quarta-feira, setembro 28, 2005

Tarja preta

Vi ontem um documentário feito por estudantes da ECA, como trabalho da matéria, sobre o cartunista Lourenço Mutarelli. A história é incrível. Primeiro você fica sabendo que enquanto ele trabalhava no estúdio do Maurício de Souza, animando Mônica e Cebolinha, tomou um trote no seu aniversário preparado pelos colegas, que simularam um seqüestro. Ele foi vendado e amordaçado e ficou uma hora sofrendo ameaças de violência de toda espécie. Saiu destruído da experiência, ficou meses trancado no quarto, e paulatinamente, com ajuda de remédios, foi aos poucos se recuperando, e conseguindo devagar sair de casa e trabalhar. Depois, ele nos conta que seu pai, que era um policial linha dura, levou-o um dia para assistir a uma sessão de tortura, para completar sua formação: “como se transforma um inocente em culpado”. Outro trauma horroroso. E essas histórias autobiográficas são os temas de seus livros em quadrinhos. São entrevistados o Glauco Matoso, poeta e escritor, a irmã do Lourenço, sua mãe, sua mulher, seu editor de quadrinhos, e um ator que trabalhou na montagem de uma peça sua. É engraçado como a mãe só dá bola fora, não querendo ver quem ele realmente é, e a história estranha da família. Para o fim, se conta que ele, desde a morte do pai, não tem mais desenhado tanto. Segundo o Gonzales, do Níquel Náusea, é preguiça. Apenas escreve livros, peças e roteiros, com certo sucesso. O Mutarelli é um viciado confesso em psicotrópicos, que toma em grande quantidade e variedade, como condição de sobrevivência Só vendo.

terça-feira, setembro 27, 2005

I drove all night - versão

Tive que fugir, dessa cidade estúpida e cruel
Devia ter ligado antes mas estava louco pra chegar ao céu

Sonhava com você e tinha muito chão pra queimar
Uh-huh, yeah

Provar os seus beijos, seus braços abertos
A febre, o desejo queimando me deixou desperto

Rodei sem parar pra estar com você
A noite inteira na estrada
Rodei sem parar, me esgueirei no seu quarto
Velei o seu sono, só pra te amar
A noite inteira na estrada
Pra mim não foi nada

Nada protege o coração do amor fatal
Em qualquer lugar se ouve o som do seu ritmo de metal
Eu penso em você e a noite é escura e fria
Uh-hu, yeah

Ninguém me comove só você me liga
Nada separa esse amor que uniu nossas vidas

Rodei sem parar para estar com você
A noite inteira na estrada

Rodei sem parar, me esgueirei no seu quarto
Velei o seu sono, só pra te amar
A noite inteira na estrada
Pra mim não foi nada

Set list


I Drove All Night

Written by Billy Steinberg e Tom Kelly for Roy Orbison

I had to escape
The city was sticky and cruel
Maybe I should have called you first
But I was dying to get to you
I was dreaming while I drove
The long straight road ahead, uh, huh
Could taste your sweet kisses
Your arms open wide
This fever for you is just burning me up inside

I drove all night to get to you
Is that alright
I drove all night
Crept in your room
Woke you from your sleep
To make love to you
Is that alright
I drove all night

What in this world
Keep us from falling apart
No matter where I go I hear
The beating of our one heart
I think about you
When the night is cold and dark
No one can move me the way that you do
Nothing erases the feeling between me and you

Essa breguíssima melodia e seu ritmo galopante foi magistralmente cantada pelo Chico Xavier do rock, o Roy Orbison. Eu gosto tanto que fiz uma versão.

sábado, setembro 24, 2005

Set list

Desde que o samba é samba

Caetano Veloso

A tristeza é senhora,
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura,
a noite e a chuva que cai lá fora
Solidão apavora, tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece, no quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora

O samba ainda vai nascer, O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer, veja o dia ainda não raiou
O samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor
O grande poder transformador

Do Caetano eu gosto mais das músicas no formato canção de rádio. Essa é uma das boas. Não fosse o "no quando agora em mim" nem dava pra percerber que era dele. Tanto que o João Gilberto gravou.

Mas será o ..enedito?

e-néditos

Por Christiana Nóvoa

e-scritores • e-nspirados
e-nteligentes • e-modestos
e-mortais • e-minentes
e-mpossíveis
e-ndigestos
e-ndigentes • e-ndígenas • e-dílicos
e-maginários • e-ridescentes • e-luminados
e-lusionistas • e-lustrados • e-lustres • e-lógicos
e-nstáveis • e-nsólitos • e-ncógnitos
e-ndecifráveis • e-ncrencas • e-mbroglios
e-ndecentes • e-mplicantes • e-rônicos
e-conoclastas • e-morais • e-nocentes • e-núteis
e-ncríveis • e-mperdíveis • e-mpensáveis • e-nfláveis • e-mensos
e-mersos • e-mundos • e-fundos • e-tudo

e-néditos : edite-nos
(clique para saber quem somos e o que queremos)

quinta-feira, setembro 22, 2005

Como blogar anônimo

Vejam que interessante manual, que ensina, entre outras pérolas, como blogar anonimamente. Não é para cypherpunks.

Pinga

Ouça pinga gravada alguns anos atrás por amigos.

terça-feira, setembro 20, 2005

Carne Crua

Estava num pequeno grupo que foi à já lendária goma do A. num fim de noite para tomar uma saideira. Dias depois, um dos que estava lá disse ter me visto numa foto no blog Carne Crua. Eu nem sabia o que era blog. Para mim era só mais uma dessas palavras modernas que se um dia se tornasse necessária aprenderia o seu significado. Mas fui ao endereço ver a foto, percebi uma estrutura de diário compartilhado com espaço para comentários, e a possibilidade de ser ilustrado. Aliás, no caso do Carne Crua, muito bem ilustrado com excelentes fotos, especialmente as noturnas, narrando suculentas aventuras cotidianas. Depois, comecei a fuçar a lista de blogs linkados, e percebi adultos fazendo isso e me pareceu muito interessante. Uma comunicação em outro plano. No dia 19 de abril de 2005, uma data marcada de efemérides, lancei o meu, com o pseudônimo acidental Pecus Bilis.

domingo, setembro 18, 2005

Django em Bellevile



Acabei de ver “As Bicicletas de Bellevile”, a maravilhosa animação francesa. E logo na apresentação, aparece, com o bigodinho e o fraque de Amigo da Onça, o Django Reinhardt, o genial guitarrista cigano belga, e faz um solo com o seu fraseado característico, muito bem recriado pelo Bento que compôs a trilha. Incrível o detalhe dos dedos faltantes da mão esquerda, a que passeia alucinadamente pelo braço do instrumento com apenas dois dedos. E os toquinhos!!! Reza a lenda que Django utilizava os toquinhos, fielmente retratados no desenho, dos dedos perdidos num incêndio de carroça na sua infância. E aquela batida da música-tema “Rendez vous” é a típica do “Hot Club de France”, que na sua formação mais excitante eram três violões, contrabaixo e o violino de Stephanie Grappelli. A percussão é feita com as guitarras, num dançante sincopado em triplets, tercinas, termo musical que designa o grupo de três notas encaixado no espaço de duas. Justamente o nome do grupo das trigêmeas de Bellevile.

Quando eu era moleque costumava comprar uma revista estrangeira chamada “Guitar Player”, e lá, nas longas entrevistas com guitarristas de jazz, muitos citavam como referência o Django, descrevendo o uso de arpejos, cromatismos e escalas diminuntas na construção dos seus expressivos solos. E eu nunca tinha ouvido. Um noite fui ao cinema assistir “Corações Loucos”, para mim a primeira aparição do simpático Gerard Depardieu, um road movie em que ele e outro sujeito circulam pela França nunca seqüência de aventuras, ao som do Hot Club de France. Deduzi e confirmei nos créditos que se tratava do Django, apresentado a mim naquele divertidíssimo contexto.

A única coisa que consegui comprar aqui em São Paulo foi um livro com uma sintética biografia, e algumas transcrições de solos. Encomendei a alguém que foi à França um disco qualquer que encontrasse. Trouxeram-me um álbum triplo muito bom, com gravações das duas formações do Hot Club, a com clarineta e bateria, com a qual ele toca guitarra elétrica com um cativante timbre de alto falante de quermesse ou radinho de pilha. Mas o álbum conseguiu a proeza de não ter nenhuma música transcrita no livro, a não ser “Nuages”, uma espécie de prefixo dele que não é lá dos seus melhores números, na minha opinião. Consegui copiar uma fita cassete na fitoteca do Centro Cultural Vergueiro, que durou pouco tempo na minha mão, larguei em algum lugar. Hoje pode-se baixar possivelmente todas as suas gravações nesses programas (sites?) de circulação de coleções caseiras.

Há também o genial filme do Woody Allen, aquele com o Sean Penn que eu nunca lembro o nome, que interpreta um guitarrista, o segundo melhor do mundo, atrás apenas de Reinhardt, do qual ele está sempre a ouvir os discos. Nas duas vezes na vida em que se encontrou com ele desmaiou, exatamente como Freud e Jung depois do rompimento.

É sempre um prazer cruzar com o Django por aí.

sábado, setembro 17, 2005

A fuga

A noite estava perfeita para a fuga. Estava nublado e chuviscando, e a lua crescente quase cheia produzia uma luminescência difusa, que permitia a identificação das grandes silhuetas do relevo, mas dava alguma chance ao fujão de passar despercebido. Ao longo dos dez dias Pecus obteve uma longa tripa de porco fervida e lavada, com a qual preparou, juntando os poucos restos de comida que aqueles escravos esfaimados deixavam, uma espécie linguiça, misturando com as ervas que o Velho tinha preparado. Conseguiu montar um número bem maior do que o de cachorros, porque elas poderiam se perder no escuro, ou um deles engolir várias daquelas cápsulas em detrimento dos outros, e algum permanecer acordado.

Quando o batuque diário e depois o movimento dos trâmites sexuais sucessivamente cessaram, Pecus, com o coração na bôca, desmontou a grade de madeira que servia de ventilação daquele porão escuro e fétido, na qual vinha trabalhando há uma semana, e vislumbrou, no terreiro de terra batida, claro devido à lua, o vulto negro e assustador dos grandes cães de fila. Um escravo dentro da senzala não provocava nenhuma reação nos animais, que entendiam estar o seu território preservado. Pecus estendeu o braço para fora com a bola, e balançou-o, ao mesmo tempo em que emitia um baixo assobio cheio de ar. Os cães assumiram atitude de ataque e partiram decididamente para o braço de Pecus, que soltou a bola e o recolheu. Um dos cães chegou a enfiar a cabeça na janelinha, forçando o escravo a recuar. Mas distinguiu nitidamente o ruído da bola sendo deglutida. Depois que o cachorrão desobstruiu a vista, Pecus, aproveitando que os animais estava por ali, foi jogando, uma a uma, as bolas. Esperava ruído da deglutição de uma, para mandar a outra. O pitéu caíra no gosto dos caninos, e rapidamente toda a tripa foi consumida.

Pecus esperou uma meia hora, talvez, tentando perceber o estado dos cães, mas não ouvia nada. Esperou o máximo que agüentou, até que esgueirou-se pela janelinha e foi-se. Não havia mais nenhum cachorro por lá. Escalou o grande muro de pedra que circundava o terreno e ganhou o pasto. Arriscando-se a tropeçar em um toco, ou cair num buraco, saiu trotando cautelosamente, pois sabia que o seu tempo era limitado. A rota de fuga era uma só e sempre a mesma. Atravessava o pasto, cercado com um desagradável cerca de lascas de pau trançado, o cafezal, daí uma pequena mata, até atingir o grande rio, num ponto que estava a uns trinta quilômetros do mar. Mergulhando no rio, que naquela época do ano tinha uma velocidade de mais ou menos 4 quilômetros por hora, em mais ou menos sete horas e meia descendo com a corrente chegaria na costa. Os capitães-do-mato sabiam que era muito difícil capturar um escravo no rio. A noite ficava-se quase invisível, boiando com praticamente só as narinas para fora, e os cães não conseguiam seguir o seu rastro.

Foi o que Pecus fez sem nenhuma dificuldade outra que não as esperadas. Tropeços e arranhões, mas nada que tivesse que interromper a sua marcha. A água do rio estava gelada, e as longas horas mantendo-se à tona na correnteza iriam acabar com ele. Começou a nadar à moda dos sapos, movimentando-se lentamente, para tentar manter-se aquecido pelo pequeno esforço, que deveria durar a noite inteira. Mas estava bem preparado, e tinha calculado mentalmente todo o trajeto. Seu plano corria maravilhosamente bem, e o sabor da liberdade era delicioso. Evitava pensar no quanto apanharia se fosse pego. O fato é que absorto em sonhos de praias quentes e ensolaradas e sereias, Pecus deslizou a pela grande baixada a noite inteira, e a luz da aurora o pegou ainda um pouco distante da costa, mas ele achou mais prudente sair do rio e se embrenhar na mata, antes que pudesse ser visto.

Perdeu mais uns quinze minutos andando na penumbra da mata cerrada até ficar seco e seguro, subiu numa árvore que tinha uma grande forquilha, e adormeceu por quatro horas. Teria que andar dois dias por matas, mangues e restingas, circundar uma aldeia tupinambá que havia no caminho, para chegar ao local do encontro marcado sem nenhuma segurança da mera possibilidade da sua efetiva ocorrência, na praia com a sereia, no auge da lua cheia.

Encontrei ontem com o blogueiro belga Stijn, de passagem por São Paulo. Tínhamos apostado um almoço se ele descobriria minha verdadeira identidade. Ele não conseguiu. Criou um blog para cruzar as informações esparsas sobre mim, o que me incomodou bastante, e ele acabou tirando o blog do ar, a meu pedido. Consideramos que a gentileza cerceou suas chances, e rachamos a conta do Acrópolis, o grego do Bom Retiro, onde comemos o excelente polvo. Depois demos uma volta pelo Museu de Arte Sacra, talvez o único prédio de porte do século XVIII ainda em pé em São Paulo, e apreciamos aquela arte primitiva e tocante, o barroco das colônias executado principalmente por índios e negros. Vimos a disciplina do Frei Galvão, idealizador, projetista e construtor do mosteiro, onde instalou uma ordem enclausurada para uma freirinha mocinha que ele muito admirava, e que se flagelava em intensidade acima da média do mercado, o que ele tomou como indicativo de uma grande vocação. O frade franciscano moveu mundos e fundos para a obra pia, na contra corrente do combate às ordens do Marquês de Pombal, que há pouco banira os jesuítas, onde Galvão começou sua carreira de beato milagreiro. Vejo algo de sobrenatural no fato de prédio ainda estar de pé.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Set list

Pinga

Enquanto a roça não vinga
A gente toma muita pinga
E sai pra pescar
E não choraminga

Enquanto o peixe não vem
A gente toma pinga também
E dá um mergulho
E solta mais linha

Enquanto o jantar não cozinha
A gente toma outra branquinha
Carrega a pimenta
Que a pinga sustenta

E se a patroa reclama
Serve a ela outra cana
E põe pra dormir
Que amanhã tem mais

Um dia, como outro qualquer
Um dia igual, se deus quiser

quarta-feira, setembro 14, 2005

Checando o material

- Rico é quem gasta menos do que ganha.
- Há felicidade na favela?
- Sim, é claro. Negócio e baile funk tem todo dia.
- Tem gente que só olha para o que não tem e fica triste.
- Outros lembram do que têm e agradecem.
- Sócrates disse: Fui ao shopping e fiquei surpreso de ver quanta coisa eu não precisava.
- O cartão de crédito escraviza.
- A vida é curta. Quem tem perde.
- O que você realmente precisa?
- Muito.
- Muito o que?
- O Oceano e uma sereia.
- Ambicioso.
- Mas que valores carrega?
- O corpo e a alma.
- E o coração?
- Em perfeito estado. VOmax elevado.
- Rins e figo?
- Um pouco baleados mas ainda originais. Senão esforçar muito, mais cinqüenta mil quilômetros sem abrir.
- O mistério?
- Em outra freqüência, mas vibrando bem.
- A moringa?
- Oca, como sempre. Clara e arejada.
- Que mais?
- Só o de comer. Mais nada.
- Está contratado. Pode começar.
- Folgas?

terça-feira, setembro 13, 2005

Grande diversão

Depois de dois dias passeando por Angra e Ilha Grande movidos a motor, ao sairmos da Enseada do Abraão por volta das dez horas da manhã, pegamos um consistente vento do quadrante sul. Havia previsão da chegada de uma frente fria, mas o dia estava lindo e finalmente velejávamos a todo pano. Quando começamos a contornar a ponta oeste da Ilha, o vento refrescou. O vento, agora de través, movimentava o barco adernado à toda velocidade, e o skipper empolgado vigiava o desempenho no gps. O anemômetro indicava a velocidade do vento algo em torno de 14. Achávamos que eram nós, milhas náuticas, depois descobrimos que eram metros por segundo, o que dá mais ou menos o dobro em nós. As crianças começaram a ficar assustadas. Percebemos que vários barcos já voltavam do lado de fora da ilha, para se abrigar do lado protegido. Mas como a velejada estava boa e não parecia haver nenhum risco, mantivemos nosso curso para o lado do oceano.

Ao darmos um bordo a imensa genoa que deveria passar para o outro lado do barco, enganchou-se lá em cima no mastro, formando um balão travado pela força do vento. Tínhamos perdido a hora certa de reduzir o pano. Com a vela presa lá em cima, o barco não mais podia ser posto contra o vento. Pego de través, o barco começou a se inclinar, e foi adernando até deitar completamente na água. O vento nessa hora chegava a uns 40 nós. Toda a tripulação, no cockpit, pendurou-se noguarda-corpo, enquanto o skipper lutava com o leme para tentar por a embarcação no prumo. Mas o vento equilibrou o barco adernado, e ficamos nessa posição um minuto, ou dois, que pareceram uma eternidade. De repente, o barco se aprumou e saímos em desabalada carreira com vento em popa, única direção que podíamos seguir com a genoa presa no mastro.

A situação não era nada boa. O barco estava todo revirado, e um pouco de água entrara pela gaiuta do banheiro traseiro. O material humano, além do skipper não tão experiente, era mais um homem adulto pouco marinheiro, duas mulheres nada marinheiras, e três crianças, entre 13 e 10 anos, apavoradas. O barco não podia ser manobrado. A pressão na vela grande era enorme, e não conseguíamos abaixá-la. A genoa continuava enganchada lá em cima. Só conseguimos enrolar sua parte de baixo, que não resolveu nada. Fomos arrastados pelo vento cada vez mais forte em direção ao Rio, e em vez de irmos nos proteger no meio do oceano, teoricamente o mais seguro a fazer, pensamos em nos abrigar na Enseada de Mangaratiba, que nos pareceu possível de atingir.

As nuvens negras da tempestade já estavam próximas de nós, e o vento só fazia aumentar, e as ondas a crescer. Não conseguimos entrar em Mangaratiba, e fomos tentar abrigo ao lado de um grande molhe de pedra num porto de minério que há um pouco depois. O plano era simples: quando estivéssemos ao lado do molhe, um pouco protegidos do vento, ligaríamos o motor, poríamos o barco de proa para o vento e ancoraríamos, para desembarcar as crianças e baixar as velas. Ao nos aproximarmos do molhe, dois barcos, um do porto e outro de pesca vieram nos ajudar. Tentamos ligar o motor, mas o cabo da genoa havia enrolado no hélice. Jogamos a âncora, que não segurou o barco. Estávamos em rota de colisão, a uns 20 metros das pedras, quando o barco de pesca nos jogou um cabo que amarramos na popa. O pesqueiro puxou o barco pela popa, e conseguiu inverter a posição, e a embarcação passou a se afastar do molhe.

Ele nos emprestou mais uma âncora, que também não segurou o barco, mas reduziu sua velocidade. Um marinheiro veio a bordo e nos ajudou a baixar a vela mestra, agora com a pressão abrandada pela posição do barco, e tivemos que destruir a genoa para tirá-la. Uma lancha vinda da vila ao lado do porto apareceu e levou as mulheres e as crianças para terra. O barco sem velas ainda era arrastado, mas devagar. O marinheiro mergulhou em baixo do barco com uma máscara e uma faca, e conseguiu, depois de uns 20 minutos, soltar o cabo que prendia o motor, a despeito das ondas mais ou menos grandes, que faziam o barco oscilar assustadoramente. O zumbido do vento nos cabos e estais era impressionante.

Mulheres e crianças desembarcadas, o motor livre, eu e o skipper nos despedimos do bravo marinheiro, e o nosso plano era pernoitar no Iate Clube de Itacuruçá, alguns quilômetros adiante. Lutamos uns quarenta minutos para recolhermos as duas âncoras, tarefa dura devido ao mar agitado, e a dificuldade de manter os cabos e correntes no trilho correto do guincho, o que obrigava a constantes manobras de ré. As ondas passavam por cima da proa, e a oscilação total do bico, onde eu estava sentado, devia ser de uns dois metros. Finalmente fomos a motor para Itacuruçá, e o vento sempre forte, com chuva, mas a situação estava sob controle.

No canal da entrada da ilha não havia ondas, mas parecia que o vento se acelerava. Já estava quase escuro quando passamos ao largo do clube. Depois de algumas tentativas conseguimos falar com alguém, que nos orientou a buscar uma poita no centro de um “u” entre dois cais. O vento estava tão forte, que desviava a proa do barco ora de um lado, ora de outro, e não conseguíamos pescar a poita com o croque. Entregamos o inflável a dois marinheiros do clube, que foram remando até a poita para nos ajudar. Joguei o cabo dentro do inflável, mas o barco foi jogado pelo vento para cima do inflável, e eles deixaram o cabo cair na água. Em poucos segundos o motor travou novamente. O cabo enrolou de novo no hélice. O barco ficou à deriva, empurrado pelo vento em direção ao cais. A proa ia bater de lado no pontão de concreto. Três sujeitos apareceram lá, e com o braço, impediram a colisão. Com a manobra, a popa começou a se alinhar com a testa do pontão, e eu peguei o último cabo que achei, mandei a eles que conseguiram amarrar o barco no último momento, antes que ele continuasse à deriva e fosse fazer um “strike” nos barcos ancorados no pontão que havia em seguida. Foi a segunda vez que quase perdemos o barco.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Afinidades eletivas

- Notamos primeiramente que todos os seres da natureza, perceptíveis para nós, mantêm uma relação recíproca. Com certeza, soa estranho quando se expressa algo que já é óbvio; contudo, somente após compreendermos completamente o conhecido, é que podemos avançar em direção ao desconhecido.
...
- Permitam que me antecipe – disse Charlotte – para ver se entendo aonde querem chegar. Como tudo se relaciona entre si, essas relações também devem valer frente aos outros.
- E isso será diferente segundo a diversidade dos seres – completou Eduard. – Ora agirão como amigos ou velhos conhecidos que rapidamente se reúnem, se juntam, sem modificarem um ao outro, tal como o vinho ao se misturar com a água; ora, ao contrário, permanecerão absolutamente estranhos um ao outro, sem se unirem, mesmo através de fricções ou misturas mecânicas; tal como o óleo e a água, que logo depois de sacolejados juntos voltam a se separar.
...
- Contudo – replicou Eduard -, tal como esses grupos que se agregam por meio de costumes e leis, há também, em nosso mundo químico, elementos para juntar aquilo que se repele mutuamente.
- Assim juntamos, interveio o Capitão – o óleo com a água por meio de um álcali.
- Não vá tão depressa com o seu relato! – disse Charlotte – para que eu demonstre que consigo acompanhá-lo. Já não chegamos aqui às afinidades?
- Correto; - respondeu o Capitão – e logo iremos conhecê-las em toda a sua força e determinação. Àquelas naturezas que, ao se encontrarem, se ligam de imediato, determinando-se mutuamente, chamamos “afins”. Nos álcalis e ácidos essa afinidade é bastante evidente; embora sejam opostos e talvez justamente por isso, procuram-se e se agregam de maneira mais decidida, modificando-se e formando juntos um novo corpo. Pensemos somente na cal, que manifesta uma grande atração por todos os ácidos, um impulso imperativo para a união!
...
- Deixe-me confessar-lhe – disse Charlotte – que, se o senhor chama a essas substâncias estranhas de afins, elas não parecem então possuir uma afinidade sangüínea, mas sim espiritual e anímica. É justamente dessa forma que podem surgir entre as pessoas amizades verdadeiramente significativas, pois características opostas tornam possível uma união íntima.
...
- Já que nos incitou uma vez – replicou Eduard -, não se livrará assim tão facilmente, pois os casos complicados são de fato os mais interessantes. Somente por meio deles é que se conhecem os graus de afinidades, os relacionamentos mais próximos, mais fortes, mais distantes e mais insignificantes; as afinidades se tornam interessantes apenas quando produzem separações.
...
- Vamos prosseguir então – disse o Capitão – o que já referimos e denominamos anteriormente. Por exemplo: o que chamamos de pedra-cal não passa de terra calcárea mais ou menos pura, estreitamente unida a um ácido tênue que ficou conhecido para nós como gaseiforme. Se colocarmos um pedaço dessa pedra em ácido sulfúrico diluído, este se juntará à cal, ganhando com ela a forma de gesso; aquele ácido tênue, etéreo, por sua vez, se evaporará. Aqui ocorreu uma desagregação e uma nova combinação, o que nos autoriza a aplicar a expressão “afinidade eletiva”, pois realmente parece que se preferiu uma relação e não outra, que se elegeu uma em detrimento de outra.
...
- Se não estiver enganado – disse Eduard sorrindo (para Charlotte) – , há um pouco de malícia por trás de suas palavras. Confesse sua traquinice. Em última análise, sou, aos seus olhos, a cal que o Capitão, como ácido sulfúrico, apanhou e afastou de sua agradável companhia, transformando-me em gesso refratário.
- Se a sua consciência – replicou Charlotte – sugere-lhe tais conclusões, eu posso então ficar tranqüila. Essas alegorias são graciosas e divertidas, e quem não gosta de brincar com as semelhanças? Entretanto o ser humano está muitos degraus acima de tais elementos e, se nesse caso tem sido tão liberal com essas belas palavras “escolha” e “afinidades eletivas”, ele fará bem em voltar-se para si mesmo e desse modo refletir bem sobre o valor dessas expressões. Infelizmente conheço muitos casos em que a união íntima e aparentemente indissolúvel de dois seres foi desfeita pela junção ocasional de um terceiro, lançando num imenso vazio um dos membros de tão bela união.
- Nesse caso, os químicos são muito mais galantes; - disse Eduard – eles agregam um quarto elemento para que nenhum fique imune.
- Mas claro! Exclamou o Capitão – esses casos são, sem dúvida, os mais significativos e curiosos; através deles pode-se realmente demonstrar a atração, a afinidade, esse abandono e essa junção entrecruzando-se; neles vêem-se os quatro seres, unido até então dois a dois, que, entrando em contato, abandonam a sua união anterior e formam novas . Nesse ato de largar e prender, nessa fuga e nessa busca, julgamos ver realmente uma determinação mais elevada; atribuímos a esses seres uma espécie de vontade e preferência, e assim consideramos plenamente justificado o termo técnico “afinidades eletivas”.

(Tradução de Erlon José Paschoal)

Transcrevi o mínimo para tornar compreensível a metáfora química que Goethe aplicou às relações humanas. Montou um quarteto – Ottilie está para chegar - que as forças eletivas fazem rearranjar, todos envolvidos em implementar melhoramentos em uma propriedade rural. Iluminista, positivista, a fé no esquadro e no compasso dos maçons. Procurei muito isso no Google, para comentar o post quadricrômico do Dudi sobre o tema, mas não encontrei. Copiei na unha, como um monge, da minha edição “Nova Alexandria” 1993, para compartilhar. O comentário da Lúcia Carvalho foi assim:

olha!
casamentos!
olha!
oh, não!
traições!

sábado, setembro 10, 2005

As cidades invisíveis

Estava folheando (e-books, aprendam) os “Cidades Invisíveis”, do cubano Italo Calvino (não se percam pelo nome como eu) e me surpreendi, primeiro, de ter sido feita a tradução por Diogo Mainardi, antes de se transformar no colunista iconoclasta daquela revista. A situação é semelhante à das mil e uma noites. Marco Polo tem que entreter o Khan, e começa a descrever as cidades maravilhosas por onde teria passado. Na contra-capa há uma declaração do Calvino dizendo esse livro é o que melhor transmite a sua visão de mundo, suas reflexões mais profundas. As cidades têm nomes de mulheres. Espocou-me a idéia, talvez um pouco óbvia, de que Marco Polo construía suas cidades invisíveis sobre as lembranças das mulheres que tivera. E é claro que o intrépido explorador haveria experimentado muitas. A descrição de cada cidade seria assim uma cantada enviesada e metafórica, um monumento erigido a cada mulher que o próprio Italo Calvino teve, ou desejou de forma mais dedicada. Como aquelas músicas que têm nome de mulher e se um dia foram feitas para uma mulher específica, ganharam vida própria e passaram a ser mulheres invisíveis, onde projetamos as nossas cantadas.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Set list

Between the bars (ouça aqui com o autor)

Elliott Simth

drink up, baby,
stay up all night
the things you could do,
you won't but you might
the potential you'll be,
that you'll never see
the promises you'll only make
drink up with me now
and forget all about
the pressure of days
do what I say
and I'll make you okay
and drive them away
the images stuck in your head

people you've been before
that you don't want around anymore
that push and shove and won't bend to your will
I'll keep them still

drink up, baby,
look at the stars
I'll kiss you again
between the bars
where I'm seeing you there
with your hands in the air,
waiting to finally be caught
drink up one more time
and I'll make you mine
keep you apart
deep in my heart
separate from the rest
where I like you the best
and keep the things you forgot

Já estou dominando a valsinha

Na versão de Madeleine Peyroux

quinta-feira, setembro 08, 2005

A missão

Pecus à noite uivava de dor nas costas e anseios dos mistérios da sereia. Entoava longos lamentos em banto, falando do mar, das ondas, da liberdade e da sereia. De dia, ao fazer mecanicamente o seu trabalho se punha numa espécie de transe, e zumbizava divagando histórias explicando o estado da sereia, a sua origem e a solução. Sempre sob a vigilância dos cães. À noite os cães circulavam a senzala e ao menor movimento latiam e se tivessem qualquer oportunidade atacavam. Em matilha e com muita violência. Precisaria envenená-los. Foi falar com o velho que fazia as poções. Ele ponderou que era a enésima vez que Pecus fugia, era capturado e apanhava.

- Não tem jeito. Agora eu tenho uma missão.
- Você tá é enfeitiçado.
- É, preciso desvendar esse mistério.
- Deixa esse mistério em paz, ô rapaz..
- Vou fazer só uma tentativa. Se não der, aceito a escravidão.
- Demora uns três dias. Tenho que catar um monte de ervas diferentes.
- Faça na noite que entrar a lua cheia. Assim se ficar só um pouco solto, vai ser na hora certa.
- Fugir na lua cheia é bobagem.

Faltavam dez dias para a lua cheia. Pecus tratou de se alimentar bem, fazia seus alongamentos com cuidado antes e depois da sessão de enxada, e procurava descansar o máximo possível, se guardando da gandaia. O tempo era suficiente para que ele se recuperasse bem. E a imagem que ia se definindo cada vez melhor na sua mente, dele com a sereia ao luar na praia deserta, era a liberdade em concreto. Um homem com uma missão.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Uma generalização

Todos conhecem a “Dor elegante” de Paulo Leminski, musicada por Itamar Assunção. Deve ser um dos mais repetidos pelos blogs lusógrafos. É simples e fascinante, como tudo que ele fez. Tinha o dom de mostrar as grandes obviedades como se fosse a primeira vez que as vemos, fazendo-nos vivenciá-las como pequenas iluminações budistas, os hai-kais tanto ao seu gosto. Todos temos as nossas dores, em sentido amplo, incluindo rancores, frustrações, decepções, perdas, um enorme repertório de nomes para defini-las com razoável precisão. Normalmente não dores tão grandes que nos propiciem um andar mais elegante, mas o suficiente para dar a cor e o sabor da personalidade. Se não somos feitos das dores, elas têm uma grande participação na composição da nossa estrutura. Não gostamos de falar delas. Muitas vezes não queremos nem admiti-las para nós mesmos. Mas como os filósofos, artistas e cientistas há muito tempo descobriram as dores são as chaves das portas do mundo interior das pessoas. Se queremos conhecer alguém mesmo, temos que conhecer suas dores. Não adianta pesquisar, ler, entrevistar, torturar, medir, pesar, vigiar, estudar, se não conseguimos identificar suas dores. Só aí compreendemos o seu andar.

terça-feira, setembro 06, 2005

Vera Lynn



We'll Meet Again (ouça)

We'll meet again,
Don't know where,
Don't know when,
But I know
We'll meet again
Some sunny day.

Keep smiling through
Just like you
Always do
Till the blue skies
Drive the dark clouds
Far away.

So will you please
Say hello
To the folks
That I know
Tell them,
I won't be long.

They'll be happy to know
That as you saw me go
I was singing this song.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Estou farto de Pecus - Rascunhos de canções - As melodias são piores ainda

SHEILA LEIRNER AVISOU:

MARTE ATACA PECUS!




Vou conseguir parar de falar bobagem
Vou conseguir ficar com a boca fechada
Vou conseguir me concentrar em coisas produtivas

O soldado antes da batalha sente-se como Jesus no horto das oliveiras antes da última ceia
Medo muito medo muito medo de morrer
Ou de ficar ferido
E ficar com seqüela
E não mais poder
Ficar com ela

Eu fiquei no tempo
No sol, no vento, na chuva, na friagem, no granizo
Eu fiquei no tempo
Como uma árvore crescendo devagar

Você olha e não diz nada
Quando passa apressada na hora do almoço
Indo alimentar o bebê
Acho que você está certa
Acho que você tem razão
O silêncio é o que nos completa
O silêncio é a solução
E eu vou continuar falando com as paredes

Estou preso numa teia de emoções baratas
Estou preso num labirinto de lembranças inventadas
E cada caminho se reparte em dois
E cada caminho se reparte em dois
E eu escolho sempre o caminho errado
E cada lembrança já está gravada
Não pode mais ser apagada
Da pedra da minha tumba

Seja o que deus quiser

Hoje morreu uma amiga querida

Epitáfio da navegadora

Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;
e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,
ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;
essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa
em sua face iluminada,
dize: "Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,
mas seu nome, de barca e estrela,
foi: "SERENA DESESPERADA".

Cecília Meireles

domingo, setembro 04, 2005

Escravo novamente

Pecus terminou de introduzir seus desenhos na garrafa de pinga, e estava arrolhando firmemente o frasco, quando ouviu atrás de si o grunhido roufenho e grave que já conhecia. Saiu correndo à toda velocidade imediatamente em direção ao mar, e mal teve tempo de arremessar a garrafa o mais longe que pôde, quando o peso de um cavalo arrojou-se nas suas costas, derrubando-o na areia. Ao mesmo tempo sentiu no antebraço direito a mordida perfurante, travada como uma ferramenta de mecânica pesada, e entendeu tudo. Tinha sido pêgo, e sabia muito bem por quem. Era o Tonho, aquele filha-da-puta daquele escravo vendido, capitão-de-mato do seu senhor, que com os seus enormes cães-de-fila, de pelagem suja de pardo e preto tigrado, tinha ganho mais uma. “Perdeu, seu Pecus. Te peguei de novo”. Pecus resolveu que ia dar o mínimo de satisfação àquele bosta e não disse nada. Era difícil lidar com aquela questão profissionalmente. Logo foi acorrentado por um bugre que auxiliava Tonho, e posto para andar ao estalar do chicote, que o caçador de escravos manejava com maestria, fazendo-o soar em alto e bom som.

Pecus sabia o que o esperava, e não ficou desesperado. A vida na senzala não era tão ruim assim. O problema era a surra e o tronco que enfrentaria, antes de voltar ao trabalho. A única maneira de assimilar tal grau de intensidade exigido pelo patrão, era encarar aquilo como uma aspiração própria. O trabalho na roça como um trabalho atlético, procurando a posição mais ergonômica de manejar o instrumento, e cumprir sua tarefa lentamente, como todo trabalho de resistência, mas de forma ritmada e eficiente. Dava gosto de ver os grandes taliões de café bem carpidos, embora lhe parecesse de forma evidente que o sentido das linhas da plantação era errado, pois acelerava a lavagem da terra pela enxurrada, formando rapidamente grandes vossorocas. A comida era boa e abundante. O fubá, a farinha de mandioca, e as vísceras e carnes das piores partes dos porcos e bois, bem preparados ficavam ótimos, e eram complementados por especiarias e pimentas que cultivavam, e ainda verduras e frutas que vicejavam em grande quantidade.

Toda noite tinha baile, como eles chamavam aquela batucada com tambores improvisados, palmas das mãos, e principalmente a voz, e os temas variavam desde a chatice do trabalho às questões amorosas, sempre com um afirmação da superioridade espiritual sobre o patrão. Dançavam bastante no escuro. Eram sexualmente livres, pois seus filhos também seriam parte do patrimônio do patrão que por isso incentivava a reprodução, e as preferências se ajeitavam naturalmente como em qualquer comunidade. As vezes os homens da casa-grande baixavam lá, e eram sempre muito disputados pelas mulheres de baixa auto-estima, porque sempre pagavam de algum jeito.

Pecus tomou sua surra, e Tonho se orgulhava de desenhar faixas idênticas e equidistantes por todo o dorso do supliciado. Depois ficou dois dias no tronco, sendo alimentado uma vez por dia, apenas uma tigela de angu aguado. Uma noite de ungüento e descanso, e no dia seguinte já foi trabalhar. Mas só pensava como faria para estar na próxima lua cheia na praia deserta que indicara à sereia.

sábado, setembro 03, 2005

Hablas español?

Pecus dava tratos à bola de como encaminharia sua parada, tomando uma cachaça branca embaixo de umas amendoeiras à beira mar. A única idéia que veio à sua mente, que lhe pareceu um tanto improvável e irracional, foi a de mandar à sereia uma mensagem na garrafa. Ela parecia saber sempre onde ele estava, então ele achou que se ele chegasse cedo ao local onde costumavam se encontrar, isto é, se ver à distância, e ficasse de tempos em tempos jogando a garrafa com a mensagem para cima, girando-a, chamaria sua atenção e a faria pegar a mensagem. Talvez desse certo. O segundo problema era a mensagem. Será que aquele ser silencioso, aquela criatura marinha, meio gente, meio peixe, pensava como gente ou pensava como bicho? Tinha ouvido falar em algum lugar que as sereias eram gregas de origem. Falariam grego? Grego antigo? Achou melhor usar uma linguagem não verbal. Desenharia um mapa, designando um local de encontro, uma ilha ou uma praia deserta. E uma lua cheia, para marcar o dia. Será que ela conseguiria ler a mensagem? Para ler um mapa, é necessário decifrar a convenção da planta baixa. A vista aérea! Desenharia aves voando, de forma a dar a entender que aquele era o ponto de vista das aves. Será que ela, que vive nas profundezas, conseguiria transpor seu ponto de vista para o céu? Bom, na falta de coisa melhor, estava decidido. O terceiro problema, eram os motivos do encontro. Se ela fugia dele sempre que ele tentava se aproximar, porque iria? Apenas para satisfazer alguma curiosidade dele? Por outro lado, alguma coisa ela queria dele também, senão não o teria salvado de forma tão espetacular, nem ficaria mantendo aquele contato silencioso à distância. Mas o que ela quereria dele? Talvez que ele a libertasse de algum feitiço maligno que a transformara naquele estado plural, uma verdadeira cisão da personalidade num sentido mais profundo, a ser superado. Tudo o que Pecus imaginou para comunicar à enigmática nereida foi uma mensagem amigável. Desenhou, além do mapa com a referência das aves, ele e ela com enormes e exagerados sorrisos, na praia, sob a lua cheia, caracterizando-a com cintilantes e cafonas reflexos sobre a água do mar. Mas pareceu-lhe claro. Achou que um bom presente era uma prancha de bodyboard. Com aquelas nadadeiras e a intimidade com o meio, ela iria arrepiar.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Ariel?

Bem, como Pecus safou-se já será contado. O fato é que agora circulava numa linda praia de um populoso balneário, maravilhado com as mulheres seminuas dourando lentamente ao sol. De vez em quando uma ou duas mergulhavam por cima das ondinhas para refrigeração da chapa quente, exibindo suas bundinhas redondas e tostadas, emolduradas por minúsculus biquinis de cores berrantes. Lembrou do cabalístico Zohar, verberando que “Lilit, a rainha dos demônios, ou os demônios do seu séquito, fazem tudo para levar os homens a atos sexuais dos quais não participa a mulher, com o objetivo de produzirem para si corpos do sêmem disperdiçado”*, e achou que isso era uma grande lorota, um tabu moralista e assustador, mas que fazia algum sentido na presença daquelas lindas mulheres.

Sua demanda não era essa. Pecus tinha que descobrir porque a pequena sereia que o salvara daquele penedo perdido no Oceano não falava. De quando em quando via sua cabeleira de bronze azinhavrado despontar na linha da arrebentação. Olhava para ele, constatava que ele a procurava e a via e tornava a desaparecer. Será que um demônio do séquito de Lilit tinha-lhe roubado a voz, para tranquilamente e em silêncio desmontar seu corpo e com ele produzir outros capetas? Ou seria ela um súcubo envolvendo-o num artifício para roubar-lhe o sêmem? Beliscou-se para ver se ainda estava vivo, e tudo aquilo estava mesmo acontecendo. Não chegara a ver se ela tinha cauda ou pernas, durante o salvamento, mas que era um peixão isso era. Sentiu que sua pele era lubrificada, como a de quem acabou de se untar em protetor solar e entrou na água, e teve que se agarrar nos seus cabelos para não cair da grande baleia que cavalgaram, o que não conseguiram evitar algumas vezes ao atravessar algumas ondas maiores. Estava escuro porém o grande cetáceo percebia imediatamente a perda dos cavaleiros e voltava para os pegar.

Pecus deu tratos à bola sobre o que faria para resolver a questão que o angustiava, e optou por alugar uma prancha de surfe e tentar um contato com a sereia para lá da arrebentação. Era um longboard azul-celeste, não calcinha, com duas bonitas faixas cor de laranja destacando as longarinas laterais, e com ele Pecus rapidamente chegou lá fora. Sentou-se e enquanto a corrente lentamente o arrastava para longe dos demais surfistas esperou. Nâo demorou muito e viu, a uns quinze metros de onde estava, boiar o topo de sua cabeça levemente acobreada, e somente seus olhos muito azuis para fora d’água. Pecus espetou a prancha n’água para dar o impulso inicial e saiu remando em sua direção. Tentou chamá-la, mas não soube dizer-lhe o nome e ela rapidamente desapareceu. Esperou e a procurou por uma hora e nada. No dia seguinte voltou à mesma hora, e a cena se repetiu. E assim durante toda a semana. Nâo conseguiu dela se aproximar nenhuma vez mais perto do que oito metros.

*A Cabala e seu Simbolismo, G.G. Scholem.

Muddy Water


(by P. DeRose / Harry Richman / Jo Trent )
Gravada por Bessie Smith em 2 de março de 1927 e
por Madeleine Peyroux em 1999 - Dreamland

Dixie moonlight, Swanee shore
Headed homebound just once more
To my Mississippi delta home
Southland got that grand garden spot
Although you believe or not
I hear those breeze a-whispering
"Come on back to me"
Muddy water 'round my feet
Muddy water in the street
No God don't shelter
Down on the delta
Muddy water in my shoes
Reeling and rocking to them lowdown blues
They live in ease and comfort down there
I do declare
Been away a year today
To wander and roam
I don't care it's muddy there
But this is my home
Got my toes turned Dixie way
'Round the delta let me lay
My heart cries out for muddy water
Been away a year today
To wander and roam
I don't care it's muddy there
But this is my home
Got my toes turned Dixie way
'Round the delta let me lay
My heart cries out for muddy water


Força à turma do Delta!

quarta-feira, agosto 31, 2005

Bom dia, Alice!


"But I don't want to go among mad people," Alice remarked.
"Oh, you can't help that," said the Cat: "we're all mad here. I'm mad. You're mad."
"How do you know I'm mad?" said Alice.
"You must be," said the Cat,
"or you wouldn't have come here".

Haverá uma passagem para uma outra dimensão onde a diversão é realmente possível?

A Revelação

Há uns dez anos, depois de um desastre que vitimou um de seus órgãos vitais, o fígado ou talvez o coração, Pecus tão logo convalesceu montou no seu cavalo e enveredou pelo sertão. Sua intenção era iluminar-se no deserto na tradição do Profeta Elias, João Batista, e porque não, o próprio Jesus Cristo e tantos outros.

Andou até sua montaria cair morta. Comeu o que pôde do animal, fazendo um churrasco que durou um dia e uma noite, e ao amanhecer seguiu andando. Caminhou a manhã toda pelas dunas no sol escaldante, numa canícula saárica, sabendo que se não chegasse logo em algum lugar não duraria muito. Urubus agourentos volteavam em espirais sobre sua cabeça.

Não ficou surpreso quando no alto de uma duna encontrou uma barraquinha de côco gelado e cerveja, alguns bugues estacionados e aluguel de sandboards. Tomou uma água de côco, alugou uma pranchinha e deu um drop insano até a lagoa lá embaixo. Refrescou-se um pouco, e foi até uma vila de pescadores, onde embarcou numa grande traineira que ia pescar no Oceano. Pecus então lembrou de Ulisses, Jasão, Jonas e Simão ou Pedro, principalmente quando uma grande tempestade pôs o barco a pique, e agarrado a um destroço foi arremessado num rochedo perdido no meio do mar cinzento e revolto.

Encarapitado na pedra fria açoitada por ventos que ululavam com um ronco surdo, perturbado pelos gritos lancinantes de aves marinhas e rapinas trazidas pelo temporal, Pecus sem esperança percebeu a morte chegando, e lembrou de São Francisco de Assis, Zaratrusta, e os monges que há centenas de anos meditam no Monte Carmelo. Foi nesse momento que simultaneamente a um relâmpago que despencou a poucas dezenas de metros de onde estava, seguido de um ribombante trovão, a sua vida fez sentido e ele entendeu como as coisas funcionavam.

Viu que a alma imortal a que se referiam os místicos nada mais era do que a cultura acumulada e transmitida de geração em geração, em uma continuidade que aumentava as chances de sobrevivência dos descendentes.

Viu que o livro dos mortos dos egípcios realmente funcionava e a imortalidade prometida se dava com a permanência do corpo embalsamado como um objeto de cultura que tinha uma história a contar. Também assim as grandes pirâmides que hoje são conhecidas pelo nome dos mortos que homenagearam, exatamente como os grandes poemas transmitidos pela tradição oral, que constituem os alicerces da nossa cultura.

Viu que o número de memórias se tornou tão grande que foi preciso inventar a escrita para transportar todo aquele tesouro intangível, e depois a imprensa, e depois os computadores, e depois a internet, onde borbulha toda a cultura acumulada desde o seu início, sujeita a quaquilhões de cruzamentos por segundo gerando exponencialmente mais e mais cultura.

Viu ainda que a imortalidade da alma estava também e principalmente na reprodução dos genes, e não haviam tijolos tão pequenos quanto importantes na construção da humanidade como as crianças, mais certas de utilidade do que qualquer livro ou palácio, ainda que em potencial de pouca probabilidade. E teve a certeza de que tudo isso não servia para nada, o que não tinha importância nenhuma.

terça-feira, agosto 30, 2005

Set list


Fiquei fascinado por esta singela canção quando a ouvi com "Los Lobos" no filme "La Bamba". Buddy Holly e Richie Valens morreram juntos no famoso desastre de avião em 3 de fevereiro de 1959. É da última leva de sua curta carreira.







Crying, waiting, hoping, that you'll come back
I just can't seem to get you off my mind
Crying, waiting, hoping, that you'll come back
You're the one I love and I think about you all the time
Crying, my tears keep fallin' all night long
Waiting, I feel so useless, I know it's wrong
To keep crying, waiting, hoping, that you'll come back
Maybe someday soon things will change and you'll be mine
Crying, my tears keep fallin' all night long
Waiting, I feel so useless, I know it's wrong
To keep crying, waiting, hoping, that you'll come back
Maybe someday soon things will change and you'll be mine
Crying, waiting, hoping


Buddy Holly, 1959

segunda-feira, agosto 29, 2005

Vi o jogo


6 a 1, 6 a 1, e terminou com um lobby, no saque adversário. Dançou como Mohamed Ali. Visual incrível.
Foto: EFE

Sou fiel como um psitacídeo

Deve ser a dieta à base de sementes de girassol.




Foto: Carlton Ward

domingo, agosto 28, 2005

Labirinto

Nunca haverá uma porta, e te achas dentro
e esse alcáçar abarca o universo
e não tem anverso nem reverso
nem muro externo nem secreto centro.
Não cuides que o rigor de teu caminho
que tenazmente se bifurca em outro
que tenazmente se bifurca em outro
terá fim. É de ferro teu destino
como juiz. Não penses na investida
do touro que é um homem, cuja estranha
forma plural dá horror a esta maranha
de interminável pedra entretecida.
Não, não existe. Nem sequer esperes
a fera no negrume do crepúsculo.

(J.L.Borges)
(Tradução Rolando Roque, sério)

Dá pra entender?

sábado, agosto 27, 2005

Set list































A7+ G#m7
Será que quando, eu fico acordado
A7+ G#m7
Pensando nela, ela pensa um pouco em mim?
F#m7 A7+
Um pouco em mim, com ma – lícia.
F#m7 A7+
Um pouco em mim, com ma – lícia.
F#m7 A7+
Um pouco em mim, com ma – lícia

sexta-feira, agosto 26, 2005

Afinal, o que você achou que era?


Como dizia o grande Isaac Newton, cinemática é fácil. Deixe os seres como estão e lá ficarão. Dinâmica, já é complicado. O efeito das forças muitas vezes contraria a nossa intuição.

quinta-feira, agosto 25, 2005

quarta-feira, agosto 24, 2005

Meta o pé







Foto: Leda Cruz

terça-feira, agosto 23, 2005

segunda-feira, agosto 22, 2005

Alegria*

























Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo



* fragmento de Arnaldo Antunes
foto de Raewyn.*

Vozes da África

Deus! Ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...


Embora o som não se propague no espaço, a imagem do poema de Castro Alves, do grito metafísico navegando por milhares de anos no éter faz muito sentido para mim. Deus não está morto. Só mudou-se para muito mais longe.

domingo, agosto 21, 2005

Não me deixe ser incompreendido




















Baby, tente entender
Às vezes eu me sinto um rato
Eu não queria que fosse assim, quis ser sempre um anjo
Mas eu sou só um cara simples

Sou um rapaz um tanto perdido
Ó Deus, não me deixe ser incompreendido

Baby, às vezes sou tão descuidado
Vagabundeio como um vira-lata
E é por isso que agora eu me sinto tão culpado
Acredite, pode me virar do avesso

Me sinto mal, mas quero lhe dizer
Eu nunca quis fazer você sofrer
A vida é dura, pra mim também
Mas essa é uma coisa que eu nunca quis fazer
(porque eu te amo)

Ô, agora já estou curado
Nâo tenho mais aqueles maus pensamentos
Às vezes em que pensei que o amor não existia
Que idiota fui, que vazio todo dia

Sou um rapaz um tanto perdido
Ó Deus, não me deixe ser incompreendido

B.Benjamin/S.Marcus/C.Cadwell/P. Bilis



A versão dessa outra canção que assassinei preserva bastante do sentido original da letra. Depois de anos ouvindo as interpretações dos Animals, Santa Esmeralda, Charo, Nina Simone, tive vontade de me apropriar indevidamente dela somente quando conheci a versão de Elvis Costello, que eu acho estourado a melhor.

sábado, agosto 20, 2005

La vache jaune du Frédéric















A vaca amarela
Passou a pinguela
Quem falar primeiro
...

E às cinco da manhã




os sabiás-laranjeira cantam enlouquecidamente.



Foto: autor desconhecido.

sexta-feira, agosto 19, 2005

E aí paulistanos


Repararam como os ipês estão floridos?





Foto: Carvalho Pinto

quinta-feira, agosto 18, 2005

Post Scriptum

Como me ensinou minha amiga Lúcia Carvalho, o post tem uma permanência consideravelmente maior do que os comentários. Assim, mui penhoradamente agradeço aos gloriosos leitores que me carregaram através dessa saga patética de um stalker light, um tipinho comum, nas expressões precisas cunhadas pelos comentaristas, na qual não acontece rigorosamente nada digno de nota.

Assim, tal qual na entrega do Oscar, agradeço de memória com o risco de esquecer alguém, e sem fazer os links devidos (depois eu faço com calma), sem ordem alfabética ou hierárquica, mas meramente randômica, a Anna Riso, Peri S. Coppio, Tec Lado, Marília, Raquel, Juliana, Ju Géve, Patrícia Köheler, Fitzwilliam, W. Shakespeare, Paulinha, Guga Alayon, Stijn, Samanta Lopes, Márcia Kawabe, Malvina, Laurinha, Ronzi, Viva, Simy, Monique, Heide, Edu, Luma, Marô, Alberto, Cynthia, Valerie, Fernando Cals, Helô, Luci, Flávio Prada, Milton e anônimos, muito obrigado.

Um agradecimento especial aos que ajudaram a divulgar a parada, com imerecidos elogios, que reproduzo, e à Lúcia Carvalho, que criou o simpático selinho sobre o desenho do Dudi, à Sheila Leirner, que o adotou, e à Laura, que também pôs o livro em destaque, todos com comentários relevantes e divertidos:

Jayme Serva, do Dito Assim, em 22.6.2005:

Molto bene trovata a história "Stalker", contada em capítulos lá pelo Pecus Bilis. Se você ainda não começou a ler, corra lá, já vai pelo capítulo 4. É legal ler de um em um, então tire o atraso. Vale lembrar que o Machado também escrevia em capítulos.

Danina Fromer, do Botar Moral Nessa Bagaça, em 26.6.2005:

Leiam!!! Novelinha rulez!!!!!!!!!!!

Dudi Maia Rosa, do blog homônimo, em 27.6.2005, que desenhou o livrão.

Denise Arcoverde, do Síndrome de Estocolmo, em 9.7.2005:

Acompanhe o romance do pecus bilis, Stalker, com a história muito "juicy" do Renato, Fernanda e Clarisse. O cara escreve bem demais, já tá cheio de fãs que se metem na história o tempo todo e até ganhou uma ilustracão pro seu livro do grande artista Dudi Maia Rosa (ao lado). Voces podem acompanhar os capítulos desde o primeiro, nos links lá do blog dele, da coluna da esquerda, abaixo.

Leila Couceiro, do Stuck in Sac, em 29.7.2005:
O blog novel de Pecus
Guilty pleasure ou um futuro sucesso de crítica? Who cares! O livro que está sendo publicado post a post, quer dizer, capítulo a capítulo, no blog do escritor (ainda) anônimo Pecus Bilis, é incrivelmente excitante, daqueles que você começa a ler e não consegue parar. Quem acompanha a história há mais tempo já alcançou o capítulo mais recente e fica esperando ansiosamente a próxima etapa do “amor corrompido, patológico, metódico, quase um esporte ou uma segunda profissão” do paulistano Renato, investidor no mercado de capitais e casado, pela universitária Clarissa. Os leitores fiéis do blog comentam a trama empolgados, mas também criticam clichês no texto ou algum comportamento que não combine com um personagem. Vejam esse divertido trecho de “O Stalker”:


Idelber Avelar, do Biscoito Fino e a Massa, em 1.8.2005:
Por falar em romances assombrosos, estão imperdíveis as aventuras triangulares d' O Stalker, narrativa publicada por entregas (como num folhetim do século XIX) no blog de pecus bilis. Cheguei tarde à coisa, li 36 capítulos numa sentada e já estou irresistivelmente enlaçado pela trama. As caixas de comentários são um espetáculo à parte.

E agradeço ainda à leitora Vera, que se arriscou a dar a palavra final à Clarissa, citando um complexo e misterioso soneto do Boca do Inferno:

“Na oração que desterra ... a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado ... dado,
Pregue que a vida é emprestado ... estado,
Mistérios mil que desenterra ... enterra.

Quem não cuida de si, que é terra ... erra,
Que o alto Rei, por afamado ... amado,
É quem lhe assiste ao desvelado ... lado,
Da morte ao ar não desaferra, ... aferra.

Quem do mundo a mortal loucura ... cura,
A vontade de Deus sagrada ... agrada,
Firmar-lhe a vida em atadura ... dura.

Ó voz zelosa, que dobrada ... brada,
Já sei que a flor da formosura ... usura,
Será no fim dessa jornada ... nada."

(Gregório de Matos)

Ponderei que o poema vestiu como uma luva a Clarissa, mas que se ela cometesse o erro de mandar esse mail ao Renato, ele faria mil elucubrações e dissecaria mil significados favoráveis. Um stalker sempre tem a última palavra. Ufa! Ainda bem que a estória acabou e eu não preciso mais personificar o Renato e decifrar essa loucura.

Muito obrigado a todos. Amigos?

quarta-feira, agosto 17, 2005

O Stalker - Capítulo 54 (último)

Depois do vexame das mensagens desconexas sem resposta, Renato decidiu por a viola no saco e cuidar da sua vida. Superada a aventura farmacológica retomou o ritmo normal do seu trabalho. Concluíram o acordo com os controladores da mineradora, e receberam aquele dinheiro todo que estavam esperando. Trataram de liquidar a ex-corretora, antes que alguém viesse reclamar alguma coisa, e repartiram o butim, cindindo a sociedade em várias outras, uma de cada um dos antigos sócios. A Renato coube além do apartamento onde morava, e os carros que usava, uma boa bolada em dinheiro vivo. Ao contrário do que Fernanda e sua mãe pensavam, Renato nunca cogitou de escamotear do casamento qualquer parcela do que tinha, e verteu tudo o que recebeu numa sociedade com Fernanda em partes iguais. Aplicou todo o dinheiro em fundos de renda variável geridos por um conhecido seu, com os ativos custodiados em bancos, com a condição de que pudesse acompanhar as variações da composição dos fundos on-line. Estimava que se não comesse o capital tinha condições de ter uma renda muito próxima daquela que tinha trabalhando. Se fosse econômico e tivesse um pouco de sorte poderia até fazer crescer o que tinha. Com a ex-corretora fechada, não tinha nenhuma perspectiva profissional imediata.

As férias escolares de Renatinho estavam para começar e resolveram alugar uma casa na praia, para lamberem as feridas e tentarem reconstituir o casamento. Nunca tinham conversado sobre os estragos feitos de parte à parte, que nunca ficaram claros um para o outro, ainda que os dois intuíssem as conspirações e crimes cometidos por ambos. Fernanda queria a Baleia, em São Sebastião, aonde “todo mundo ia”. Renato acabou fechando uma casa na Praia Dura, em Ubatuba, onde certamente ficariam mais isolados, e poderiam se concentrar em ser uma família normal. E era um pouco mais barato. Renato compensou a diferença de preço exigindo que na casa tivesse uma conexão rápida de internet, para o caso de Clarissa querer lhe mandar um e-mail, o que ele achava altamente improvável.

Chegando lá, Renato, sem nada para fazer, voltou a ficar completamente perdido. Passou a fazer esporte furiosamente. Corria, nadava, brincava com as crianças, comia, dormia, e tudo se repetia. Fazia sexo com Fernanda com freqüência, de forma mecânica e aplicada, como se ela fosse um aparelho de ginástica. Depois de alguns dias, talvez por influência da lembrança de Marcos, foi até a cidade e comprou um longboard usado, e os apetrechos necessários para o surf. Nunca tinha surfado com pranchão, mas sempre tinha achado bonito aquele surf tranqüilo de caminhar sobre a prancha. Desenferrujou um pouco na Praia Dura, e percebeu que ainda sabia ler as ondas e se posicionar lá fora. Seus fundamentos estavam intactos. Passou a pegar o carro de manhã cedinho e ir para Itamambuca, chegando antes do crowd dos locais, e em pouco tempo dava os primeiros passos na prancha sem simplesmente se arrastar, e fazia amplas curvas nas gordas e longas paredes. Estava fascinado com o prazer infantil que o surf lhe proporcionava, e aquela praia ainda quase selvagem de manhãzinha era uma experiência e tanto de contato íntimo com a natureza. Volta e meia via tartarugas, algumas voando nas ondas verdes transparentes, e cardumes de peixes pulando de uma vez só para fora d’água.

Um dia estava indo para lá, no trevo da saída da cidade, e cruzou com um carro com uma prancha em cima que lhe fez sinais de farol e buzinou. Encostaram, e Renato reconheceu um dos madrugadores do pico, vestido com um velha camiseta “diga não às drogas”. Disse-lhe que o mar estava muito mexido, e sugeriu irem para a Vermelha do Centro. Chegando lá, constataram que não estava lá essas coisas. Havia uma roda na areia de jovens tresnoitados, possivelmente drogados, e Juninho, como se apresentou, comentou que aquela visão lhe dava calafrios de horror. Renato percebeu que ele era um ex-drogado tentando refazer a sua vida, e se identificou com ele. Voltaram a Itamambuca, e o mar, apesar de mexido, tinha alguma consistência e o surf foi possível. Juninho usava uma prancha velhíssima, um longboard escuro dos anos e do sol, que havia sido de seu pai. Trabalhava em um restaurante por quilo no centro, e surfava cedinho. Ficaram amigos e essa ligação ajudou Renato a ser tolerado pelos locais.

Na noite de natal, comemorado só pela pequena família e a babá, com um peixe assado recheado de farofa, entrou uma violenta frente fria, com chuvas e ventos fortíssimos. De manhã cedo, Renato pôs o pranchão na capota e foi para Itamambuca. Tinha visto a tempestade chegando na internet, e achou que se estivesse surfável, era o único lugar que suportaria aquele volume de onda. Sentia-se em forma e apto a encarar qualquer mar. A grande tempestade marinha tinha encostado, e chegando lá Renato viu um mar enorme, totalmente desorganizado e caótico, o vento sul soprando com intensidade, o céu carregado e a praia deserta. Renato sofreu a tentação do eficiente canal formado pelo rio, e tomou a decisão temerária de entrar, com um ímpeto quase suicida.

Com as fortes chuvas da noite, o rio, cheio de folhas e galhos, estava com o volume mais que duplicado e parecia um trem expresso. Depois de remar um pouco pelo canal junto às pedras, que era fundo e por isso as ondas lá quase não quebravam, Renato percebeu que não tinha mais volta. Com a força da corrente, a única saída era o oceano. Pegou pela frente duas ou três espumas maiores, que não chegaram a interromper a sua marcha, e logo que se viu livre da arrebentação, começou a remar em direção ao norte, para fugir da corrente do rio que o arrastava para fora. De repente entre um balanço e outro das grandes marolas que oscilavam, percebeu que um pico escuro se aproximava. Sentou-se a cavalo na prancha, e viu que era uma enorme série entrando, a maior que já vira na vida, a uns cinqüenta metros de onde estava. Renato remou com todas as suas forças em direção àquela massa, tentando evitar pensar na violência do caldo que tomaria. Subiu a grande onda na hora em que ela começava a se esboroar, e ao chegar lá em cima capotou a prancha rapidamente e segurando-a firmemente por cima dele conseguiu passar sem ser sugado. Desvirou tão rápido quanto pôde na prancha, e viu que atrás daquela vinha outra maior ainda. Remou novamente com toda a velocidade que pôde e conseguiu contornar os picos meio indefinidos que quebravam na grande parede, conseguindo passar ileso entre dois deles. Continuou remando, e passou a terceira, que já era menor, com facilidade.

Sentou na prancha e constatou que estava fodido e mal pago. Estava no meio do oceano, além da linha da ponta de pedra, e a forte corrente marinha, aliada à influência do rio, o arrastava para o norte e para fora. Possivelmente a velocidade da corrente era igual ou maior do que a da sua remada, o que podia significar que talvez não conseguisse voltar para a zona da arrebentação, e sair da água. Tratava-se de lutar pela vida. A seu favor, estava o fato de que o longboard tinha boa flutuação e uma remada muito eficiente. E estava em boa forma, o que significava que poderia remar de forma constante por uma hora ou mais. Decidiu que tomaria um rumo enviesado na corrente, tentando atravessá-la aos poucos, para se aproximar da praia em direção ao canto norte. E pôs-se a remar, sem muita segurança no seu plano, na sua avaliação da sua posição e das correntes. A sensação era de que não saía do lugar, mas tentou ficar tranqüilo e apenas remar com constância. Remou mais de uma hora até conseguir se aproximar da arrebentação novamente, num lugar onde não mais sentia a corrente para fora, apenas um forte arrasto lateral. Agora era pegar uma daquelas enormes ondas fechadas para tentar sair. Não teve que esperar muito, e logo uma série que varreria a praia inteira levantou-se nas suas costas, e Renato, sem alternativa, remou com as forças que lhe restavam num drop atrasado e sem esperança. Mal levantou na prancha a onda o pegou e o arremessou ao fundo segurando-o lá por longos segundos, durante os quais ficou perdido e sem ar. Sentiu a puxada forte do leash na perna, quando punha a cabeça para fora, e engoliu água. Outra onda veio atrás, e a cena se repetiu, antes que ele tivesse a oportunidade de subir na prancha. Depois de alguma luta, finalmente conseguiu pegar uma espuma e atravessou quase toda a extensa arrebentação quando caiu num buraco perto da areia. A corrente forte começou a puxá-lo novamente para fora, e Renato só não se desesperou porque sabia que não havia mais risco. Remou com suas últimas forças para sair da água e quando pegou a última espuminha deixou-se levar até que estivesse com água pela canela. Saiu cambaleando da água, vomitou, jogou-se na areia e dormiu por uma hora. Estava quase no canto norte.

Quando acordou, dali a uma hora, a praia ainda estava deserta, e sem ninguém que testemunhasse ou com quem pudesse comentar o seu desastre, pôs a prancha na capota e voltou para casa. Não contou nada a Fernanda, com vergonha da sua irresponsabilidade. Sabia que quase tinha morrido por pura estupidez. Dormiu quase o dia inteiro. No dia seguinte, pôs a prancha novamente na capota, foi a Itamambuca. O tempo havia melhorado, o mar havia se alinhado, e depois de pelejar uma hora e meia em tentativas erradas, pegou uma enorme e bem formada onda, com a qual foi quase até a areia e que lhe deu um enorme prazer. Sentiu plenamente reparada a sua cagada do dia anterior. Sabia que não teria forças para pegar outra naquele dia e foi embora.

Na volta para casa, fez um balanço mental do atribulado ano, e resolveu que não se deixaria mais levar por paixão alguma. Deixaria Clarissa em paz e seguiria sua via. Seria sempre prático e racional. E foi o que fez. Ele e Fernanda voltaram a fazer o papel de casal feliz, que acabou se incorporando de novo às suas personalidades, e viviam bem. Renato, após participar das reuniões de análise de conjuntura e mercado no asset-management onde investira o seu dinheiro, foi considerado uma contribuição valiosa. Boa parte dos fundos era da própria equipe, e Renato acabou conseguindo uma posição. Apenas um resquício do seu comportamento desviante se mantinha. Todo dia de manhã, ao chegar ao escritório, a primeira coisa que fazia era checar o e-mail que tinha usado para mandar mensagens para Clarissa. A segunda era dar uma busca no seu nome para ver se havia alguma novidade sobre ela. No íntimo, sonhava. Afinal, eram jovens e o mundo tão cedo não pararia de dar as suas voltas.
FIM


terça-feira, agosto 16, 2005

O Stalker - Capítulo 53

Depois daquelas últimas mensagens desconexas, Clarissa estava já há um mês sem nenhuma notícia de Renato. E se Alexandra estivesse certa, e Renato não fosse nem um pouco louco, só fosse assim um apaixonado desajeitado, preso num casamento errado, como Montgomery Cliff em “Um lugar ao sol”, como ele dissera num daqueles e-mails loucos que lhe mandou? Uma pessoa encurralada faz coisas estranhas. Uma pessoa encurralada tomando psicotrópicos pode fazer coisas mais estranhas ainda. E falando coisas desconexas, então, o que podia estar acontecendo? Renato nunca lhe parecera louco, nem quando o encontrou na estradinha de terra perto da casa de Danilo, no sertão do Camburi. Tinha passado todos os limites, sido muito grosso, muito mal educado, mas que ela tinha dado mole para ele, tinha. Como ele podia ter tomado ao pé da letra o seu comando para que fosse ao psiquiatra? E como aquele imbecil daquele professor podia ter dado drogas àquele cara, que era óbvio não estar doente? Sentia-se culpada e preocupada.

As coisas iam bem com o Penza. Incrível como ele nunca tinha notado a existência de Renato, tendo tudo acontecido tão perto dele. O namoro vinha se consolidando e Clarissa sentia-se mais segura em deixar Penza solto e exposto no palco, quando ela não ia vê-lo tocar. Era sua autoconfiança que vinha aumentando, um pouco graças aos arroubos de Renato, que fortaleceram consideravelmente o seu ego. Encontrava-se pouco com o namorado, mas falavam-se quase todo dia, senão por telefone por mensagens instantâneas. E trepavam toda vez que tinham oportunidade. Às vezes se perguntava como teria sido com o Renato, se era verdade aquilo que ele dizia que largaria a família por ela. Será que nunca mais o veria?

Renato estava mais forte do que nunca. Livre do antidepressivo, também reduzido aos poucos, sentiu sua virilidade voltar rapidamente, e apesar de pensar em Clarissa o tempo todo, entendeu que estava na hora de parar com aquele comportamento auto-destrutivo. Estava já há alguns dias pensando nos fatos da sua infância, por causa da sua última entrevista com o médico. Tentava ainda entender o seu comportamento. Será que poderia ter alguma relação com aquele grande evento desagradável ocorrido na quinta série? Renato recapitulou os fatos.

Renato lembrou de quando começou a freqüentar a casa do seu primeiro amigo do novo colégio, Marcos, na quinta série. Ele tinha uma mãe maluca que gritava com voz esganiçada pela casa de penhoar de matelassê de nailon branco e florido. E dois irmãos mais velhos que ignoravam a existência da mãe. O pai era a tranqüilidade personificada e ausência completa. Marcos era o menor, e os mais velhos sabiam tudo de tudo. Na sua casa Renato começou a ouvir punk rock, o new wave, o rock inglês moderno, e os clássicos psicodélicos dos anos sessenta e setenta. Renato e Marcos descobriram rapidamente uma grande afinidade. Ambos eram apaixonados pela vizinha de Renato, que não estava nem aí para eles, e Marcos também a conhecia porque os pais eram amigos. Tinham dez pra onze anos, e surgiu a brilhante idéia – difícil saber de quem foi o germe – de escrever-lhe uma carta obscena marcando um encontro num terreno baldio. Olhando com sua perspectiva de adulto pareceu a Renato uma violência enorme, explicável, mas não justificada pela angústia do desejo. Na hora da loucura pareceu até possível. Enfiaram a carta na caixa-de-correio e ficaram espreitando o horário. Foram descobertos pelo irmão mais velho da menina, que perguntou a um pedreiro de uma obra da rua quem tinha sido. Tocou a campainha, mandou chamar Renato, e mostrou-lhe a carta já meio rasgada com a mão trêmula, perguntando se ele tinha mandado aquilo pra irmã dele. Renato balbuciou qualquer coisa confirmando. Ele rosnou alguma ofensa já ensaiada, que Renato aceitou sem falar nada. Os pais todos se conheciam e foram acionados. Renato ficou trancado no banheiro horas esperando aterrorizado de vergonha a hora em que seria chamado por seu pai. À noite ele o chamou, mostrou-lhe a carta, já mais estragada, examinada, amassada rasgada e suja, também com a mão trêmula, confirmou a autoria e o chamou de coisas horríveis. Marcos foi obrigado a confrontar toda a família da garota de uma vez, junto com a sua, no clube, no fim daquela mesma semana. Foi chorar na piscina debaixo d’água. O pai de Renato consultou um psicólogo amigo seu, que deu risada e disse que não tinha importância nenhuma, mas isso Renato foi ficar sabendo anos depois. A amizade foi proibida. Conviviam na escola, a proibição foi ficando inviável, e virou só uma implicância. A mãe de Renato tinha certeza que a má companhia era Marcos. Renato e Marcos de qualquer jeito acabaram mantendo a amizade. Com quatorze anos surfavam no Guarujá, andavam de skate, fumavam maconha, tudo aprendido precocemente com os irmãos de Marcos. O amigo de Renato tomou pau na oitava série, e se afastaram um pouco. Encontravam-se às vezes, por aí. Depois de algum tempo, Renato já com mais de vinte anos, teve a notícia de ele estava meio maluco mesmo, problema de droga, e andara perseguindo a irmãzinha temporã da menina da carta, uns cinco ou seis anos mais moça do que ele. Aquilo lhe pareceu uma fixação esquisita, pois ela era quase igual a irmã. Um dia, quanto estava pelos trinta, viu o anúncio de sua missa de sétimo dia. Não foi. Uns dois anos depois, numa festa de trinta anos de uma amigo, encontrou um irmão de Marcos. E Renato, completamente alto, teve com ele uma conversa emocional e besta, ao som daquele mesmo rock dos oitenta, e todas as boas lembranças possíveis foram ofuscadas pela notícia de que Marcos havia se matado.

Será que vinha daí sua fixação por Clarissa? Será que sua mente tinha ficado aprisionada por aquele evento traumático, que agora se reeditava naquele amor doentio? Não espreitavam a casa da sua vizinha, e não lhe mandaram a tal carta obscena? Não era isso que Renato tinha feito com Clarissa? A morte de Marcos não tinha sido imediatamente antes do início daquela enorme reviravolta na sua vida? Será que a notícia da morte de Marcos não deflagara um processo inconsciente de liberação e reedição daquele conteúdo emocional traumático? Até uma explicação sobrenatural seria possível, de encosto ou espírito dominado, mas Renato, absolutamente cético, não se preocupou com isso.

Toda essa teoria, fosse ou não verdadeira, não lhe ajudou em nada, pois continuava obcecado por Clarissa.

segunda-feira, agosto 15, 2005

O Stalker - Capítulo 52

Na segunda consulta com o psiquiatra, Renato contou que o seu comportamento compulsivo, de mandar e-mails para Clarissa, continuava. Aliás, era a única coisa que se mantinha. Estava estúpido, não conseguia trabalhar direito, e embora estivesse aparentemente calmo, falava coisas horríveis em voz baixa, para quem estivesse perto. O médico surpreendeu-se com essa agressividade, que não deveria acontecer com a medicação. Nada tinha a ver com ela.

De qualquer jeito, ante o fracasso da droga, entendeu que era hora de mudar a estratégia. Com suas notas da outra consulta na mão, lembrou que Renato tinha mencionado uma tendência antiga à depressão, e resolveu explorar essa hipótese. Renato ficou animado, “sim, sim, desde criança”, na esperança de merecer uma droga que o deixasse tranqüilo e feliz. O médico alertou-o que para o antidepressivo fazer sentido, a depressão deveria ter uma causa fisiológica. Para aferir a existência dessa causa física, o mais seguro era, se fosse possível, identificar o comportamento depressivo desde a infância. Havia uma possibilidade de que o comportamento compulsivo de macaquinho masturbador, identificado na consulta anterior, houvesse causado um comportamento anti-social que pudesse ser confundido com a depressão. Talvez Renato, que se disse uma criança solitária, tivesse essa tendência ao isolamento causada por um pendor ao entretenimento solitário com o interesse do momento, não se preocupando em se socializar, e não um depressivo.

Renato estava achando a análise do médico superficial e temerária, mas no afã de conseguir sua droga milagrosa, concordava com o bom doutor, e forneceu os elementos da depressão infantil que ele reclamava. Desde quando se lembrava, era melancólico e indolente, e tinha a tendência a ficar horas sem fazer nada, contemplando as formigas caminhando, os carros passando na rua, ou a empregada trabalhando. Pareceu-lhe mais dramático dizer isso do que apenas dizer que via muita tv.

O médico deu-se por satisfeito e sacou de seu atualizado repertório um antidepressivo razoavelmente novo, à base de reboxetina, que atuava na recaptação da noradrenalina, um neurotransmissor, e teria um significativo efeito contra a depressão, conforme explicou a Renato, que burro com estava não teve sequer condições de fazer as perguntas corretas para entender o que o ele dizia.

Renato saiu de lá feliz da vida, tendo conquistado o que queria desde o início. Uma moderníssima droga da felicidade, que o faria esquecer Clarissa e tocar a vida para frente. Mas isso não seria assim tão imediato. O anticonvulsivo teria que ser reduzido aos poucos, para evitar que tivesse convulsões, e o remédio novo demoraria duas semanas para fazer sentir os seus efeitos. Mas só se livrar do torpor desagradável causado pela droga já era um grande avanço.

Voltou para casa, e contou para Fernanda as novas do tratamento. Fernanda ficou animada com a possibilidade de Renato voltar a ser o que era, pois aquele comportamento catatônico e agressivo a incomodava bastante. Era o que faltava para ela, porque Renato não tinha mais saído sozinho à noite, e a vida parecia ir se normalizando.

Depois das duas semanas Renato tinha um humor maravilhoso, dormia bem, e cumpria sua rotina com tranqüilidade. Só duas coisas o incomodavam. Uma certa dificuldade ao urinar, com a redução da força do jato, fraco e demorado, e uma visível queda da libido. Não que tivesse ficado impotente, mas simplesmente não se lembrava que sexo existia. Quando Fernanda o acionava, Renato respondia, mas com pouca imaginação e empenho. Ao se dar conta que esse desinteresse devia ser causado pelo remédio, desistiu do mundo das drogas da alegria. Suas duas tentativas tinham sido absolutamente insatisfatórias, e percebeu que o seu sofrimento só fizera aumentar nos últimos dois meses em que estava sob a ação de medicação. Diminuiu a droga aos poucos, como mandava a bula, e se sentiu maravilhosamente bem na sua habitual e saudável loucura. Pensava em Clarissa o tempo todo, mas parou de lhe mandar mensagens. Aparentemente aceitando o fim, enterrou suas expectativas no passado.

domingo, agosto 14, 2005

O Stalker - Capítulo 51

As colegas de Fernanda do shopping sabiam que ela não ia resistir. Nenhuma nunca tinha resistido. Cinqüentão, dono de uma conhecida marca de roupas de fitness, com uma loja em cada shopping importante do Brasil, depois de entregar a administração do negócio aos seus filhos, Alfredo dedicava a vida a ser irresistível. Era uma lenda viva, e um bem guardado segredo das vendedoras do shopping. Pescava suas moças principalmente no Iguatemi, eventualmente em outros shoppings, dependendo do que estava na vitrine. Passava as tardes circulando, durante os dias de semana, horário freqüentado por mulheres e adolescentes. A pretexto de pesquisar o mercado e fiscalizar a concorrência, entrava em todas as lojas, examinava todos os artigos, e conversava com todas as vendedoras. Era sempre bem vindo. Seu alvo era as moças de vinte e oito a trinta e cinco anos, aproximadamente, com alguns anos de casadas. Geralmente estavam já um pouco entediadas do casamento, e cediam a um primeira experiência de traição, desde que bem cantadas. Quando escolhia uma, aumentava a atenção que dava em relação às outras. Não era um galanteador barato. O assunto geralmente era os produtos, sobre os quais expunha uma análise técnica de conhecedor. Eventualmente tecia considerações sobre a roupa que a vendedora usava, sempre da loja, e o efeito que causava. Depois de alguns dias de atenção especial a uma delas, dava-lhe um cd de uma cantora, dizendo que tinha achado a cara dela, ou algo assim. Suspeitavam que era assim que ele catalogava suas conquistas. O segundo presente era um perfume, e o timing era calculado segundo a intensidade da resistência que sentia. Algumas davam muito mais trabalho do que as outras, e nesses casos ele alongava o período de atenção redobrada.

Fernanda tinha sido agraciada com o cd da Madeleine Peyroux, e já tinha recebido o perfume, quando Renato ligou, antes de sua primeira consulta ao psiquiatra, avisando que iria ao happy-hour do Mercearia com os amigos. Fernanda sabia que vinha merda, e quando Alfredo passou no fim da tarde, ele percebeu que ela sinalizava de forma diferente, e convidou-a para almoçar no dia seguinte. Fernanda, sabendo o que ia acontecer, aceitou. Combinaram que ele a pegaria no shopping no dia seguinte à uma hora.

Almoçar com Alfredo era considerado falta justificada naquela comunidade. Quando Renato acordou com sua horrível ressaca no dia seguinte, Fernanda estava sendo preparada pelas colegas para o almoço. A lingerie caríssima, que era o terceiro presente tradicional de Alfredo, tinha sido entregue na loja naquela manhã. Escolheram em conjunto a roupa e os acessórios que usaria, do vasto acervo da loja. Uma era habilidosa com cabelo, outra com maquiagem, e todas palpitaram com a indumentária. À uma hora em ponto Alfredo chegou, e foi deixado esperando por dez minutos, até que Fernanda acabasse de se aprontar. Caminharam até o Porsche e foram almoçar no Fasano.

Uma mesa bem localizada estava reservada. Alfredo disse que já tinha combinado um cardápio especial com o Salvatore. Começariam com foie-gras grelhado, que acompanhariam com vinho Sauternes, depois comeriam uma delicada massa com trufas e vinho Borgonha, que já estava aberto há algum tempo, e terminariam com champagne meio doce com a sobremesa à base de frutas frescas. Comida leve, adequada para ação que viria depois, com uma boa base de carboidratos. Alfredo se gabava intimamente de regular o teor alcoólico de suas convidadas, e por isso o garçon sempre esperava um imperceptível sinal seu para servir mais vinho, que não tinha nenhum pudor em desperdiçar, o que fazia a festa do pessoal da cozinha. Gostava de terminar com o champagne porque se tivesse errado, poderia acelerar no final. Durante a refeição, concentrava-se de modo absoluto na sua companhia, dela não desviando sua atenção por um segundo. Conseguia uma efeito de resumir o mundo àquela mesa, a eles dois. Quando subiram à suíte Oásis, Fernanda, não tão levemente alcoolizada, não tinha nenhuma dúvida ou preocupação.

Na ampla suíte tocava “Dance me to the end of love”, e Alfredo imediatamente tomou Fernanda nos braços e dançou com ela até o fim da canção. Fernanda achou engraçado dançar naquele estilo antiquado com aquele homem mais velho, que dançava incrivelmente bem, e aquilo era incrivelmente sexy. Alfredo mostrou-lhe a suíte, que tinha um amplo banheiro para cada um. Separaram-se por alguns instantes, e quando Fernanda saiu do banheiro envergando apenas a maravilhosa lingerie, Alfredo, de boxer de seda escura, ofereceu-lhe um champagne. Brindaram e a ação começou. Alfredo era um dedicado artista do sexo, com muitos e muitos anos de praia, e uma interminável ereção. Seu empenho em divertir a parceira era tanto, que elas logo estavam chupando seu pau, em sincero agradecimento. Treparam até a noite, sem pressa, com longas pausas para beber e lambiscar no sintético buffet montado na sala, com mais danças nus e descalços, momentos de relax no o-furô e tudo mais. Voltando ao shopping, por volta das dez da noite, Alfredo despediu-se de Fernanda com uma jóia.

De acordo com as informações que circulavam à boca pequena, ela sabia que aquilo jamais se repetiria, o que não a incomodava nem um pouco. A tarde havia sido impecável, e ela se divertiu loucamente com aquele sexo luxuoso. Depois, recapitulando os fatos, Fernanda achou que a terceira gozada de Alfredo havia sido fingida.

sábado, agosto 13, 2005

O Stalker - Capítulo 50

Renato acordou por volta do meio-dia. Havia recados do escritório e um enorme mal estar pela casa, tendo as crianças e as empregadas percebido que a rotina havia sido quebrada. Tomou duas aspirinas, um longo banho, e saiu rapidamente, aproveitando que Fernanda não estava. No trabalho alegou uma gripe para explicar o seu estado deplorável e o seu atraso. Começou a imaginar que sentia os efeitos do remédio, e sentiu necessidade de comunicar Clarissa que estava se tratando, seguindo suas instruções. Mandou um e-mail descrevendo a consulta e disse estar envolto numa névoa de tranqüilidade e preguiça, atribuída à sua imaginação. Clarissa não respondeu.

No dia seguinte, mandou outra:

“Minha droga, segundo pesquisei na internet, é emburrecedora, o que para mim não há de ser nenhuma vantagem. Acredito que o bom doutor tenha errado o alvo, por superestimar os impulsos febris. Estou paradão”.

Uma semana depois:

Ontem fui beber com os amigos. Com o remedinho em dose dobrada levitava a um centímetro da cadeira, e bebia na metade da velocidade. Homens socializam-se em torno do álcool. Eu praticamente não disse nada. Preciso pedir ao médico um outro remedinho pra dar um chute na preguiça.”

E depois de alguns dias, tentando lutar contra o seu emburrecimento, e entender o que acontecia com ele, produziu uma mensagem estapafúrdia:

“Sem nenhuma pretensão filosófica ou científica, o reconhecimento de relações entre fatos, e entre relações, é uma das formas como se manifestam a inteligência, a arte e a loucura, dependendo da qualidade das ligações que as compõem. Por exemplo, vi a cotação das ações da Belgo Mineira e lembrei de você. Talvez se essa companhia não tivesse vindo ao Brasil não conhecesse você. Depois deste lampejo involuntário inicial, que é a conexão destes dois fatos entre si, passei a identificar várias outras conexões ativadas pelos dois fatos, em inúmeras reações em cadeias, tantas quantas meus circuitos sinápticos – ou coisa que os valham – pudessem suportar. De discutível utilidade seria identificar-se uma coincidência aleatória como uma relação, como por exemplo reconhecer na queda das ações um presságio do fim da nossa ligação.

Porque a conversa? Porque a droga faixa-preta [e aqui uma relação humorística-estúpida (estupidez é um grau de inteligência) bastante óbvia com as artes marciais orientais] que estou tomando agora está atingindo patamares mais consistentes, e eu suspeito – suspeita que pode ser a diferença entre a ciência e a loucura, ou a inteligência e a burrice – que ela faz meu corpo produzir efeitos elétricos externos. Soa mal, não é? A idéia que me parece mais estúpida do que louca começou a surgir depois de alguns acontecimentos, digamos assim, elétricos. O primeiro, foi talvez a morte da bateria do meu relógio. Sim, a relação é fraca e improvável, mas é um poderoso relógio a quartzo, e sua bateria não deu mostras de fraquejar antes, como deveria. Simplesmente amanheceu morto. A segunda, mais ou menos simultânea, foi o cartão do estacionamento do shopping. Embora contivesse um crédito razoável, a máquina leu “cartão inválido”. Chamei o prestativo funcionário, e após alguma confusão e a formação de filas e buzinas, levantar e abaixar da cancela, retirar e enfiar cartões de plástico e de papel, na mão do rapaz funcionou. Depois, o celular amanheceu no criado-mudo conectado à internet. Uma “resetada” do computador, sem explicação nem cabos frouxos, e canais saltando na tv (com o controle remoto na mão), nada paranormal mas levemente anormal. Coincidências aleatórias ou relações legítimas?

Curiosamente, li outro dia notícia de terapias de condições várias como enxaquecas, epilepsias, doenças cardíacas, depressões e esquizofrenias, através de implantes em lugares estratégicos de pequenas engenhocas que disparam impulsos elétricos a intervalos regulares de tempo, chamadas de neuromodulação. Estratégias de neurologistas, que são diferentes das drogas dos psiquiatras. Outro exemplo do choque em si é um lançamento no mercado náutico, também recente, de um bracelete que emite impulsos elétricos no pulso – com o perdão da consonância – e ao que assegura o fabricante, depois de quinze minutos, evita o enjôo. Em termos elétricos, os psiquiatras voltaram a utilizar as convulsões causada pelo eletrochoque como terapia de pacientes resistentes às drogas ou muito susceptíveis aos efeitos colaterais. Segundo dizem as convulsões liberam os acúmulos de enzimas neurotransmissoras nos terminais, que causam a confusão mental e as alucinações, e o paciente imediatamente sente-se melhor. Para evitar um dos principais efeitos colaterais desse tratamento por eletrochoque, os ossos quebrados, ministram antes anestesia geral e relaxantes musculares. Mary Shelley que o diga”.

Quando o médico lhe perguntava se os efeitos colaterais estavam suportáveis, Renato dizia que sim. Mas sua capacidade de discernimento estava piorando, e continuava com as mensagens:

“Um efeito colateral indicado na bula e verificado por mim é o formigamento das extremidades. Também ocorre uma reação química com as bebidas gasosas, que ficam desagradáveis. Não parece eletricidade? Outro efeito novo tem sido experimentado pelos circundantes: curtas e grosseiras explosões de uma frase, dita em tom baixo e de forma totalmente inadequada e agressiva. Estou desenvolvendo o talento de errar na mosca. Quando vejo, a faísca já chamuscou um inocente. Deve ser um problema de excesso de estática. Amanhã devo falar com o bom doutor, para mais um ajuste na dose. Ou na droga”.

Às vésperas da segunda consulta, quarenta dias tomando o anticonvulsivo, e já há algum tempo em dose plena, estava bastante ruim, e mandou uma mensagem reclamando do silêncio de Clarissa:

“Enquanto espero a nova consulta com o bom doutor para avaliar o tratamento, falo com Paredes. Paredes é minha única ouvinte. Paredes não é surda como as portas. Inteligentissimíssima, só diz coisas geniais. Planos verticais. Paredes.”

Clarissa sabia quem era o médico, um conceituado professor que provavelmente lhe daria aulas, e ainda que estivesse um pouco preocupada com o estado de Renato, achou melhor confiar na medicina.