terça-feira, novembro 29, 2005

Trator



Eu tinha uns vinte e poucos anos, estava no sítio do meu sogro, e ele me pediu que levasse o trator, um velho Massey Ferguson 65, para a cidade que ficava a uns seis ou sete quilômetros, para consertar os freios. Eu já tinha pilotado aquela máquina simpática algumas vezes, com seu acelerador de mão e engrenagens pesadas. Engatado se movimenta tão lentamente quanto se queira e assim o freio não é tão importante. Saí sozinho naquela bela manhã de sol pela estrada de terra prudentemente em segunda marcha, devagar e sempre. Depois de algum tempo naquele ritmo lento, resolvi botar uma terceira, pra não levar a vida inteira pra chegar. E pensei: “Quando chegar no alto dessa subida, troco a marcha”. Pensado e feito. Quando chegou no alto da subida, desengatei a segunda pra por a terceira. E nada da terceira entrar. Tenta, tenta, tenta, arranha, pisa, e nada da marcha engatar. O trator simplesmente pára no alto da subida, e começa a andar para trás.“Fodeu”, pensei. Era uma estrada municipal que tinha algum tráfego. E o trator, com aquela enorme folga na direção, sem amortecedores, sem freio, andando de marcha a ré e ganhando velocidade. Pular não me pareceu uma boa idéia. Tinha que tentar manter o veículo na estrada e torcer para não aparecer nenhum carro, cavalo, charrete, caminhão, ciclista, pedestre na minha desabalada trajetória. A velocidade foi aumentando e eu lá pilotando aquele trem meio desgovernado, pulando pela estrada de terra com aquele barulho de ferros batendo uns nos outros, com o pescoço virado, apavorado, até que a descida acabou, e ele foi parando. Engatei a segunda e fui assim até a cidade, sem ter ninguém pra comentar a aventura.

segunda-feira, novembro 28, 2005

De novo essa bobagem nietzscheana

AMIZADE ESTELAR
279. Amizade estelar - Nós éramos amigos e nos tornámos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos nos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado o seu destino e ter um só destino. Mas então a toda poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos e talvez nunca mais nos vejamos de novo ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar também mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos elevemo-nos a esse pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade.- E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos que ser inimigos na Terra.
Nietzsche - A Gaia Ciência - LIVRO IV

Ainda o abismo

Enquanto caminhava – não é bem o termo, saltava de pedra em pedra como quem anda num costão ou num rio de serra – pela beira do abismo, tomou a decisão. A ser pego, prefiria o mergulho. Teria algum significado a sua morte, pelo menos para os cães, caninos e humanos, que o perseguiam. Destruiria o bem que pudesse interessar os seus senhores. Mostraria que nunca os admitiu como tais. Sempre tentou deixar isso bem claro e agora era hora de esfregar-lhes isso na cara. Satisfeito com a resolução e reconhecida a companhia da morte, acelerou a sua marcha caprina sem sentir fome, sede ou cansaço. Pelo som, tinha a impressão de que estava conseguindo manter a distância dos cachorros, mas eles o seguiam na direção certa. A sereia sumiu da sua mente. Deixou de sentir a ligação telepática que lhe proporcionava um aumento de freqüência na sua vibração vital. Estava só.

domingo, novembro 27, 2005

O negócio é sonhar com mares distantes


O Brasil 1 ao largo de Fernando de Noronha





Ontem no escritório, tomando coragem para começar a trabalhar depois do almoção do sábado, li pela primeira vez o "post" do "blog" da regata de volta ao mundo. Dos sete barcos que saíram de Vigo, na Espanha, dois desistiram em função de avarias. Mudaram de bordo em Fernando de Noronha, e agora se aproximam da Cidade do Cabo, fim dessa primeira perna. A descrição de ontem estava magnífica. Os barcos estavam sendo alcançados por uma frente fria formada por aqui, e que se deslocava em direção à Africa. Os mastros de mais de trinta metros a todo pano, velas-balão com centenas de metros quadrados, infladas por ventos de 26 nós. O equipamento esforçado ao máximo, podendo estourar a qualquer momento, enquanto os barcos, na mesma velocidade do vento, antes de alçarem vôo no vão entre as grandes ondas, tinham o convés lavado pela crista de água verde esmeralda. E a cada pancada tudo chacoalhava com violência.


De ontem pra hoje a situação não se alterou. Vinte e quatro horas no limite do desastre. O líder da prova, o ABN 1 bateu o recorde de milhas/24hs para monocasco, com 583. E aumentou a vantagem para o segundo, o ABN2, que aumentou para o terceiro, o nosso Brasil 1. Não entendo nada do esporte, mas imagino que o skipper Torben Grael aliviou. Estourar a embarcação de milhões de dólares e sair fora da regata no início? Estão previstos oito meses. Não sei nem porque tem tão poucos barcos nessa regata. Será que ela sofreu algum tipo de boicote, ou simplesmente não há interesse?

Disse alguém

Taí uma versão que supera o original, do grande compositor Haroldo Barbosa, e interpretada por João Gilberto em "Brasil", deixa todas as outras no chinelo.


Disse alguém


(Seymour Simons e Gerald Marks, versão de Haroldo Barbosa)

Disse alguém que há bem no coração
Um salão onde o amor descança
Ai de mim que estou tão sozinho
Vivo assim, sem esperança
A implorar alguém que não me quis
E feliz, bem feliz seria
Coração meu, convém descansar
Soluçar mais devagar

Disse alguém que há bem no coração
Um salão, um salão dourado onde o amor sempre dança
Ai de mim que só vivo tão sozinho
Vivo assim, vivo sem ter um terno carinho
A implorar alguém que não me quis
E feliz então eu sei, bem sei que não mais seria
Meu, meu coração sem esperança
E vive a chorar, soluçar
Como quem tem medo de reclamar


All of me


All of me
Why not take all of me
Can't you see
That I'm no good without you
Take my arms
I want to loose them
Take my lips
I'll never use them


Your goodbye
Left me with eyes that cry
And I know that I
Am no good without you
You took the part
That once was my heart
So why not take all of me

sexta-feira, novembro 25, 2005

Bom com as palavras é o Arnaldo Antunes

Ouça essa

Eu sei que a gente ia ser feliz juntinho
Pra todo dia dividir carinho
Tenho certeza de que daria certo
Eu e você, você e eu por perto
Eu só queria ter o nosso cantinho
Meu corpo junto ao seu mais um pouquinho
Tenho certeza de que daria certo
Nós dois sozinhos num lugar deserto
Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, por favor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é
Eu sei que eu ia te fazer feliz
Dos pés até a ponta do nariz
Da beira da orelha ao fim do mundo
Sugando o sangue de cada segundo
Te dou um filho, te componho um hino
O que você quiser saber eu ensino
Te dou amor enquanto eu te amar
Prometo te deixar quando acabar
Se você não quiser
Me viro como der
Mas se quiser me diga, meu amor
Pois se você quiser
Me viro como for
Para que seja bom como já é

quinta-feira, novembro 24, 2005

Decifra-me ou devoro-te


KEEPER: Heh heh. Stop! What is your name?
ARTHUR: It is Arthur, King of the Britons.
KEEPER: What is your quest?
ARTHUR: To seek the Holy Grail.
KEEPER: What is the air-speed velocity of an unladen swallow?
ARTHUR: What do you mean? An African or European swallow?
KEEPER: What? I...I don't know that! Auuuuuuuugh!
BEDEVERE: How do know so much about swallows?
ARTHUR: Well, you have to know these things when you're a king, you know.

quarta-feira, novembro 23, 2005

terça-feira, novembro 22, 2005

Fruto esquisito

Essa música é um dos mais estranhos frutos do rico cancioneiro norte-americano. É entretenimento?

Strange Fruit (tem na rádio uol)

(de Lewis Allen, cantada por Billie Holiday)

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter cry.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Fila

Seguiu andando pela beira do abismo pescoçando uma passagem na parede de pedra que pudesse descer sem muito perigo. Depois de meia hora andando começou a ouvir os graves latidos dos filas se comunicando uns com os outros, com o característico crescendo. Apesar do terror e do desespero que sentiu, não deixou de pensar que cachorro é um bicho burro, que caça fazendo barulho. Ainda estavam muito longe, mas a situação não era nada boa, pois estava encurralado entre o despenhadeiro e os cães. Acelerou o passo e redobrou a atenção na procura de um caminho descendente, arriscando-se mais pela beirada. Estava cansado, dolorido, escoriado, mal alimentado, sedento, e o latido roufenho dos mastins lhe pareceu a própria voz do coisa ruim nos seus calcanhares. Pensou no que passaria se fosse capturado de novo, e a idéia de jogar-se no abismo, se não tivesse alternativa, passou-lhe pela cabeça. Aqueles bichos destruíam com facilidade grandes onças pintadas, embora fossem treinados para não danificar os humanos.

sábado, novembro 19, 2005

Velho Chico

Essa música do Chico é tão boa que quando eu conheci achei que era uma das parcerias com o Jobim:

Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha prá mim
Não faz assim, não vá lá, não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão frouxa de rir
Já te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo o salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão


E essa que era um dos sambas do Chico dos quais eu mais gostava não é dele. É do Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, das antigas antigas:

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
é bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai João
Quem trouxe você fui eu
Não faça papel de louca
Pra não haver bate-boca
Dentro do salão
Quando toca o samba
Eu lhe tiro pra dançar
Você me diz: Não
Eu agora tenho par
E sai dançando com ele
Alegre e feliz
Quando para o samba
Agradece e pede bis

quinta-feira, novembro 17, 2005

Rave

Há uns três ou quatro anos fui convidado para ir a uma rave numa praia em Santa Catarina. Ia ser aproveitada uma festa que se repetia ali com alguma freqüência para a surfistada e playboys para o lançamento de um instituto de beleza, um sistema de tratamento de pele ou algo assim. Haveria uma ala “vip” separada para os convidados. Chegamos na noite anterior, fomos hospedados num hotel, e no dia seguinte fomos ao local onde ia ser a festa, que sempre era feita na lua cheia. Era um belíssimo bar de praia, muito bem instalado, uma construção rústica de madeira já acinzentada, com restaurante, bar e lounge, que estava sendo ampliado com grandes tendas de lycra. Ficava numa parte meio deserta da praia só ocupada pelos surfistas. Estava um lindo dia de sol, ondas pequenas de qualidade, um verdadeiro paraíso. A organização da festa era feita por dois surfistas, um dos quais era modelo e participou do comercial do tal lançamento, feito ali na praia dias antes, que ia ser exibido na festa. Por volta das duas da tarde, chegou a notícia de que o ministério público estadual tinha obtido uma liminar para impedir a festa por risco de dano ao meio ambiente. Advogados acionados, a ordem foi cassada. Horas depois, chega outra ordem, obtida pelo ministério público federal, para os mesmos fins.

A festa foi mudada para a pousada da mãe do organizador que não era o modelo, que ficava na parte mais ocupada da praia, a algumas quadras do mar. Era um lugar luxuosíssimo, fazendo um tipo “Hamptons”, em madeira branca, e onde estavam hospedados os donos da festa. Tinha um grande jardim, uma vista distante do mar, mas não fazia muito sentido todo aquele dinheiro empatado naquele fundo de praia. Quando chegamos à noite, percebemos que apesar de toda a bebida oferecida pelos patrocinadores, ninguém bebia nada e todos estava suadíssimos com garrafinhas de água na mão. Todos tinham tomado ecstazy. A ala “vip” ficou com as instalações da pousada, deck, bar, restaurante, piscina, e uma escadaria levava ao jardim, onde a festa e seus banheiros químicos estavam. Dos taludes entre o deck e a pista volta e meia despencava um rolando, que além de ecstazy tinha cheirado lança-perfume. Lá embaixo o pessoal dançando tinha algo a ver com a noite dos mortos-vivos, e era docilmente manipulado pelos DJs. Foi a primeira vez que vi um DJ desses que criam sua própria música, trabalhando. Não entendi bem como funciona, mas me pareceu que ele tem bastante controle da dinâmica, e vai acrescentando ou tirando camadas de música como quer. Tira tudo, deixa só uma frasezinha se repetindo, a pista cai, daí vai acrescentando, até que despeja o máximo e os mortos-vivos começam a pular e gritar. É muito bacana. Daí a polícia chamada pelos vizinhos começou a fazer parte da festa. Vinha a música baixava. Ia embora, voltava ao máximo, e os zumbis junto. Várias e várias vezes, naquela noite sem fim e sem cansaço, com uma linda lua cheia. De manhã nos perdemos das vans dos convidados e voltamos a pé para o nosso hotel, na praia vizinha.

Madame Bovary

Acabei de ler “Madame Bovary”. Flaubert cínico e sarcástico. O Bovary é um lorpa caipira ridículo e burro desde o colégio. É arrastado pela mãe para a carreira de médico aos trambolhões e consegue o grau e uma posição no interior mendigando indicações. Sua mãe casa-o com uma viúva velha e feia supostamente rica que para a sorte do rapaz morre quatorze meses depois, deixando-o um pouco melhor que antes. Nesse meio tempo ele havia curado uma fratura simples de um fazendeiro e torna-se benquisto na família. Se engraça com a filha do sujeito, uma linda mocinha recém chegada de um colégio de freiras onde recebeu refinada educação, convivendo com velhas nobres decaídas na revolução. A influência da música e literatura da monarquia moldam o seu caráter romântico e sonhador, e está sempre a perseguir transportes e elevações de espírito em idílios extravagantes. Enterrada no campo ilude-se com o médico, sentindo falso amor que desvanece logo após o casamento. Vive de ler romances e vai se deprimindo com sua situação sem saída. Tem um momento de deslumbramento quando o médico é convidado a um baile num palácio de um poderoso senhor. Daí em diante só faz definhar, até que o Sr. Bovary decide mudar-se para uma outra pequena cidade com ares melhores, por sua saúde. Ao chegar, Madame Bovary logo conhece um jovem escrevente de cartório, com quem tem uma imediata identificação de gostos por romances e música, e nasce um amor platônico e correspondido, mas jamais declarado. O rapaz é tímido. Emma Bovary está grávida, e nasce Bertha. Ele sente que o seu amor é impossível, sua amada é virtuosa, e parte para Paris para completar seu curso de direito. Emma, já com a virtude esgarçada, cai pelo primeiro cafajeste que aparece. É uma cena memorável de um “comício” no interior, mais uma exposição agropecuária, e a ação acontece em vários planos: os animais ao fundo, e os discursos caipiras se entremeando com a cantada de Rudolf. Puro cinema. Impelido pelo farmacêutico, o médico tenta um salto na carreira arriscando uma nova operação num cavalariço aleijado que se movimenta muito bem, soltando seus tendões e enfiando sua perna num grotesco aparelho que constrói. Resultado: gangrena. A amputação na altura da coxa é feita por um médico de uma cidade vizinha. A humilhação do Sr. Bovary é total. É um dos trechos mais aflitivos e incômodos que eu já li. O desprezo de Emma pelo marido chega ao máximo e ela decide fugir com o amante. O cafajeste dá pra trás. Emma tem uma fase beata e depressiva. Para animá-la, o marido resolve levá-la ao teatro em Rouen, onde reencontra Léon, o escrevente, e aí a coisa vai. Emma inventa aulas de piano em Rouen, e vai toda semana se encontrar com o novo amante. Com as roupas, presentes e despesas de viagem e hotel começa a aumentar suas dívidas com um agiota, e acaba levando a família à miséria. Suicida-se com arsênico roubado do farmacêutico.

segunda-feira, novembro 14, 2005

O Abismo


Acordou dolorido do esforço e do lugar pouco confortável onde dormiu. Tentou orientar-se pelo sol da manhã, filtrado pelas grandes árvores, e tomou o que entendeu ser o rumo do litoral, em direção ao nordeste, para evitar reencontrar o rio, provavelmente ao sul de onde estava. Encontrou uma mina de água numa grota onde saciou a sua sede, e continuo andando, subindo a pequena serra à sua frente, procurando o que comer. Encontrou algumas frutas, poucas e em más condições, suficientes apenas para continuar andando. Conforme foi subindo a serra, a vegetação foi rareando, a floresta se transformou numa capoeira, e a capoeira se acabou num capim ralo sobre um terreno pedregoso. Chegando ao topo, percebeu que a orla estava ainda longe. Via no horizonte o mar, que devia estar a uns cinqüenta quilômetros de onde estava, ou mais ou menos oito léguas. Começou a andar em direção ao mar, e logo estacou, com um susto. Entre ele e a o topo inferior seguinte havia um abrupto corte vertical, um abismo, um precipício, um “canyon”, do qual não conseguia nem ver o fundo. Apenas a parte de cima da parede de pedra do outro lado, e o vazio à sua frente. “Que maçada!” pensou. Primeiro, para ver o fundo do problema, aproximou-se perigosamente da borda, para poder olhar para baixo. Uma pedra solta seria fatal. Pensou em deitar na borda, mas apesar de não ter ninguém olhando achou que seria feio. Procurou abstrair os tremores do cansaço e a falta de alimento, e expirando lentamente para manter a sua base esticou o pescoço e olhou para o fundo. “Caráleo!” Bem uns quinhentos metros de queda livre. Olhou em volta. Percebeu que, não fosse o abismo, seu caminho seria, por baixo, uns quinze quilômetros mais curto, pois o fundo do canyon apontava para o mar. A noite era aquela. A lua estaria absolutamente inflada e a sereia estaria lá. Podia sentir isso. E saiu andando pela beirada do precipício, olhando para baixo, procurando uma brecha para descer.

terça-feira, novembro 08, 2005

Surfista prateado, heptacampeão


Kelly Slater (post premonitório de maio)

Onda e vontade – Com que fissura essa onda chega, como se tivesse o que matar! Com que pressa assustadora se insere pelas tocas dos corais! É como se quisesse chegar antes de alguém; como se ali escondesse coisa de valor, muito valor. – E agora ela recua, um tanto mais devagar, ainda branca de loucura – estará desiludida? Terá encontrado o que procurava? Puta da vida? – Mas logo vem outra onda, mais louca e brava que a primeira, e também sua alma parece cheia de segredos e da fome de tesouros. Assim vivem as ondas – assim vivemos nós, animais com vontade! – e mais não digo. – O quê? Vocês desconfiam de mim? Ficam putas comigo, monstras lindas? Têm medo que eu traia o seu segredo? Pois bem, fodam-se, levantem os seus perigosos corpos verdes o mais alto que puderem, um muro entre mim e o sol – como agora! Realmente, nada mais resta do mundo senão o fim-de-tarde verde e os raios verdes. Façam como quiserem, morras gigantes, gritem de prazer e de maldade – ou novamente mergulhem suas esmeraldas nas profundezas, espalhando suas rendas brancas sem fim e rajadas de espuma – pra mim tá tudo certo, pois tudo lhes cai bem e por tudo agradeço: como eu poderia lhes trair? – Ouçam bem! Conheço vocês e o seu segredo, conheço a sua raça! Vocês e eu somos da mesma raça! – Vocês e eu, temos o mesmo segredo! (Nietzsche purinho)

domingo, novembro 06, 2005

O Operário


Vi ontem em dvd “O operário”, ou “El Maquinista”, ou “The Machinist”, uma produção internacional Espanha/Inglaterra/Estados Unidos, que os créditos dão a entender ser mais espanhola. Está na prateleira de “suspense” da locadora mas transcende muito o gênero. Uma balada – no sentido tradicional da canção ou poema que conta uma estória – sobre a degeneração mental de um torneiro mecânico há um ano sem dormir, que vai perdendo peso sem parar. Sim, membros são perdidos entre as engrenagens. O diretor americano, desses formados em escolas de cinema, devia ser um ótimo aluno e domina totalmente a linguagem do cinemão. Refinadíssimo. A trilha sonora é um primor. Claramente inspirada nas trilhas de suspense antigas, com pinceladas atonais e até aquele ululante sintetizador primitivo que se toca sem encostar as mãos, e faz um som parecido com o serrote-violino.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Quebra-cabeças

Mais uma do Cali. Ouça.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Plano a, b, c...

Todos sabemos que três pontos fazem um plano e por isso o tripé é estável.
Plano a:
1. Cantada
2. Bolero
3.
Plano b:
1. Romance
2. Segredo
3.
Plano c:
1. Luta
2. Estômago
3.
Plano d:
1. Silêncio
2. Distância
3.

terça-feira, novembro 01, 2005

A simetria das ligações


Não vou nem tentar fazer uma metáfora química para as ligações humanas, como a falsa ciência de Goethe nas "Afinidades eletivas", falsa como a sua rala e poética teoria das cores, destruída por ninguém menos que Isaac Newton, a quem bem se aplica a expressão "o pai da matéria". Mas o jogo da atenção entre os humanos - e não estou nem falando em sexo - remete a equilíbrio . Algo assim como frescobol, o falso jogo, na verdade uma dança de ritmo e cooperação.

Cris e Robert


Bierrenbach


Crumb

segunda-feira, outubro 31, 2005

Minhas putas tristes

Acabei de ler essa maravilha do Gabo, verdadeiro pitéu. Um homem de 90 anos não é só um velho, mas também um homem, que se surpreende e se decepciona cada vez que contempla sua imagem no espelho. Por dentro não sente sua decrepitude. Descobre grandes novidades e revê os seus valores. O amor, custe o que custar, o bolero, pra mim em sentido amplo, as canções de amor, e cantar. E que movido a esse novo e precioso combustível apronta mil e umas. Dá a impressão que vale a pena chegar lá, e aproveitar até a última gota.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Todo mundo tem o seu baú

ta tudo preto feito um cu (Céline)
um urubu pousou na minha sorte (dos Anjos)

sim sou só um viajante andando sobre a terra disse o jovem werther sofredor
na aflição de não poder tocar sua carlota, apesar de estar ali tão perto

sou ao mesmo tempo o viajante o camelo e o deserto
disse o solitário flauberto, depois de velho, cada vez mais louco e mais esperto

não vou lá não vou lá não vou lá vou ficar aqui

ta tudo preto feito um cu
um urubu pousou na minha sorte

quando você ficar velhinha
apareço pra tomar um chá na sua cozinha
mas até lá é melhor eu ficar longe
até lá vou ter que dar uma de monge
padre pecador traidor da batina
trair meu amor rejeitado com qualquer menina
sou moço ainda minha carne é fraca
não adianta querer chutar o pau da barraca
já que o ex-pinguço não pode ver garrafa
o ex-pinguço enche a cara de garapa

quinta-feira, outubro 27, 2005

Tears of a clown



Ontem na última hora um amigo me liga oferecendo um ingresso para o Elvis Costello. "Uau, ganhei na loteria". O lugar era no fundão, mas tinha lido no jornal que no Rio ele chamou o público para a frente do palco, então já ficamos preparados. Até a área isolada para os fotógrafos ele fez liberar. Fomos parar no gargarejo. Um quarteto clássico de rock, bateria, baixo (o baixista fazia excelentes backing vocals) , teclados (só os timbres tradicionais) e o Elvis na guitarra. Não pensava que ele tocasse tão bem. A mesma musicalidade exuberante e expressiva de como ele canta. Duas horas de canções de todas as épocas do seu monstruoso repertório de próprias e covers, e muitas do Delivery Man. "Tears of a clown" de Smokey Robinson entrou num medley Motown. E no longo bis, com uma guitarra vermelha brilhosa medonha pendurada no pescoço, cantou a breguíssima "She", que ficou linda. Lembrei da Leila que outro dia nos ofereceu essa versão lá no Stuck in Sac, num post emocionante sobre sua mãe. Ando preguiçoso para essas coisas, mas tem umas que não pode perder.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Home of the brave, land of the free


Chegaremos lá. Ontem, Cachinhos de Mel, aos oito anos, com seu próprio rifle, matou o Papai Urso com duas balas no peito. "Quem comeu o meu mingau?"

terça-feira, outubro 25, 2005

Referendado está, mas...

O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar nos corações
O mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer

(Nelson Cavaquinho)

segunda-feira, outubro 24, 2005

Referendado está

Em homenagem à bancada da bala, música composta por Bob Geldof baseada em fatos reais. Uma adolescente que fuzilou oito coleguinhas, ao ser perguntada do motivo, respondeu "I don't like mondays".

The silicon chip inside her head
Gets switched to overload,
And nobody's gonna go to school today,
She's going to make them stay at home,
And daddy doesn't understand it,
He always said she was as good as gold,
And he can see no reason
Cos there are no reasons
What reason do you need to be shown

Tell me why
I Dont't like Mondays
I want to shoot
The whole day down

The Telex machine is kept so clean
As it types to a waiting world,
And Mother feels so shocked,
Father's world is rocked,
And their thoughts turn to
Their own little girl
Sweet 16 ain't that peachy keen,
No, it ain't so neat to admit defeat,
They can see no reasons
Cos there are no reasons
What reason do you need to be shown

Tell me why ...

All the playing's stopped in the playground now
She wants to play with her toys a while
And school's out early and soon we'll be learning
And the lesson today is how to die,
And then the bullhorn crackles,
And the captain crackles,
With the problems and the how's and why's
And he can see no reasons
Cos there are no reasons
What reason do you need to die

The silicon chip ...

Tell me why ...

(Bob Geldof)

sexta-feira, outubro 21, 2005

Ao cubo³




Cheiro de sereia no mercado de pinheiros.

A foto e a legenda são do Guga, e estão publicadas no arquitetônico blog "Ao cubo³".

quarta-feira, outubro 19, 2005

Por entre as grades

Beba amor
Fique acordada
Podia ter feito mas não fez nada
Tanto potencial
Mas não faz mal
Promessas que você fez
Beba comigo
Esqueça o perigo
Tanta pressão, faça o que eu digo
Você vai ficar bem
Vou levar para o além
As imagens que não lhe convêm

Gente do seu passado
Que você não quer ao seu lado
Que empurra, chuta, só dá trabalho
Vou lhe proteger

Beba amor
E olhe as estrelas
Vou te beijar por entre as grades
Você neste lugar
Com as mãos para o ar
Finalmente você está presa
Beba mais uma então
E eu te faço só minha
Te deixo guardada no meu coração
Separada do resto
Onde eu quero que esteja
E lembro do que se esqueceu

Gente do seu passado
Que você não quer ao seu lado
Que empurra, chuta, só dá trabalho
Vou te proteger

("Between the bars", Elliott Smith)

terça-feira, outubro 18, 2005

Meire Humane

A informação mais misteriosa trazida por Hans Staden é a de Meire Humane, que segundo nota de rodapé seria um dos mitos históricos americanos pré-colombianos: nome de misterioso personagem que, segundo a tradição, teria aparecido entre os selvagens, servindo-lhes de legislador e mestre.


Assim a ele se refere o alemão, ao comentar o corte de cabelo dos tupinambás:


"Eles raspam a cabeça, deixando apenas uma coroa de cabelo, semelhante à de um monge. Perguntei-lhes diversas vezes como é que tinham chegado a esse tipo de cabelo e eles contaram que seus antepassados tinham-no visto em um homem de nome Meire Humane, que realizara muitas maravilhas entre eles. Era considerado um profeta ou apóstolo."


Matteo Ricci, o jesuíta que passou boa parte da sua vida na China no século XVI, comenta que na sua viagem de ida, em uma escala na Índia, encontrou uma comunidade perdida de cristãos primitivos, com a doutrina e os rituais um pouco alterados talvez pelo isolamento, ou por derivarem de uma fonte anterior à cristalização da igreja católica, que também usavam uma tonsura invertida, exatamente como a descrita por Staden. Teriam a mesma origem desse misterioso Meire Humane, de quem o Google nada nos traz? Seriam apóstolos antiquíssimos perdidos pelo mundo?

domingo, outubro 16, 2005

Post de florzinha



Assisti ontem "O Jardineiro Fiel", filmão dirigido por Fernando Meirelles, que conta uma terrível história de sacanagens da indústria farmacêutica na África. Se não é verdadeira - e não se diz que seja - é plausível. O protagonista é o sujeito bem sem graça que fez "O Paciente Inglês", aquele filme megachato. A heroína é maravilhosa, bem como a atriz que a interpreta. A florzinha aí é uma sobrevivente abandonada no terraço da minha casa, uma cattylea de origem brasileira, da cor que chamam cerúlea.

sábado, outubro 15, 2005

O que eles usam para viajar na água

Na terra deles há um determinado tipo de árvore a que dão o nome de igaibira. Eles destacam a casca dessa árvore de cima abaixo, num único pedaço. Para consegui-la inteira, fazem uma armação extra em torno da árvore.

Transportam essa casca das montanhas até a beira do mar, onde ela é aquecida sobre o fogo e então dobrada para cima, tanto na parte de trás quanto na da frente. Antes disso, amarram madeiras no meio para que não se distenda. É dessa maneira que fabricam barcos, nos quais até 30 homens podem ir em expedições de guerra. A casca é da grossura de um polegar, tendo mais ou menos 4 pés de largura e 40 pés de comprimento, algumas ainda mais longas, outras mais curtas. Com tais barcos, eles viajam o quanto quiserem, remando depressa. Se o mar está agitado, arrastam os barcos para a terra até que o tempo melhore novamente. Não ousam afastar-se mais de duas milhas no mar, mas navegam trechos muito grandes ao longo da costa.


(A verdadeira história dos selvagens nus e ferozes devoradores de homens encontrados no novo mundo, a América, e desconhecidos antes e depois do nascimento de Cristo na terra de Hessen, até os últimos dois anos passados, quando o próprio HANS STADEN DE HOMBERG em Hessen os conheceu, e agora os traz ao conhecimento do público, por meio da impressão deste livro).

sexta-feira, outubro 14, 2005

Quer expiar suas culpas?




Até o século XVI era comum a pena de galés, que consistia em acorrentar o gajo pelo pé a uma galera como essa veneziana, e obrigá-lo a impulsionar a embarcação com um remo de mais ou menos onze metros, junto com mais dois condenados, pelo resto da vida.


Existe uma versão moderna, voluntária, para ambos os sexos e todas as idades:


quinta-feira, outubro 13, 2005

quarta-feira, outubro 12, 2005

Aprendi com os matogrossenses

Nessa tépida tarde de feriado ensolarado, com a cidade tranqüila, lembrei de um comportamento típico dos fazendeiros matogrossenses. Deve valer também para os vizinhos. Andar com o vidro aberto e o ar condicionado ligado no máximo, de preferência numa cabine dupla diesel branca (por uma questão térmica óbvia), com o som ligado alto (para vencer o vento), tocando Zezé de Camargo e Luciano (ou assemelhado, melhor "de raiz"), fumando, e com o bração pra fora. É o equivalente moderno de desfilar na cidade no cavalo com a marcha alta, de arreio novo, casco aparado e bem ferrado, fazendo bonito para as moças. Claro que numa versão paulistana o carro não será branco (cor de táxi) e o som será provavelmente outro.

terça-feira, outubro 11, 2005

Omissão de socorro

Na passagem do ano de 91 para 92 fui para a Praia do Rosa em Imbituba, Santa Catarina, com um enorme grupo de amigos e várias crianças pequenas, e ficamos numa única pousada que havia lá, com chalés espalhados por um pasto cheio de carrapichos, onde não dava para andar descalço. Entrou um mar enorme no canto sul, e eu, inconseqüente e fora de forma, peguei uma prancha do dono da pousada entrei pela prainha lateral, evitando a arrebentação. Tomei um couro danado e saí. Depois, nos outros dias, o mar foi baixando e surf parado há vários anos foi voltando. Tinha um paradisíaco boteco elevado, bem em frente ao pico, e passava muito tempo ali, olhando os bons surfistas pegando ótimas ondas, um espetáculo. O resto do tempo era na rede do chalé, que tinha uma vista semelhante.

Um dia fomos passear pelo costão em direção à praia vizinha, Ibiraqüera, onde ficavam os windsurfers, e apesar do tempo bom, havia um vento bem forte e constante, que nas rajadas chegava a desequilibrar. Era uma caminhada nada atlética, e um de nós até levava uísque dentro de uma daquelas garrafinhas plásticas de esportistas. Às tantas, vimos dois moleques só de calção, a meia altura de um enorme paredão de pedra, em plena escalada de alta dificuldade. Dali a pouco, um deles travou. Não ia nem para frente nem para trás, enquanto o outro ia dele se distanciando e se aproximando do topo da parede. O tempo foi passando e nada do cara se mexer. Nós começamos a discutir o que fazer. Estávamos à meia hora do carro, que estava à quarenta minutos da cidade, que não teria nenhum recurso plausível para salvar o sujeito. Concluímos que só podíamos ficar olhando e torcendo para o cara sair de lá. Fomos nos aproximando do local onde estavam e vimos o outro chegar ao alto da parede. Quando viu o companheiro ainda lá começou a gritar, "venga, maricón", ou algo assim, um longa exortação em impropérios castelhanos. Nada do cara se mexer, e o tempo passando. Seria uma queda de uns dez metros de altura sobre pedra e mar, morte certa. O que já tinha chegado fez então o que era necessário. Voltou lentamente, refazendo a perigosa escalada descendente e chegou onde estava o paralisado. E foi atrás dele, orientando cada movimento, pedra por pedra, saliência por saliência, mão aqui, pé ali, e tirou-o de lá. Nós, angustiados, assistíamos sem fazer nada. Quando finalmente saiu de lá, o sujeito estava em estado de choque, mal conseguia falar. O maricón tomou um belo gole do uísque e contou que o tempo todo que esteve travado formigas mordiam seus pés e suas mãos.

domingo, outubro 09, 2005

O sonho de Pecus

Pecus acomodou-se na enorme forquilha da grande árvore, a poucos metros do chão. Certificou-se que tinha apoio por todos os lados, e por fim, relaxou da longa corrida em fuga, sem perseguidores. Estava livre. Ainda que o roteiro de fuga mais freqüente fosse descendo o rio, normalmente os fugitivos tão logo se sentiam seguros deixavam a corrente e tentavam alcançar o sertão, buscando os quilombos perdidos nas distâncias. Já estava fora do caminho mais óbvio, e a chance de ser capturado antes de ser visto por alguém que pudesse dar conta de seu paradeiro era muito pequena. Alscutou a mata na escuridão, reconhecendo alguns dos inúmeros ruídos próximos e distantes, e embalado pelo coaxar repetitivo de alguns sapos se comunicando, começou a pensar na sereia.

Depois de algum tempo não sabia se estava dormindo ou acordado. Começou a sentir a presença da sereia como se ela estivesse ali do seu lado, até o aroma da sua maresia. Parecia ouvir pequenas ondas quebrando direto na areia, com a característica chicotada na calma do mar noturno. O canto! Um murmúrio insinuava-se entre o som das ondas, uma longa nota emitida de cabeça, por entre as cavidades do crânio, de boca fechada. Daí passou a variar numa escala, que depois de um longo tempo prestando atenção Pecus compreendeu que eram apenas cinco notas, que se alternavam de forma que lhe parecia aleatória, também em duração. Ele teve certeza que ela lhe dizia que não tivesse pressa, que ele agora estava próximo, e que ela tinha todo o tempo do mundo.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Hora da ave maria


Aos amigos que hoje vão chutar o balde na hora da Ave Maria, mais uma do Cali.

quinta-feira, outubro 06, 2005

400 coups

Como estou acordando muito cedo para praticar esportes, só consegui ontem ver os “400 coups” sem dormir. É realmente um filmão, que merece a aura cult que tem. Praticamente não tem uma história, é uma seqüência de acontecimentos encadeados que não vai dar em nada, só uma fuga para a beira do mar. Aí é que vi a graça do filme, na narrativa desapaixonada de erros voluntários e involuntários, mal entendidos e mentiras, implicando meias injustiças que acabam deixando o protagonista pré-adolescente totalmente desamparado e solitário, condição que ele parece aceitar estoicamente. Quando a psicóloga do reformatório pergunta se Antoine mente, ele diz que sim, às vezes, mas que não faz diferença nenhuma, porque também não acreditam quando ele diz a verdade. A trilha sonora deixa um pouco a desejar, com a repetição de um bizarro “chorinho/bossa nova” de balanço discutível. Mas há também um tema simples e bonito executado por um singelo violão, que cai bem. Fiquei curioso para ver os outros quatro filmes com o mesmo personagem, mas a minha locadora não tem. Mas quem tem pressa? Um dia eu vejo. Para um clima parisiense pb, a tragada azul de um cigarro sem filtro do Django.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Antes tarde do que nunca



François Truffaut fez cinco filmes em que Jean Pierre Léaud intepreta um mesmo personagem autobiográfico, Antoine Doinel, ao longo de 20 anos. A foto é tirada da seqüência final do primeiro, "Os incompreendidos" ou "Les quatre cents coups", do fim da década de cinqüenta.

terça-feira, outubro 04, 2005

A arma do bandido

Quer dados para decidir? Veja aqui.


"As armas oriundas dos "Cidadãos Ordeiros"predominam fortemente nos Estupros (67%).
A arma de fogo que se tem em casa aumenta a potência do agressor, seja ele parente, vizinho ou colega da vítima.
As armas oriundas dos "Cidadãos Ordeiros" são fortemente majoritárias também nos casos de Furto. É o varejo dos pequenos delinqüentes, abastecido por armas furtadas ou revendidas.
Também no porte ilegal, temos o varejo resultante dacultura do medo, onde "Cidadãos Ordeiros" (60%) decidem circular pelas vias públicas portando armas, ilegalmente.
Impressiona a forte presença das armas oriundas dos "Cidadãos Ordeiros" em crimes mais violentos, como o Roubo (51%) e o Latrocínio (46%). É o resultado, provavelmente, das transferências das armas dos estoques legal e informal para o criminal, através de roubos ou de revendas.
Impressiona ainda a forte presença das armas oriundas dos "Cidadãos Ordeiros" nas ocorrências que resultam em Lesões por Arma de Fogo (49%). Pesam aqui os casos de conflitos passionais, vinganças e desavenças ocasionais.
Surpreende a alta participação das armas oriundas de "Cidadãos Ordeiros" no conjunto de armas apreendidas no Tráfico de Drogas (51%). É o fruto das transferências (roubos e revendas) para os baixos escalões do crime organizado, que fazem, justamente, os grandes números dos indivíduos envolvidos.
Alta, por fim, a participação em Homicídios (38%)."

segunda-feira, outubro 03, 2005

Fim de semana no campo

É incrível como uma casa de fazenda pôde permanecer praticamente inalterada por pelo menos 33 anos. A casa, os móveis, a comida, os hábitos, as mãos invisíveis que arrumam e servem, tudo continua igual. Isso é que é ser conservador. Ninguém mais hospitaleiro do que essa simpática família. O mesmo pão caseiro, o queijo branco, a mandioca frita amarela e crocante, as compotas, a piscina com água turva, a tropa bonita e bem arreada, as jaboticabeiras cada vez maiores. Se algumas árvores cresceram outras não existem mais, e a massa vegetal causa a mesma impressão. Em algum momento entre o fim dos anos 70 e o começo dos 80 o café substituiu o algodão, e a grande tulha que ficava cheia de algodão até o alto, e desde então não era usada, há pouco tempo desabou. Em volta a cana ganha espaço frente ao café e à laranja, e há muito menos gente morando por ali. Se há algumas notícias de assaltos nas redondezas, a quantidade e variedade de aves parece ter aumentado. Esse foi o fim de semana das cigarras, que faziam um barulho ensurdecedor, e atraíram dezenas de gaviões.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Blog encontro com o Stijn

O blogueiro belga Stijn, de passagem por São Paulo, nos convida para um chopp:

Quem quiser vir:
Segunda, dia 3/10, às 8 e meia
é no balcão, onde rola uma das melhores hamburguesas da capital.
fica na melo alves com tietê.
Até lá!

BAR BALCÃO
Rua Dr. Mello Alves, 150
Tel.: (11) 3061-3781

Suspense

Vai aí a versão do "Love me or leave me" (Khan/Donaldson), que todos conhecem na voz de Billie Holiday. O título e o refrão são a subversão do slogan macartista plagiado pela nossa ditadura militar: "Brasil, ame-o ou deixe-o". A versão foi nomeada "Suspense" pelo autor, o Cali, que também a interpreta em simpática gravação caseira.
This suspense is killin' me
I can't stand uncertainty
Tell me now, I've got to know
Whether you want me to stay or go
Love me or leave me or let me be lonely
You won't believe me, I love you only
I'd rather be lonely
Then happy with somebody else
You might find the night time
The right time for kissin'
But night time is my time
For just reminiscin'
Regrettin' instead of forgettin' with somebody else
There'll be no one unless that someone is you
I intend to be independently blue
I want your love but I don't want to borrow
To have it today to give back tomorrow
For your love is my love
There's no love for nobody else

quarta-feira, setembro 28, 2005

Tarja preta

Vi ontem um documentário feito por estudantes da ECA, como trabalho da matéria, sobre o cartunista Lourenço Mutarelli. A história é incrível. Primeiro você fica sabendo que enquanto ele trabalhava no estúdio do Maurício de Souza, animando Mônica e Cebolinha, tomou um trote no seu aniversário preparado pelos colegas, que simularam um seqüestro. Ele foi vendado e amordaçado e ficou uma hora sofrendo ameaças de violência de toda espécie. Saiu destruído da experiência, ficou meses trancado no quarto, e paulatinamente, com ajuda de remédios, foi aos poucos se recuperando, e conseguindo devagar sair de casa e trabalhar. Depois, ele nos conta que seu pai, que era um policial linha dura, levou-o um dia para assistir a uma sessão de tortura, para completar sua formação: “como se transforma um inocente em culpado”. Outro trauma horroroso. E essas histórias autobiográficas são os temas de seus livros em quadrinhos. São entrevistados o Glauco Matoso, poeta e escritor, a irmã do Lourenço, sua mãe, sua mulher, seu editor de quadrinhos, e um ator que trabalhou na montagem de uma peça sua. É engraçado como a mãe só dá bola fora, não querendo ver quem ele realmente é, e a história estranha da família. Para o fim, se conta que ele, desde a morte do pai, não tem mais desenhado tanto. Segundo o Gonzales, do Níquel Náusea, é preguiça. Apenas escreve livros, peças e roteiros, com certo sucesso. O Mutarelli é um viciado confesso em psicotrópicos, que toma em grande quantidade e variedade, como condição de sobrevivência Só vendo.

terça-feira, setembro 27, 2005

I drove all night - versão

Tive que fugir, dessa cidade estúpida e cruel
Devia ter ligado antes mas estava louco pra chegar ao céu

Sonhava com você e tinha muito chão pra queimar
Uh-huh, yeah

Provar os seus beijos, seus braços abertos
A febre, o desejo queimando me deixou desperto

Rodei sem parar pra estar com você
A noite inteira na estrada
Rodei sem parar, me esgueirei no seu quarto
Velei o seu sono, só pra te amar
A noite inteira na estrada
Pra mim não foi nada

Nada protege o coração do amor fatal
Em qualquer lugar se ouve o som do seu ritmo de metal
Eu penso em você e a noite é escura e fria
Uh-hu, yeah

Ninguém me comove só você me liga
Nada separa esse amor que uniu nossas vidas

Rodei sem parar para estar com você
A noite inteira na estrada

Rodei sem parar, me esgueirei no seu quarto
Velei o seu sono, só pra te amar
A noite inteira na estrada
Pra mim não foi nada

Set list


I Drove All Night

Written by Billy Steinberg e Tom Kelly for Roy Orbison

I had to escape
The city was sticky and cruel
Maybe I should have called you first
But I was dying to get to you
I was dreaming while I drove
The long straight road ahead, uh, huh
Could taste your sweet kisses
Your arms open wide
This fever for you is just burning me up inside

I drove all night to get to you
Is that alright
I drove all night
Crept in your room
Woke you from your sleep
To make love to you
Is that alright
I drove all night

What in this world
Keep us from falling apart
No matter where I go I hear
The beating of our one heart
I think about you
When the night is cold and dark
No one can move me the way that you do
Nothing erases the feeling between me and you

Essa breguíssima melodia e seu ritmo galopante foi magistralmente cantada pelo Chico Xavier do rock, o Roy Orbison. Eu gosto tanto que fiz uma versão.

sábado, setembro 24, 2005

Set list

Desde que o samba é samba

Caetano Veloso

A tristeza é senhora,
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura,
a noite e a chuva que cai lá fora
Solidão apavora, tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece, no quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer, O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer, veja o dia ainda não raiou
O samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor
O grande poder transformador

Do Caetano eu gosto mais das músicas no formato canção de rádio. Essa é uma das boas. Não fosse o "no quando agora em mim" nem dava pra percerber que era dele. Tanto que o João Gilberto gravou.

Mas será o ..enedito?

e-néditos

Por Christiana Nóvoa

e-scritores • e-nspirados
e-nteligentes • e-modestos
e-mortais • e-minentes
e-mpossíveis
e-ndigestos
e-ndigentes • e-ndígenas • e-dílicos
e-maginários • e-ridescentes • e-luminados
e-lusionistas • e-lustrados • e-lustres • e-lógicos
e-nstáveis • e-nsólitos • e-ncógnitos
e-ndecifráveis • e-ncrencas • e-mbroglios
e-ndecentes • e-mplicantes • e-rônicos
e-conoclastas • e-morais • e-nocentes • e-núteis
e-ncríveis • e-mperdíveis • e-mpensáveis • e-nfláveis • e-mensos
e-mersos • e-mundos • e-fundos • e-tudo

e-néditos : edite-nos
(clique para saber quem somos e o que queremos)

quinta-feira, setembro 22, 2005

Como blogar anônimo

Vejam que interessante manual, que ensina, entre outras pérolas, como blogar anonimamente. Não é para cypherpunks.

Pinga

Ouça pinga gravada alguns anos atrás por amigos.

terça-feira, setembro 20, 2005

Carne Crua

Estava num pequeno grupo que foi à já lendária goma do A. num fim de noite para tomar uma saideira. Dias depois, um dos que estava lá disse ter me visto numa foto no blog Carne Crua. Eu nem sabia o que era blog. Para mim era só mais uma dessas palavras modernas que se um dia se tornasse necessária aprenderia o seu significado. Mas fui ao endereço ver a foto, percebi uma estrutura de diário compartilhado com espaço para comentários, e a possibilidade de ser ilustrado. Aliás, no caso do Carne Crua, muito bem ilustrado com excelentes fotos, especialmente as noturnas, narrando suculentas aventuras cotidianas. Depois, comecei a fuçar a lista de blogs linkados, e percebi adultos fazendo isso e me pareceu muito interessante. Uma comunicação em outro plano. No dia 19 de abril de 2005, uma data marcada de efemérides, lancei o meu, com o pseudônimo acidental Pecus Bilis.

domingo, setembro 18, 2005

Django em Bellevile



Acabei de ver “As Bicicletas de Bellevile”, a maravilhosa animação francesa. E logo na apresentação, aparece, com o bigodinho e o fraque de Amigo da Onça, o Django Reinhardt, o genial guitarrista cigano belga, e faz um solo com o seu fraseado característico, muito bem recriado pelo Bento que compôs a trilha. Incrível o detalhe dos dedos faltantes da mão esquerda, a que passeia alucinadamente pelo braço do instrumento com apenas dois dedos. E os toquinhos!!! Reza a lenda que Django utilizava os toquinhos, fielmente retratados no desenho, dos dedos perdidos num incêndio de carroça na sua infância. E aquela batida da música-tema “Rendez vous” é a típica do “Hot Club de France”, que na sua formação mais excitante eram três violões, contrabaixo e o violino de Stephanie Grappelli. A percussão é feita com as guitarras, num dançante sincopado em triplets, tercinas, termo musical que designa o grupo de três notas encaixado no espaço de duas. Justamente o nome do grupo das trigêmeas de Bellevile.

Quando eu era moleque costumava comprar uma revista estrangeira chamada “Guitar Player”, e lá, nas longas entrevistas com guitarristas de jazz, muitos citavam como referência o Django, descrevendo o uso de arpejos, cromatismos e escalas diminuntas na construção dos seus expressivos solos. E eu nunca tinha ouvido. Um noite fui ao cinema assistir “Corações Loucos”, para mim a primeira aparição do simpático Gerard Depardieu, um road movie em que ele e outro sujeito circulam pela França nunca seqüência de aventuras, ao som do Hot Club de France. Deduzi e confirmei nos créditos que se tratava do Django, apresentado a mim naquele divertidíssimo contexto.

A única coisa que consegui comprar aqui em São Paulo foi um livro com uma sintética biografia, e algumas transcrições de solos. Encomendei a alguém que foi à França um disco qualquer que encontrasse. Trouxeram-me um álbum triplo muito bom, com gravações das duas formações do Hot Club, a com clarineta e bateria, com a qual ele toca guitarra elétrica com um cativante timbre de alto falante de quermesse ou radinho de pilha. Mas o álbum conseguiu a proeza de não ter nenhuma música transcrita no livro, a não ser “Nuages”, uma espécie de prefixo dele que não é lá dos seus melhores números, na minha opinião. Consegui copiar uma fita cassete na fitoteca do Centro Cultural Vergueiro, que durou pouco tempo na minha mão, larguei em algum lugar. Hoje pode-se baixar possivelmente todas as suas gravações nesses programas (sites?) de circulação de coleções caseiras.

Há também o genial filme do Woody Allen, aquele com o Sean Penn que eu nunca lembro o nome, que interpreta um guitarrista, o segundo melhor do mundo, atrás apenas de Reinhardt, do qual ele está sempre a ouvir os discos. Nas duas vezes na vida em que se encontrou com ele desmaiou, exatamente como Freud e Jung depois do rompimento.

É sempre um prazer cruzar com o Django por aí.

sábado, setembro 17, 2005

A fuga

A noite estava perfeita para a fuga. Estava nublado e chuviscando, e a lua crescente quase cheia produzia uma luminescência difusa, que permitia a identificação das grandes silhuetas do relevo, mas dava alguma chance ao fujão de passar despercebido. Ao longo dos dez dias Pecus obteve uma longa tripa de porco fervida e lavada, com a qual preparou, juntando os poucos restos de comida que aqueles escravos esfaimados deixavam, uma espécie linguiça, misturando com as ervas que o Velho tinha preparado. Conseguiu montar um número bem maior do que o de cachorros, porque elas poderiam se perder no escuro, ou um deles engolir várias daquelas cápsulas em detrimento dos outros, e algum permanecer acordado.

Quando o batuque diário e depois o movimento dos trâmites sexuais sucessivamente cessaram, Pecus, com o coração na bôca, desmontou a grade de madeira que servia de ventilação daquele porão escuro e fétido, na qual vinha trabalhando há uma semana, e vislumbrou, no terreiro de terra batida, claro devido à lua, o vulto negro e assustador dos grandes cães de fila. Um escravo dentro da senzala não provocava nenhuma reação nos animais, que entendiam estar o seu território preservado. Pecus estendeu o braço para fora com a bola, e balançou-o, ao mesmo tempo em que emitia um baixo assobio cheio de ar. Os cães assumiram atitude de ataque e partiram decididamente para o braço de Pecus, que soltou a bola e o recolheu. Um dos cães chegou a enfiar a cabeça na janelinha, forçando o escravo a recuar. Mas distinguiu nitidamente o ruído da bola sendo deglutida. Depois que o cachorrão desobstruiu a vista, Pecus, aproveitando que os animais estava por ali, foi jogando, uma a uma, as bolas. Esperava ruído da deglutição de uma, para mandar a outra. O pitéu caíra no gosto dos caninos, e rapidamente toda a tripa foi consumida.

Pecus esperou uma meia hora, talvez, tentando perceber o estado dos cães, mas não ouvia nada. Esperou o máximo que agüentou, até que esgueirou-se pela janelinha e foi-se. Não havia mais nenhum cachorro por lá. Escalou o grande muro de pedra que circundava o terreno e ganhou o pasto. Arriscando-se a tropeçar em um toco, ou cair num buraco, saiu trotando cautelosamente, pois sabia que o seu tempo era limitado. A rota de fuga era uma só e sempre a mesma. Atravessava o pasto, cercado com um desagradável cerca de lascas de pau trançado, o cafezal, daí uma pequena mata, até atingir o grande rio, num ponto que estava a uns trinta quilômetros do mar. Mergulhando no rio, que naquela época do ano tinha uma velocidade de mais ou menos 4 quilômetros por hora, em mais ou menos sete horas e meia descendo com a corrente chegaria na costa. Os capitães-do-mato sabiam que era muito difícil capturar um escravo no rio. A noite ficava-se quase invisível, boiando com praticamente só as narinas para fora, e os cães não conseguiam seguir o seu rastro.

Foi o que Pecus fez sem nenhuma dificuldade outra que não as esperadas. Tropeços e arranhões, mas nada que tivesse que interromper a sua marcha. A água do rio estava gelada, e as longas horas mantendo-se à tona na correnteza iriam acabar com ele. Começou a nadar à moda dos sapos, movimentando-se lentamente, para tentar manter-se aquecido pelo pequeno esforço, que deveria durar a noite inteira. Mas estava bem preparado, e tinha calculado mentalmente todo o trajeto. Seu plano corria maravilhosamente bem, e o sabor da liberdade era delicioso. Evitava pensar no quanto apanharia se fosse pego. O fato é que absorto em sonhos de praias quentes e ensolaradas e sereias, Pecus deslizou a pela grande baixada a noite inteira, e a luz da aurora o pegou ainda um pouco distante da costa, mas ele achou mais prudente sair do rio e se embrenhar na mata, antes que pudesse ser visto.

Perdeu mais uns quinze minutos andando na penumbra da mata cerrada até ficar seco e seguro, subiu numa árvore que tinha uma grande forquilha, e adormeceu por quatro horas. Teria que andar dois dias por matas, mangues e restingas, circundar uma aldeia tupinambá que havia no caminho, para chegar ao local do encontro marcado sem nenhuma segurança da mera possibilidade da sua efetiva ocorrência, na praia com a sereia, no auge da lua cheia.

Encontrei ontem com o blogueiro belga Stijn, de passagem por São Paulo. Tínhamos apostado um almoço se ele descobriria minha verdadeira identidade. Ele não conseguiu. Criou um blog para cruzar as informações esparsas sobre mim, o que me incomodou bastante, e ele acabou tirando o blog do ar, a meu pedido. Consideramos que a gentileza cerceou suas chances, e rachamos a conta do Acrópolis, o grego do Bom Retiro, onde comemos o excelente polvo. Depois demos uma volta pelo Museu de Arte Sacra, talvez o único prédio de porte do século XVIII ainda em pé em São Paulo, e apreciamos aquela arte primitiva e tocante, o barroco das colônias executado principalmente por índios e negros. Vimos a disciplina do Frei Galvão, idealizador, projetista e construtor do mosteiro, onde instalou uma ordem enclausurada para uma freirinha mocinha que ele muito admirava, e que se flagelava em intensidade acima da média do mercado, o que ele tomou como indicativo de uma grande vocação. O frade franciscano moveu mundos e fundos para a obra pia, na contra corrente do combate às ordens do Marquês de Pombal, que há pouco banira os jesuítas, onde Galvão começou sua carreira de beato milagreiro. Vejo algo de sobrenatural no fato de prédio ainda estar de pé.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Set list

Pinga

Enquanto a roça não vinga
A gente toma muita pinga
E sai pra pescar
E não choraminga

Enquanto o peixe não vem
A gente toma pinga também
E dá um mergulho
E solta mais linha

Enquanto o jantar não cozinha
A gente toma outra branquinha
Carrega a pimenta
Que a pinga sustenta

E se a patroa reclama
Serve a ela outra cana
E põe pra dormir
Que amanhã tem mais

Um dia, como outro qualquer
Um dia igual, se deus quiser

quarta-feira, setembro 14, 2005

Checando o material

- Rico é quem gasta menos do que ganha.
- Há felicidade na favela?
- Sim, é claro. Negócio e baile funk tem todo dia.
- Tem gente que só olha para o que não tem e fica triste.
- Outros lembram do que têm e agradecem.
- Sócrates disse: Fui ao shopping e fiquei surpreso de ver quanta coisa eu não precisava.
- O cartão de crédito escraviza.
- A vida é curta. Quem tem perde.
- O que você realmente precisa?
- Muito.
- Muito o que?
- O Oceano e uma sereia.
- Ambicioso.
- Mas que valores carrega?
- O corpo e a alma.
- E o coração?
- Em perfeito estado. VOmax elevado.
- Rins e figo?
- Um pouco baleados mas ainda originais. Senão esforçar muito, mais cinqüenta mil quilômetros sem abrir.
- O mistério?
- Em outra freqüência, mas vibrando bem.
- A moringa?
- Oca, como sempre. Clara e arejada.
- Que mais?
- Só o de comer. Mais nada.
- Está contratado. Pode começar.
- Folgas?

terça-feira, setembro 13, 2005

Grande diversão

Depois de dois dias passeando por Angra e Ilha Grande movidos a motor, ao sairmos da Enseada do Abraão por volta das dez horas da manhã, pegamos um consistente vento do quadrante sul. Havia previsão da chegada de uma frente fria, mas o dia estava lindo e finalmente velejávamos a todo pano. Quando começamos a contornar a ponta oeste da Ilha, o vento refrescou. O vento, agora de través, movimentava o barco adernado à toda velocidade, e o skipper empolgado vigiava o desempenho no gps. O anemômetro indicava a velocidade do vento algo em torno de 14. Achávamos que eram nós, milhas náuticas, depois descobrimos que eram metros por segundo, o que dá mais ou menos o dobro em nós. As crianças começaram a ficar assustadas. Percebemos que vários barcos já voltavam do lado de fora da ilha, para se abrigar do lado protegido. Mas como a velejada estava boa e não parecia haver nenhum risco, mantivemos nosso curso para o lado do oceano.

Ao darmos um bordo a imensa genoa que deveria passar para o outro lado do barco, enganchou-se lá em cima no mastro, formando um balão travado pela força do vento. Tínhamos perdido a hora certa de reduzir o pano. Com a vela presa lá em cima, o barco não mais podia ser posto contra o vento. Pego de través, o barco começou a se inclinar, e foi adernando até deitar completamente na água. O vento nessa hora chegava a uns 40 nós. Toda a tripulação, no cockpit, pendurou-se noguarda-corpo, enquanto o skipper lutava com o leme para tentar por a embarcação no prumo. Mas o vento equilibrou o barco adernado, e ficamos nessa posição um minuto, ou dois, que pareceram uma eternidade. De repente, o barco se aprumou e saímos em desabalada carreira com vento em popa, única direção que podíamos seguir com a genoa presa no mastro.

A situação não era nada boa. O barco estava todo revirado, e um pouco de água entrara pela gaiuta do banheiro traseiro. O material humano, além do skipper não tão experiente, era mais um homem adulto pouco marinheiro, duas mulheres nada marinheiras, e três crianças, entre 13 e 10 anos, apavoradas. O barco não podia ser manobrado. A pressão na vela grande era enorme, e não conseguíamos abaixá-la. A genoa continuava enganchada lá em cima. Só conseguimos enrolar sua parte de baixo, que não resolveu nada. Fomos arrastados pelo vento cada vez mais forte em direção ao Rio, e em vez de irmos nos proteger no meio do oceano, teoricamente o mais seguro a fazer, pensamos em nos abrigar na Enseada de Mangaratiba, que nos pareceu possível de atingir.

As nuvens negras da tempestade já estavam próximas de nós, e o vento só fazia aumentar, e as ondas a crescer. Não conseguimos entrar em Mangaratiba, e fomos tentar abrigo ao lado de um grande molhe de pedra num porto de minério que há um pouco depois. O plano era simples: quando estivéssemos ao lado do molhe, um pouco protegidos do vento, ligaríamos o motor, poríamos o barco de proa para o vento e ancoraríamos, para desembarcar as crianças e baixar as velas. Ao nos aproximarmos do molhe, dois barcos, um do porto e outro de pesca vieram nos ajudar. Tentamos ligar o motor, mas o cabo da genoa havia enrolado no hélice. Jogamos a âncora, que não segurou o barco. Estávamos em rota de colisão, a uns 20 metros das pedras, quando o barco de pesca nos jogou um cabo que amarramos na popa. O pesqueiro puxou o barco pela popa, e conseguiu inverter a posição, e a embarcação passou a se afastar do molhe.

Ele nos emprestou mais uma âncora, que também não segurou o barco, mas reduziu sua velocidade. Um marinheiro veio a bordo e nos ajudou a baixar a vela mestra, agora com a pressão abrandada pela posição do barco, e tivemos que destruir a genoa para tirá-la. Uma lancha vinda da vila ao lado do porto apareceu e levou as mulheres e as crianças para terra. O barco sem velas ainda era arrastado, mas devagar. O marinheiro mergulhou em baixo do barco com uma máscara e uma faca, e conseguiu, depois de uns 20 minutos, soltar o cabo que prendia o motor, a despeito das ondas mais ou menos grandes, que faziam o barco oscilar assustadoramente. O zumbido do vento nos cabos e estais era impressionante.

Mulheres e crianças desembarcadas, o motor livre, eu e o skipper nos despedimos do bravo marinheiro, e o nosso plano era pernoitar no Iate Clube de Itacuruçá, alguns quilômetros adiante. Lutamos uns quarenta minutos para recolhermos as duas âncoras, tarefa dura devido ao mar agitado, e a dificuldade de manter os cabos e correntes no trilho correto do guincho, o que obrigava a constantes manobras de ré. As ondas passavam por cima da proa, e a oscilação total do bico, onde eu estava sentado, devia ser de uns dois metros. Finalmente fomos a motor para Itacuruçá, e o vento sempre forte, com chuva, mas a situação estava sob controle.

No canal da entrada da ilha não havia ondas, mas parecia que o vento se acelerava. Já estava quase escuro quando passamos ao largo do clube. Depois de algumas tentativas conseguimos falar com alguém, que nos orientou a buscar uma poita no centro de um “u” entre dois cais. O vento estava tão forte, que desviava a proa do barco ora de um lado, ora de outro, e não conseguíamos pescar a poita com o croque. Entregamos o inflável a dois marinheiros do clube, que foram remando até a poita para nos ajudar. Joguei o cabo dentro do inflável, mas o barco foi jogado pelo vento para cima do inflável, e eles deixaram o cabo cair na água. Em poucos segundos o motor travou novamente. O cabo enrolou de novo no hélice. O barco ficou à deriva, empurrado pelo vento em direção ao cais. A proa ia bater de lado no pontão de concreto. Três sujeitos apareceram lá, e com o braço, impediram a colisão. Com a manobra, a popa começou a se alinhar com a testa do pontão, e eu peguei o último cabo que achei, mandei a eles que conseguiram amarrar o barco no último momento, antes que ele continuasse à deriva e fosse fazer um “strike” nos barcos ancorados no pontão que havia em seguida. Foi a segunda vez que quase perdemos o barco.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Afinidades eletivas

- Notamos primeiramente que todos os seres da natureza, perceptíveis para nós, mantêm uma relação recíproca. Com certeza, soa estranho quando se expressa algo que já é óbvio; contudo, somente após compreendermos completamente o conhecido, é que podemos avançar em direção ao desconhecido.
...
- Permitam que me antecipe – disse Charlotte – para ver se entendo aonde querem chegar. Como tudo se relaciona entre si, essas relações também devem valer frente aos outros.
- E isso será diferente segundo a diversidade dos seres – completou Eduard. – Ora agirão como amigos ou velhos conhecidos que rapidamente se reúnem, se juntam, sem modificarem um ao outro, tal como o vinho ao se misturar com a água; ora, ao contrário, permanecerão absolutamente estranhos um ao outro, sem se unirem, mesmo através de fricções ou misturas mecânicas; tal como o óleo e a água, que logo depois de sacolejados juntos voltam a se separar.
...
- Contudo – replicou Eduard -, tal como esses grupos que se agregam por meio de costumes e leis, há também, em nosso mundo químico, elementos para juntar aquilo que se repele mutuamente.
- Assim juntamos, interveio o Capitão – o óleo com a água por meio de um álcali.
- Não vá tão depressa com o seu relato! – disse Charlotte – para que eu demonstre que consigo acompanhá-lo. Já não chegamos aqui às afinidades?
- Correto; - respondeu o Capitão – e logo iremos conhecê-las em toda a sua força e determinação. Àquelas naturezas que, ao se encontrarem, se ligam de imediato, determinando-se mutuamente, chamamos “afins”. Nos álcalis e ácidos essa afinidade é bastante evidente; embora sejam opostos e talvez justamente por isso, procuram-se e se agregam de maneira mais decidida, modificando-se e formando juntos um novo corpo. Pensemos somente na cal, que manifesta uma grande atração por todos os ácidos, um impulso imperativo para a união!
...
- Deixe-me confessar-lhe – disse Charlotte – que, se o senhor chama a essas substâncias estranhas de afins, elas não parecem então possuir uma afinidade sangüínea, mas sim espiritual e anímica. É justamente dessa forma que podem surgir entre as pessoas amizades verdadeiramente significativas, pois características opostas tornam possível uma união íntima.
...
- Já que nos incitou uma vez – replicou Eduard -, não se livrará assim tão facilmente, pois os casos complicados são de fato os mais interessantes. Somente por meio deles é que se conhecem os graus de afinidades, os relacionamentos mais próximos, mais fortes, mais distantes e mais insignificantes; as afinidades se tornam interessantes apenas quando produzem separações.
...
- Vamos prosseguir então – disse o Capitão – o que já referimos e denominamos anteriormente. Por exemplo: o que chamamos de pedra-cal não passa de terra calcárea mais ou menos pura, estreitamente unida a um ácido tênue que ficou conhecido para nós como gaseiforme. Se colocarmos um pedaço dessa pedra em ácido sulfúrico diluído, este se juntará à cal, ganhando com ela a forma de gesso; aquele ácido tênue, etéreo, por sua vez, se evaporará. Aqui ocorreu uma desagregação e uma nova combinação, o que nos autoriza a aplicar a expressão “afinidade eletiva”, pois realmente parece que se preferiu uma relação e não outra, que se elegeu uma em detrimento de outra.
...
- Se não estiver enganado – disse Eduard sorrindo (para Charlotte) – , há um pouco de malícia por trás de suas palavras. Confesse sua traquinice. Em última análise, sou, aos seus olhos, a cal que o Capitão, como ácido sulfúrico, apanhou e afastou de sua agradável companhia, transformando-me em gesso refratário.
- Se a sua consciência – replicou Charlotte – sugere-lhe tais conclusões, eu posso então ficar tranqüila. Essas alegorias são graciosas e divertidas, e quem não gosta de brincar com as semelhanças? Entretanto o ser humano está muitos degraus acima de tais elementos e, se nesse caso tem sido tão liberal com essas belas palavras “escolha” e “afinidades eletivas”, ele fará bem em voltar-se para si mesmo e desse modo refletir bem sobre o valor dessas expressões. Infelizmente conheço muitos casos em que a união íntima e aparentemente indissolúvel de dois seres foi desfeita pela junção ocasional de um terceiro, lançando num imenso vazio um dos membros de tão bela união.
- Nesse caso, os químicos são muito mais galantes; - disse Eduard – eles agregam um quarto elemento para que nenhum fique imune.
- Mas claro! Exclamou o Capitão – esses casos são, sem dúvida, os mais significativos e curiosos; através deles pode-se realmente demonstrar a atração, a afinidade, esse abandono e essa junção entrecruzando-se; neles vêem-se os quatro seres, unido até então dois a dois, que, entrando em contato, abandonam a sua união anterior e formam novas . Nesse ato de largar e prender, nessa fuga e nessa busca, julgamos ver realmente uma determinação mais elevada; atribuímos a esses seres uma espécie de vontade e preferência, e assim consideramos plenamente justificado o termo técnico “afinidades eletivas”.

(Tradução de Erlon José Paschoal)

Transcrevi o mínimo para tornar compreensível a metáfora química que Goethe aplicou às relações humanas. Montou um quarteto – Ottilie está para chegar - que as forças eletivas fazem rearranjar, todos envolvidos em implementar melhoramentos em uma propriedade rural. Iluminista, positivista, a fé no esquadro e no compasso dos maçons. Procurei muito isso no Google, para comentar o post quadricrômico do Dudi sobre o tema, mas não encontrei. Copiei na unha, como um monge, da minha edição “Nova Alexandria” 1993, para compartilhar. O comentário da Lúcia Carvalho foi assim:

olha!
casamentos!
olha!
oh, não!
traições!

sábado, setembro 10, 2005

As cidades invisíveis

Estava folheando (e-books, aprendam) os “Cidades Invisíveis”, do cubano Italo Calvino (não se percam pelo nome como eu) e me surpreendi, primeiro, de ter sido feita a tradução por Diogo Mainardi, antes de se transformar no colunista iconoclasta daquela revista. A situação é semelhante à das mil e uma noites. Marco Polo tem que entreter o Khan, e começa a descrever as cidades maravilhosas por onde teria passado. Na contra-capa há uma declaração do Calvino dizendo esse livro é o que melhor transmite a sua visão de mundo, suas reflexões mais profundas. As cidades têm nomes de mulheres. Espocou-me a idéia, talvez um pouco óbvia, de que Marco Polo construía suas cidades invisíveis sobre as lembranças das mulheres que tivera. E é claro que o intrépido explorador haveria experimentado muitas. A descrição de cada cidade seria assim uma cantada enviesada e metafórica, um monumento erigido a cada mulher que o próprio Italo Calvino teve, ou desejou de forma mais dedicada. Como aquelas músicas que têm nome de mulher e se um dia foram feitas para uma mulher específica, ganharam vida própria e passaram a ser mulheres invisíveis, onde projetamos as nossas cantadas.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Set list

Between the bars (ouça aqui com o autor)

Elliott Simth

drink up, baby,
stay up all night
the things you could do,
you won't but you might
the potential you'll be,
that you'll never see
the promises you'll only make
drink up with me now
and forget all about
the pressure of days
do what I say
and I'll make you okay
and drive them away
the images stuck in your head

people you've been before
that you don't want around anymore
that push and shove and won't bend to your will
I'll keep them still

drink up, baby,
look at the stars
I'll kiss you again
between the bars
where I'm seeing you there
with your hands in the air,
waiting to finally be caught
drink up one more time
and I'll make you mine
keep you apart
deep in my heart
separate from the rest
where I like you the best
and keep the things you forgot

Já estou dominando a valsinha

Na versão de Madeleine Peyroux

quinta-feira, setembro 08, 2005

A missão

Pecus à noite uivava de dor nas costas e anseios dos mistérios da sereia. Entoava longos lamentos em banto, falando do mar, das ondas, da liberdade e da sereia. De dia, ao fazer mecanicamente o seu trabalho se punha numa espécie de transe, e zumbizava divagando histórias explicando o estado da sereia, a sua origem e a solução. Sempre sob a vigilância dos cães. À noite os cães circulavam a senzala e ao menor movimento latiam e se tivessem qualquer oportunidade atacavam. Em matilha e com muita violência. Precisaria envenená-los. Foi falar com o velho que fazia as poções. Ele ponderou que era a enésima vez que Pecus fugia, era capturado e apanhava.

- Não tem jeito. Agora eu tenho uma missão.
- Você tá é enfeitiçado.
- É, preciso desvendar esse mistério.
- Deixa esse mistério em paz, ô rapaz..
- Vou fazer só uma tentativa. Se não der, aceito a escravidão.
- Demora uns três dias. Tenho que catar um monte de ervas diferentes.
- Faça na noite que entrar a lua cheia. Assim se ficar só um pouco solto, vai ser na hora certa.
- Fugir na lua cheia é bobagem.

Faltavam dez dias para a lua cheia. Pecus tratou de se alimentar bem, fazia seus alongamentos com cuidado antes e depois da sessão de enxada, e procurava descansar o máximo possível, se guardando da gandaia. O tempo era suficiente para que ele se recuperasse bem. E a imagem que ia se definindo cada vez melhor na sua mente, dele com a sereia ao luar na praia deserta, era a liberdade em concreto. Um homem com uma missão.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Uma generalização

Todos conhecem a “Dor elegante” de Paulo Leminski, musicada por Itamar Assunção. Deve ser um dos mais repetidos pelos blogs lusógrafos. É simples e fascinante, como tudo que ele fez. Tinha o dom de mostrar as grandes obviedades como se fosse a primeira vez que as vemos, fazendo-nos vivenciá-las como pequenas iluminações budistas, os hai-kais tanto ao seu gosto. Todos temos as nossas dores, em sentido amplo, incluindo rancores, frustrações, decepções, perdas, um enorme repertório de nomes para defini-las com razoável precisão. Normalmente não dores tão grandes que nos propiciem um andar mais elegante, mas o suficiente para dar a cor e o sabor da personalidade. Se não somos feitos das dores, elas têm uma grande participação na composição da nossa estrutura. Não gostamos de falar delas. Muitas vezes não queremos nem admiti-las para nós mesmos. Mas como os filósofos, artistas e cientistas há muito tempo descobriram as dores são as chaves das portas do mundo interior das pessoas. Se queremos conhecer alguém mesmo, temos que conhecer suas dores. Não adianta pesquisar, ler, entrevistar, torturar, medir, pesar, vigiar, estudar, se não conseguimos identificar suas dores. Só aí compreendemos o seu andar.

terça-feira, setembro 06, 2005

Vera Lynn



We'll Meet Again (ouça)

We'll meet again,
Don't know where,
Don't know when,
But I know
We'll meet again
Some sunny day.

Keep smiling through
Just like you
Always do
Till the blue skies
Drive the dark clouds
Far away.

So will you please
Say hello
To the folks
That I know
Tell them,
I won't be long.

They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Estou farto de Pecus - Rascunhos de canções - As melodias são piores ainda

SHEILA LEIRNER AVISOU:

MARTE ATACA PECUS!




Vou conseguir parar de falar bobagem
Vou conseguir ficar com a boca fechada
Vou conseguir me concentrar em coisas produtivas

O soldado antes da batalha sente-se como Jesus no horto das oliveiras antes da última ceia
Medo muito medo muito medo de morrer
Ou de ficar ferido
E ficar com seqüela
E não mais poder
Ficar com ela

Eu fiquei no tempo
No sol, no vento, na chuva, na friagem, no granizo
Eu fiquei no tempo
Como uma árvore crescendo devagar

Você olha e não diz nada
Quando passa apressada na hora do almoço
Indo alimentar o bebê
Acho que você está certa
Acho que você tem razão
O silêncio é o que nos completa
O silêncio é a solução
E eu vou continuar falando com as paredes

Estou preso numa teia de emoções baratas
Estou preso num labirinto de lembranças inventadas
E cada caminho se reparte em dois
E cada caminho se reparte em dois
E eu escolho sempre o caminho errado
E cada lembrança já está gravada
Não pode mais ser apagada
Da pedra da minha tumba

Seja o que deus quiser

Hoje morreu uma amiga querida

Epitáfio da navegadora

Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;
e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,
ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;
essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa
em sua face iluminada,
dize: "Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,
mas seu nome, de barca e estrela,
foi: "SERENA DESESPERADA".

Cecília Meireles

domingo, setembro 04, 2005

Escravo novamente

Pecus terminou de introduzir seus desenhos na garrafa de pinga, e estava arrolhando firmemente o frasco, quando ouviu atrás de si o grunhido roufenho e grave que já conhecia. Saiu correndo à toda velocidade imediatamente em direção ao mar, e mal teve tempo de arremessar a garrafa o mais longe que pôde, quando o peso de um cavalo arrojou-se nas suas costas, derrubando-o na areia. Ao mesmo tempo sentiu no antebraço direito a mordida perfurante, travada como uma ferramenta de mecânica pesada, e entendeu tudo. Tinha sido pêgo, e sabia muito bem por quem. Era o Tonho, aquele filha-da-puta daquele escravo vendido, capitão-de-mato do seu senhor, que com os seus enormes cães-de-fila, de pelagem suja de pardo e preto tigrado, tinha ganho mais uma. “Perdeu, seu Pecus. Te peguei de novo”. Pecus resolveu que ia dar o mínimo de satisfação àquele bosta e não disse nada. Era difícil lidar com aquela questão profissionalmente. Logo foi acorrentado por um bugre que auxiliava Tonho, e posto para andar ao estalar do chicote, que o caçador de escravos manejava com maestria, fazendo-o soar em alto e bom som.

Pecus sabia o que o esperava, e não ficou desesperado. A vida na senzala não era tão ruim assim. O problema era a surra e o tronco que enfrentaria, antes de voltar ao trabalho. A única maneira de assimilar tal grau de intensidade exigido pelo patrão, era encarar aquilo como uma aspiração própria. O trabalho na roça como um trabalho atlético, procurando a posição mais ergonômica de manejar o instrumento, e cumprir sua tarefa lentamente, como todo trabalho de resistência, mas de forma ritmada e eficiente. Dava gosto de ver os grandes taliões de café bem carpidos, embora lhe parecesse de forma evidente que o sentido das linhas da plantação era errado, pois acelerava a lavagem da terra pela enxurrada, formando rapidamente grandes vossorocas. A comida era boa e abundante. O fubá, a farinha de mandioca, e as vísceras e carnes das piores partes dos porcos e bois, bem preparados ficavam ótimos, e eram complementados por especiarias e pimentas que cultivavam, e ainda verduras e frutas que vicejavam em grande quantidade.

Toda noite tinha baile, como eles chamavam aquela batucada com tambores improvisados, palmas das mãos, e principalmente a voz, e os temas variavam desde a chatice do trabalho às questões amorosas, sempre com um afirmação da superioridade espiritual sobre o patrão. Dançavam bastante no escuro. Eram sexualmente livres, pois seus filhos também seriam parte do patrimônio do patrão que por isso incentivava a reprodução, e as preferências se ajeitavam naturalmente como em qualquer comunidade. As vezes os homens da casa-grande baixavam lá, e eram sempre muito disputados pelas mulheres de baixa auto-estima, porque sempre pagavam de algum jeito.

Pecus tomou sua surra, e Tonho se orgulhava de desenhar faixas idênticas e equidistantes por todo o dorso do supliciado. Depois ficou dois dias no tronco, sendo alimentado uma vez por dia, apenas uma tigela de angu aguado. Uma noite de ungüento e descanso, e no dia seguinte já foi trabalhar. Mas só pensava como faria para estar na próxima lua cheia na praia deserta que indicara à sereia.

sábado, setembro 03, 2005

Hablas español?

Pecus dava tratos à bola de como encaminharia sua parada, tomando uma cachaça branca embaixo de umas amendoeiras à beira mar. A única idéia que veio à sua mente, que lhe pareceu um tanto improvável e irracional, foi a de mandar à sereia uma mensagem na garrafa. Ela parecia saber sempre onde ele estava, então ele achou que se ele chegasse cedo ao local onde costumavam se encontrar, isto é, se ver à distância, e ficasse de tempos em tempos jogando a garrafa com a mensagem para cima, girando-a, chamaria sua atenção e a faria pegar a mensagem. Talvez desse certo. O segundo problema era a mensagem. Será que aquele ser silencioso, aquela criatura marinha, meio gente, meio peixe, pensava como gente ou pensava como bicho? Tinha ouvido falar em algum lugar que as sereias eram gregas de origem. Falariam grego? Grego antigo? Achou melhor usar uma linguagem não verbal. Desenharia um mapa, designando um local de encontro, uma ilha ou uma praia deserta. E uma lua cheia, para marcar o dia. Será que ela conseguiria ler a mensagem? Para ler um mapa, é necessário decifrar a convenção da planta baixa. A vista aérea! Desenharia aves voando, de forma a dar a entender que aquele era o ponto de vista das aves. Será que ela, que vive nas profundezas, conseguiria transpor seu ponto de vista para o céu? Bom, na falta de coisa melhor, estava decidido. O terceiro problema, eram os motivos do encontro. Se ela fugia dele sempre que ele tentava se aproximar, porque iria? Apenas para satisfazer alguma curiosidade dele? Por outro lado, alguma coisa ela queria dele também, senão não o teria salvado de forma tão espetacular, nem ficaria mantendo aquele contato silencioso à distância. Mas o que ela quereria dele? Talvez que ele a libertasse de algum feitiço maligno que a transformara naquele estado plural, uma verdadeira cisão da personalidade num sentido mais profundo, a ser superado. Tudo o que Pecus imaginou para comunicar à enigmática nereida foi uma mensagem amigável. Desenhou, além do mapa com a referência das aves, ele e ela com enormes e exagerados sorrisos, na praia, sob a lua cheia, caracterizando-a com cintilantes e cafonas reflexos sobre a água do mar. Mas pareceu-lhe claro. Achou que um bom presente era uma prancha de bodyboard. Com aquelas nadadeiras e a intimidade com o meio, ela iria arrepiar.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Ariel?

Bem, como Pecus safou-se já será contado. O fato é que agora circulava numa linda praia de um populoso balneário, maravilhado com as mulheres seminuas dourando lentamente ao sol. De vez em quando uma ou duas mergulhavam por cima das ondinhas para refrigeração da chapa quente, exibindo suas bundinhas redondas e tostadas, emolduradas por minúsculus biquinis de cores berrantes. Lembrou do cabalístico Zohar, verberando que “Lilit, a rainha dos demônios, ou os demônios do seu séquito, fazem tudo para levar os homens a atos sexuais dos quais não participa a mulher, com o objetivo de produzirem para si corpos do sêmem disperdiçado”*, e achou que isso era uma grande lorota, um tabu moralista e assustador, mas que fazia algum sentido na presença daquelas lindas mulheres.

Sua demanda não era essa. Pecus tinha que descobrir porque a pequena sereia que o salvara daquele penedo perdido no Oceano não falava. De quando em quando via sua cabeleira de bronze azinhavrado despontar na linha da arrebentação. Olhava para ele, constatava que ele a procurava e a via e tornava a desaparecer. Será que um demônio do séquito de Lilit tinha-lhe roubado a voz, para tranquilamente e em silêncio desmontar seu corpo e com ele produzir outros capetas? Ou seria ela um súcubo envolvendo-o num artifício para roubar-lhe o sêmem? Beliscou-se para ver se ainda estava vivo, e tudo aquilo estava mesmo acontecendo. Não chegara a ver se ela tinha cauda ou pernas, durante o salvamento, mas que era um peixão isso era. Sentiu que sua pele era lubrificada, como a de quem acabou de se untar em protetor solar e entrou na água, e teve que se agarrar nos seus cabelos para não cair da grande baleia que cavalgaram, o que não conseguiram evitar algumas vezes ao atravessar algumas ondas maiores. Estava escuro porém o grande cetáceo percebia imediatamente a perda dos cavaleiros e voltava para os pegar.

Pecus deu tratos à bola sobre o que faria para resolver a questão que o angustiava, e optou por alugar uma prancha de surfe e tentar um contato com a sereia para lá da arrebentação. Era um longboard azul-celeste, não calcinha, com duas bonitas faixas cor de laranja destacando as longarinas laterais, e com ele Pecus rapidamente chegou lá fora. Sentou-se e enquanto a corrente lentamente o arrastava para longe dos demais surfistas esperou. Nâo demorou muito e viu, a uns quinze metros de onde estava, boiar o topo de sua cabeça levemente acobreada, e somente seus olhos muito azuis para fora d’água. Pecus espetou a prancha n’água para dar o impulso inicial e saiu remando em sua direção. Tentou chamá-la, mas não soube dizer-lhe o nome e ela rapidamente desapareceu. Esperou e a procurou por uma hora e nada. No dia seguinte voltou à mesma hora, e a cena se repetiu. E assim durante toda a semana. Nâo conseguiu dela se aproximar nenhuma vez mais perto do que oito metros.

*A Cabala e seu Simbolismo, G.G. Scholem.

Muddy Water


(by P. DeRose / Harry Richman / Jo Trent )
Gravada por Bessie Smith em 2 de março de 1927 e
por Madeleine Peyroux em 1999 - Dreamland

Dixie moonlight, Swanee shore
Headed homebound just once more
To my Mississippi delta home
Southland got that grand garden spot
Although you believe or not
I hear those breeze a-whispering
"Come on back to me"
Muddy water 'round my feet
Muddy water in the street
No God don't shelter
Down on the delta
Muddy water in my shoes
Reeling and rocking to them lowdown blues
They live in ease and comfort down there
I do declare
Been away a year today
To wander and roam
I don't care it's muddy there
But this is my home
Got my toes turned Dixie way
'Round the delta let me lay
My heart cries out for muddy water
Been away a year today
To wander and roam
I don't care it's muddy there
But this is my home
Got my toes turned Dixie way
'Round the delta let me lay
My heart cries out for muddy water


Força à turma do Delta!