Hoje de manhã fui ao clube. Deixei o “Orgulho e preconceito” na biblioteca e fui ao barbeiro. É um tubo estreito e comprido que fica ao lado do grande e bem montado cabelereiro feminino. O barbeiro é um sujeito alto e obeso, cuja enorme barriga o impede de chegar perto da cadeira, então ele é obrigado a trabalhar com os braços levantados e esticados, o que o deixa um tanto ofegante e suarento. É a terceira vez que corto o cabelo lá, e nas três foi igual. Cheguei, ele estava com um cliente na cadeira, um esperando, e me disse para por o meu nome numa lista, porque o seu colega estava doente e não tinha vindo trabalhar. Já estou achando que esse colega é um amigo imaginário. A lista era uma folha em branco com um só nome escrito. Escrevi o meu nome e fui checar as leituras. Um Estadão do dia, uma revista Época na mão do outro cliente que esperava, um Super-Homem velho, e uma Caras com uma criativa montagem mostrando o Mick Jagger espiando da janela a Luciana Gimenez na piscina do Copacabana Palace com o noivo. Optei por mandar um e-mail desnecessário pelo celular, tarefa que preenche bem o tempo. Logo o cliente que esperava foi atendido, e o corte, à máquina, foi rápido, pois ele era quase completamente careca. O barbeiro foi checar a lista e procurou o cliente anotado pelo exíguo recinto, abriu a porta, olhou para os lados, apregoou o seu nome no corredor, e justiça feita, me convocou para a cadeira. Peguei o caderno de esportes do Estadão, atraído por uma manchete da primeira página sobre um título sul-americano conquistado por uma brasileira em solo no nado sincronizado. Esquisito, sincronizar-se consigo mesma. A matéria confirmava a manchete sem nenhuma explicação ou surpresa. Não pude deixar de fazer uma relação com a cadeira vazia do colega imaginário do barbeiro. Seria ele um duplo gordo ou seu contrário magro? A sincronia seria idêntica ou invertida como a imagem do barbeiro refletida, uma alucinação causada pelo trabalho solitário frente o espelho? E não pude impedir de formar-se na minha mente a visão daquela enorme morsa em evoluções sincronizadas de Esther Williams, com um maiô de frufrus, ao som de um grande coral feminino. Tudo isso por quinze reais.
sábado, março 04, 2006
sexta-feira, março 03, 2006
Weeds
Ontem acordei no meio da noite, liguei a tv sem som, e dando uma zapeada caí num programa muito estranho, que depois no intervalo soube que era a série “Weeds”, que passa no GNT sei lá em que horário. Pura apologia da erva, mas tem situações muito engraçadas. Pelo que eu entendi, há uma branca, magra e anglo-saxônica, como qualifica sua empregada latina, para quem bastariam essas características para que ela não tenha problemas de dinheiro. Na verdade não é bem assim. Ela perdeu o marido, e virou, não sei como, a “Baronesa da Erva”, atividade que ela exerce no seu bar ou restaurante, em sociedade com traficantes negros. O seu filho de onze anos procura chamar sua atenção produzindo vídeos estilo terrorista, com saco de papel na cabeça, decapitando reféns (a irmãzinha) em frente às câmeras, se suas exigências não forem atendidas. O filho de 16 tem uma namorada que não fala, só digita o que quer dizer no computador porque “I h8 my voice”. E todo mundo fuma maconha e trepa. Um cunhado ou irmão da Baronesa que mora lá liga a uma amiga dizendo que acabou de romper com a namorada. Quando ela chega, lamenta a perda do sexo desinibido e sem limites proporcionado pela erva, uma verdadeira experiência tântrica. Ela concorda e confidencia que só goza quando fuma. É apologia ou não é? Uma amiga da empregada latina diz que sua patroa é traficante, e depois de revirar a casa, acha a droga dentro de um travesseiro, e quando a Baronesa volta da noite de negócios, entrega-lhe o travesseiro, deseja-lhe bons sonhos, e exige um aumento. Outra cena hilária é a Baronesa fazendo negócios com um traficante negro, gangster estereotipado, e começa a conversar de filhos e sua solidão com a perda do marido.
quinta-feira, março 02, 2006
Lost in translation
Em uma aula de inglês, alunas e professora, só mulheres de idades variadas, começam a discutir cirurgia plástica, e a conversa vai parar no “boob job”, o famigerado implante de silicone no peito. Uma aluna faz um aparte, pedindo esclarecimento sobre o que seria então o não menos famoso “blow job”. A professora esclarece de modo oblíquo, com duvidoso bom gosto, que seria uma das metades do “69”. E emenda contando um fato pitoresco protagonizado por ela.
Antes de vir para o Brasil com a família, esta inglesa exerceu por algum tempo sua profissão em Portugal, o que a nossa burocracia não permitiu que fizesse aqui. E aconteceu que calhou dela sair, numa espécie de encontro arranjado, com um famoso piloto de corrida. No dia seguinte, o escritório em peso a esperava pra saber como decorrera o programa. E ela singelamente disse que o jantar tinha sido muito agradável, o tal piloto muito gentil, e até havia lhe dado um broche. E estranhou quando todos, secamente, viraram as costas e voltaram ao trabalho, sem dizer nada. Uma que era mais sua amiga, chegou perto e pediu esclarecimentos: “Mas como assim, um broche?” E a professora mostrou um “pin” da escuderia. Imediatamente a amiga bradou a todos: “Pessoal, está tudo bem, ele deu um pino a ela!”. E caiu na gargalhada. Depois explicou que em Portugal “dar um broche” é a outra metade do “69”.
quarta-feira, março 01, 2006
Praejudicium

A começar pelo título, “Orgulho e preconceito”. Primeiro, percebe-se que “prejudice”, no romance, é utilizado tanto no sentido de juízo precipitado, antecipado, ou seja, pré-juízo, como também no sentido de preconceito de classe. Acho engraçado que exatamente a mesma raiz latina tenha originado dois significados tão diferentes em inglês e português. Prejuízo nada tem a ver com preconceito, mas com dano, perda. Como diz o Saramago, as palavras estão sempre a mudar de opinião.
Mantenho o meu pré-julgamento. É uma obra conformista, que a despeito da crítica individual aos personagens, quase todos, nada encontra de errado na forma como a sociedade em que se ambienta a história está estruturada. Orgulho e preconceito são defeitos individuais, e não mazelas sociais, na visão da autora. E a redenção das heroínas se dá através do reconhecimento pelos superiores de suas qualidades individuais, que as levam a casar com ricos, em clássico final feliz. Mas critica-se o gênero humano e para um romance, está mais do que suficiente.
O senso de humor do Mr. Bennet é excelente, invertendo sempre o sentido de suas ponderações, o que Elizabeth sempre entende e corresponde. As sutilezas dos diálogos e das análises das situações são de grande precisão e refinamento. E o enredo, baseado em grandes erros de avaliação causados por julgamentos precipitados, principalmente por parte da personagem central, Elizabeth, surpreende e prende a atenção, ao mesmo tempo que dá grande amplitude aos personagens, ao permitir leituras complexas e contraditórias. Depois de ler o livro, o filme cresceu muito aos meus olhos.
Mantenho o meu pré-julgamento. É uma obra conformista, que a despeito da crítica individual aos personagens, quase todos, nada encontra de errado na forma como a sociedade em que se ambienta a história está estruturada. Orgulho e preconceito são defeitos individuais, e não mazelas sociais, na visão da autora. E a redenção das heroínas se dá através do reconhecimento pelos superiores de suas qualidades individuais, que as levam a casar com ricos, em clássico final feliz. Mas critica-se o gênero humano e para um romance, está mais do que suficiente.
O senso de humor do Mr. Bennet é excelente, invertendo sempre o sentido de suas ponderações, o que Elizabeth sempre entende e corresponde. As sutilezas dos diálogos e das análises das situações são de grande precisão e refinamento. E o enredo, baseado em grandes erros de avaliação causados por julgamentos precipitados, principalmente por parte da personagem central, Elizabeth, surpreende e prende a atenção, ao mesmo tempo que dá grande amplitude aos personagens, ao permitir leituras complexas e contraditórias. Depois de ler o livro, o filme cresceu muito aos meus olhos.
sábado, fevereiro 25, 2006
Orgulho e preconceito
Fui hoje de manhã devolver os livros na biblioteca, dois Clarice e um Saramago, e a elegante senhora que me atendeu surpreendeu-se. Me olhando de lado por cima dos óculos, balançando afirmativamente a cabeça, pronunciou devagar, alto e claro, com um sorriso maroto: “Ah, Clarice Lispector!”. Pressenti mil significados ocultos nessa exclamação. Que mágica tem essa mulher. E para ler na praia, uma casa no morro com vista para uma linda baía, retirei, em homenagem ao amigo Fitzwilliam, meu consultor para assuntos de literatura inglesa, “Orgulho e Preconceito” da Jane Austen. Outro dia fui ver o filme, que apesar dos cenários, figurinos, trilha sonora (acho que são essas as indicações para o Oscar), e o excelente trabalho dos atores, em especial da linda Keira Knigthley, não me convenceu. E comecei a expor ao Fitzwilliam uma superficial e apressada teoria – como faço sempre – de ser a obra e Jane Austen conformista com a sociedade injusta em que vivia, idealizando o mundo dos ricos e reduzindo suas heroínas a maravilhas deslocadas que através do amor romântico ascendem pelo casamento ao olimpo burguês, que lhes pertenceria por merecimento em função de suas qualidades e talentos. Enquanto Fitzwilliam se contorcia de revolta contra minha crítica despreparada a uma de suas autoras favoritas, contrastei a submissão de Austen aos discursos inflamados do arrasador Shylock de Al Pacino, visto também por aqueles dias, que não deixa pedra sobre pedra não só contra o preconceito racial mas também da injustiça social da Veneza dos doges. Fitzwilliam me garantiu que o problema só podia ser do filme, pois Austen escrevia sobre o seu contexto social, que conhecia muito bem, com o objetivo justamente de denunciar as mazelas daquela burguesia com complexo de inferioridade em relação à nobreza, e aqueles personagens românticos que me pareceram dignos de um novelão mexicano são construídos no romance com uma densidade pscológica comparável aos de Machado de Assis. Despido de qualquer orgulho ou preconceito, vou conferir. Bom carnaval.
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Uma generalização burra
Encostamos a ponta esférica da caneta sobre o papel, o que produz um ponto. Puxamos o ponto pelo papel, que vai deixando atrás de si um rastro de tinta azul grossa e viscosa. Desenhamos letras emendadas em palavras que por convenções podem ser retransformadas em sons que dão nome às coisas corpóreas e incorpóreas, suas qualidades, e ações e relações a que podem ser submetidas. Convenções foram se sobrepondo às convenções para reduzir as ambigüidades, que todavia permanecem. A palavra falada em conversa é muito mais precisa que a escrita, desde que haja interesse dos interlocutores em compreender, porque permite esclarecimentos imediatos das dúvidas surgidas. E a mensagem pode ser mais profunda e elaborada se for produzida previamente por escrito, para que o empilhamento das idéias em estruturas complexas fique estável. Onde queremos chegar com toda essa conversa? Planejar ações conjuntas com resultados proveitosos para suprir nossas inesgotáveis necessidades. Para realizar as ações que efetivamente suprem as necessidades não precisamos mais das palavras e as elaboradas construções que elas permitem. Comer, beber, trepar, celebrar, dançar, cantar, rezar, dormir, toda a sorte de atividades físicas, quase todas as artísticas, e mesmo simplesmente estar em boa companhia, nenhuma dessas ações que são o fim de tanto planejamento precisam de palavras articuladas em idéias. No máximo, interjeições, nomes, seqüências repetidas de palavras já reduzidas de significado em canções ou rezas, meros sons, como os produzidos por animais. Claro que jogar conversa fora sem planejar nada, sem nenhum sentido utilitário, também é uma delícia, uma necessidade que se esgota em si, e bem acompanha qualquer das atividades fim, a não ser quando atrapalha.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Emburrecendo
Globeleza 2006Chega de ler. Tantas leituras eruditas, em tão pouco tempo, queimaram o meu bestunto. O negócio agora é submeter a cachimônia a uma severa terapia de raios catódicos, novelas, bbbs e que tais. E naufragar no último círculo dos infernos globais, o carnaval ao vivo. Comendo bolacha doce sanduíche recheada de creme rosa e tomando caipirinha pronta. Isoporitos e chicken pop-corn. Vou comprar um rider. A doutrina zen da entrega total. Que venham os urubus.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Coração selvagem
Fiquei estupefacto com a leitura do “Perto do coração selvagem”, o romance de estréia de Clarice Lispector publicado em 1944, e provavelmente escrito um ou dois anos antes, durante o curso de direito da autora, terminado em 1943. Ela devia ter algo em torno de 22 anos.
Causou-me a impressão de um enorme esforço para comunicar-se com os semelhantes, num plano mais profundo ou elevado, a exigir a palavra escrita e a lentidão da leitura ruminada da vaca de Nietzsche para a transmissão de experiências pra lá de introspectivas, usando as mais delirantes metáforas que eu já vi.
Os longos parênteses que entremeiam alguns dos diálogos mostrando o descompasso entre a velocidade do pensamento e a conversa falada são surpreendentes, assim como a alternância de humores e sensações que cabe nesses poucos segundos de conversa, minuciosamente descritos, ou em outros curtos momentos do cotidiano.
A absoluta falta de complacência, condescendência ou compaixão com os personagens, em especial com Joana, que parece ser o alter-ego da autora, denota a vontade de dissecar sem nenhum pudor o interior dos humanos, e descobrir o que os impulsiona a rastejar sobre o planeta.
O livro termina com um discurso quase messiânico sobre o poder da palavra e a certeza de Joana que um dia será compreendida. Acho que a profecia se cumpriu, mas agora me assustam um pouco as mulheres que apontam Clarice como sua melhor tradutora.
Causou-me a impressão de um enorme esforço para comunicar-se com os semelhantes, num plano mais profundo ou elevado, a exigir a palavra escrita e a lentidão da leitura ruminada da vaca de Nietzsche para a transmissão de experiências pra lá de introspectivas, usando as mais delirantes metáforas que eu já vi.
Os longos parênteses que entremeiam alguns dos diálogos mostrando o descompasso entre a velocidade do pensamento e a conversa falada são surpreendentes, assim como a alternância de humores e sensações que cabe nesses poucos segundos de conversa, minuciosamente descritos, ou em outros curtos momentos do cotidiano.
A absoluta falta de complacência, condescendência ou compaixão com os personagens, em especial com Joana, que parece ser o alter-ego da autora, denota a vontade de dissecar sem nenhum pudor o interior dos humanos, e descobrir o que os impulsiona a rastejar sobre o planeta.
O livro termina com um discurso quase messiânico sobre o poder da palavra e a certeza de Joana que um dia será compreendida. Acho que a profecia se cumpriu, mas agora me assustam um pouco as mulheres que apontam Clarice como sua melhor tradutora.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Claustrofóbica
No claustro, a pedra estava lavada a jato, cheirando a pedra nova, branca, sapólio. Um sujeito com um esfregão e uma mangueira ainda friccionava alvejante nas paredes, antes quase negras, agora rosadas, e a luz oblíqua que entrava no quadrado circundado por arcos refletia-se muitas vezes dentro daquele cubo profundo, reduzindo as sombras à sua memória. O choque da lavagem dava um ar de novidade à lembrança dos fatos passados, tão renovados pelos fatos recentes que o levaram até lá. Sentou-se num dos longos bancos de madeira e apreciou o frescor da pedra lavada na tarde quente de verão. Viu e reviu os vários rolos de filmes rodados naquele cenário, a ponto de sentir que a qualquer momento uma daquelas cenas se repetiria na sua frente. Levantou, deu uma volta pelos corredores, olhando as fechaduras douradas e lustradas das grandes portas trancadas que ficavam nos seus cantos mais escuros. E foi embora assobiando uma melodia contemporânea àquelas memórias, errando uma ou outra nota.Clarice por Portinari
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Sexy and seventeen
Comecei a ler o “Perto do Coração Selvagem”, e a edição que peguei em uma biblioteca, traz na orelha a informação de ter sido escrito quando a Clarice Lispector tinha 17 anos! Achei esquisito, e buscando por aí encontrei informações contraditórias quanto à sua data de nascimento. Encontrei 1920, 1925 e 1926. A fonte que me pareceu mais confiável, o arquivo da Casa Rui Barbosa, é baseado em documentos da própria e afirma 1920 como data de nascimento, e a autoria da obra no período da faculdade de direito, terminada em 1943. Deve ter sido escrito quando ela tinha 22, e não 17 aninhos. Não que não seja uma obra precoce, mas nessa idade cinco anos fazem muita diferença. Fiquei imaginando a razão da discrepância, e só pude aventar uma hipótese: durante algum período de sua vida, Clarice mentiu a idade. Cinco anos é uma mentira clássica. Viável e significativa. Clarice era uma mulher muito bonita, retratada por Portinari e De Chirico. Quanto mais bonita, mais vaidosa é a mulher. Devia quebrar muitos corações de poeta por aí. Separou-se aos 39 anos. O medo dos quarenta, solteira, deve tê-la feito retroagir. Mulheres mentem por esporte, mesmo quando não é preciso.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Mulheres...
Acabei a “História do Cerco de Lisboa”, do Saramago, que além de discutir a própria formação de Portugal, um plano no passado e outro no presente, contém uma original história de amor, do qual o cerco é também metáfora, como se vê da fala proferida por uma mulher: “Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco”.
Aproveitando o gancho li “A cidade sitiada”, da misteriosa Clarice Lispector, na sua prosa poética e metafísica. Nós homens estamos sempre a dizer que é difícil, senão impossível, entender as mulheres. Tentar entender Clarice é entender porque é tão difícil entendê-las.
E ela faz as aves dizerem “Ah!”
Aproveitando o gancho li “A cidade sitiada”, da misteriosa Clarice Lispector, na sua prosa poética e metafísica. Nós homens estamos sempre a dizer que é difícil, senão impossível, entender as mulheres. Tentar entender Clarice é entender porque é tão difícil entendê-las.
E ela faz as aves dizerem “Ah!”
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Bocca chiusa
“Bocca chiusa”, como todos sabem, é “boca fechada” em italiano. A criação da notação musical é comumente atribuída a um monge beneditino, Guido D’Arezzo, no século X. Não sei se vem daí a tradição do uso das indicações de interpretação em italiano, mas certamente vem do pioneirismo dos italianos na música formal. “Bocca chiusa” é a maneira de cantar de boca fechada, para a qual, em inglês se usa a palavra “humming”, que também é utilizada para zumbido. Em português, que eu saiba, não existe termo equivalente.
Lembro de uma aula na sexta série, em que enlouquecemos a professora de inglês “humming” em uníssono, como se fôssemos uma esquadrilha de bombardeiros. Conforme ela se aproximava, os que estavam próximos silenciavam, mas o resto da classe continuava. Saiu chorando da classe.
A técnica foi usada na revolta dos marinheiros que antecedeu o golpe de 64, liderada pelo sinistro cabo Anselmo. Os marinheiros cantando o “Cisne Branco” em bocca chiusa comoveram a tropa do exército que foi prendê-los, que acabou com eles se solidarizando.
Boca fechada não só não entra mosca, como também dá pra fazer muita coisa assim.
Lembro de uma aula na sexta série, em que enlouquecemos a professora de inglês “humming” em uníssono, como se fôssemos uma esquadrilha de bombardeiros. Conforme ela se aproximava, os que estavam próximos silenciavam, mas o resto da classe continuava. Saiu chorando da classe.
A técnica foi usada na revolta dos marinheiros que antecedeu o golpe de 64, liderada pelo sinistro cabo Anselmo. Os marinheiros cantando o “Cisne Branco” em bocca chiusa comoveram a tropa do exército que foi prendê-los, que acabou com eles se solidarizando.
Boca fechada não só não entra mosca, como também dá pra fazer muita coisa assim.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Big mouth strikes again
Perder a oportunidade de ficar calado é das piores sensações que existem. A certeza irracional de ter prejudicado a marcha natural e favorável dos acontecimentos vazando comentários sobre meras expectativas e possibilidades; pondo palavras não ditas na boca dos outros; proferindo afirmações categóricas; mencionando conhecidos comuns não existentes; julgando apressadamente os outros; cometendo citações capengas de memórias; contando piadas sem graça; comentários inadequados ao contexto, e tantas outras modalidades de excessos possíveis. A famosa incontinência verbal. Você sabe muito bem do que eu estou falando. Um dia, quando estivermos bebendo juntos, te conto tudo.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
12,5% é muito?
Guido Boggiani, em “Os Caduveo”, questiona se essa tribo de artes refinadas, modo afetado de falar e complexas regras de etiqueta seria uma civilização em estágio ascendente ou estaria caminhando para a extinção. Aventa a possibilidade deles serem aparentados dos Incas andinos, o que demonstra com semelhanças nas artes, teoria não aceita pelos antropólogos posteriores. Conclui pelo declínio. É estranho um povo atingir um grau notável de desenvolvimento e não conquistar a escrita. A conseqüência é trágica. Uma geração problemática, sujeita a uma grande guerra, um êxodo ou uma epidemia, que acarrete uma falha na continuidade da transmissão oral pode por a perder uma enorme herança cultural, a própria identidade da nação. Outro dia, ao ler sobre a questão da demarcação das terras indígenas por ocasião da infeliz declaração do presidente da FUNAI, de terem sido dadas terras demais aos índios, fiquei pensando se os índios sabem realmente quem eles são, depois de quinhentos anos de esfrega genocida. Ou será que eles não se lembram mais? Ou têm que aprender quem são lendo as descrições antigas que fizeram os brancos?
terça-feira, janeiro 31, 2006
Via oral
Acabei de ler o Evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, e surgiu-me uma dúvida. Jesus era analfabeto? Que ele tinha conhecimento das escrituras todos sabemos, pelo debate com os doutores do templo e as referências aos profetas e os fundadores de Israel. Saramago menciona – não sei se com fundamento nos evangelhos oficiais – um período de formação na sinagoga de Nazaré, no mínimo provável, mas a educação pode ser sido feita via oral, como os gregos antigos e seus longos poemas, a rima como método mnemônico. A memorização do livro sagrado possivelmente era um valor, indicava o bom cidadão religioso. De que adianta um livro embaixo do braço? Segundo o Saramago, davam graças a Deus o tempo todo, de mil maneiras diferentes. Ao acordar, ao urinar, ao comer, ao saudar, ao sair, ao chegar, ao trabalhar, ao sol, à chuva, tudo. E estavam sempre procurando na memória uma referência bíblica para ilustrar o momento, e fundamentar suas decisões e ações. Um amigo, que algumas vezes comentou este blog com o vitoriano apelido Fitzwilliam, ponderou que era justamente isso que Jesus fazia. Não exatamente pregava, vivia de acordo com suas interpretações livres e modernas da lei, e comentava o mundo, em voz alta, enquanto andava por aí com a sua turma, e a bela Madalena. Sua vida como lição civilizadora. Precisava terminar tão mal?
quinta-feira, janeiro 26, 2006
Nature boy
Sábado à noite fui ver “Vinícius de Morais”. É um documentário muito bom, ainda que seja questionável a declamação dos atores. Mas a poesia escrita é uma parte essencial da obra e de algum jeito precisaria ser mostrada. O final é um depoimento da Betânia, que diz ter aprendido uma importante lição com o Vinícius, que sempre cantava o “Nature boy”, especialmente os últimos versos, e o filme termina com ele cantando essa canção. Ouvi dizer que ela apareceu no lado b do de um sucesso do Nat King Cole. Está muito viva, aparece no filme “Moulin Rouge”, e foi gravada pelo Caetano naquele último disco, “A Foreign Sound”. É uma linda melodia ao estilo Yiddish.
Nature boy
(Eden Ahbez)
There was a boy
Nature boy
(Eden Ahbez)
There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he
And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return".
Leia aqui a curiosíssima história do autor.
O Vinícius foi casado nove vezes, e se apaixonava de estalo, como a iluminação de Vieira. Quase voluntário, como os amores inventados do Cazuza.
Leia aqui a curiosíssima história do autor.
O Vinícius foi casado nove vezes, e se apaixonava de estalo, como a iluminação de Vieira. Quase voluntário, como os amores inventados do Cazuza.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
Don't call me junior

Semana de 22, por Mário de Andrade. Autor de Macunaíma conta a origem da Semana e o contexto em que surgiu, neste artigo de 1942.
São Paulo - Faz vinte anos, este mês de fevereiro, que se realizou no Teatro Municipal, a Semana de Arte Moderna. É todo um passado longínquo de que sorrio sem medo, mas que me assombra um pouco também. Foi gostoso, ficou bonito, mas como tive coragem para participar daquilo! É certo que com minhas experiências artísticas muito venho escandalizando essa minoria que é a intelectualidade do meu país, mas, na realidade, feitas em artigos e livros, minhas experiências como que não se executam in anima nobile. Não estou de corpo presente e isso desencaminha o choque da estupidez.
Mas como tive coragem para dizer versos ante uma assuada tão singular, que eu não escutava do palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas?... Como pude fazer uma hórrida conferência na escadaria do teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?...
O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança, absolutamente firme que tinha na estética renovadora, eu não teria forças para arrostar aquela tempestade de achincalhes. E se agüentei o tranco foi porque estava delirando. O entusiasmo dos outros me embebedava, não o meu. Por mim teria cedido. Digo que teria cedido, mas apenas nessa parte espetacular do movimento modernista. Com ou sem a Semana, minha vida intelectual seria o que tem sido.
A Semana marca uma data, isso é inegável. É uma data que envaidece recordar.
Mas o certo é que a preconciência primeiro, e em seguida a convicção de uma arte nova, de um espírito novo, desde pelo menos seis anos viera se definindo no... sentimento de um grupinho de intelectuais, aqui. Do primeiro, foi um fenômeno estritamente sentimental, uma intuição divinatória, um... estado de poesia. Com efeito: educados na plástica "histórica", sabendo quando muito da existência dos primeiros impressionistas, ignorando Cézanne, o que nos levou a aderir incondicionalmente à exposição de Anita Malfatti, em plena guerra européia, mostrando quadros expressionistas e cubistas? Parece absurdo, mas aqueles quadros foram para mim a revelação. E delirávamos diante do Homem Amarelo, a Estudanta Russa, a Mulher dos Cabelos Verdes. E ao Homem Amarelo eu dedicava um soneto parnasianíssimo... Éramos assim.
Pouco depois, Menotti del Picchia e Osvaldo de Andrade, descobriram Brecheret no seu exílio do Palácio das Indústrias. E fazíamos verdadeiras "rêveries" simbolistizantes em frente da simbólica exasperada e das estilizações decorativas do "gênio". Porque Brecheret era para nós no mínimo um gênio. Este era o mínimo com que podíamos nos contentar, tais os entusiasmos a que ele nos sacudia. E Brecheret ia ser em breve o gatilho que faria Paulicéia Desvairada estourar.
Eu passara esse ano de 1920 sem fazer mais poesia. Tinha cadernos e cadernos de cousas parnasianas e algumas simbolistas, mas tudo acabara por me desagradar. Na minha cultura desarvorada, já conhecia até Marinetti, mas repudiava a maioria dos princípios futuristas, como já escrevera no Jornal dos Debates, de Pinheiro da Cunha. Só então é que descobri Verhaeren, desculpem, e foi o deslumbramento. Concebi fazer um livro de poesias modernas em verso livre, sobre a minha cidade. Tentei, não veio nada que me interessasse. Tentei mais e nada. Os meses passavam numa angústia, numa insuficiência feroz. Será que a poesia tinha se acabado em mim?... E eu me acordava insofrido.
A isso se ajuntavam dificuldades morais e vitais de toda espécie, foi ano de sofrimento muito. Já ganhava para viver folgado, mas o ganho fugia em livros e eu me estrepava em arranjos financeiros temíveis. Estava criando fama de professor bom e fazia esforços para que meus alunos de Conservatório passassem com notas altas. Em casa o clima era torvo. Se mãe e irmãos não me amolavam com as minhas "loucuras", o resto da família me retalhava sem piedade. Tinha discussões brutas em que os desaforos mútuos não raro chegavam àquele ponto de arrebentação que... por que será que a arte os provoca!... A briga era brava e, se não me abatia nada, me deixava em ódio, mesmo ódio.
Foi quando Brecheret me concedeu passar em bronze um gesto dele que eu adorava, uma cabeça de Cristo. Mas "com que roupa"? eu devia os olhos da cara! Não hesitei, fiz mais conchavos financeiros e afinal pude desembrulhar em casa a minha Cabeça de Cristo. A notícia correu num átimo, e a parentada que morava pegado, invadiu a casa para ver. E brigar. Aquilo até era pecado mortal, onde se viu Cristo de trancinha! era feio, medonho!
Fiquei alucinado, palavra de honra. Minha vontade era matar. Jantei por dentro, num estado inimaginável de estraçalho. Depois subi para o quarto, era noitinha, na intenção de me arranjar, sair, espairecer um bocado, botar uma bomba no centro do mundo, nem sei. Sei que cheguei à sacada, olhando sem ver o meu Largo do Paissandu. Ruídos, luzes, falas abertas subindo dos choferes de aluguel. Estava aparentemente calmo. Não sei o que me deu...
Cheguei na secretaria, abri um caderno, escrevi o título em que jamais pensara, Paulicéia Desvairada. O estouro chegara afinal, depois de quase ano de angústias interrogativas. Entre exames, desgostos, dívidas, brigas, em poucos dias estava jogado no papel um discurso bárbaro, duas vezes maior talvez do que isso que o trabalho de arte fez um livro.
Mais tarde, eu sistematizaria este processo de separação nítida entre o estado de poesia e o estado de arte, para a composição dos meus poemas "dirigidos", as lendas, por exemplo, o abrasileiramento lingüístico de combate. Escolhido o tema, por meio das excitações psicológicas sabidas, preparar o advento do estado de poesia. Se este chega (quantas vezes não chegou...) escrever sem coação de espécie alguma, tudo o que me chega até a mão - a "sinceridade" do indivíduo. E só em seguida, na calma, o trabalho penoso e lento da arte - a "sinceridade" da obra de arte, coletiva e funcional, mil vezes mais importante que eu...
Quem teve a idéia da Semana? Por mim não sei quem foi, só posso garantir que não fui eu. O mais importante era decidir e poder realizar a idéia. E o fautor: verdadeiro da Semana de Arte Moderna foi Paulo Prado. E só mesmo uma figura como ele e uma cidade como São Paulo, poderiam fazer o movimento modernista e objetivá-lo na Semana.
Houve tempo em que alguns escritores do Rio, cuidaram de transplantar para a Capital as raízes do movimento, estribados nas manifestações simbolistas e post-simbolistas, que existiam por lá. Existiam, é inegável. Aqui, esse ambiente só fermentava em Guilherme de Almeida, e num Di Cavalcanti pastelista, "menestrel dos tons velados", como o apelidei numa dedicatória esdrúxula. Mas eu creio ser um engano esse evolucionismo a todo transe, que lembra nomes de Nestor Vítor ou Adelino Magalhães, como elos ou precursores.
Seria mais lógico evocar Manuel Bandeira com o Carnaval.
Não. O modernismo no Brasil foi uma ruptura, foi um abandono consciente de princípios e de técnicas, foi uma revolta contra a intelligensia nacional. É mais possível imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espírito de guerra. E as modas que revestiram este espírito foram diretamente importadas da Europa. Quanto a dizer que éramos antinacionalistas, é apenas bobagem ridícula. É esquecer todo o movimento regionalista aberto anteriormente pela Revista do Brasil primeira fase, todo o movimento editorial de Monteiro Lobato, a arquitetura e até urbanismo (Dubugras) neo-colonial aqui nascidos. Isso sim eram raízes engrossadas desde o início da guerra. Mas o espírito e as modas foram diretamente importados da Europa.
Ora São Paulo estava muito mais "ao par" que o Rio de Janeiro. E, socialmente falando, o modernismo só podia ser importado por São Paulo e arrebentar aqui. Havia uma diferença profunda, já agora pouco sensível, entre Rio e São Paulo. O Rio era muito mais internacinal, como norma de vida exterior. Está claro: capital do país, porto de mar, o Rio tem um internacionalismo ingênito. São Paulo era muito mais "moderna" porém, fruto necessário da economia do café e do industrialismo conseqüente.
Ingenitamente provinciana, conservando até agora um espírito provinciano servil, bem denunciado na política. São Paulo ao mesmo tempo estava, pela sua atualidade comercial e sua industrialização, em contato, se menos social, mais espiritual (não falo "cultural") e técnico com a atualidade do mundo.
É mesmo de assombrar como o Rio mantém, dentro da sua malícia de cidade internacional, um ruralismo, um caráter tradicional muito maiores que São Paulo. O Rio é dessas cidades em que não só permanece indissolúvel o "exotismo" nacional (o que é prova de vitalidade do seu caráter), mas a interpenetração entre o rural e o urbano. Cousa impossível de achar em São Paulo, como funcionalidade permanente. Como Belém, o Recife, a Cidade do Salvador, apesar do seu urbanismo rescendante, o Rio ainda é uma cidade... folclórica. Em São Paulo o exotismo folclórico não freqüenta a Rua Quinze.
Vive em núcleos mortos, não funcionais, abastardados na separação, Santa Isabel. Carapicuiba. Ora no Rio malicioso, uma exposição com a de Anita Malfatti, podia ter reações publicitárias, mas ninguém se deixava levar. Na São Paulo sem malícia, criou uma religião. Com seus Neros também... O artigo "contra" de Monteiro Lobato, embora fosse apenas uma baladilha zangadinha, sacudiu uma população, modificou uma vida.
Junto disso, o movimento renovador era nitidamente aristocrático. Pelo seu caráter de jogo arriscado, pelo seu espírito aventureiro, pelo seu internacionalismo modernista, pelo seu nacionalismo embrabecido, pela gratuidade antipopular, era uma aristocracia do espírito. Era natural que a alta e a pequena burguesia o temessem. Paulo Prado, ao mesmo tempo que um dos expoentes da aristocracia intelectual paulista, era uma das figuras principais da nossa aristocracia tradicional. E foi por tudo isto que ele pôde medir bem o que havia de aventureiro, de exercício do perigo no movimento, e arriscar a sua responsabilidade intelectual e tradicional na aventura.
Uma cousa dessas seria impossível no Rio, onde não existe aristocracia tradicional, mas apenas sita burguesia riquíssima. E esta não podia encampar um movimento que lhe destruía o espírito conservador e conformista. A burguesia nunca soube perder e isso é que a perde. E aqui foi isso mesmo. Se Paulo Prado, com a sua autoridade intelectual e tradicional, abriu a lista das contribuições e arrastou atrás de si os seus pares e... alguns outros que a sua figura dominava, a burguesia protestou e vaiou. Tanto a burguesia de classe como a do espírito.
É delicioso lembrar que Amadeu Amaral, um dos espíritos mais aristocráticos que São Paulo já produziu, embora retraído pelo muito que o maltratavam alguns de nós, nos via compreensivamente. A ele eu devo o Estado de S. Paulo não ter estraçalhado Paulicéia. Saiu-se de suas ocupações e escreveu ele mesmo a nota sobre o livro, severa mas reconhecendo o direito da experiência.
Em compensação a burguesia semiculta (a aristocracia era inculta: e já irresponsável na sua decadência de então), essa espécie de intelectualidade réptil que abastece as cidades e acaba onde as cidades acabam, com que violência de fulgir e se defender, arremeteu contra nós! Hoje, é irônico evocar os nomes que brilharam lunarmente, iluminados pelo brilho próprio de um estado de espírito coletivo. Tanto os contra como os favoráveis. Destes, os que não desapareceram na poeira de outros caminhos, tornaram-se figuras visíveis da inteligência nacional. Dos contrários, os que tinham valor acabaram aceitando, e muitos aderindo ao movimento renovador. Os outros continuaram pura inteligência de abastecimento urbano. O nome deles acaba onde a cidade acaba.
Ahá! Esse, em negrito, é o pai do intelecutal desesperado. Outro desesperado. Segurou melhor a onda, manteve a calma, e ganhou um fardão.
terça-feira, janeiro 24, 2006
Fatos que rimam
Curiosamente, o tradutor de “Os caduveo”, leitura de férias que mencionei dois posts atrás, é o tal amigo em talas do Graciliano, descrito na crônica abaixo. A “pensão” a que se refere é obviamente a prisão política do Getúlio, experiência minuciosamente descrita em “Memórias do Cárcere”. Lá, dizia que o tal Júnior o aborrecia para que lesse os seus escritos. Não sei se o trabalho de tradução da obra de Boggiani foi fruto do bizarro anúncio descrito na crônica abaixo, pois não conheço a cronologia dos fatos. Na edição em questão, há uma única nota do tradutor, relacionando um personagem de uma festa caduveo, que lembra a morte vestida de lençol e capuz branco, fechado com um pedaço de pano preto para esconder o rosto, com a “côca” - imagino que seja a Cuca – do folclore paulista, mencionada por seu pai em uma obra chamada “Tradições Populares”. Fatos que rimam, como disse Paul Auster em “A invenção da solidão”.
Um amigo em talas
(Graciliano Ramos)
O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: "Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.
O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral Júnior: "Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: dêem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Dêem-me trabalho." E, catalogando as suas habilidades: "Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Dêem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo."
De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.
É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.
O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.
A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.
Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?
Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
("Linhas tortas", Editora Record - Rio de Janeiro, 1983, pág. 125)
Um amigo em talas
(Graciliano Ramos)
O meu antigo companheiro de pensão Amadeu Amaral Júnior, um homem louro e fornido, tinha costumes singulares que espantavam os outros hóspedes.
Para falar com propriedade, aquilo não era exatamente pensão, mas isto não tem importância: com um pouco de esforço podíamos admitir que estávamos numa pensão de gente bem comportada. Bocejávamos em demasia, contávamos as pessoas que subiam ou desciam um morro próximo, dormíamos cedo e recebíamos com regularidade a visita do gerente do estabelecimento, o major Nunes, ótima criatura que deixou o cargo por lhe faltar o espírito do negócio.
Amadeu Amaral Júnior vestia-se com sobriedade: usava uma cueca preta e calçava medonhos tamancos barulhentos. Fora isso, o que tinha em cima do corpo era a barba, economicamente desenvolvida, uma barba enorme. Parecia um troglodita. Alimentava-se mal, espichava-se na cama, roncava o dia inteiro e passava as noites acordado, passeando, agitando o soalho, o que provocava a indignação dos outros pensionistas. Quando se cansava, sentava-se a uma grande mesa ao fundo da sala e escrevia o resto da noite. Leu um tratado de psicologia e trocou-o em miúdo, isto é, reduziu-o a artigos, uns quarenta ou cinqüenta, que projetou meter nas revistas e nos jornais e com o produto vestir-se, habitar uma casa diferente daquela e pagar ao barbeiro.
Mudamo-nos, separamo-nos, perdemo-nos de vista. Creio que os artigos de psicologia não foram publicados, pois há tempo li este anúncio num semanário: "Intelectual desempregado. Amadeu Amaral Júnior, em estado de desemprego, aceita esmolas, donativos, roupa velha, pão dormido. Também aceita trabalho”.
O anúncio não produziu nenhum efeito, é o que meses depois, nos declara Amadeu Amaral Júnior: "Minha situação continua preta. Reitero o apelo às almas bem formadas: dêem de comer a quem tem fome, uma fome atávica, milenária. Dêem-me trabalho." E, catalogando as suas habilidades: "Escrevo poesias, crônicas, contos (policiais, psicológicos, de aventura, de terror, de mistério), novelas, discursos, conferências. Sei inglês, francês, italiano, espanhol e um bocado de alemão. Dêem-me trabalho pelo amor de Deus ou do diabo."
De literato brasileiro não conheço página mais sincera e razoável que essa. Ao ler o pedido de roupa velha e pão duro, fiquei meio escandalizado, mas refletindo, confessei publicamente que o meu velho companheiro procedia com acerto. E agora, completamente solidário com ele, admiro a exposição que nos faz das suas aptidões e lamento que não as utilizem.
É evidente que Amadeu Amaral Júnior conhece bem o nosso mercado literário e apregoa as mercadorias mais próprias para o consumo: discursos, contos policiais, de aventura, de terror e de mistério. Julgo que vive sem ocupação por não haver falado antes nisso.
O meio cento de artigos redigidos naquelas noites de insônia encalhou certamente na redação, preterido pelas novelas de arrepiar cabelos. Indignado, Amadeu Amaral Júnior oferece de novo os seus préstimos ao editor, afirmando que também sabe compor histórias policiais, de aventura, de terror e de mistério, que arrancam lágrimas e se vendem regularmente.
A maneira como pede trabalho, pelo amor de Deus ou do diabo, revela que o escritor está impaciente e talvez não escrupulize em pôr a sua pena a serviço de qualquer dessas duas entidades, o que não admira, pois Amadeu é jornalista.
Muita gente se espanta com o procedimento desse amigo. Não sei por quê. Os fabricantes anunciam os seus produtos e os sujeitos desempregados costumam, desde que há jornais, dizer neles para que servem. Por que apenas o articulista, precisamente o indivíduo capaz de arrumar umas linhas com decência, deve calar-se e roer chifres?
Eu por mim acho que Amadeu Amaral Júnior andou muito bem. Todos os jornalistas necessitados deviam seguir o exemplo dele. O anúncio, pois não. E, em duros casos, a propaganda oral, numa esquina, aos gritos. Exatamente como quem vende pomada para calos.
("Linhas tortas", Editora Record - Rio de Janeiro, 1983, pág. 125)
domingo, janeiro 22, 2006
Férias na praia
Parecia um circo nômade. Minhas filhas estavam espalhadas pelas praias, e depois de entulharmos o carro com um imenso super, saímos na manhã do dia 9, uma segunda ensolarada, e chegamos ao meio-dia. A casa, antigona, confortável e funcional, a poucos passos da praia, na sombra de velhos chapéus-de-sol. Com o pacote da locação a preço de custo – o senhorio é irmão do amigo com quem dividimos a casa e não tinha aparecido nenhum negócio melhor – vinha um casal caseiro, que segurava todas, barraca, cadeiras na praia, aperitivos, comida, tudo. À noitinha chegou o outro casal, vindo do interior, o que foi comemorado com um banho de mar noturno, com direito a plâncton fosforescente e lua quase cheia. Depois, adolescentes de 12 a 25 anos vinham e iam, o que garantia boa animação ao circo, e viramos o centro de nossas próprias atenções.
Oito dias de flat total, sol saárico, e a minha rotina era nadar um pouco mais de uma hora de manhã, leituras, drinques e conversas à sombra da castanheira encostada ao muro de pedra da praia – melhor que a sombra da barraca – almoço, cochilo, e uma longa corrida, em hora calculada para apreciar o pôr-do-sol em falso mar, e acabar com o nascer da lua, e mais um banho de mar com plâncton fosforescente.
Pusemos para funcionar um antigo barco de alumínio de outro irmão do meu amigo, parado há cinco anos, e fizemos um piquenique em ilha próxima, num dia com toda a troupe adolescente do circo (duas viagens). Em outro dia, com o dono do barco e seu filho, mais eu e meu amigo, fizemos um maravilhoso mergulho num parcel, uma pedra submersa perdida de localização mais ou menos secreta. O rapaz estava iluminado e pegou quatro grandes garoupas. Seu pai, um mergulhador experiente e de grande passado, pegou dois peixes pequenos. Meu amigo pegou só um grande siri. Eu, que não sou do ramo, fiquei muito feliz em aos poucos, e sem pressa, chegar até o parcel e vislumbrar as suas tocas, para o que era necessário descer pelo menos uns cinco ou seis metros, saindo da água quente para a gelada, depois de uma incômoda adaptação com um dor na testa de sinusite. No fim estava bem à vontade e a coisa estava me dando muito prazer. O tempo da descida, a água gelada e a vida ao redor da pedra, e a subida em direção ao teto de céu e a lâmina da superfície da água. Lindo. A euforia do sucesso raro da pescaria tornaram o evento especial e muito comemorado, valendo a pena ter participado.
Terça-feira última apareceram uma ondas mínimas para o surfe digno, que substituiu a natação, o que se repetiu na quarta. Quinta-feira, ao acordar, pelo barulho do mar percebi que alguma coisa havia mudado. De fato, encostou uma ondução de respeito, e o surfe de verdade começou. Sedento da coisa, e em forma suficiente depois de tanto exercício, me joguei numa intensa sessão de três horas maravilhosas. Saí antes da estafa total, para peitar outra sessão no fim-da-tarde, quando o mar devia estar liso pela falta de vento, e a formação próxima da perfeição. Ao sair do mar, percebi que havia algo de errado. Uma seqüela em uma costela quebrada anos atrás deu o ar de sua graça, e a incômoda dor voltou com tudo. Mal podia me mover. Fazer o que? Não podia reclamar. A sorte de ondas de verdade entrarem e o ótimo surfe já tinham acontecido. De fato, no fim da tarde o mar ficou espetacular, a formação excelente, praticamente um surfista pra cada lado em cada onda, no pico na frente de casa, com ótimo tamanho. No dia seguinte, o mar caiu bastante, mais ainda havia um surfe razoável. Perdi, no fim, quatro boas sessões, pois hoje de manhã ainda havia alguma coisa.
Foram treze dias de paz e sol, água quente, e busca incessante da sereia. De dia, de noite, antes e depois da arrebentação, no meio do mar, na ilha, no parcel submerso, gritando telepaticamente para o grande espelho da lua, boiando olhando as estrelas e examinando o fundo do mar nas longas nadadas. E nada.
domingo, janeiro 08, 2006
Kadiweu
Estou saindo de férias. Se tudo der certo, fico quinze dias na praia. Mais certo ainda, se entrarem umas ondas, nessa época ingrata. E ainda mais certo ainda, se o tempo estiver bom. Deu um trabalhão pra preparar tudo. Um imenso supermercado, mil e uma providências. O plano é simples: nadar, correr, surfar, comer, beber, jogar conversa fora, e ler. A companhia é ótima. Vamos dividir uma casa com outra família super legal. E certamente encontraremos bastante gente, sem ter nem que entrar no carro. Vida de índio no tempo das vacas gordas.
Para entrar no clima, o primeiro livro que escolhi é “Os caduveo”, de um tal Guido Boggiani, uma edição de 1945 ricamente ilustrada, que encontrei numa biblioteca que freqüento, em uma busca mais ou menos aleatória. Li já a longa introdução de outro tal Herbert Baldus, que situa a obra no contexto dos estudos e relatos até então existentes sobre a fascinante nação Gauicuru, da qual que os Cadiveu, Caduveo ou Kadiweu são um ramo, que dominou a planície do pantanal matogrossense e o chaco paraguaio por séculos. Os relatos iniciam-se com os jesuítas das missões, passando por militares espanhóis e portugueses. Como disse um deles, faziam guerra a todo o gênero humano. Grandes, maiores que os europeus, se adaptaram imediatamente ao cavalo, e se tornaram pastores de gado bovino e ovino. Ferocíssimos guerreiros, vestiam-se de peles de onça, que acreditavam torná-los invulneráveis, e combatiam com a massa e a lança em cargas de cavalaria precedidas de estouros da manada. Em uma época quase exterminaram os espanhóis do Paraguai, eram superiores a todas as tribos vizinhas e dominavam um vasto território com a velocidade do cavalo. Os bravos bandeirantes paulistas, quando topavam com eles, fugiam em desabalada carreira para o mato, pois na campina pantaneira não tinham a menor chance. Esta nação era uma fascinante sociedade estratificada, liderada pelos nobres de sangue, e escravos de todas as etnias, inclusive europeus, que eram tratados com a mesma benevolência que dedicavam aos cavalos e gado, e bastante liberdade, com vários canais de miscigenação. Eram orgulhosos caçadores, pescadores e ladrões, e deixavam a agricultura aos cativos e tribos subservientes. Uma das explicações para o seu declínio vem de uma prática das vaidosas capitanas guaicurus, de abortarem todos os filhos concebidos até o qual sentiam fosse o último de sua vida fértil, e assim terem um filho só. Os motivos são a preservação do corpo para o deleite do marido, e a mobilidade que uma tribo nômade precisa ter. Cada nobre guaicuru andava com um pequeno séquito de escravos, e apesar de monogâmicos em princípio cultivavam uma expressiva liberdade sexual. Curiosa a citação de outro ainda tal Almeida Serra, militar português que fez um dos mais importantes relatos sobre os Guaicurus:
“Cada mulher, e principalmente as donas, tem um e dois chichisbéus, que sempre andam e dormem mesmo ao seu lado, dos quais os maridos não têm ciúmes, dizendo que é para sua guarda e vigia, sendo que algum destes chibantes o que ordinariamente casa com ela quando o marido faz o mesmo com outra mulher. Separados estes casais, e cada um para o seu antigo domicílio, sucede que tendo ligado no tempo desta separação um e dois casamentos, tornam novamente a se casarem estes antigos consortes; e quando não casam, sempre ficam afeiçoados para se conhecerem cada vez que querem. O fim das suas beberronias, em que empregam grande parte do ano, e em que eles e elas tudo fica bêbado, termina sempre em cada qual ir buscar sua convivência, sem que o homem se lembre da mulher, nem ela do marido, mas sim das suas inclinações, não se negando uns aos outros nos lugares recônditos que buscam, no mato ou no rio para estes bacanais encontros.”
O relato de Boggiani, um artista e antropólogo amador, do qual agora estou só a um prefácio de distância de um outro antropólogo italiano, é um diário de viagem do fim do século XIX, período em que os Guaicurus estavam em franco declínio, mas ainda eram perigosos e mantinham o seu inabalável orgulho e sentimento de superioridade. Boggiani foi morto em uma outra viagem posterior por seus guias chamacocos, tribo do chaco paraguaio submissa aos guaicurus, assassinato motivado pelo pavor dos guias de adentrarem no território guaicuru. É algo entre Júlio Verne e Tintin, supostamente real.
Há alguns anos atrás fiz uma viagem a Bonito, em pleno território kadiweu, e lá comprei um enorme vaso da linda cerâmica que eles comercializam. Comprei o trambolho porque as índias mais velhas e talentosas fabricam os grandes, deixando para as adolescentes os pequenos, que acabam sendo mais singelos. Depois tive notícia que uns arquitetos brasileiros, que ganharam um concurso internacional para a recuperação de um grande conjunto habitacional na Berlim Oriental, usaram como elemento decorativo azulejos com estampas feitas pelas índias, que tiveram os seus direitos intelectuais preservados em uma ação pioneira de um advogado que há anos se dedica à causa Kadiweu. Ao que consta o Darcy Ribeiro iniciou sua carreira de antropólogo estudando os Kadiweu.
O meu plano era levar mais um ou dois Saramagos, dentre os vários que me foram indicados como preferidos por amigos leitores que muito prezo e respeito. Pretendia retirá-los da biblioteca do clube, onde fui cortar o cabelo ontem depois do almoço. Vi a coleção completa através do vidro da estante, mas não havia mais nenhum funcionário para me atender. Paciência. Levo ainda, outra indicação, um escritor húngaro Sandor Marai. A dica era “As brasas”, mas só encontrei “Divórcio em Buda”. Duas na trave, mas paciência, o controle sobre nossas próprias vidas é relativo.
Para entrar no clima, o primeiro livro que escolhi é “Os caduveo”, de um tal Guido Boggiani, uma edição de 1945 ricamente ilustrada, que encontrei numa biblioteca que freqüento, em uma busca mais ou menos aleatória. Li já a longa introdução de outro tal Herbert Baldus, que situa a obra no contexto dos estudos e relatos até então existentes sobre a fascinante nação Gauicuru, da qual que os Cadiveu, Caduveo ou Kadiweu são um ramo, que dominou a planície do pantanal matogrossense e o chaco paraguaio por séculos. Os relatos iniciam-se com os jesuítas das missões, passando por militares espanhóis e portugueses. Como disse um deles, faziam guerra a todo o gênero humano. Grandes, maiores que os europeus, se adaptaram imediatamente ao cavalo, e se tornaram pastores de gado bovino e ovino. Ferocíssimos guerreiros, vestiam-se de peles de onça, que acreditavam torná-los invulneráveis, e combatiam com a massa e a lança em cargas de cavalaria precedidas de estouros da manada. Em uma época quase exterminaram os espanhóis do Paraguai, eram superiores a todas as tribos vizinhas e dominavam um vasto território com a velocidade do cavalo. Os bravos bandeirantes paulistas, quando topavam com eles, fugiam em desabalada carreira para o mato, pois na campina pantaneira não tinham a menor chance. Esta nação era uma fascinante sociedade estratificada, liderada pelos nobres de sangue, e escravos de todas as etnias, inclusive europeus, que eram tratados com a mesma benevolência que dedicavam aos cavalos e gado, e bastante liberdade, com vários canais de miscigenação. Eram orgulhosos caçadores, pescadores e ladrões, e deixavam a agricultura aos cativos e tribos subservientes. Uma das explicações para o seu declínio vem de uma prática das vaidosas capitanas guaicurus, de abortarem todos os filhos concebidos até o qual sentiam fosse o último de sua vida fértil, e assim terem um filho só. Os motivos são a preservação do corpo para o deleite do marido, e a mobilidade que uma tribo nômade precisa ter. Cada nobre guaicuru andava com um pequeno séquito de escravos, e apesar de monogâmicos em princípio cultivavam uma expressiva liberdade sexual. Curiosa a citação de outro ainda tal Almeida Serra, militar português que fez um dos mais importantes relatos sobre os Guaicurus:
“Cada mulher, e principalmente as donas, tem um e dois chichisbéus, que sempre andam e dormem mesmo ao seu lado, dos quais os maridos não têm ciúmes, dizendo que é para sua guarda e vigia, sendo que algum destes chibantes o que ordinariamente casa com ela quando o marido faz o mesmo com outra mulher. Separados estes casais, e cada um para o seu antigo domicílio, sucede que tendo ligado no tempo desta separação um e dois casamentos, tornam novamente a se casarem estes antigos consortes; e quando não casam, sempre ficam afeiçoados para se conhecerem cada vez que querem. O fim das suas beberronias, em que empregam grande parte do ano, e em que eles e elas tudo fica bêbado, termina sempre em cada qual ir buscar sua convivência, sem que o homem se lembre da mulher, nem ela do marido, mas sim das suas inclinações, não se negando uns aos outros nos lugares recônditos que buscam, no mato ou no rio para estes bacanais encontros.”
O relato de Boggiani, um artista e antropólogo amador, do qual agora estou só a um prefácio de distância de um outro antropólogo italiano, é um diário de viagem do fim do século XIX, período em que os Guaicurus estavam em franco declínio, mas ainda eram perigosos e mantinham o seu inabalável orgulho e sentimento de superioridade. Boggiani foi morto em uma outra viagem posterior por seus guias chamacocos, tribo do chaco paraguaio submissa aos guaicurus, assassinato motivado pelo pavor dos guias de adentrarem no território guaicuru. É algo entre Júlio Verne e Tintin, supostamente real.
Há alguns anos atrás fiz uma viagem a Bonito, em pleno território kadiweu, e lá comprei um enorme vaso da linda cerâmica que eles comercializam. Comprei o trambolho porque as índias mais velhas e talentosas fabricam os grandes, deixando para as adolescentes os pequenos, que acabam sendo mais singelos. Depois tive notícia que uns arquitetos brasileiros, que ganharam um concurso internacional para a recuperação de um grande conjunto habitacional na Berlim Oriental, usaram como elemento decorativo azulejos com estampas feitas pelas índias, que tiveram os seus direitos intelectuais preservados em uma ação pioneira de um advogado que há anos se dedica à causa Kadiweu. Ao que consta o Darcy Ribeiro iniciou sua carreira de antropólogo estudando os Kadiweu.
O meu plano era levar mais um ou dois Saramagos, dentre os vários que me foram indicados como preferidos por amigos leitores que muito prezo e respeito. Pretendia retirá-los da biblioteca do clube, onde fui cortar o cabelo ontem depois do almoço. Vi a coleção completa através do vidro da estante, mas não havia mais nenhum funcionário para me atender. Paciência. Levo ainda, outra indicação, um escritor húngaro Sandor Marai. A dica era “As brasas”, mas só encontrei “Divórcio em Buda”. Duas na trave, mas paciência, o controle sobre nossas próprias vidas é relativo.
quinta-feira, janeiro 05, 2006
Felice morte
Eu, agnóstico histórico, sempre tive uma tendência a achar que não vale a pena pensar sobre a morte, temos que viver a vida e pronto. Daí acabou. Melhor tentar esquecer que vamos morrer, e viver até o último momento como se a gadanha medonha jamais fosse nos atingir. Mas ultimamente tenho trombado em profundas reflexões sobre a dita cuja, como o “Memória de Minhas Putas Tristes” do Gabriel Garcia Márquez, “A Sereia e o Senador”, de Tomasi di Lampedusa, “As Intermitências da Morte, do José Saramago, e por último, “A Invenção da Solidão”, do Paul Auster, e estou tendendo a mudar minhas convicções. Todos sabemos que vamos morrer, vamos perder os entes queridos mais velhos do que nós, e faltar aos mais jovens, salvo inversão da ordem natural. Nada mais certo do que isso. E porque temos tanto medo da morte? A religião sempre tentou minimizar esse pavor com fantasias de imortalidade da alma, paraíso, ressurreição, reencarnação, passagem para outra dimensão, outros planetas, e outras bobagens, ao mesmo tempo que induziu o bom comportamento com o assustador inferno. Sempre tive uma visão cientificista da imortalidade da alma, meio darwiniana, um pouco oitocentista, de ser a tal permanência uma ilusão criada pelo instinto de sobrevivência da espécie, que no caso humano auxiliaria na acumulação e transmissão da cultura, essencial para a preservação do homem. Digo sempre que, na minha opinião, o apocalipse já aconteceu, a religião não cumpre mais o seu papel e só temos o suporte da ética. Livre das ilusões, porque temer a morte? Porque não caminhar resolutamente para a boa morte, depois de esgotada a boa vida? Porque não se preparar para a morte? Viver em função da preservação da espécie, da organização e transmissão da nossa imensa, monumental e utilíssima cultura, fonte do bem estar geral, não para ir para o céu ou evitar o inferno, mas só para ter uma boa morte, como foi um dia a morte heróica do soldado no campo de batalha, voluntariamente defendendo sua gente e sua cultura. No novo mundo sem fronteiras, com as culturas circulando com efeito exponencial, a guerra é contra a ignorância e a boa morte é a dos velhos. Corrupção, mesquinharia, arrogância, superioridade, preconceito, intolerância, fundamentalismo, tudo ignorância. Morrer tranqüilo com a missão cumprida, pranteado e lembrado pelos amigos e parentes. Claro que o risco faz parte do jogo e imprevistos acontecem. Como dizem os paulistanos, que assim acreditam que dizem os italianos, “e si non te vedo piu, felice morte”.
terça-feira, janeiro 03, 2006
Mortinha da Silva*
A morte espreita em cada esquina, em cada sombra, vão, desvão, buraco, abismo, canto, cruzamento, privada, genitália, maionese, em cada passante desconhecido, bandido, bactéria, vírus, voando em esporo ou muco, e sempre em potência no corpo prestes a degenerar. Na linha do tempo sempre está à frente, mas agindo pelas costas, armada do elemento surpresa. A não ser que se suba à rede, com coragem e desespero. Não precisa pressa é questão de tempo. A ampulheta escorrendo sua areia, sem que se saiba quanta areia tem, e em que velocidade vai. Dá pra fazer tudo o que precisa? Nunca. Pra que pressa? Bilhões de ampulhetas escorrendo ao mesmo tempo, umas no começo, outras no fim, a de todos, os queridos, odiados, indiferentes, necessários, úteis e voluptuários. Os de comer, os de apanhar, os de brincar, os de amparar, falar sério, xingar. Roubar, matar, trair, nunca, porque senão não vale a pena. Para os outros, pelos outros, ninguém quer um monstro no espelho. A vida e a morte. A morte, a grande verdade metafísica, a única, de massa infinita, onde toda a vida se descarrega, raios, relâmpagos, faíscas efêmeras sobre a terra. Eu nunca tinha pensado nisso, até a visão de uma sereia imortal. *Ficou um pouco pomposo, paciência. Pode bater à vontade.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
Um flarte com a morte
Acabei de ler “As intermitências da morte”, do José Saramago. É um livro engraçadíssimo, com sérias reflexões sobre grandes questões filosóficas, e finas ironias contra o estado e a igreja, que parte de um plano amplo, com personagens apenas esboçados, e vai fechar o foco apenas na última parte. Não conto nada pra não estragar o suspense, mas recomendo enfaticamente. É ótimo. É escrito em português de Portugal, e o autor fez questão de que não fosse traduzido para o brasileiro, mesmo na edição daqui. Então temos ideia sem acento (cá entre nós, bastante inútil), excepção, facto, as sanduíches, gadanha (o instrumento da morte, aquela foice de cabo longo com uma manete à meia altura, que em São Paulo se chama de alfange), o pequeno ecrã (a tela da tv) e outras curiosidades vernaculares. Quanto à sintaxe, chuto que o Saramago, do alto de sua autoridade de autor laureado e parâmetro da norma culta, ao pontuar e usar as maiúsculas contrariando as regras faz uma declaração de princípios sobre o uso da língua, e não apenas uma manifestação de estilo artístico. Tenha em mãos a trilha sonora. Um personagem é construído a partir de um estudo de Chopin, Opus 25, 9, de cinqüenta e oito segundos. E fundamental mesmo é a Suíte nº. 6, BWV 1012, citada a interpretação do Rostropovitch (incrível como os solos de violoncelo de Bach estão por toda parte, ultimamente). É um longo poema em prosa, em que o cinismo cáustico evolui para uma pungente situação íntima, na qual o flarte (de flirt, flerte) com a morte acaba por dar sentido à vida.
sábado, dezembro 24, 2005
No direction home

Meu primeiro Bob Dylan foi o Desire. Claro que eu já conhecia os seus clássicos, achava legais e coisa e tal, mas nunca me ocorreu comprar os discos. É um acetato grosso com o selo laranja da Columbia, comprado em 76. Na época eu escutava rock, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Deep Purple, Rolling Stones, essas coisas. Daí um dia eu ouvi no rádio “Hurricane”, recém lançada. Adorei na hora e fui correndo comprar. Não entendia nada do que ele cantava, mas tava na cara que era uma história triste e interessante, de um lutador de box chamado Hurricane preso injustamente. O senso dramático está presente desde o timbre e a levada precisa dos acordes menores no violão, no riff do violino, a bateria com escovinha, mas principalmente a entonação de quem tem alguma coisa muito importante pra dizer. Um testemunho emocionado e contagiante. Inspirador é talvez o comentário que mais aparece no “No direction home”, o super-documentário do Scorcese, de quatro horas, quando os entrevistados tentam defini-lo, e que eu assisti ontem (desculpe Robertão, mais um ano sem ver o seu especial de natal).
É sobre os primeiros anos do artista-herói. A formação musical na cidadezinha moribunda em Minnesota, ilustrada com trechos das interpretações dos discos de seu pai e das outras influências. O esforço pra sair de lá, os truques e mentiras, os discos roubados, a negação da origem judaica, e a construção do personagem Bob Dylan. O modelo decalcado foi o Woody Guthrie, de quem aprendeu todas as músicas, o que lhe valeu a entrada na cena folk do Village em Nova Iorque, gravando o primeiro disco em 1961, sem nenhuma composição, já por uma grande gravadora, totalmente moleque. As primeiras composições, ser sugado para o movimento dos direitos civis, mais pela turma que ele andava do que por vontade própria. E aí vem a revelação ou a tese do documentário, que é o mais interessante de tudo. Tudo o que ele queria ser era um deus pop, totalmente entregue às canções, e nunca pensou em ter uma atuação política. Seu modelo estético é calcado nos grandes artistas country, que nada têm a ver com o folk, misturado com o Woody Guthrie. É um personagem que renega o seu passado, sem lar e sem família, entregue à aventura beatnik e um trabalhador incansável. Aprendeu todas as músicas que pôde, e compunha furiosamente. Sugava tudo o que encontrava como uma esponja – há um depoimento nesse sentido – e depois dos Kerouac, Ginsberg, lia toda poesia que caía na sua mão, os da sua língua, entre os quais o de quem pegou o nome, os malditos franceses, tudo o que trombava nas suas andanças pelo Village. Aprendeu a escrever de modo incompreensível e enigmático, e cantava com a entonação profética que o transformou no “porta-voz de uma geração”. Imagens e histórias. Interpretava as canções com um olhar de louco perdido no vazio revirando os olhos e a cabeça jogada pra trás. O máximo.
A impressão que o documentário dá é que ele ficou aprisionado na tal da cena folk, dos músicos “íntegros” que pouco compunham e executavam música antiga folclórica, intelectuais do bairro boêmio, comunistas engajados em uma luta política. Depois de super-exposto na luta dos direitos civis e conquistar o sempre negado título de líder porta-voz cantor de música de protesto, Dylan, ao atingir precocemente sua maturidade como artista, em 1965 começa a eletrificar a sua música, levando ao festival folk de Newport a banda de rock que gravou o 61 Highway Revisited (Like a Rolling Stone), com o super guitarrista Mike Bloomfield. Foi patrulhado e perseguido pela turma do violãozinho, vaiado, e tocou só três músicas. No ano seguinte, 66, montou uma super turnê européia com a banda que viria a ser The Band, com um afiadíssimo som elétrico, um repertório de meter medo – pelo que eu entendi uma parte do show era violão e voz e outra com a banda – terninhos dos melhores estilistas do mundo do rock, reclamando por direito o seu lugar no panteão pop. Foi patrulhado, perseguido e vaiado na Europa inteira. Ficou oito anos sem sair em turnê.
A sensação que eu fiquei é que ele fez um enorme esforço para ser uma estrela pop, e quando chegou lá, a via de acesso que ele usou, que foi a oportunidade que lhe apareceu, puxou-lhe o tapete. Não escrevia para mudar o mundo, fazer política e liderar uma geração. Ele explicitamente nega isso em todas as oportunidades. Mas sobre si e sobre a sua odisséia ao olimpo pop. Pra mim, quando ele pergunta, “How does it feel, to be without a home, like a rolling stone”, está falando de si mesmo. Nessa época, os Rolling Stones dominavam as paradas. Assim como quando cantou “how many roads must a man walk down, before he call him a man”, falava de si próprio e da distância que estava da sua meta. A Revolução é pessoal.
sexta-feira, dezembro 23, 2005
A salvação da alma (post de natal)
Pois é. Porque a alma precisaria de salvação? Porque a salvação se daria através do simbólico sacrifício de um humano, imolado como um bode de macumba? Essa a salvação temporária, de todo dia, arroz-com-feijão. A definitiva, após a morte, a ressurreição e a vida eterna. E ainda, depois de depois da morte, o apocalipse e a ressurreição de toda a humanidade, para todo o sempre. Haja pecado. O original, a prova do fruto do conhecimento, a consciência racional de nós mesmos. Abdicamos de ser budas, como os animais, pelo uso da palavra. O famoso verbo. Depois, os capitais, tabus de convivência a serem quebrados no cotidiano, a angustiante respiração de controle dos instintos do civilizado. Impulso, pecado, culpa, arrependimento, perdão, impulso, pecado, culpa, arrependimento, perdão. Acredito que nós humanos nunca ficaremos prontos, estamos sempre evoluindo, e nesse processo a religião cristã foi um salto à frente. É uma visão otimista. O deus-juiz que pune e perdoa, antes externo e paternal, depois de Cristo foi introjetado e agora faz parte de nós. Deus e o demônio, a luz e a sombra, convivem dentro de nós, em uma luta constante. Impulso, pecado, culpa, arrependimento, perdão. Os dogmas da religião são pacotes psicológicos que preenchem lacunas filosóficas e têm uma função nesse processo, de construção da civilização e da cultura. Cá pra mim, o apocalipse já aconteceu e não precisamos mais da religião, que não consegue mais cumprir o seu papel. Só nos resta a ética. Mas vamos festejar o nascimento do cordeiro que assassinaremos na páscoa, como fazemos todo ano, convenientemente marcando a virada do odômetro do calendário gregoriano. Vamos festejar mais uma circunvolução da Terra em volta do Sol. Vamos encher a cara, abraçar a família no natal, os amigos no reveillon, e começar, leves e zerados, outro ano.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
G, o gênio do boteco
Como o G, o gênio do boteco, causou forte impressão com maravilhoso refrão carnavalesco “hoje eu vou morder seu silicone”, e atendendo a pedidos traço aqui um breve perfil deste fascinante personagem. Se alguém perceber de quem se trata, favor não comentar nem dar bandeira, porque o G abomina publicidade.
Conheço o G há muitos e muitos anos, desde o ginásio, mas fiquei amigo dele mesmo depois que saímos da escola e nos estabelecemos em escritórios próximos. Passamos a nos encontrar para drinks no fim da tarde com regularidade há mais de vinte anos. No começo éramos jovens fortes e metidos, e tomávamos principalmente uísque, o que engendrava uma velocidade de embebedamento um pouco alta, e o porre total era mais ou menos freqüente. Os locais e os outros convivas variavam mas a falta de outras companhias nunca nos impediu de beber e falar bobagem. Com o tempo fomos deixando o uísque em favor do chopp, que permite uma relação permanência na mesa/estrago um pouco mais branda.
G tem uma característica. Não sei bem porque, mas desconfio que seja uma ressonância telepática com as pessoas do seu entorno próximo. Depois do quarto ou quinto uísque ou o equivalente em álcool de outra bebida, G às vezes se transforma. Como que possuído por um ente sobrenatural, ou como quando o Hulk fica nervoso, ou o Popeye come espinafre, ou o Jerry Lewis em “Professor Aloprado” toma o elixir de Buddy Love, G começa a interagir com as pessoas ao seu redor, conhecidas ou não, fazendo uma espécie de stand-up comedy ou teatro do improviso, ou um sermão de Vieira, um advogado no júri, tomado da convicção dos loucos, contando um caso escabrosíssimo, fazendo considerações filosóficas, sociológicas, e políticas, imitando Miltinho, Elvis ou Dick Farney e Lúcio Alves, com sua sonora voz de cantor inato, ou outra loucura qualquer. Uma vez o vi manipular um bar inteiro lotado, na época da novela “A próxima vítima”, em que cada mesa esperava ansiosamente a sua vez. Outra, ele subiu em cima do piano de meia-cauda e de lá fazia o seu número. Em outra ainda, caiu com a cadeira e tudo de costas no chão, e continuou o seu discurso na horizontal, por um bom tempo, como se nada houvesse acontecido.
Claro que são eventos raros, como os abalos sísmicos, os furacões, e outras manifestações telúricas, sem nenhuma regularidade, que acontecem uma vez por ano ou menos ainda. G é um responsável chefe de família, bom pai, bom marido e bom filho, bem educado e cordato, e até bastante discreto. Naturalmente é inteligente, criativo e engraçado. E não tem nada de louco, embora nesses momentos especiais, com os olhos arregalados e o sampacu acentuado, a sua expressão fique um pouco assustadora.
Conheço o G há muitos e muitos anos, desde o ginásio, mas fiquei amigo dele mesmo depois que saímos da escola e nos estabelecemos em escritórios próximos. Passamos a nos encontrar para drinks no fim da tarde com regularidade há mais de vinte anos. No começo éramos jovens fortes e metidos, e tomávamos principalmente uísque, o que engendrava uma velocidade de embebedamento um pouco alta, e o porre total era mais ou menos freqüente. Os locais e os outros convivas variavam mas a falta de outras companhias nunca nos impediu de beber e falar bobagem. Com o tempo fomos deixando o uísque em favor do chopp, que permite uma relação permanência na mesa/estrago um pouco mais branda.
G tem uma característica. Não sei bem porque, mas desconfio que seja uma ressonância telepática com as pessoas do seu entorno próximo. Depois do quarto ou quinto uísque ou o equivalente em álcool de outra bebida, G às vezes se transforma. Como que possuído por um ente sobrenatural, ou como quando o Hulk fica nervoso, ou o Popeye come espinafre, ou o Jerry Lewis em “Professor Aloprado” toma o elixir de Buddy Love, G começa a interagir com as pessoas ao seu redor, conhecidas ou não, fazendo uma espécie de stand-up comedy ou teatro do improviso, ou um sermão de Vieira, um advogado no júri, tomado da convicção dos loucos, contando um caso escabrosíssimo, fazendo considerações filosóficas, sociológicas, e políticas, imitando Miltinho, Elvis ou Dick Farney e Lúcio Alves, com sua sonora voz de cantor inato, ou outra loucura qualquer. Uma vez o vi manipular um bar inteiro lotado, na época da novela “A próxima vítima”, em que cada mesa esperava ansiosamente a sua vez. Outra, ele subiu em cima do piano de meia-cauda e de lá fazia o seu número. Em outra ainda, caiu com a cadeira e tudo de costas no chão, e continuou o seu discurso na horizontal, por um bom tempo, como se nada houvesse acontecido.
Claro que são eventos raros, como os abalos sísmicos, os furacões, e outras manifestações telúricas, sem nenhuma regularidade, que acontecem uma vez por ano ou menos ainda. G é um responsável chefe de família, bom pai, bom marido e bom filho, bem educado e cordato, e até bastante discreto. Naturalmente é inteligente, criativo e engraçado. E não tem nada de louco, embora nesses momentos especiais, com os olhos arregalados e o sampacu acentuado, a sua expressão fique um pouco assustadora.
terça-feira, dezembro 20, 2005
Carnaval 2006
Ontem, afogando as mágoas do bom velhinho, que este ano não trará o presente que eu pedi (será que eu não fui um bom menino?), em meio a uma enxurrada de idéias imbecis surgiu uma pérola antropofágica, que se o Chacrinha estivesse vivo, e o carnaval de marchinhas ainda existisse, valeria milhões de dólares. Uma criação do G, de gênio do boteco, e minha (só fiz a rima óbvia):
Eu hoje vou morder seu silicone
Tô com fome
Tô com fome
Eu hoje vou morder seu silicone
Tô com fome
Tô com fome
domingo, dezembro 18, 2005
Na baixada

Cidade baixa. Ô filmão. Só a cor do sangue está errada.
A caminhada ao longo do rio duraria o dia inteiro. A falta de trilha e a necessidade de saltar de pedra em pedra, ainda que já não estivesse caminhando por dentro d’água, tornavam a marcha bastante lenta. Procurava ser discreto, tinha com medo de ser capturado pelos devoradores de homens. Sua fome agora era um estado crônico, amainado pelos frutos que encontrava pelo caminho, verdes, passados, ou semi-comidos por pássaros. Mas achava que tudo ia bem, estava inteiro, andando, e sentia que suas forças eram suficientes para chegar ao litoral. Até que sentiu uma violenta pedrada na panturrilha direita. Sua primeira reação foi olhar para trás e procurar quem havia desferido o petardo. Só a mata e o marulho do rio. Em seguida, olhou para baixo e levou a mão à perna. Tinha uma flecha espetada lá. Desanimou. Havia sido pego pelos tupinambás. Sabia que eles não andavam sozinhos na mata e naquele estado não teria a menor chance de fugir. Enquanto tentava arrancar a flecha da sua perna, seis ou sete deles o cercaram cubrindo-o-o de porrada. E gritando frases em tupi que ele já conhecia de ouvir contar, que significavam alguma coisa como “perdeu, mano, e você vai virar o meu jantar”, ou “seu português filha-da-puta, você matou meu irmão, e agora você vai ver o que é bom pra tosse”, ou, “você é o bichinho que caiu na minha arapuca e eu vou assar no espeto”. Enquanto apanhava e ouvia esses gritos ameaçadores lembrava de alguém falando que tupinambás não comiam escravos, pois não eram dignos da honraria reservada aos guerreiros. Agarrou-se mentalmente a essa duvidosa informação para manter o ânimo. Foi amarrado pelo pescoço com várias cordas, cada uma segura por um deles, e levado até o rio. Lá, enquanto continuava a tomar cascudos, croques, tapas e pontapés, em meio a gargalhadas e impropérios, e era seguro por mil mãos, teve a flecha retirada da sua perna, com o auxílio de uma faca, o que doeu horrores. A ferida foi lavada e ungüentada. Deram-lhe de beber e de comer, uma paçoca de farinha de mandioca com carne torrada esfarelada, que ele comeu com sofreguidão. Daí, puseram-no para andar, e os trancos e puxões no pescoço eram tamanhos que volta e meia perdia a respiração. Dali a umas duas horas chegou à taba e foi entregue às mulheres, em meio a uma grande gritaria e gargalhadas, naquele mesmo teor: jantar, filha-da-puta, vingança e animal capturado. As mulheres o arrastaram para uma grande oca escura e fresca, através de uma pequena abertura baixa, com a mesma violência de puxões nas cordas do pescoço, gritos, imprecações e gargalhadas, e ainda arranhões e mordidas, e ficaram examinando-o-o, apertando-o-o, puxando suas partes, até que perceberam que ele estava além do limite de suas forças e o puseram numa rede, amarrando longe as várias cordas que estavam no seu pescoço, de modo que podia se mover menos de um palmo. Absolutamente esgotado, Pecus* desacordou.
*Aqui, em trajes de banho, 2003, Dia do Trabalho, Itamambuca.
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Top top 15
Tá certo, estou entre os top quinze, e o ego está um pouco maior hoje. Claro que tem algo de duvidoso nesse mérito, e algum retrogosto de ridículo, como a Daniela Winitz deve ter sentido quando encabeçou uma lista de melhor peito de silicone da praça. E top, top, top, me lembra o gesto característico do Fradim, aquele gênio que inventou o peido no elevador. O sitemeter enlouqueceu, o que mostra o poder da comissão julgadora na blog-o-land, e acredito que bastante gente tenha se decepcionado com as minhas considerações sobre auto-flagelação, culpa, castração e amores falidos. É uma fase. Há algo de fantástico nessa nova forma de comunicação, os blogs. Escrevemos nossas baboseiras em casa, ou roubando tempo ao patrão, na mais absoluta solidão, e disparamos o míssil no espaço, ou lançamos a mensagem da garrafa na maré, e acertamos justamente naqueles que vão entender nossa loucura. Como disse o Saramago a uma amiga minha, muito tempo atrás, não estamos tão sozinhos quanto pensamos. Obrigado Denise, Márcia e Leila, e toda a comissão julgadora, que eu não conhecia mas agora vou prestar muita atenção.
Pássaro Preto
Blackbird
Lennon/McCartney
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly.
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see.
All your life
You were only waiting for this moment to be free.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Assim assassinei (recomenda-se sotaque caipira):
Pássaro Preto
Pass’o Preto no meio da noite a cantar
Pega essas asa quebrada e aprende a voar
Vida inteira
Tava só esperando a hora certa de decolar
Pass’o Preto no meio da noite a cantar
Pega esses zóio afundado e começa a enxergar
Vida inteira
Tava só esperando a hora certa de se libertar
Pass’o Preto Vai
Pass’o Preto Vai
No meio da noite no escuro a cantar
Essa música tem uma curiosa semelhança com “Assum Preto”, do rei do baião, a história triste dos olhos furados. Aliás, o assum preto é a mesma ave que a graúna (nome indígena que significa ave negra), assim chamado no nordeste, que é conhecida em São Paulo por pássaro preto ou vira, de vira-bosta. É um grande cantor, capaz de aprender melodias, e ainda truques, sendo de fácil domesticação. Alguns até criados soltos. Assum preto só pode ser corrutela de pássaro preto, truncado em pass’o preto. Só não sei se a ave de Lennon e McCartney existe. Desconfio que seja uma ave poética. Poucas aves cantam à noite e é muito conveniente para a letra que seja negra. São duas grandes canções.
Assum Preto
Lennon/McCartney
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly.
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see.
All your life
You were only waiting for this moment to be free.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Assim assassinei (recomenda-se sotaque caipira):
Pássaro Preto
Pass’o Preto no meio da noite a cantar
Pega essas asa quebrada e aprende a voar
Vida inteira
Tava só esperando a hora certa de decolar
Pass’o Preto no meio da noite a cantar
Pega esses zóio afundado e começa a enxergar
Vida inteira
Tava só esperando a hora certa de se libertar
Pass’o Preto Vai
Pass’o Preto Vai
No meio da noite no escuro a cantar
Essa música tem uma curiosa semelhança com “Assum Preto”, do rei do baião, a história triste dos olhos furados. Aliás, o assum preto é a mesma ave que a graúna (nome indígena que significa ave negra), assim chamado no nordeste, que é conhecida em São Paulo por pássaro preto ou vira, de vira-bosta. É um grande cantor, capaz de aprender melodias, e ainda truques, sendo de fácil domesticação. Alguns até criados soltos. Assum preto só pode ser corrutela de pássaro preto, truncado em pass’o preto. Só não sei se a ave de Lennon e McCartney existe. Desconfio que seja uma ave poética. Poucas aves cantam à noite e é muito conveniente para a letra que seja negra. São duas grandes canções.
Assum Preto
Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira
Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.
quarta-feira, dezembro 14, 2005
Severino e Nair
Em 1969 mudamos para a casa nova, num bairro novo em construção. Eu tinha oito anos e total liberdade. Vivia pelos terrenos baldios e obras com a molecada do bairro, ou amigos da escola, escalando andaimes, construindo carrinhos de roleimã e outras bobagens. Conhecíamos vários pedreiros. Alguns anos depois, começou a obra no último terreno livre do nosso quarteirão. Com a limpeza do terreno, a casa ficou infestada de ratos. Volta e meia caía um rato na piscina, que era esvaziada e lavada. Um dia a piscina tinha só um pouco de água, e uma enorme ratazana havia caído lá durante a noite e estava viva, sem conseguir sair. O que fazer? Como nos livrar do pernicioso invasor? Peguei a espingardinha de chumbo e comecei a dar tiros no bicho. Primeiro ela fugiu da parte seca para a parte com água, e ao nadar deixava um rastro parecendo uma fumacinha, do sangue. Daí ela voltou para a parte seca, encostou-se na parede, sentou sobre as patas traseiras, levantou as dianteiras, e parecendo um canguru, começou a urrar horrivelmente, em gritos estridentes que reverberavam pelas paredes azulejadas. E eu, nervoso com aquela cena tétrica, dava tiros e mais tiros e nada do monstro morrer, o que levou mais um tempo enorme.
O fato é começou a obra no terreno vizinho e trabalhava lá um carpinteiro chamado Severino, baixo, forte, atarracado, bigodinho e costeletas, como se usava na época. Eu já era grandinho, e quem estava na fase de brincar em obras e ficar amigo dos pedreiros era o meu irmão menor. Em casa trabalhava uma cozinheira alta, desengonçada, óculos fundo-de-garrafa, macilenta, uma mulher feia e estranha, a Nair. O Severino se apaixonou pela Nair, e o meu irmão funcionou como cupido, fazendo a aproximação das partes. Não sei bem o que aconteceu, se a Nair relutava, se fez exigências materiais para se casar, mas a história que correu é que o Severino com a machadinha decepou seu polegar esquerdo, a fim de obter uma indenização e montar a casa. Casaram. Pouco tempo depois a Nair virou crente, como se dizia dos fiéis das incipientes seitas evangélicas, e ao que consta passou a se recusar a cumprir os seus deveres conjugais. Coisa do demônio.
terça-feira, dezembro 13, 2005
A carne e o espírito 2
Além da história do Frei Galvão e a Helena Maria do Espírito Santo, para quem ele construiu o Mosteiro da Luz enfrentando as disposições do Marquês do Pombal, e que pra mim tem toda a cara de amor sublimado com auto-flagelação e o encarceramento da pobre tentação em um quarteirão de taipa projetado e amassado pelo próprio frade; e a triste história de Abelardo e Heloísa, do amor livre de filósofo depois maculado pelo casamento, impossibilitado pela mutilação e terminado em religião, topei com um trecho cômico do comunista Saramago, no “Memorial do Convento” que se passa numa quaresma na Lisboa do século XVIII, segundo ele um prolongamento da farra do entrudo, verdadeira temporada do adultério quando deveria haver continência. Mas o engraçado é a procissão da penitência:
“Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar de sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa, ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar, berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres da rua, e ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá em cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima, ou aia, ou tolerante avó ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada a ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto.”
É claro que o freio aos instintos é condição da vida civilizada, e a religião teve e tem, ainda que cada vez menos, papel essencial nessa tarefa. Vazando pra todo lado, às vezes de forma trágica, às vezes cômica.
“Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo amador sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar de sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa, ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar, berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres da rua, e ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá em cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote, que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima, ou aia, ou tolerante avó ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada a ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto.”
É claro que o freio aos instintos é condição da vida civilizada, e a religião teve e tem, ainda que cada vez menos, papel essencial nessa tarefa. Vazando pra todo lado, às vezes de forma trágica, às vezes cômica.
segunda-feira, dezembro 12, 2005
La poule aux oeufs d'or

L'avarice perd tout en voulant tout gagner.
Je ne veux pour le témoigner
Que celui dont la Poule, à ce que dit la fable,
Pondait tous les jours un oeuf d'or.
Il crut que dans son corps elle avait un trésor.
Il la tua, l'ouvrit, et la trouva semblable
A celles dont les oeufs ne lui rapportaient rien,
S'étant lui-même ôté le plus beau de son bien.
Belle leçon pour les gens chiches :
Pendant ces derniers temps, combien en a-t-on vus
Qui du soir au matin sont pauvres devenus
Pour vouloir trop tôt être riches ?
La Fontaine
domingo, dezembro 11, 2005
A carne e o espírito
Heloísa, já há dez anos no convento, retoma o contato com Abelardo, vítima da terrível amputação, a quem pede socorro por carta:
“Os prazeres amorosos que juntos experimentamos têm para mim tanta doçura que não consigo detestá-los, nem mesmo para expulsá-los de minha memória. Para onde quer que eu me volte, eles se apresentam a meus olhos e despertam meus desejos. Sua ilusão não poupa meu sono. Até durante as solenidades da missa, em que a prece deveria ser mais pura ainda, imagens obscenas assaltam minha pobre alma e a ocupam bem mais do que o ofício. Longe de gemer as faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não pude cometer. Não foram só os gestos que permaneceram profundamente gravados em minha memória, junto com tua imagem; mas também os lugares, as horas que deles foram testemunhas, a ponto de eu ali me reencontrar contigo, repetindo esses gestos, e não reencontro repouso nem mesmo no meu leito. Às vezes, os movimentos do meu corpo traem os pensamentos da minha alma, palavras reveladores me escapam... ”
O pobre Abelardo procura demonstrar que a sua desgraça pela qual Heloísa se culpa, foi a sua salvação, e ele, livre do “aguilhão da carne” pode dedicar-se inteiramente ao espírito. E exorta a esposa a fazer o mesmo, tentando provar que viviam mergulhados no pecado, mesmo após o casamento:
“Pouco tempo depois de termos recebido o sacramento, tu te lembras, estavas então retirada no convento de Argenteuil, vim um dia ver-te em segredo: minha conscupiciência, desenfreada, satisfez-se contigo num canto do refeitório, à falta de outro lugar para nos entregarmos a esses divertimentos. Tu te lembras, digo, que não fomos retidos pela majestade daquele lugar consagrado a Virgem? Mesmo que não tivéssemos cometido outro crime, esse não seria digno do pior dos castigos? De que serve lembrar nossas antigas imundícies e as fornicações de que fizemos preceder o casamento? A vergonhosa traição da qual me tornei culpado para com teu tio, na casa em que vivia como familiar, quando, impudentemente, te seduzi?”
“Compara, ao perigo ocorrido, a forma pela qual nos libertamos. Compara, ao remédio, a doença. Examina o que teriam merecidos nossas faltas, e admira os efeitos da bondade divina. Tu sabes a que torpezas minha concuspicência desenfreada havia levado nossos corpos. Nem o pudor, nem o respeito de Deus me arrancavam, mesmo durante a Semana Santa, mesmo no dia das maiores solenidades religiosas, do lamaçal em que eu rolava. Tu recusavas, tu resistias com todas as tuas forças, tu tentavas a persuasão. Mas, aproveitando-me da fraqueza de teu sexo, eu forcei mais de uma vez teu consentimento, através de ameaças e de golpes. Meu desejo de ti tinha tamanho ardor que esses miseráveis e obscenos prazeres (hoje não ouso mais nem mencioná-los) passavam para fim à frente de Deus, à frente de mim mesmo. Podia a clemência divida me salvar de outra forma senão mos proibindo para sempre?”
É uma das histórias mais tristes que eu já conheci. A carne é fraca e o espírito é forte ou ao contrário? Não é inconsistente o discurso do Abelardo, em contraste com o de Heloísa?
“Os prazeres amorosos que juntos experimentamos têm para mim tanta doçura que não consigo detestá-los, nem mesmo para expulsá-los de minha memória. Para onde quer que eu me volte, eles se apresentam a meus olhos e despertam meus desejos. Sua ilusão não poupa meu sono. Até durante as solenidades da missa, em que a prece deveria ser mais pura ainda, imagens obscenas assaltam minha pobre alma e a ocupam bem mais do que o ofício. Longe de gemer as faltas que cometi, penso suspirando naquelas que não pude cometer. Não foram só os gestos que permaneceram profundamente gravados em minha memória, junto com tua imagem; mas também os lugares, as horas que deles foram testemunhas, a ponto de eu ali me reencontrar contigo, repetindo esses gestos, e não reencontro repouso nem mesmo no meu leito. Às vezes, os movimentos do meu corpo traem os pensamentos da minha alma, palavras reveladores me escapam... ”
O pobre Abelardo procura demonstrar que a sua desgraça pela qual Heloísa se culpa, foi a sua salvação, e ele, livre do “aguilhão da carne” pode dedicar-se inteiramente ao espírito. E exorta a esposa a fazer o mesmo, tentando provar que viviam mergulhados no pecado, mesmo após o casamento:
“Pouco tempo depois de termos recebido o sacramento, tu te lembras, estavas então retirada no convento de Argenteuil, vim um dia ver-te em segredo: minha conscupiciência, desenfreada, satisfez-se contigo num canto do refeitório, à falta de outro lugar para nos entregarmos a esses divertimentos. Tu te lembras, digo, que não fomos retidos pela majestade daquele lugar consagrado a Virgem? Mesmo que não tivéssemos cometido outro crime, esse não seria digno do pior dos castigos? De que serve lembrar nossas antigas imundícies e as fornicações de que fizemos preceder o casamento? A vergonhosa traição da qual me tornei culpado para com teu tio, na casa em que vivia como familiar, quando, impudentemente, te seduzi?”
“Compara, ao perigo ocorrido, a forma pela qual nos libertamos. Compara, ao remédio, a doença. Examina o que teriam merecidos nossas faltas, e admira os efeitos da bondade divina. Tu sabes a que torpezas minha concuspicência desenfreada havia levado nossos corpos. Nem o pudor, nem o respeito de Deus me arrancavam, mesmo durante a Semana Santa, mesmo no dia das maiores solenidades religiosas, do lamaçal em que eu rolava. Tu recusavas, tu resistias com todas as tuas forças, tu tentavas a persuasão. Mas, aproveitando-me da fraqueza de teu sexo, eu forcei mais de uma vez teu consentimento, através de ameaças e de golpes. Meu desejo de ti tinha tamanho ardor que esses miseráveis e obscenos prazeres (hoje não ouso mais nem mencioná-los) passavam para fim à frente de Deus, à frente de mim mesmo. Podia a clemência divida me salvar de outra forma senão mos proibindo para sempre?”
É uma das histórias mais tristes que eu já conheci. A carne é fraca e o espírito é forte ou ao contrário? Não é inconsistente o discurso do Abelardo, em contraste com o de Heloísa?
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Território tupinambá
Pecus acordou com as inúmeras, exuberantes, tropicais, coloridas e barulhentas aves. A mata na beira do rio estava lavada e brilhante e era bem mais desenvolvida do que a da serra. O céu, azul e limpo. O sol brilhava, e o ar ainda estava fresco. O plano era simples. Um banhão de rio e procurar alguma coisa pra comer. Ao entrar na água gelada, pelo ardor percebeu que estava lanhado em vários pontos. Sentia dores por todo o corpo, músculos e ossos amassados, e o cansaço do esforço. Sua roupa de algodão cor-de-burro-quando-foge estava em farrapos, mas ainda oferecia alguma proteção, e ele aproveitou para lavá-la na pedra. Saiu andando devagar, por dentro da água por precaução, para evitar os farejadores, aproveitando as frutas que encontrava. Não tinha mais porque ter pressa, e nem poderia andar rápido naquele estado. Acreditava ter se livrado dos cães, e a janela do encontro com a sereia tinha passado. Mas já estava do lado certo da serra, e aquele rio provavelmente o levaria ao lugar marcado. Sabia estar em pleno território tupinambá.
quarta-feira, dezembro 07, 2005
A cortesia medieval
No centro do esquema imaginativo e linguístico onde, de agora em diante, vão se inscrever milhares de discursos e o dinamismo do canto erótico (a voz falada do desejo), coloca-se uma situação tipo, que é a do Obstáculo. O desejo que eu carrego e que me carrega tende para um objeto que, quaisquer que sejam as circunstâncias e as modalidades de seu fantasma, "eu" não possuirei nunca na "alegria", isto é, na perfeita liberdade e intemporalidade do "jogo". Através das inumeráveis variantes que comportam os destinos individuais, o obstáculo está sempre lá, imanente a todo amor. Não que seja concebido misticamente: o simbolismo cortês primitivo permanece terra a terra, o obstáculo é "significado" em sua linguagem pela condenação virtualmente levada contra o casamento. O casamento, não as relações sexuais como tais, o casamento porque implica num direito de posse.
(Trecho do prefácio a Correspondência de Abelardo e Heloísa, de Paul Zumthor, Ed. Martins Fontes, 1989).
terça-feira, dezembro 06, 2005
How insensitive
Uma das minhas músicas prediletas do Jobim - provavelmente também da metade da torcida do Corinthians - é "Insensatez", com a boa letra do Vinícius, especialmente na versão do João Gilberto. Pois bem, uma série de espíritos menores gosta de exibir a semelhança entre a obra do Jobim e um prelúdio em mi menor do seu quase xará, o Chopin. Vários jazzistas interpretam as duas em medley, para tentar enxovalhar o Tom. Claro que não cola. O Jobim era um chopiniano declarado e chegou a gravar algumas de suas peças. Eu não conheço a história da composição, mas eu imagino o Tom mostrando ao Vinícius a sua última molecagem, tocar o tal prelúdio em ritmo de bossa, e o poetinha comentar o sacrilégio dizendo: "que insensatez que você fez, Tom", e daí, a canção estava quase pronta. Ficou tão boa, que não dava mais pra jogar fora. E seria ridículo dar créditos para o Chopin, porque afinal, não era mais o prelúdio. Era uma nova canção, das boas. Tenho certeza que o Jobim jamais escondeu essa origem de ninguém. Se tem alguém que nunca precisou se auto-afirmar como compositor é ele. Pra mim, a maioria das acusações de plágio é coisa de quem não sabe o que é arte.
Vai a letra (pra escutar, tem na rádio uol, tanto o prelúdio como a canção)
Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah, por que você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado
Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Falso amor sincero
(Nelson Sargento)
O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito
O nosso falso amor é tão sincero
Isso me faz bem feliz
Ela faz tudo que eu quero
Eu faço tudo o que ela diz
Aqueles que se amam de verdade
Invejam a nossa felicidade
O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito
O nosso falso amor é tão sincero
Isso me faz bem feliz
Ela faz tudo que eu quero
Eu faço tudo o que ela diz
Aqueles que se amam de verdade
Invejam a nossa felicidade
sábado, dezembro 03, 2005
No fundo do abismo
Vinha no ritmo descompassado das pedras chapadas em degraus irregulares da beira do abismo, quando, ao saltar o que lhe pareceu uma pequena moita, na certeza de haver uma laje do outro lado, encontrou um emaranhado de galhos e folhas de alguns metros de largura, e despencou estalando tudo e se arranhando todo e assim foi caindo com a queda amortecida pelos galhos que se quebravam arranhando-lhe o lombo já tão castigado, e depois de um segundo e pouco que lhe pareceu um tempão estatelou-se entre pedras e as samambaias espinhentas. Apagou.
Depois de um tempo acordou em plena tempestade e demorou a entender o que estava acontecendo. A primeira providência, e urgente, foi localizar as pingadeiras da parede de pedra para matar a sede de horas. Bebeu quanto quis rapidamente, depois de constatar que estava razoavelmente inteiro, bem melhor do que depois de um dia ruim no trabalho. Torceu para que a água abundante da tempestade apagasse o rastro do seu cheiro e dificultasse sua localização pelos cães. Olhou para cima e supôs que a reentrância na grande parede onde caíra era uma fenda, uma rachadura vertical pronunciada na estrutura mais ou menos homogênea do penhasco. A superfície onde se encontrava era provavelmente uma grande pedra entalada na fenda, sobre a qual a deposição de poeira, folhas e sementes, guano e outros detritos, havia possibilitado o crescimento de trepadeiras, cipós e samambaias, cactos e outras plantas adaptadas às pedras. No canto dessa pedra entalada havia uma abertura, uma chaminé, por onde desceu, e encontrou outras pedras empilhadas na fenda, por onde a descida era possível. Era lento, tinha que examinar com cuidado o melhor caminho, mas era uma grande e complicada caixa de escada, e depois de algumas horas estava lá embaixo, no fundo daquele desfiladeiro onde passava um riozinho no meio das pedras, em meio a uma boa quantidade de árvores. Sentiu-se seguro. O longo dia de verão chegava ao fim, mas ainda conseguiu capturar com a mão alguns pitus embaixo das pedras no rio, arrancou-lhes a casca, as tripinhas e comeu-os com muito prazer e um pouco de nojo. Arrumou um canto seco para dormir, lembrou da sereia e ficou pensando nela até adormecer.
Depois de um tempo acordou em plena tempestade e demorou a entender o que estava acontecendo. A primeira providência, e urgente, foi localizar as pingadeiras da parede de pedra para matar a sede de horas. Bebeu quanto quis rapidamente, depois de constatar que estava razoavelmente inteiro, bem melhor do que depois de um dia ruim no trabalho. Torceu para que a água abundante da tempestade apagasse o rastro do seu cheiro e dificultasse sua localização pelos cães. Olhou para cima e supôs que a reentrância na grande parede onde caíra era uma fenda, uma rachadura vertical pronunciada na estrutura mais ou menos homogênea do penhasco. A superfície onde se encontrava era provavelmente uma grande pedra entalada na fenda, sobre a qual a deposição de poeira, folhas e sementes, guano e outros detritos, havia possibilitado o crescimento de trepadeiras, cipós e samambaias, cactos e outras plantas adaptadas às pedras. No canto dessa pedra entalada havia uma abertura, uma chaminé, por onde desceu, e encontrou outras pedras empilhadas na fenda, por onde a descida era possível. Era lento, tinha que examinar com cuidado o melhor caminho, mas era uma grande e complicada caixa de escada, e depois de algumas horas estava lá embaixo, no fundo daquele desfiladeiro onde passava um riozinho no meio das pedras, em meio a uma boa quantidade de árvores. Sentiu-se seguro. O longo dia de verão chegava ao fim, mas ainda conseguiu capturar com a mão alguns pitus embaixo das pedras no rio, arrancou-lhes a casca, as tripinhas e comeu-os com muito prazer e um pouco de nojo. Arrumou um canto seco para dormir, lembrou da sereia e ficou pensando nela até adormecer.
sexta-feira, dezembro 02, 2005
A mais bela flor de Piratininga
Relato do próprio Frei Galvão, cujo autógrafo se encontra no arquivo do Mosteiro de Nossa Senhora da Luz:
"Nasceu Helena em Paranapanema. Freguesia pertencente naquele tempo ao Bispado de São Paulo; nela criou-se até a idade de 17 anos; em todo este tempo eram notáveis os seus procedimentos dando já indícios de sua futura santidade; exercitava-se em obras de caridade, obediência e mansidão para com os domésticos; mui freqüente no exercício da Santa Oração, Via-Sacra e outros atos religiosos, que deixo de os referir por evitar prolixidade; dizendo somente que, entre noite e dia, tinha 7 horas de oração. As sua penitências eram contínuas, anos inteiros usou de cilícios, dormindo com eles em terra fria, digo sobre a terra; usava da disciplina de sangue procurando o silêncio e oportuno tempo da noite. Algumas vezes encontrou-se com feras, entre as quais em certa ocasião uma onça. Invocando o nome de Jesus, com estranha velocidade fugiu o tigre. Aos sete anos levaram seus pais de mudança a um descoberto de ouro, distante alguns dias de sua casa, e como não podia a menina preencher a tarefa dos diários exercícios, esperava nos pousos que faziam os da comitiva, enquanto descansavam todos e dormiam, e fora de horas, retirava-se para os matos, servindo-lhe de farol, para se não perder, os fogos que faziam os arranchados de sua comitiva, aí, pois se disciplinava de sorte que não fosse percebida. Eram-lhe os jejuns contínuos; o mesmo na freqüência dos Sacramentos, etc. etc".
"Veio a São Paulo para servente das Recolhidas de Santa Teresa. Foi no dia que entrou na cidade uando se deu sepultura ao Servo de Deus o Padre Manuel de Oliveira. Recebida pelas mencionadas Recolhidas lá esteve vinte e oito anos; em todo este tempo adiraram-se as virtudes que resplandeciam na Serva de Deus, Helena Maria do Espírito Santo, a qual todos os dias jejuava a pão e água, comendo só ao jantar um pão inteiro, ou meio, senão parte diminuta; algumas vezes passou três dias sem comer coisa alguma. Chegou esse excesso a cinco dias; a Caridade que lhe estuava no coração a transportava muitas vezes, publicamente, fora de seus sentidos; muitos anos com alegria de seu coração serviu às referidas Recolhidas por ser o ofício de servente o mais humilde entre elas, etc. etc.".
"Professou nesse Recolhimento por esmola anterior do M. Rvdo. Dr. Manuel José Vaz, seu confessor por 15 anos. A sua pobreza era extrema e voluntária porque rejeitava esmolas oferecidas de alguns devotos e de seus próprios confessores; só possuía um hábito e uma caixinha velha com algumas coisinhas de nenhum valor. Era admirável na compostura dos olhos, que por nunca os levantar não conhecia nem ainda o Confessor pela fala, que pela experiência que eu tive, disse Frei Antônio, observei que era sem a mínima exageração. Neste Recolhimento lhe apareceu o diabo tomando a forma de alguns de seus Confessores, que a dirigiam; pelo discernimento grande de que era dotada, e auxílio do Céu, nunca este a iludiu e sempre dele triunfou, porque com seus atos de humildade que fazia dava ele demonstração de soberba. Outras muitas coisas poderia referir, que por brevidade as deixo".
Pois bem, o Frei Galvão estava tão impressionado com o potencial da freirinha, que enfrentando a proibição do Marquês de Pombal de criação de ordens religiosas, moveu mundos e fundos, projetou e construiu com as próprias mãos um recolhimento só para ela, que vem a ser o Mosteiro da Luz, talvez o único edifício do século XVIII ainda de pé nesta cidade.
Foxy Lady
Neste momento, nove horas e trinta e oito minutos, estou no escritório da casa, única janela com vista para rua, e cai uma chuva intensa e tranqüila fazendo barulho no telhado. Haja água. Um gato costuma passar do outro lado da rua mais ou menos nesse horário, o que sempre percebo porque mesmo a sua pequena presença aciona a luz de segurança da casa da juíza. Olho e está lá o gato passando. Mas hoje ele não veio, está entanguidinho embaixo de algum carro ainda morno tentando ficar seco. A rua está deserta, só circula quem precisa, um carro de quando em quando. Um até agora, nesses cinco minutos. São nove e quarenta e três. É só imaginar o que eu quero que aconteça na rua. Suspendo a persiana para ver melhor. Nada. A chuva e nada. Vejo você parada embaixo de um guarda-chuva pensando que raios está fazendo ali. A minha amiga imaginária, pensando se toca ou não a campainha, se se materializa ou não. Mas eu tenho que virar o pescoço para ver a rua, ou digitar, essa leve percussão com a ponta dos dedos pulando nas molinhas do teclado. A cadeira ergonômica gira e os cotovelos estão apoiados nos braços curtos, na altura certa, e o conforto é bom. O problema é virar o pescoço para ver a rua, a minha amiga imaginária, o gato acionando a luz da casa da juíza, e ainda não passou outro carro. Preciso virar a mesa para a janela. Daí não tenho que virar o pescoço. Acho que a minha amiga imaginária ficaria bem com um cachorro, um bizarro pretexto numa noite de chuva. Uma raça à prova d’água, labrador não, muito óbvio, uma raça pantaneira, um cão pastor acostumado aos grandes espaços abertos, andando sem coleira, e com uma aparência tão amigável que não assustasse ninguém. Agora, às nove e cinqüenta e cinco, a chuva dobrou de intensidade. Minha amiga imaginária evaporou ou derreteu. Jamais viria numa noite dessa a pé com o cachorro. Ela teria que passar de carro e conhecendo meus hábitos, bastaria ver o meu vulto na janela quadrada de vidro fixo, iluminado só pela luz azulada do monitor. Para isso, ela precisaria passar pelo outro lado da rua, e devagar. Talvez eu reconhecesse o carro, se eu soubesse que carro é. Um carro compacto e ágil com todos os itens principais de conforto, um motor com alguma folga de potência, e um desenho moderno. Um Fox. Foxy Lady. Se eu reconhecesse o carro e ela visse que eu estava lá, estaria feito um duplo contato unilateral, porque não haveria retorno do reconhecimento. E sempre uma dúvida. Poderia ser. Ou talvez uma mensagem telepática pudesse acelerar o batimento cardíaco que soaria como um aviso de recebimento. A chuva diminuiu um pouco, mas ainda está mais forte que no começo. São dez e quatro agora. Uma volta no quarteirão, que é um pouco comprido, é o suficiente para resolver se volta ou não. Quer ou não quer? Ah, se ela soubesse... É claro que ela quer, mas pode ser uma puta cagada. Hoje não. São dez e nove, e eu levei cinco minutos para escrever essas últimas quatro linhas, pensando na morte da bezerra e quase babando no teclado.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Comida de sereia
O corpo quase esférico, cheio de espinhos, de início desencoraja o apetite. Mas desde tempos remotos os homens enfrentam a armadura do ouriço-do-mar para saborear as délicatesses que são seus órgãos reprodutores. São cinco gônadas, ou corais, que ocupam quase todo o interior de machos e fêmeas. Nos machos têm cor amarelo-clara ou atijolada e são menores; nas fêmeas, cor amarelo-forte ou alaranjada, e mais gordas, como dizem os pescadores. No litoral brasileiro há várias espécies de ouriço. Alguns têm espinhos que variam do marrom-escuro ao negro, outros são marrom-avermelhados, há os que variam - roxos, verdes ou púrpura - e uma espécie chega a apresentar-se verde, azul, roxa ou rosa.
De modo geral, o ouriço vive em rochas e no lodo do fundo do mar. Durante o dia, esconde-se nas grutas; de noite sai para comer algas, animais mortos e pequenos organismos marinhos. A melhor forma de degustá-lo é cortar a parte de cima (onde fica a boca) e comer de colherinha, direto da concha, com gotas de limão ou azeite. Na Espanha, em especial nas Astúrias, é apreciado em patê, pastéis, molhos para peixe e marinado na sidra. Na França, destaca-se a sauce à l'oursinade, com béchamel e creme de leite, para acompanhar pescado branco poché ou no vapor. No Japão, conhecido como uni, é servido no sushi ou na concha com limão, raiz-forte, óleo de gergelim e shoyu. Em Pernambuco, em dezembro, a Festa da Ouriçada celebra Santa Luzia; ouriços são pescados e assados sobre palhas, e entram em farofa. Em Porto Covo, Portugal, a Ouriçada festeja as marés da Páscoa. Vinho rosé gelado é ótimo acompanhamento.
COMO SE ESCOLHE
Encontra-se em algumas peixarias, mas não é comum, principalmente nas cidades distantes do litoral. Adquira congelado ou em conserva com sal, em mercearia de produtos orientais. Ou encomende na peixaria. Se comprar inteiro, deve estar com os espinhos firmes e o orifício bucal bem fechado. Congelado ou em conserva, verifique no rótulo o prazo de validade e as informações sobre o produtor. Rejeite se o ouriço-do-mar congelado estiver mole ou com acúmulo de gelo dentro ou fora da embalagem. Ao abrir, avalie o cheiro. Precisa ser suave, à maresia. Nunca deve lembrar amoníaco - estará estragado.
COMO SE PREPARA
Se inteiro, abra uma tampa na parte da boca. Use luva e, caso tenha, um corta-ouriço (coupe-oursin). Com pinça tire as vísceras - a parte escura. Restarão as cinco gônadas. Pingue nelas gotas de limão ou azeite e sirva na concha, sobre gelo. Também é bom cru sobre fatias de pão, branco de preferência, com manteiga, ovo quente ou coração de alcachofra. Junte à omelete, a ovos mexidos (1 ouriço para cada ovo), a molho rápido para macarrão. Pode-se ainda cozinhar no vapor por 5 min e misturar em salada. Molho: misture bem o conteúdo de 8 ouriços e um pouco de azeite. Junte a 1 xíc de molho holandês, mexa bem e sirva com peixes.
FICHA TÉCNICA
100 g de ouriço-do-mar cru contêm:
Calorias - 142
Proteínas - 16,3 g
Carboidratos - 1,4 g
Gordura - 7,9 g
Vit. B1 - 0,06 mg
Vit. B2 - 0,42 mg
Niacina - 6,1 mg
Vit. C - 5,7 mg
Cálcio - 59 mg
Ferro - 0,7 mg
Fósforo - 366 mg
Potássio - 221 mg
De modo geral, o ouriço vive em rochas e no lodo do fundo do mar. Durante o dia, esconde-se nas grutas; de noite sai para comer algas, animais mortos e pequenos organismos marinhos. A melhor forma de degustá-lo é cortar a parte de cima (onde fica a boca) e comer de colherinha, direto da concha, com gotas de limão ou azeite. Na Espanha, em especial nas Astúrias, é apreciado em patê, pastéis, molhos para peixe e marinado na sidra. Na França, destaca-se a sauce à l'oursinade, com béchamel e creme de leite, para acompanhar pescado branco poché ou no vapor. No Japão, conhecido como uni, é servido no sushi ou na concha com limão, raiz-forte, óleo de gergelim e shoyu. Em Pernambuco, em dezembro, a Festa da Ouriçada celebra Santa Luzia; ouriços são pescados e assados sobre palhas, e entram em farofa. Em Porto Covo, Portugal, a Ouriçada festeja as marés da Páscoa. Vinho rosé gelado é ótimo acompanhamento.
COMO SE ESCOLHE
Encontra-se em algumas peixarias, mas não é comum, principalmente nas cidades distantes do litoral. Adquira congelado ou em conserva com sal, em mercearia de produtos orientais. Ou encomende na peixaria. Se comprar inteiro, deve estar com os espinhos firmes e o orifício bucal bem fechado. Congelado ou em conserva, verifique no rótulo o prazo de validade e as informações sobre o produtor. Rejeite se o ouriço-do-mar congelado estiver mole ou com acúmulo de gelo dentro ou fora da embalagem. Ao abrir, avalie o cheiro. Precisa ser suave, à maresia. Nunca deve lembrar amoníaco - estará estragado.
COMO SE PREPARA
Se inteiro, abra uma tampa na parte da boca. Use luva e, caso tenha, um corta-ouriço (coupe-oursin). Com pinça tire as vísceras - a parte escura. Restarão as cinco gônadas. Pingue nelas gotas de limão ou azeite e sirva na concha, sobre gelo. Também é bom cru sobre fatias de pão, branco de preferência, com manteiga, ovo quente ou coração de alcachofra. Junte à omelete, a ovos mexidos (1 ouriço para cada ovo), a molho rápido para macarrão. Pode-se ainda cozinhar no vapor por 5 min e misturar em salada. Molho: misture bem o conteúdo de 8 ouriços e um pouco de azeite. Junte a 1 xíc de molho holandês, mexa bem e sirva com peixes.
FICHA TÉCNICA
100 g de ouriço-do-mar cru contêm:
Calorias - 142
Proteínas - 16,3 g
Carboidratos - 1,4 g
Gordura - 7,9 g
Vit. B1 - 0,06 mg
Vit. B2 - 0,42 mg
Niacina - 6,1 mg
Vit. C - 5,7 mg
Cálcio - 59 mg
Ferro - 0,7 mg
Fósforo - 366 mg
Potássio - 221 mg
Texto: Celão
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