Renato acordou por volta do meio-dia. Havia recados do escritório e um enorme mal estar pela casa, tendo as crianças e as empregadas percebido que a rotina havia sido quebrada. Tomou duas aspirinas, um longo banho, e saiu rapidamente, aproveitando que Fernanda não estava. No trabalho alegou uma gripe para explicar o seu estado deplorável e o seu atraso. Começou a imaginar que sentia os efeitos do remédio, e sentiu necessidade de comunicar Clarissa que estava se tratando, seguindo suas instruções. Mandou um e-mail descrevendo a consulta e disse estar envolto numa névoa de tranqüilidade e preguiça, atribuída à sua imaginação. Clarissa não respondeu.
No dia seguinte, mandou outra:
“Minha droga, segundo pesquisei na internet, é emburrecedora, o que para mim não há de ser nenhuma vantagem. Acredito que o bom doutor tenha errado o alvo, por superestimar os impulsos febris. Estou paradão”.
Uma semana depois:
“Ontem fui beber com os amigos. Com o remedinho em dose dobrada levitava a um centímetro da cadeira, e bebia na metade da velocidade. Homens socializam-se em torno do álcool. Eu praticamente não disse nada. Preciso pedir ao médico um outro remedinho pra dar um chute na preguiça.”
E depois de alguns dias, tentando lutar contra o seu emburrecimento, e entender o que acontecia com ele, produziu uma mensagem estapafúrdia:
No dia seguinte, mandou outra:
“Minha droga, segundo pesquisei na internet, é emburrecedora, o que para mim não há de ser nenhuma vantagem. Acredito que o bom doutor tenha errado o alvo, por superestimar os impulsos febris. Estou paradão”.
Uma semana depois:
“Ontem fui beber com os amigos. Com o remedinho em dose dobrada levitava a um centímetro da cadeira, e bebia na metade da velocidade. Homens socializam-se em torno do álcool. Eu praticamente não disse nada. Preciso pedir ao médico um outro remedinho pra dar um chute na preguiça.”
E depois de alguns dias, tentando lutar contra o seu emburrecimento, e entender o que acontecia com ele, produziu uma mensagem estapafúrdia:
“Sem nenhuma pretensão filosófica ou científica, o reconhecimento de relações entre fatos, e entre relações, é uma das formas como se manifestam a inteligência, a arte e a loucura, dependendo da qualidade das ligações que as compõem. Por exemplo, vi a cotação das ações da Belgo Mineira e lembrei de você. Talvez se essa companhia não tivesse vindo ao Brasil não conhecesse você. Depois deste lampejo involuntário inicial, que é a conexão destes dois fatos entre si, passei a identificar várias outras conexões ativadas pelos dois fatos, em inúmeras reações em cadeias, tantas quantas meus circuitos sinápticos – ou coisa que os valham – pudessem suportar. De discutível utilidade seria identificar-se uma coincidência aleatória como uma relação, como por exemplo reconhecer na queda das ações um presságio do fim da nossa ligação.
Porque a conversa? Porque a droga faixa-preta [e aqui uma relação humorística-estúpida (estupidez é um grau de inteligência) bastante óbvia com as artes marciais orientais] que estou tomando agora está atingindo patamares mais consistentes, e eu suspeito – suspeita que pode ser a diferença entre a ciência e a loucura, ou a inteligência e a burrice – que ela faz meu corpo produzir efeitos elétricos externos. Soa mal, não é? A idéia que me parece mais estúpida do que louca começou a surgir depois de alguns acontecimentos, digamos assim, elétricos. O primeiro, foi talvez a morte da bateria do meu relógio. Sim, a relação é fraca e improvável, mas é um poderoso relógio a quartzo, e sua bateria não deu mostras de fraquejar antes, como deveria. Simplesmente amanheceu morto. A segunda, mais ou menos simultânea, foi o cartão do estacionamento do shopping. Embora contivesse um crédito razoável, a máquina leu “cartão inválido”. Chamei o prestativo funcionário, e após alguma confusão e a formação de filas e buzinas, levantar e abaixar da cancela, retirar e enfiar cartões de plástico e de papel, na mão do rapaz funcionou. Depois, o celular amanheceu no criado-mudo conectado à internet. Uma “resetada” do computador, sem explicação nem cabos frouxos, e canais saltando na tv (com o controle remoto na mão), nada paranormal mas levemente anormal. Coincidências aleatórias ou relações legítimas?
Curiosamente, li outro dia notícia de terapias de condições várias como enxaquecas, epilepsias, doenças cardíacas, depressões e esquizofrenias, através de implantes em lugares estratégicos de pequenas engenhocas que disparam impulsos elétricos a intervalos regulares de tempo, chamadas de neuromodulação. Estratégias de neurologistas, que são diferentes das drogas dos psiquiatras. Outro exemplo do choque em si é um lançamento no mercado náutico, também recente, de um bracelete que emite impulsos elétricos no pulso – com o perdão da consonância – e ao que assegura o fabricante, depois de quinze minutos, evita o enjôo. Em termos elétricos, os psiquiatras voltaram a utilizar as convulsões causada pelo eletrochoque como terapia de pacientes resistentes às drogas ou muito susceptíveis aos efeitos colaterais. Segundo dizem as convulsões liberam os acúmulos de enzimas neurotransmissoras nos terminais, que causam a confusão mental e as alucinações, e o paciente imediatamente sente-se melhor. Para evitar um dos principais efeitos colaterais desse tratamento por eletrochoque, os ossos quebrados, ministram antes anestesia geral e relaxantes musculares. Mary Shelley que o diga”.
Quando o médico lhe perguntava se os efeitos colaterais estavam suportáveis, Renato dizia que sim. Mas sua capacidade de discernimento estava piorando, e continuava com as mensagens:
“Um efeito colateral indicado na bula e verificado por mim é o formigamento das extremidades. Também ocorre uma reação química com as bebidas gasosas, que ficam desagradáveis. Não parece eletricidade? Outro efeito novo tem sido experimentado pelos circundantes: curtas e grosseiras explosões de uma frase, dita em tom baixo e de forma totalmente inadequada e agressiva. Estou desenvolvendo o talento de errar na mosca. Quando vejo, a faísca já chamuscou um inocente. Deve ser um problema de excesso de estática. Amanhã devo falar com o bom doutor, para mais um ajuste na dose. Ou na droga”.
Às vésperas da segunda consulta, quarenta dias tomando o anticonvulsivo, e já há algum tempo em dose plena, estava bastante ruim, e mandou uma mensagem reclamando do silêncio de Clarissa:
“Enquanto espero a nova consulta com o bom doutor para avaliar o tratamento, falo com Paredes. Paredes é minha única ouvinte. Paredes não é surda como as portas. Inteligentissimíssima, só diz coisas geniais. Planos verticais. Paredes.”
Clarissa sabia quem era o médico, um conceituado professor que provavelmente lhe daria aulas, e ainda que estivesse um pouco preocupada com o estado de Renato, achou melhor confiar na medicina.