela tem um fecho de velcro, que deixa um vazio ovalado no dorso da mão, o que produziu a tal mancha. Embora eu reme mais ou menos cedo durante a semana, a repetição e o sol forte dos sábados e domingos deixaram a marca. Mas o pior não é isso. Suo uma monstruosidade quando remo, e fico literalmente encharcado. Boa parte desse suor escorre pelos braços e vai se alojar no neoprene, que é uma esponja. Todo o dia eu lavo a luva, mas não adianta, essa convivência com o suor deixou a luva com chulé, que passou para a mão. E por mais que eu lave a mão, o cheiro não sai mais. Minha mão agora tem chulé. Vai encarar?

quarta-feira, março 22, 2006

Qual é o animal que pensa que já não vale mais?



Ontem um amigo me disse que eu estava mais morto do que vivo, e se ofereceu para cravar uma estaca de madeira no meu peito e acabar com a agonia. Não sei de onde ele tirou essa idéia. Outra disse hoje que não queria compartilhar da mistura de fantasia e realidade que eu faço do meu cotidiano. Será que os dois estavam dizendo a mesma coisa? Será que eu já estou em outro planeta e nem notei? Será que eu já fui?

segunda-feira, março 20, 2006

Nelson Freire

Assisti ontem o documentário do João Moreira Salles sobre o Nelson Freire. É uma história inusitada e emocionante, de uma criança que quase não sobreviveu, teve uma infância difícil e doente, e aliando um enorme talento a uma vida reclusa e protegida em função da saúde, foi criança prodígio, e continua prodigioso até hoje. Claro que o prodígio impressiona, mas mais do que isso o amor que teve dos pais, que depois de conseguirem que sobrevivesse fizeram as difíceis escolhas necessárias para que o seu talento fosse bem aproveitado. E aos quinze anos, na Europa, conheceu a mulher da sua vida, Martha Argerich, também pianista, com quem está até hoje. Legítimos psitacídeos. As cenas da intimidade do casal são tocantes. Muito significativa também sua branda reclamação contra o estrelato criado pelo público e a mídia, que só atrapalha a música. O repertório, além dos grandes concertos românticos de Rachmaninoff e Brahms que não me interessam muito, na onda do estereótipo do virtuose, contém peças delicadíssimas como “El Bailecito” de Guastavino e uma ária de “Orfeu e Eurídice” de Gluck transcrita para piano que eu nunca tinha ouvido, do repertório de Guiomar Novaes, uma das grandes referências do artista, e ainda a Dança da Fada Açucarada, da Suíte do Quebra Nozes, do Tchaikovsky, bastante manjada mas que pra mim tem um sentido especial. É a história de um artista sortudo.

sábado, março 18, 2006

Diminutivos

A menininha que balança no pequeno jardim da rua tranqüila, ouvindo uma ária de ópera que vem de algum vizinho, entretida com o prazer do ventinho e a previsibilidade da oscilação no friozinho do estômago, me dá a impressão de que para estar vivo precisa muita vontade. Não vontade no sentido do querer, mas a vontade além da compreensão humana, a vontade de um cometa que risca o céu pra ninguém. A vontade que vence a inércia e provoca o movimento, a vontade de interferir na paisagem e rearranjar um pouquinho todas as forças do universo com sua simples presença. A vontade de estar aqui conosco, seus iguais.

O four

O four skiff é um barco de 13,40 metros, movimentado por quatro remadores com dois remos cada um, que pesa um pouco mais de cinquenta quilos. Comecei a treinar em um hoje, na posição do proa. Sou o responsável pela direção do barco. O ritmo é ditado pelo voga, que é o que vai mais a ré, e é a posição mais importante. Fazendo mais força à bombordo (direita de quem da proa olha a ré), ou boreste, corrige-se o rumo do barco. Mas também há um pequeno leme que comando através de um sistema de arames com meu pé direito, com curso mais ou menos de uns dez graus para cada lado. É claro que a resposta é lenta. São barcos feitos para navegar em linha reta, estreitos e compridos. O remo é um esporte de um só movimento repetitivo, que utiliza todo o corpo. O controle desse movimento demanda bastante concentração, pois há várias possibilidades de erro. Sentado num banco móvel, um carrinho sobre trilhos, leva-se o corpo à frente até flexionar completamente os joelhos. Ao mesmo tempo, o punho dos remos parte de uma posição em que estão unidos, punho sobre punho, braços esticados, e conforme se vai à frente os punhos vão descrevendo dois arcos que se afastam, e quando se chega à posição em que os joelhos estão completamente flexionados os braços estão o mais afastados possível. Encaixa-se as pás na água, e com os braços esticados, estica-se as pernas. Quando as pernas estão completamente esticadas, acaba o curso do carrinho e aí flexiona-se os braços, chegando os punhos até o peito, e a remada se completa. Ato contínuo, abaixa-se os punhos levantando-se as pás da aguá e estica-se rapidamente os braços, ao mesmo tempo em que quebra-se as munhecas, deixando-se as pás na posição horizontal para reduzir a resistência do ar, e assim retorna-se à posição original e completa-se o movimento. Quanto mais precisão, menos desperdício de energia, mais equilíbrio e velocidade. Qualquer erro na altura dos punhos, por pequeno que seja, inclina o barco e um atrapalha todos. Um barco que balança deixa as costas em pandarecos. Encaixar o controle do leme com o pé nessa rotina, pra mim, que nunca tinha usado um, não foi nada fácil. Dá aquela sensação de estar no banco do carona apertando os pés contra o assoalho para dirigir o carro. Ou mover o corpo ao jogar videogame para interferir na trajetória do carrinho do supermário. Errei bastante, e toda vez que o técnico vinha com seu motor de popa e megafone atrás de nós, era comigo que ele gritava. Mas em alguns momentos tudo se encaixava e estar na proa, vendo os oito remos sincronizados, dava a sensação de ser uma lacraia andando sobre as águas.

sexta-feira, março 17, 2006

Disfarça

É uma pena que contar histórias da vida de amigos, clientes e fornecedores seja proibido. É o que há de mais interessante pra compartilhar com os amigos, as aventuras ricas e interessantes que por um motivo ou outro temos acesso, e, como dizem, a realidade sempre supera a ficção. Por mais que o ficcionista tenha a liberdade de alinhar os astros de seus personagens a serviço da história, ele tem os limites da verossimilhança, que as histórias reais violam sem pudor nenhum. Conheço muitas histórias, que se fossem ficção, seriam consideradas de má qualidade, de tão inverossímeis. E gostaria de contá-las sem maldade, sem julgamentos, com todos os seus ricos e necessários detalhes, e esse é o obstáculo, pois permitem a identificação dos personagens. A maioria delas motivada por pura admiração. Muitas das minhas já contei aqui. Dizem que o Somerset Maugham queimou o filme dos amigos em seus romances. Ninguém gosta de ter sua vida privada exposta.

quarta-feira, março 15, 2006

Hino do blogueiro

Elvis Costello

Everyday I Write the Book

Don't tell me you don't know what love is
When you're old enough to know better
When you find strange hands in your sweater
When your dreamboat turns out to be a footnote
I'm a man with a mission in two or three editions

[Chorus:]

And I'm giving you a longing look
Everyday, everyday, everyday I write the book

Chapter One we didn't really get along
Chapter Two I think I fell in love with you
You said you'd stand by me in the middle of Chapter Three
But you were up to your old tricks in Chapters Four, Five and Six

[chorus]

The way you walk
The way you talk, and try to kiss me, and laughIn four or five paragraphs
All your compliments and your cutting remarks
Are captured here in my quotation marks

[chorus]

Don't tell me you don't know the difference
Between a lover and a fighter
With my pen and my electric typewriter
Even in a perfect world where everyone was equal
I'd still own the film rights and be working on the sequel

[chorus]

terça-feira, março 14, 2006

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

segunda-feira, março 13, 2006

Me Tarzan, you Jane


A árvore é um grande plátano (platanus x acerifolia, uma espécie híbrida que chegou à região sul com os imigrantes italianos, ainda no século 19, fruto do cruzamento espontâneo da árvore européia com a canadense), de copa bem aberta com uns vinte metros de altura, uma forquilha baixa em quatro ou cinco longos troncos retos de inclinações variadas. O arquiteto alemão, descoberto em uma revista estrangeira e contatado por e-mail, pendurou em cada um desses troncos, a uns dez metros de altura, quatro ou cinco cabos de aços protegidos por tecido – para não machucar a árvore – que sustentam uma plataforma de madeira que rodeia os troncos, cercada por um guarda-corpo de inox e madeira, à qual se tem acesso por uma estreita e inclinada escada de madeira. Nada perfura os troncos. Da plataforma, uma pequena escada leva à casa-na-árvore, uma caixa de madeira assimétrica, um dos lados terminando em bico como um barco, com várias janelas de vidro, uma no teto. A caixa é sustentada por sete tubos de inox de umas três polegadas de diâmetro, cinco ou seis metros de altura, levemente inclinados também assimetricamente, amarrados à caixa por grandes dobradiças de inox, iguais às que estão do lado oposto, embaixo da terra, presos a uma sapata de concreto. Todo o conjunto tem uma movimentação arbórea. Por dentro, parece um barco, com uma grande cama de cabine de proa no lugar do bico. Tem um home-theater com uma grande tela de plasma, e foi apelidada pelo arquiteto de James Bond Tree House.

sexta-feira, março 10, 2006

quinta-feira, março 09, 2006

Ops, foi ontem?

Pra falar a verdade eu implico um pouco com o dia internacional da mulher. Tá certo, eu sei que a mulher carrega algumas desvantagens em relação ao homem mesmo nos países mais avançados, e sofre algumas formas de subjugação sérias nos mais primitivos. Sei também, que na lei brasileira, as últimas primazias do homem em relação à mulher, como cabeça do casal, terminaram somente com a constituição de 88. O dia 8 de março seria então um dia dedicado à reflexão sobre os problemas ainda existentes, a sua solução, e a comemoração dos avanços alcançados. Mas a cada avanço na condição feminina, não há uma complicada acomodação masculina? Não há uma série de efeitos imprevisíveis que afetam ambos os gêneros? Afinal os problemas da condição feminina não são problemas de ambos os gêneros, indissoluvelmente ligados e misturados? É, pra mim, comemorar o dia internacional da mulher é uma forma de olhar só metade do problema, o que não pode ajudar na sua solução.

quarta-feira, março 08, 2006

Faca se vende

Faca coqueiro

Jaime Caetano Braum

Cabo de madeira branca
E a folha de palmo e meio,
Esta faca que palmeio
Sovando uma palha buena
Larga, assim como novena
Nas festanças do Divino
Foi presente do Galdino
Filho de Dona Pequena!

Na prancha meio azulada
Deste regalo campeiro
Está gravado um coqueiro
Assim como um distintivo
Que me faz lembrar, altivo,
O charrua melenudo.
Bombeando longe, sisudo,
O velho solo nativo!

É nesse ferro crioulo
Que o meu fôlego embacia,
A cancha reta bravia
Por onde o fumo se espalha,
Com ele eu ajeito a palha,
Longueio, e, aparo crina,
E a barba, pra ver a china
Quando não tenho navalha!

Quando corto meu churrasco
Deixo branqueando o espeto,
E se na encrenca dos meio
Não sobre garrafa inteiro
Pois este ferro campeiro
De ponta como de prancha
Tem mania de abrir cancha
No costilhar do parceiro!

Por isso é que ao te palmear,
Sovando a palha de milho
Eu sinto, ó rude utensílio
Que muito primeiro que eu
O guasca já te benzeu
Quando num berro de touro,
Junto ao "bendito"de couro
Nalgum rival te embebeu!

E ao te arrancar da bainha
De ponteira reforçada
Evoco a rudez passada,
De teu áspero trajeto
Quando o xiru analfabeto
Contigo de companheira
Nas andanças da fronteira
Lonqueava o nosso dialeto!

Traste mil vezes relíquia
Por ser presente de amigo:
Hei de levar-te comigo
Sempre ao alcance do braço
E acolherar no teu aço
O presente e o passado
Até que pranche enredado
Por algum "seio de laço"!

E fica certo, Galdino
Ao te agradecer de novo,
Que no singelo retovo
Do meu gauderiar sem norte
Esta faca enquanto corte,
Até os últimos momentos,
Há de estar lonqueando os tento
Da nossa amizade forte!

(Cortes, J. C. Paixão. "Gaúchos de faca na bota ".)

Galdino, te devo uma moeda.

terça-feira, março 07, 2006

Oxímoro

Detratores comedidos em particular criticaram severamente minha ignorância sobre o nobre esporte do nado sincronizado. A sincronia é com a música, o que torna perfeitamente possível o solo sincronizado. Dei uma rápida pesquisada e é verdade. Mas eu continuo achando absurdo. Pra mim a essência da coisa sempre foi fazer tudo igualzinho, no mínimo em duas, e realmente não me lembrava de ver alguma prova de solo. Existe desde a primeira competição olímpica, em Los Angeles, 1984, embora a prova de solo tenha sido incluída nas competições em 1950. Muito posteriormente à Esther Williams, portanto, e assim mantenho a desconfiança. Não estou sozinho na minha impressão, como se vê de um comentário que achei num site especializado: “Some have objected that "solo synchronized swimming" is an oxymoron, since it takes two to synchronize. In fact, the performance is synchronized to music, not to another person's movements.” Pra mim é conversa fiada. Começou com a sincronia de nadadores entre si, ao som de música. Depois, resolveram criar a categoria solo, e era tarde demais para mudar o nome para “nado rítimico”, ou “nado artístico”, e inventaram essa balela de que a sincronia é com a música.

domingo, março 05, 2006

Soneto CXVI

Assisti o “Razão e sensibilidade”, filmão dirigido pelo Ang Lee sobre a obra da Jane Austen, com Emma Thompson (que também fez o roteiro), Kate Winslet, a figura de proa daquele transatlântico, Hugh Grant, e o Donald Shuterland (o Mr. Bennet do “Orgulho e preconceito”), e já que ninguém me ajudou, sou obrigado a rever minha posição sozinho. Há algo de inconformista e revolucionário em Jane Austen sim, ao contrário do que eu disse antes. Dos elementos deste outro romance, muito semelhantes aos do “Orgulho e preconceito”, repete-se questão do sistema hereditário da época, a virada do século XVIII, que possivelmente para concentrar o patrimônio vinculado ao nome da família, valor maior do que os seus membros, orientava a sucessão ao primogênito homem. Em “Razão e sensibilidade” o temor da situação contornada em “Orgulho e preconceito” acontece, e a segunda esposa e filhas de um rico senhor são arremessadas à miséria com a sua morte, sendo expulsas da casa de toda a sua vida pelo meio irmão e sua esposa megera. Num mundo de quase nenhuma mobilidade social, onde os homens sem fortuna de nascimento tinham uma pequena chance de ascensão na guerra, no comércio, ou nas colônias, ou deviam se contentar em prestar serviços aos nobres como médicos, notários, advogados e sacerdotes – e isso se tivessem pedigree mínimo para conviver com os ricos na sala de estar, e não na cozinha – , as mulheres não tinham chance alguma. Sem dote, ainda que fossem gostosas e prendadas nas artes, estavam condenadas a uma existência miserável. E pelo menos este pilar do sistema, talvez o que mais tenha lhe afetado diretamente a vida, Jane Austen atacou com violência e precisão, ainda que sob uma roupagem açucarada de histórias de amor com final feliz. Precisei de duas pra perceber.

Mudou alguma coisa? Mudou. Hoje, golpes do destino criam novos poderosos e novas fortunas todos os dias. O nosso presidente operário que o diga. Desde que me conheço por gente, em grandes pinceladas, vi uma nova elite ser criada na ditadura militar, com as grandes empreiteiras, mineradoras, e associações com mutinacionais; outra no reinado de Fernando Henrique, com as privatizações e a reestruturação do sistema financeiro; e agora outra tentativa ainda não consolidada, com um pouco menos de elegância, no governo Lula, que certamente se completará em um segundo mandato. É a velha história. A criação de uma fortuna é sempre um pouco mal-cheirosa, salvo raras exceções, e o odor vai passando com o tempo, até se tornar dinheiro velho e respeitável, atrelado a boa cultura e boas maneiras, o que acontece cada vez mais rápido, devido à facilidade de acesso à informação. E o criativo revolucionário enriquecido se torna um empedernido conservador.

E como se transcende a roda da vida, a prisão material identificada pelos budistas? Se ausentando do mundo? E aí está a segunda lição revolucionária de Jane Austen: o amor, como também apontam Saramago, Nelson Rodrigues, Vinicius, e tantos outros. É a grande referência de orientação do homem civilizado, a estrela que orienta a navegação através da existência, como no Soneto CXVI de Shakespeare, declamado em dueto por dois personagens de “Razão e sensibilidade”, os mais sem razão, e cheios de sensibilidade:

Let me not to the marriage of true minds
admit impediments: love is not love
wich alters when it alteration finds
or bends with the remover to remove

O, no, its an ever-fixed mark
that looks on tempests and is never shaken;
it is the star to every wand’ring bark,
whose worth’s unknown, although his height be taken.

Love’s not Time’s fool; though rosy lips and cheeks
within his bending sickle’s compass come,
Love alters not with his brief hours and weeks,
but bears it out even to the edge of doom.

If this be error and upon me proved,
I never writ, nor man ever loved.

sábado, março 04, 2006

Corte sincronizado

Hoje de manhã fui ao clube. Deixei o “Orgulho e preconceito” na biblioteca e fui ao barbeiro. É um tubo estreito e comprido que fica ao lado do grande e bem montado cabelereiro feminino. O barbeiro é um sujeito alto e obeso, cuja enorme barriga o impede de chegar perto da cadeira, então ele é obrigado a trabalhar com os braços levantados e esticados, o que o deixa um tanto ofegante e suarento. É a terceira vez que corto o cabelo lá, e nas três foi igual. Cheguei, ele estava com um cliente na cadeira, um esperando, e me disse para por o meu nome numa lista, porque o seu colega estava doente e não tinha vindo trabalhar. Já estou achando que esse colega é um amigo imaginário. A lista era uma folha em branco com um só nome escrito. Escrevi o meu nome e fui checar as leituras. Um Estadão do dia, uma revista Época na mão do outro cliente que esperava, um Super-Homem velho, e uma Caras com uma criativa montagem mostrando o Mick Jagger espiando da janela a Luciana Gimenez na piscina do Copacabana Palace com o noivo. Optei por mandar um e-mail desnecessário pelo celular, tarefa que preenche bem o tempo. Logo o cliente que esperava foi atendido, e o corte, à máquina, foi rápido, pois ele era quase completamente careca. O barbeiro foi checar a lista e procurou o cliente anotado pelo exíguo recinto, abriu a porta, olhou para os lados, apregoou o seu nome no corredor, e justiça feita, me convocou para a cadeira. Peguei o caderno de esportes do Estadão, atraído por uma manchete da primeira página sobre um título sul-americano conquistado por uma brasileira em solo no nado sincronizado. Esquisito, sincronizar-se consigo mesma. A matéria confirmava a manchete sem nenhuma explicação ou surpresa. Não pude deixar de fazer uma relação com a cadeira vazia do colega imaginário do barbeiro. Seria ele um duplo gordo ou seu contrário magro? A sincronia seria idêntica ou invertida como a imagem do barbeiro refletida, uma alucinação causada pelo trabalho solitário frente o espelho? E não pude impedir de formar-se na minha mente a visão daquela enorme morsa em evoluções sincronizadas de Esther Williams, com um maiô de frufrus, ao som de um grande coral feminino. Tudo isso por quinze reais.

sexta-feira, março 03, 2006

Weeds

Ontem acordei no meio da noite, liguei a tv sem som, e dando uma zapeada caí num programa muito estranho, que depois no intervalo soube que era a série “Weeds”, que passa no GNT sei lá em que horário. Pura apologia da erva, mas tem situações muito engraçadas. Pelo que eu entendi, há uma branca, magra e anglo-saxônica, como qualifica sua empregada latina, para quem bastariam essas características para que ela não tenha problemas de dinheiro. Na verdade não é bem assim. Ela perdeu o marido, e virou, não sei como, a “Baronesa da Erva”, atividade que ela exerce no seu bar ou restaurante, em sociedade com traficantes negros. O seu filho de onze anos procura chamar sua atenção produzindo vídeos estilo terrorista, com saco de papel na cabeça, decapitando reféns (a irmãzinha) em frente às câmeras, se suas exigências não forem atendidas. O filho de 16 tem uma namorada que não fala, só digita o que quer dizer no computador porque “I h8 my voice”. E todo mundo fuma maconha e trepa. Um cunhado ou irmão da Baronesa que mora lá liga a uma amiga dizendo que acabou de romper com a namorada. Quando ela chega, lamenta a perda do sexo desinibido e sem limites proporcionado pela erva, uma verdadeira experiência tântrica. Ela concorda e confidencia que só goza quando fuma. É apologia ou não é? Uma amiga da empregada latina diz que sua patroa é traficante, e depois de revirar a casa, acha a droga dentro de um travesseiro, e quando a Baronesa volta da noite de negócios, entrega-lhe o travesseiro, deseja-lhe bons sonhos, e exige um aumento. Outra cena hilária é a Baronesa fazendo negócios com um traficante negro, gangster estereotipado, e começa a conversar de filhos e sua solidão com a perda do marido.

quinta-feira, março 02, 2006

Lost in translation

Em uma aula de inglês, alunas e professora, só mulheres de idades variadas, começam a discutir cirurgia plástica, e a conversa vai parar no “boob job”, o famigerado implante de silicone no peito. Uma aluna faz um aparte, pedindo esclarecimento sobre o que seria então o não menos famoso “blow job”. A professora esclarece de modo oblíquo, com duvidoso bom gosto, que seria uma das metades do “69”. E emenda contando um fato pitoresco protagonizado por ela.

Antes de vir para o Brasil com a família, esta inglesa exerceu por algum tempo sua profissão em Portugal, o que a nossa burocracia não permitiu que fizesse aqui. E aconteceu que calhou dela sair, numa espécie de encontro arranjado, com um famoso piloto de corrida. No dia seguinte, o escritório em peso a esperava pra saber como decorrera o programa. E ela singelamente disse que o jantar tinha sido muito agradável, o tal piloto muito gentil, e até havia lhe dado um broche. E estranhou quando todos, secamente, viraram as costas e voltaram ao trabalho, sem dizer nada. Uma que era mais sua amiga, chegou perto e pediu esclarecimentos: “Mas como assim, um broche?” E a professora mostrou um “pin” da escuderia. Imediatamente a amiga bradou a todos: “Pessoal, está tudo bem, ele deu um pino a ela!”. E caiu na gargalhada. Depois explicou que em Portugal “dar um broche” é a outra metade do “69”.

quarta-feira, março 01, 2006

Praejudicium


A começar pelo título, “Orgulho e preconceito”. Primeiro, percebe-se que “prejudice”, no romance, é utilizado tanto no sentido de juízo precipitado, antecipado, ou seja, pré-juízo, como também no sentido de preconceito de classe. Acho engraçado que exatamente a mesma raiz latina tenha originado dois significados tão diferentes em inglês e português. Prejuízo nada tem a ver com preconceito, mas com dano, perda. Como diz o Saramago, as palavras estão sempre a mudar de opinião.

Mantenho o meu pré-julgamento. É uma obra conformista, que a despeito da crítica individual aos personagens, quase todos, nada encontra de errado na forma como a sociedade em que se ambienta a história está estruturada. Orgulho e preconceito são defeitos individuais, e não mazelas sociais, na visão da autora. E a redenção das heroínas se dá através do reconhecimento pelos superiores de suas qualidades individuais, que as levam a casar com ricos, em clássico final feliz. Mas critica-se o gênero humano e para um romance, está mais do que suficiente.

O senso de humor do Mr. Bennet é excelente, invertendo sempre o sentido de suas ponderações, o que Elizabeth sempre entende e corresponde. As sutilezas dos diálogos e das análises das situações são de grande precisão e refinamento. E o enredo, baseado em grandes erros de avaliação causados por julgamentos precipitados, principalmente por parte da personagem central, Elizabeth, surpreende e prende a atenção, ao mesmo tempo que dá grande amplitude aos personagens, ao permitir leituras complexas e contraditórias. Depois de ler o livro, o filme cresceu muito aos meus olhos.

sábado, fevereiro 25, 2006

Orgulho e preconceito

Fui hoje de manhã devolver os livros na biblioteca, dois Clarice e um Saramago, e a elegante senhora que me atendeu surpreendeu-se. Me olhando de lado por cima dos óculos, balançando afirmativamente a cabeça, pronunciou devagar, alto e claro, com um sorriso maroto: “Ah, Clarice Lispector!”. Pressenti mil significados ocultos nessa exclamação. Que mágica tem essa mulher. E para ler na praia, uma casa no morro com vista para uma linda baía, retirei, em homenagem ao amigo Fitzwilliam, meu consultor para assuntos de literatura inglesa, “Orgulho e Preconceito” da Jane Austen. Outro dia fui ver o filme, que apesar dos cenários, figurinos, trilha sonora (acho que são essas as indicações para o Oscar), e o excelente trabalho dos atores, em especial da linda Keira Knigthley, não me convenceu. E comecei a expor ao Fitzwilliam uma superficial e apressada teoria – como faço sempre – de ser a obra e Jane Austen conformista com a sociedade injusta em que vivia, idealizando o mundo dos ricos e reduzindo suas heroínas a maravilhas deslocadas que através do amor romântico ascendem pelo casamento ao olimpo burguês, que lhes pertenceria por merecimento em função de suas qualidades e talentos. Enquanto Fitzwilliam se contorcia de revolta contra minha crítica despreparada a uma de suas autoras favoritas, contrastei a submissão de Austen aos discursos inflamados do arrasador Shylock de Al Pacino, visto também por aqueles dias, que não deixa pedra sobre pedra não só contra o preconceito racial mas também da injustiça social da Veneza dos doges. Fitzwilliam me garantiu que o problema só podia ser do filme, pois Austen escrevia sobre o seu contexto social, que conhecia muito bem, com o objetivo justamente de denunciar as mazelas daquela burguesia com complexo de inferioridade em relação à nobreza, e aqueles personagens românticos que me pareceram dignos de um novelão mexicano são construídos no romance com uma densidade pscológica comparável aos de Machado de Assis. Despido de qualquer orgulho ou preconceito, vou conferir. Bom carnaval.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Uma generalização burra

Encostamos a ponta esférica da caneta sobre o papel, o que produz um ponto. Puxamos o ponto pelo papel, que vai deixando atrás de si um rastro de tinta azul grossa e viscosa. Desenhamos letras emendadas em palavras que por convenções podem ser retransformadas em sons que dão nome às coisas corpóreas e incorpóreas, suas qualidades, e ações e relações a que podem ser submetidas. Convenções foram se sobrepondo às convenções para reduzir as ambigüidades, que todavia permanecem. A palavra falada em conversa é muito mais precisa que a escrita, desde que haja interesse dos interlocutores em compreender, porque permite esclarecimentos imediatos das dúvidas surgidas. E a mensagem pode ser mais profunda e elaborada se for produzida previamente por escrito, para que o empilhamento das idéias em estruturas complexas fique estável. Onde queremos chegar com toda essa conversa? Planejar ações conjuntas com resultados proveitosos para suprir nossas inesgotáveis necessidades. Para realizar as ações que efetivamente suprem as necessidades não precisamos mais das palavras e as elaboradas construções que elas permitem. Comer, beber, trepar, celebrar, dançar, cantar, rezar, dormir, toda a sorte de atividades físicas, quase todas as artísticas, e mesmo simplesmente estar em boa companhia, nenhuma dessas ações que são o fim de tanto planejamento precisam de palavras articuladas em idéias. No máximo, interjeições, nomes, seqüências repetidas de palavras já reduzidas de significado em canções ou rezas, meros sons, como os produzidos por animais. Claro que jogar conversa fora sem planejar nada, sem nenhum sentido utilitário, também é uma delícia, uma necessidade que se esgota em si, e bem acompanha qualquer das atividades fim, a não ser quando atrapalha.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Emburrecendo

Globeleza 2006


Chega de ler. Tantas leituras eruditas, em tão pouco tempo, queimaram o meu bestunto. O negócio agora é submeter a cachimônia a uma severa terapia de raios catódicos, novelas, bbbs e que tais. E naufragar no último círculo dos infernos globais, o carnaval ao vivo. Comendo bolacha doce sanduíche recheada de creme rosa e tomando caipirinha pronta. Isoporitos e chicken pop-corn. Vou comprar um rider. A doutrina zen da entrega total. Que venham os urubus.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Coração selvagem

Fiquei estupefacto com a leitura do “Perto do coração selvagem”, o romance de estréia de Clarice Lispector publicado em 1944, e provavelmente escrito um ou dois anos antes, durante o curso de direito da autora, terminado em 1943. Ela devia ter algo em torno de 22 anos.

Causou-me a impressão de um enorme esforço para comunicar-se com os semelhantes, num plano mais profundo ou elevado, a exigir a palavra escrita e a lentidão da leitura ruminada da vaca de Nietzsche para a transmissão de experiências pra lá de introspectivas, usando as mais delirantes metáforas que eu já vi.

Os longos parênteses que entremeiam alguns dos diálogos mostrando o descompasso entre a velocidade do pensamento e a conversa falada são surpreendentes, assim como a alternância de humores e sensações que cabe nesses poucos segundos de conversa, minuciosamente descritos, ou em outros curtos momentos do cotidiano.

A absoluta falta de complacência, condescendência ou compaixão com os personagens, em especial com Joana, que parece ser o alter-ego da autora, denota a vontade de dissecar sem nenhum pudor o interior dos humanos, e descobrir o que os impulsiona a rastejar sobre o planeta.

O livro termina com um discurso quase messiânico sobre o poder da palavra e a certeza de Joana que um dia será compreendida. Acho que a profecia se cumpriu, mas agora me assustam um pouco as mulheres que apontam Clarice como sua melhor tradutora.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Claustrofóbica

No claustro, a pedra estava lavada a jato, cheirando a pedra nova, branca, sapólio. Um sujeito com um esfregão e uma mangueira ainda friccionava alvejante nas paredes, antes quase negras, agora rosadas, e a luz oblíqua que entrava no quadrado circundado por arcos refletia-se muitas vezes dentro daquele cubo profundo, reduzindo as sombras à sua memória. O choque da lavagem dava um ar de novidade à lembrança dos fatos passados, tão renovados pelos fatos recentes que o levaram até lá. Sentou-se num dos longos bancos de madeira e apreciou o frescor da pedra lavada na tarde quente de verão. Viu e reviu os vários rolos de filmes rodados naquele cenário, a ponto de sentir que a qualquer momento uma daquelas cenas se repetiria na sua frente. Levantou, deu uma volta pelos corredores, olhando as fechaduras douradas e lustradas das grandes portas trancadas que ficavam nos seus cantos mais escuros. E foi embora assobiando uma melodia contemporânea àquelas memórias, errando uma ou outra nota.
Clarice por Portinari

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Sexy and seventeen

Comecei a ler o “Perto do Coração Selvagem”, e a edição que peguei em uma biblioteca, traz na orelha a informação de ter sido escrito quando a Clarice Lispector tinha 17 anos! Achei esquisito, e buscando por aí encontrei informações contraditórias quanto à sua data de nascimento. Encontrei 1920, 1925 e 1926. A fonte que me pareceu mais confiável, o arquivo da Casa Rui Barbosa, é baseado em documentos da própria e afirma 1920 como data de nascimento, e a autoria da obra no período da faculdade de direito, terminada em 1943. Deve ter sido escrito quando ela tinha 22, e não 17 aninhos. Não que não seja uma obra precoce, mas nessa idade cinco anos fazem muita diferença. Fiquei imaginando a razão da discrepância, e só pude aventar uma hipótese: durante algum período de sua vida, Clarice mentiu a idade. Cinco anos é uma mentira clássica. Viável e significativa. Clarice era uma mulher muito bonita, retratada por Portinari e De Chirico. Quanto mais bonita, mais vaidosa é a mulher. Devia quebrar muitos corações de poeta por aí. Separou-se aos 39 anos. O medo dos quarenta, solteira, deve tê-la feito retroagir. Mulheres mentem por esporte, mesmo quando não é preciso.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Uivando pra lua?


Chama a carrocinha.

















Foto: Bill Smith

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Mulheres...

Acabei a “História do Cerco de Lisboa”, do Saramago, que além de discutir a própria formação de Portugal, um plano no passado e outro no presente, contém uma original história de amor, do qual o cerco é também metáfora, como se vê da fala proferida por uma mulher: “Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco”.

Aproveitando o gancho li “A cidade sitiada”, da misteriosa Clarice Lispector, na sua prosa poética e metafísica. Nós homens estamos sempre a dizer que é difícil, senão impossível, entender as mulheres. Tentar entender Clarice é entender porque é tão difícil entendê-las.

E ela faz as aves dizerem “Ah!”

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Bocca chiusa

“Bocca chiusa”, como todos sabem, é “boca fechada” em italiano. A criação da notação musical é comumente atribuída a um monge beneditino, Guido D’Arezzo, no século X. Não sei se vem daí a tradição do uso das indicações de interpretação em italiano, mas certamente vem do pioneirismo dos italianos na música formal. “Bocca chiusa” é a maneira de cantar de boca fechada, para a qual, em inglês se usa a palavra “humming”, que também é utilizada para zumbido. Em português, que eu saiba, não existe termo equivalente.

Lembro de uma aula na sexta série, em que enlouquecemos a professora de inglês “humming” em uníssono, como se fôssemos uma esquadrilha de bombardeiros. Conforme ela se aproximava, os que estavam próximos silenciavam, mas o resto da classe continuava. Saiu chorando da classe.

A técnica foi usada na revolta dos marinheiros que antecedeu o golpe de 64, liderada pelo sinistro cabo Anselmo. Os marinheiros cantando o “Cisne Branco” em bocca chiusa comoveram a tropa do exército que foi prendê-los, que acabou com eles se solidarizando.

Boca fechada não só não entra mosca, como também dá pra fazer muita coisa assim.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Big mouth strikes again

Perder a oportunidade de ficar calado é das piores sensações que existem. A certeza irracional de ter prejudicado a marcha natural e favorável dos acontecimentos vazando comentários sobre meras expectativas e possibilidades; pondo palavras não ditas na boca dos outros; proferindo afirmações categóricas; mencionando conhecidos comuns não existentes; julgando apressadamente os outros; cometendo citações capengas de memórias; contando piadas sem graça; comentários inadequados ao contexto, e tantas outras modalidades de excessos possíveis. A famosa incontinência verbal. Você sabe muito bem do que eu estou falando. Um dia, quando estivermos bebendo juntos, te conto tudo.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

12,5% é muito?

Guido Boggiani, em “Os Caduveo”, questiona se essa tribo de artes refinadas, modo afetado de falar e complexas regras de etiqueta seria uma civilização em estágio ascendente ou estaria caminhando para a extinção. Aventa a possibilidade deles serem aparentados dos Incas andinos, o que demonstra com semelhanças nas artes, teoria não aceita pelos antropólogos posteriores. Conclui pelo declínio. É estranho um povo atingir um grau notável de desenvolvimento e não conquistar a escrita. A conseqüência é trágica. Uma geração problemática, sujeita a uma grande guerra, um êxodo ou uma epidemia, que acarrete uma falha na continuidade da transmissão oral pode por a perder uma enorme herança cultural, a própria identidade da nação. Outro dia, ao ler sobre a questão da demarcação das terras indígenas por ocasião da infeliz declaração do presidente da FUNAI, de terem sido dadas terras demais aos índios, fiquei pensando se os índios sabem realmente quem eles são, depois de quinhentos anos de esfrega genocida. Ou será que eles não se lembram mais? Ou têm que aprender quem são lendo as descrições antigas que fizeram os brancos?

terça-feira, janeiro 31, 2006

Via oral

Acabei de ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e surgiu-me uma dúvida. Jesus era analfabeto? Que ele tinha conhecimento das escrituras todos sabemos, pelo debate com os doutores do templo e as referências aos profetas e os fundadores de Israel. Saramago menciona – não sei se com fundamento nos evangelhos oficiais – um período de formação na sinagoga de Nazaré, no mínimo provável, mas a educação pode ser sido feita via oral, como os gregos antigos e seus longos poemas, a rima como método mnemônico. A memorização do livro sagrado possivelmente era um valor, indicava o bom cidadão religioso. De que adianta um livro embaixo do braço? Segundo o Saramago, davam graças a Deus o tempo todo, de mil maneiras diferentes. Ao acordar, ao urinar, ao comer, ao saudar, ao sair, ao chegar, ao trabalhar, ao sol, à chuva, tudo. E estavam sempre procurando na memória uma referência bíblica para ilustrar o momento, e fundamentar suas decisões e ações. Um amigo, que algumas vezes comentou este blog com o vitoriano apelido Fitzwilliam, ponderou que era justamente isso que Jesus fazia. Não exatamente pregava, vivia de acordo com suas interpretações livres e modernas da lei, e comentava o mundo, em voz alta, enquanto andava por aí com a sua turma, e a bela Madalena. Sua vida como lição civilizadora. Precisava terminar tão mal?

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Nature boy

Sábado à noite fui ver “Vinícius de Morais”. É um documentário muito bom, ainda que seja questionável a declamação dos atores. Mas a poesia escrita é uma parte essencial da obra e de algum jeito precisaria ser mostrada. O final é um depoimento da Betânia, que diz ter aprendido uma importante lição com o Vinícius, que sempre cantava o “Nature boy”, especialmente os últimos versos, e o filme termina com ele cantando essa canção. Ouvi dizer que ela apareceu no lado b do de um sucesso do Nat King Cole. Está muito viva, aparece no filme “Moulin Rouge”, e foi gravada pelo Caetano naquele último disco, “A Foreign Sound”. É uma linda melodia ao estilo Yiddish.

Nature boy

(Eden Ahbez)

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he
And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return".


Leia aqui a curiosíssima história do autor.

O Vinícius foi casado nove vezes, e se apaixonava de estalo, como a iluminação de Vieira. Quase voluntário, como os amores inventados do Cazuza.