sexta-feira, agosto 12, 2005

O Stalker - Capítulo 49

Chegaram os quatro praticamente ao mesmo tempo, cada um no seu carro. Um deles, mais assíduo, foi firmemente abraçado pelo segurança externo. Depois, pelo porteiro, e a recepcionista também efusivamente tratou-lhe pelo nome. Tiveram tratamento vip. Eram bem educados, não tomavam drogas, bebiam bastante, não reclamavam das contas, não arrumavam encrenca, e, ainda que não admitissem nem para si mesmos, subiam com as garotas, que nunca reclamaram de nada. Rapazes de família. A recíproca com a casa era verdadeira. Todos sabiam quanto iam gastar, e que estavam absolutamente seguros lá. Não seriam roubados, não havia o risco de violência de qualquer espécie, e sabiam que as garotas eram treinadas para respeitar certos limites. Era o melhor lugar do mundo para beber até cair. Ninguém achava ruim, muito contrário, era um comportamento estimulado, desde que não houvesse baixaria. E se houvesse, eles sabiam como lidar com isso.

O lugar era realmente grande, com dois pavimentos interligados por átrios com escadarias, piscinas com cachoeiras artificiais cheias de carpas coloridas, salões de sinuca, ambientes com música mecânica e música ao vivo, e uns sujeitos circulando em roupões de toalha brancos, o que indicava que havia uma sauna. Foram levados a uma mesa perto da pista de dança onde ocorriam os stripteases. Uma garrafa de uísque, um balde de gelo, club soda e um mix de frutas secas logo surgiram sobre a mesa. Os amigos, como garotos em loja de doce, sorriam maravilhados, rindo à toa, à vista de todas aquelas sorridentes garotas de biquini flertando com eles. Renato começou sua procura. Embora fosse muito raramente a esses paraísos artificiais, sabia exatamente o que queria. O primeiro corte eliminava as garotas com silicone. Achava a consistência desagradável ao tato, em comparação com o peito natural, e visualmente desproporcional. Quase nunca combinavam com o tipo físico da portadora da prótese. E o silicone ainda indicava uma história mais antiga na noite – como elas se refiriam à atividade – e assim maior risco de cinismo e sociopatia da moça. O segundo corte ia em busca das moças que estavam a fim de beber com ele, e que concordavam em tomar o uísque da mesa, ao invés de pedirem aqueles drinques de puta que multiplicavam o valor da conta. Ele e os amigos dificilmente dariam conta da garrafa. Com as garotas que bebiam nesse estilo uísque da mesa a camaradagem era sempre mais fácil e divertida, e elas costumavam mostrar algum resquício de alma. O contato parecia mais equilibrado. Renato evitava as garotas muito bonitas, porque a trepada era burocrática e ruim. Por terem o rei na barriga, pareciam sempre estar fazendo favor ao cliente.

A busca em si era uma delícia. Tinha algo a ver com escolher frutas na feira. Achando interessante uma candidata, era só sorrir e chamar com um gesto, e ela se aproximava. A qualquer bobagem ela ria, e começava uma apalpação mútua relaxada e descompromissada. A cada entrevista, seu pau ficava duro com o contato explicitamente erótico, um joguinho no qual a moça tinha que mostrar o seu valor. Nessa noite, Renato apalpou várias garotas, fazendo-as sentar na mesa e tomar um pouco de uísque. Acabou decidindo-se por Vanessa, que cumpria os seus requisitos e tinha um “je ne sais quoi” que o agradou. Para não ter que barganhar, o que ele achava especialmente constrangedor por tratar-se de um serviço que implicava a intimidade da garota, Renato fazia uma breve consulta do preço mínimo do mercado, e o oferecia de chofre. Depois de uma risadinha elas sempre aceitavam, aliviadas de não terem que discutir a questão. Aplicou-se então em namorar a moça, louvando-lhe a enorme beleza e sondando seus gostos e preferências, tomando cuidado para que a conversa não caísse para o assunto da “noite”, que era sempre baixo astral. Muita risada e muita apalpação, com a moça já relaxada depois da contratação, louca para exibir seus talentos.

Depois de uma pequena espera na fila das suítes, com direito a encoxadas, apalpadas e beijoquinhas, respeitando o tabu “tudo menos beijar na boca”, apenas com leves e acidentais infrações, subiram ao quartinho. Por deferência à moça, depois de um dia longe da água, e para aparar a bebedeira, Renato enfiou-se no poderosíssimo chuveiro. Regulou o jato, deu uma longa mijada no ralo, e depois de um tempo que ele estava lá, entrou Vanessa no banheiro dando risadinhas e de touca no cabelo, enfiando-se no box com ele. Renato ficou maravilhado com a visão da puta desarmada, nua sem o salto, de touca no cabelo, com seus lindos pequenos seios perdidos naquele tórax magrinho, os pentelhos aparadíssimos e uma bundinha irritantemente jovem, como tinha que ser. Elogiaram-se mutuamente, com Vanessa dando especial ênfase ao pau de Renato, o qual lavou cuidadosamente, dobrinha por dobrinha, até que ele ficasse irremediavelmente limpo e ereto.

No quarto estavam acesas apenas as luzes indiretas, algumas coloridas, e tocava mais ou menos alto uma música tecno, num canal escolhido por Vanessa. Renato deitou-se de barriga para cima e Vanessa, desenrolando-se da toalha e desvencilhando seus cabelos da touca, fez uma frenética dança erótica para Renato em cima da cama. Renato achou hilário, mas não deixou de ficar de pau duro. Estava completamente bêbado, e ficar ali naquela luz misteriosa com aquela ninfa nua pulando na sua frente ao som daquele ritmo eletrônico implacável era simplesmente o máximo. Percebendo a ereção de Renato, Vanessa pegou uma camisinha sabe-se lá de onde e vestiu o pau de Renato com a boca, embalando num boquete animado, para garantir a ereção daquele bêbado. Na hora em que o sentiu bem duro, montou de cócoras a cavalo em Renato, enfiou-lhe o pau na sua buceta untada de lubrificante, e movimentou-se em hiper velocidade. Como Renato não gozava, mas mantinha o pau duro, virou de lado, e repetiu a manobra com a bunda virada para o rapaz. Depois de algum tempo, Renato, vendo que a moça começava a ficar com medo do fracasso, pediu que ela parasse e ficasse de quatro. Ela perguntou se ele queria por no seu cuzinho, para ela por um ky. Renato deu risada e disse que não estava a fim de nada apertado naquela noite, e segurando suas coxas na dobra com o quadril, mal enfiou o pau, ela começou a mexer-se para frente e para trás em alta velocidade, e depois de algum tempo com aquela movimentação olímpica, ele finalmente gozou.

Os dois ficaram felizes da vida com a conclusão do negócio, executado a contento apesar das precárias condições de ambos, e voltaram para o chuveiro para lavar apenas as partes. Renato pagou satisfeito o serviço sem preço, e depois de juras de contratações futuras que jamais seriam cumpridas voltaram ao salão infernal. Vanessa foi a cata de outro cliente, e Renato voltou à garrafa de uísque, para beber até cair, enquanto empatava outras garotas omitindo o fato de que já tinha subido e de estar arqui-completamente bêbado. Bebeu até ser delicadamente enxotado e posto no seu carro. Foi guiado pelo deus dos bêbados até a sua casa. Fez a rotina automática do portão da garagem, vaga, elevador, porta, sofá do escritório sem problemas, e com a sensação firme de ser um saco de merda, capotou sem saber quando e aonde iria acordar.

quarta-feira, agosto 10, 2005

O Stalker - Capítulo 48

Logo de manhã, assim que chegou ao escritório, Renato fez uma lista dos médicos do Instituto de Psiquiatria da USP. Ligou e descobriu que não poderia ser atendido lá, pois não teria direito ao sistema público de saúde. Apesar de intimamente decepcionado pela falta da oportunidade de encontrar Clarissa na escola, achou bom, pois estava na hora mesmo disso acabar. Rapidamente conseguiu o telefone do consultório de alguns deles. Não tinha nenhuma referência, e seu médico seria o primeiro que conseguisse marcar para aquele dia mesmo. Estava sem esperanças, e queria tomar uma droga mágica que tirasse aquele peso dos seus ombros. Na terceira tentativa, conseguiu. Sua tela exibia o consistente currículo do sujeito. Mestrado e doutorado em duas das melhores universidades do mundo, professor concursado e laureado. Nada podia dar errado, estava em boas mãos. Disse que seu caso era urgente, e marcou para as cinco da tarde. Perguntou o preço da consulta e tomou um pequeno susto. O cara devia ser o máximo. Ao chegar lá, o consultório nos jardins decepcionou um pouco pela austeridade involuntária de uma decoração gasta. Apresentou-se à recepcionista, já achando que iria ser tratado como louco, usufruindo de antemão do estereótipo daquele que não pode ser contrariado. Nada disso, logo percebeu que o psiquiatra era apenas um entre os vários médicos que dividam o consultório, adaptado em alguns apartamentos de um pequeno prédio sem elevador numa das paralelas que desciam da Paulista entre Melo Alves e Augusta, e ele um indistinto paciente. Tanto melhor, pensou. Leu revistas velhas por algum tempo até que foi chamado. Quando foi atendido pelo médico, só um pouco mais velho do que ele, sorridente e receptivo, percebeu que iria passar um mau bocado na bergére de couro que o psiquiatra lhe apontou. Mas, estava ali de peito aberto, e se entregou de coração à tarefa de garantir que aquele sujeito lhe fornecesse uma droga que tornasse sua vida imediatamente mais suportável.

O bom doutor perguntou o que lhe trazia ali, e Renato mencionou genericamente a fase difícil pela qual estava passando, que estava lhe causando problemas com a família e uma queda na produtividade no trabalho. O médico perguntou se ele tinha alguma hipótese sobre a causa, e Renato soltou o verbo. Resolveu falar até ser interrompido. Estava pagando caro, e só falar já seria de alguma valia. Contou como conhecera Clarissa na aula de inglês, e como a brincadeira do flerte tinha se transformado numa obsessão que o dominava já há uns quatro ou cinco meses. Querendo ser considerado doente para merecer a medicação, e não ter o risco de ser encaminhado para uma insossa psicoterapia, carregou nas tintas e em quarenta minutos descreveu em minúcias tudo o que de compulsivo e obsessivo havia em seu comportamento dos últimos meses, fazendo questão de salientar uma tendência anterior para a melancolia e depressão.

O médico deu relevância ao aspecto compulsivo e inquiriu Renato sobre o seu passado, procurando mais elementos caracterizadores desse comportamento, no que foi prontamente atendido pelo paciente. Renato listou uma série de hobbies, interesses diletantes, tentativas de alternativas profissionais, esportes, cursos, e tudo o que pudesse corresponder à expectativa do médico. Temendo que isso fosse pouco, desenhou também um quadro depressivo antigo, com raízes na infância. Era tudo verdade, mas era uma verdade selecionada e reforçada conforme ia percebendo a reação do médico, que, sentado numa bergére de couro igual à que estava, ia tomando notas numa prancheta também de couro, com uma caneta de grife. Depois do relato inicial e da entrevista que se seguiu, o médico explicou as dificuldades da psiquiatria com os diagnósticos, que eram sempre provisórios baseados em hipóteses mutantes ao longo do tratamento, e disse também que a medicação mais adequada era ministrada com base em tentativa e erro. E cada tentativa, como a dose era sempre aumentada paulativamente, durava pelo menos um mês, até que se pudesse constatar se era eficaz ou não para o caso específico. E acrescentou que sua primeira hipótese, tendo em vista a série de comportamentos compulsivos de Renato anteriores à sua paixão pouco saudável, e principalmente este último evento, indicava para um tratamento que vinha experimentando nos últimos tempos. Renato sentiu-se importante e feliz em ser cobaia. Achou que ia receber uma droga nova e salvadora, sem efeitos desagradáveis que tinha percebido existirem em suas breves pesquisas sobre o tema. O médico afirmou a Renato que o seu comportamento compulsivo manifestado várias vezes e sempre repetido era o mesmo de um macaquinho condicionado, que aprende a realizar alguma tarefa para receber determinada recompensa, que ele repetia e repetia até conseguir, e até quando acabesse o prazer proporcionado pela tarefa. Uma coisa assim masturbatória mesmo.

Renato ficou irritado com o bom doutor ter feito a redução mais vil que poderia obter do seu amplo e sublime sentimento por Clarissa, mas sentiu que se ficasse quieto iria receber seu almejado prêmio, e ao concluir esse raciocínio do prêmio achou que talvez o médico pudesse ter razão, e o seu grande amor não passasse de um pedaço de queijo no fim de um longo labirinto, ao qual era conduzido por choques elétricos ao mesmo tempo estimulantes alternados com punitivos. Depois de toda a exposição, o psiquiatra perguntou se concordaria em tentar uma certa droga, originalmente criada para tratamento de epiléticos, um anti-convulsivo, mas que recentemente estava sendo aproveitado com muito sucesso por um efeito colateral seu, no tratamento de comportamentos compulsivos, como o jogo, o alcoolismo, a cleptomania, e a obesidade, que ele achava que poderia dar certo no caso do Renato. Não era o anti-depressivo de última geração que Renato sonhava, mas pelo menos não ia sair de mãos abanando. Pareceu-lhe mesmo que pela descrição do médico poderia ser a cura do seu desviante comportamento de “stalker”. Combinaram que ele iria aumentando a dose gradativamente, e se falariam semanalmente para que Renato lhe relatasse a evolução dos efeitos, e dali a um mês e meio teriam outra consulta, para avaliar e manter ou alterar o tratamento. Com a receita em duas vias de medicamentos controlados em mãos, cheia de RGs e carimbos, Renato pagou feliz a cara consulta e saiu animado do consultório. Agora era oficialmente um louco de carteirinha, ou pelo menos alguém com problemas mentais, e podia aprontar à vontade. Por outro lado sentiu que perdia uma boa parte da sua dignidade de homem adulto e capaz, pai de família.

Saindo do consultório checou sua caixa postal e percebeu que sua turma de amigos antigos ia se encontrar no Mercearia. Era quarta-feira, o dia tradicional. Juntou-se a fome com a vontade de comer. Tudo o que Renato queria agora era comemorar sua condição de louco quase solteiro. Clarissa havia lhe dado uma solene e definitiva dispensada, e Fernanda, que provavelmente a essa altura já estava dando para alguém, não estava mais nem aí com ele. Era dia de quebrar tudo, pôr para foder. Um grito brutal e destrutivo de liberdade.

Encontrou os amigos no boteco animado, e depois do ritual da circulação dos celulares com todos falando com todas as esposas, Renato tomou uma boa quantidade de uísque em ritmo acelerado, e ficou incitando a turma a ir à putaria, para beberem todos até cair. Dos seis que estavam à mesa, conseguiu convencer quatro, e lá pelas dez horas levantaram já bastante bêbados para irem a um enorme lupanar perto do aeroporto de Congonhas, famoso pela abundância de lindas garotas circulando de biquini.

terça-feira, agosto 09, 2005

O Stalker - Capítulo 47

Clarissa estava engasgada, precisava desabafar. Ligou para Alexandra, e marcou de se encontrarem no dia seguinte, às seis horas, num barzinho da Vila Madalena, onde poderiam conversar sem pressa e à vontade. Clarissa, por sua natureza reservada, não tinha comentado nem com a sua melhor amiga a existência de Renato e a estranha ligação que tiveram. Agora que ele era passado, sentiu que era possível, e que a aliviaria. O tiro de sacrifício no cachorro atropelado que tivera que disparar na noite anterior tinha doído bastante nela também.

Sentaram numa mesa do fundo no bar ainda vazio, todo decorado com relíquias futebolísticas, pediram uma água, dois chopps, e deram início àquele momento especial que era o encontro de duas amigas que tinham que ter uma conversa séria. Alexandra estava curiosíssima para saber o que Clarissa tinha para contar, e estava bem claro que a noite era da amiga. Era sempre Alexandra que precisava de atenção, e Clarissa a ouvia com interesse e carinho. Alexandra percebeu que vinha bomba.

Clarissa contou, com a precisão e o poder de síntese que lhe eram peculiares, toda sua breve e estranha estória com Renato, selecionando minuciosamente todos os detalhes importantes, o que demorou mais de uma hora e meia. Alexandra ouviu tudo aquilo boquiaberta, com o espanto sempre num crescendo. Chegou a babar, de tanto efeito que a estória lhe causou. Como que aquilo que começara com um amor de cinema, em tão pouco tempo tinha tido um fim tão trágico? Daí, Alexandra passou das interjeições de incentivo e assombro para o ping-pong, desempenhando o seu papel de melhor amiga.

- Mas Clarissa, pelo que você me disse, ele não me pareceu tão louco assim. Você tem certeza que ele foi rondar a casa do Danilo à noite? Espionar você com o Penza? O que ele disse?
- Ele não disse nada. No e-mail que ele mandou para se explicar, disse apenas que não valia a pena explicar, porque eu não iria acreditar.
- Você já pensou que ele podia não ter tido nenhuma má intenção? Lembra no colegial, quando toda vez que a gente almoçava na escola, a gente passava na frente da casa do Marcelo e do Guto, que a gente achava o máximo? Não podia ser algo assim, meio normal?
- Alexandra, tava na cara que ele passou a noite no mato. Dava para ver pela roupa, a mesma que ele estava no restaurante, a cara amassada, e a expressão, meu, tava na cara! Ele estava louco, completamente esquisito! Fora a vomitada nojenta!
- O cara estava bêbado e apaixonado. E daí? Grande coisa. Você não disse que deu mole enquanto o Penza estava tocando? O que você queria que ele fizesse? Fosse pra casa bater punheta?

Nesse momento houve uma pausa constrangedora. Por mais que fossem amigas, não costumavam usar essa linguagem chula para fatos da vida real. Brincando sim, claro, mas “punheta” era algo que não podia ser mencionado. Alexandra estava claramente tomando o partido de Renato, influenciada pelo lado romântico da coisa, e Clarissa não estava gostando nada disso.

- Alexandra, você está viajando, achando que isso é uma história romântica. Eu também achava, mas o cara é um freak, um louco, com problema, tá entendendo? E ainda é casado! Maior roubada impossível.
- Tudo bem, dá pra ver a coisa assim. Mas pelo que você está me contando, e do jeito que você está me contando, o cara não é um mané qualquer, e você não acha isso. E pra você achar isso, querida, você sabe que não é nada fácil.
- Não, não, nada disso. O cara é casado, e pirou numa fantasia com uma menina – eu – e pôs toda a sua energia pra simular um amor de cinema. O Renato nem acredita em amor. Como eu te disse, ele acha que foi acometido por um fenômeno psíquico doentio, com a minha imagem dominando completamente o seu cérebro.
- Clarissa, você acha? Não acredita em amor, rá, rá, rá. O cara está completamente apaixonado, louco, e está mal e porcamente disfarçando com esse papo cabeça de quinta. Bem mal, aliás. E você, não fala a mesma coisa? Desde que foi estudar medicina, começou a falar que esse negócio de amor era esquisito, bullshit, lorota, o que valia era o tesão e a empatia. Que a paixão era um processo fisiológico temporário. Aliás, sempre achei isso estranho, porque desde a quinta, sexta série, você sempre esteve apaixonada.

E Alexandra começou a enumerar os amores de Clarissa, um após o outro, sem exceção. Clarissa se irritou de leve.

- Mas Alex, depois que aconteceu aquela merda, o Renato ficou mandando todo santo dia um e-mail, falando mil absurdos, e continuou, sem que eu tivesse respondido nenhum deles. Mandou uns sessenta! Pode? Isso é coisa de louco, stalker, todo mundo sabe disso.
- Clarissa! Mas você me disse que foi assim que ele te ganhou. Mandando lindas cartas de amor. Assim você percebeu que ele respeitava sua "enorme inteligência e cultura", que ele achava você o "ser transcendente" que ele sempre procurou, beleza e inteligência, sexo e poesia, tudo junto aí nesse corpinho lindo!
- Tudo tem limite.
- Meu, você inventou aquela estória louca do pacto platônico. O que você queria que o cara pensasse? Que ele ia ser o seu amiguinho viado confidente? É claro que ele pensou que você estava fazendo um joguinho.
- Alex, ele que inventou esse joguinho ridículo!
- Pode ser, mas você entrou, Clarissa. Você não acha que isso pode deixar um cara um pouco perturbado?

Clarissa ficou puta da vida com a amiga. Como ela podia culpá-la? É evidente que Renato tinha entrado numa viagem. Ela tinha levado a coisa numa boa, como qualquer garota faria. Ele é que era casado e maluco.

- Amiga, o Renato não é louco. Você fodeu a cabeça dele, e agora só tem que resolver se quer ele – roubada, casado – ou o Penza. Aliás, eu não teria a menor dúvida, porque eu acho o Penza um puta gato!

Clarissa nada respondeu. Estava na cara que Alexandra não tinha captado a dimensão da coisa.

O Stalker - Capítulo 46

Renato passou um bom tempo na internet assuntando os significados da expressão “stalker”. A grande massa de páginas, a maioria delas ligadas a universidades norte-americanas, descrevia o delito de “stalking” e orientava a defesa das vítimas de perseguidores. Algumas preferiam nomear o crime de intrusão, porque “stalking” limitava à perseguição, e muitas variações do tipo eram restritas a e-mails não desejados, telefonemas insistentes, enquanto a perseguição implicava fisicamente em tocaia, espionagem, rastreamento, e mesmo a invasão. Havia também o “cyber stalking”, desde a obtenção de dados na internet até a invasão de computadores usados pela vítima ou sistemas com informações sobre ela, e estratagemas para obter endereços eletrônicos e outros dados. Quanto aos sujeitos do “stalking”, variavam do ex-companheiro inconformado com o fim de um relacionamento até o estranho total. A grande maioria dos “stalkers” era do sexo masculino. Dos motivos, quase a totalidade dos casos era de fundo amoroso, e várias análises psicológicas tentavam caracterizar a atividade de “stalking” como uma fantasia de ascensão pessoal, através da conquista do “stalkee”, muitas vezes uma celebridade, que aliás constituíam quase sempre os casos mais graves, ou uma pessoa de alguma forma socialmente superior ao “stalker”. A simples fixação sem explicação ou a vingança também apareciam listados como causa. A orientação da vítima ia desde a aquisição de um novo telefone, deixando o antigo ligado a uma secretária eletrônica só para o “stalker”, até a contratação de seguranças, e a obtenção judicial de ordens de “restraining”, impedindo o “stalker” de se aproximar da vitima. A questão de ignorar ou responder a abordagens, telefonemas ou mensagens insistentes era controvertida. As vezes um firme “não” era eficaz, outras a reiteração do desencorajamento era necessária. “Stalkers” tendem a tomar qualquer manifestação da vítima a ele dirigida como uma mensagem de aproximação. Enfim, havia uma infinidade de manuais, estudos e teorias para auxiliar e orientar a vítima. E terrível era a conclusão manifesta em várias das páginas da pouca utilidade das ordens judiciais contra “stalkers”. Quase ou nada os intimidavam, pois devido ao grau de baixa periculosidade da maioria das situações, as penas brandas e as ordens restritivas eram facilmente suportadas por eles, que quase sempre se acreditavam movidos por uma força superior. O amor, que se ainda não havia sido correspondido, seria em algum momento no futuro.

Estava na cara que se tratava de um esporte universitário norte-americano de enorme popularidade. “Nerds stalking cheerleaders”. Mas Renato ficou intrigado com a generalização do crime para situações tão díspares que iam do simples excesso do apaixonado no envio de cartas de amor, ou da prática comum em adolescentes de tentar encontrar a pessoa desejada em lugares que ela freqüenta por falso acaso, com a grave situação do espião violador da intimidade, o “stalker” clássico que persegue a vítima em marcação cerrada, seguindo cada passo seu, ou ainda o invasor violento. Afinal, as páginas de perfis pessoais como o Orkut não significavam a própria institucionalização do “stalking”, um supermercado de humanos, expostos em prateleiras com aparência, recheio, sabor e preço? Concluiu que a insistência nociva era a chave para distinguir o criminoso. E a nocividade devia ser suficiente para, no mínimo, assustar o “stalkee”, ultrapassando a simples inconveniência. E o que seria assustador? Não aceitar um não como resposta, constatar estar sendo seguido há muito tempo, telefonemas insistentes e silenciosos... E algumas dezenas de mensagens de amor seguidas não respondidas, caracterizaria o crime? Depende do que estiver escrito, pensou Renato.

Do pouco que conhecia de Clarissa jamais imaginaria que ela pudesse se assustar com o teor das mensagens que lhe enviara, nas quais o tema do amor nunca era abordado diretamente. A grande série não respondida procurava apenas entender e explicar como se dera o estranho processo. Bastante longe dos padrões de “stalkers” que encontrara. Apenas tinha tentado uma conexão de intelectos para compartilhar a experiência da existência, com uma expectativa de simples convivência à distância. Primeiro a interlocutora ideal, bonita e inteligente, e, guardando para si, se tudo desse certo nessa fase inicial, o retorno ao sexo selvagem. Mas nunca houve qualquer tentativa de imposição de relacionamento, ou a divinização da personalidade de Clarissa.

Realmente os casos de “stalking” eram sempre difíceis de classificar, e compreendeu a perplexidade das páginas sobre o assunto. Mas assumiu que o seu caso, para esses padrões norte-americanos, já poderia ser considerado crime, dependendo da benevolência do intérprete, pelo menos quanto ao excesso de e-mails. Quanto à perseguição da praia, ainda que não tivesse se efetivado como imaginou Clarissa, sem dúvida nenhuma “stalking”, mais ainda assim não criminoso, achava Renato.

A pesquisa no Brasil pouco revelou acerca do fenômeno, limitando-se a páginas de RPG e uma ou outra tradução de páginas estrangeiras. Aparentemente, a lei penal brasileira não considerava a existência desse crime específico, que acabava limitado a assemelhados como perturbação do sossego, violação da intimidade, em casos menos graves, e assédio sexual em situações de trabalho, chegando a invasão de domicílio e ameaça, nos casos piores.

Mas o que intrigou mesmo Renato é que nem uma só única página em língua inglesa e portuguesa, das dezenas que superficialmente examinou, trazia qualquer informação sobre como auxiliar o “stalker” a se livrar de sua incômoda fixação. Ninguém se preocupava com os “stalkers”. O máximo que encontrou foram algumas páginas semi-humorísticas trazendo técnicas de “stalking”. Onde estava a página do médico do filme “O brilho eterno da mente sem lembranças?” Era dele que ele precisava, para a necessária lavagem cerebral que o livrasse da sua fixação. Será que os padres jesuítas com seu domínio das técnicas mnemônicas podiam ajudá-lo? Ou deveria seguir os conselhos de Clarissa e procurar um psiquiatra com drogas maravilhosas? Claro, os professores de psiquiatria de Clarissa! Os professores da USP. Tinha visto qualquer coisa na imprensa ultimamente acerca dos imensos avanços das drogas para tratamento de distúrbios mentais brandos, que teriam sido muito desenvolvidas depois do Prozac. As depressões, as compulsões, os distúrbios bi-polares, as distimias, mesmo em intensidades baixas podiam ser tratados com ou sem auxílio de psicoterapias, com drogas muito eficazes e com poucos efeitos co-laterais. Havia a possibilidade de proceder a uma sintonia fina, à regulagem do carburador mental dos humanos, controlando a intensidade da mistura de neuro-transmissores. Segundo esses médicos era possível facilitar muito a vida das pessoas comuns com tais incômodos problemas, muitas vezes de base fisiológica. Era provavelmente o seu caso. No estado em que se encontrava, podia facilmente se auto-diagnosticar como compulsivo-maníaco-depressivo, se é que tal condição existia. E a causa devia ser fisiológica, ainda que pudesse ter uma origem psicológica no amor artificialmente construído. Estava resolvido. No dia seguinte procuraria um psiquiatra, de preferência um professor da USP. "Afinal, cabeça avariada é coisa séria".

domingo, agosto 07, 2005

O Stalker - Capítulo 45

A mensagem de Renato atingiu Clarissa quando ela estava fazendo sua longa toalete, acompanhando as mensagens instantâneas, e checando os e-mails. Abriu a mensagem de Renato no instante exato em que ela chegou, e ficou realmente enfurecida. Enfurecida consigo própria, por ter poupado Renato das verdades que ele tinha que ouvir, e com Renato, por fazer-se de desententido quanto à sua claríssima mensagem. Só um estúpido ou um louco não a entenderia. Sabia que Renato não era estúpido, então só podia ser louco. Aquilo não seria resolvido por e-mail. Pegou imediatamente o telefone e ligou para o celular de Renato. Mal ele disse alô, deixando sua habitual elegância de lado, sem cumprimento algum, Clarissa partiu para o pau, quase gritando: “Escuta aqui seu louco o que você tem na cabeça? Você acha que eu vou ser sua amiguinha depois tudo que você aprontou? Vê se me deixa em paz se não eu vou chamar a polícia! Não quero mais você me seguindo, telefonando, mandando e-mail, carta, telegrama, não quero nunca mais perceber que você existe! Você é doente, psicopata, tarado, precisa se tratar, procura um psiquiatra, vai tomar psicotrópicos, eletrochoque, seu, seu, STALKER!”. E bateu o telefone.

Renato ficou lívido, enrubesceu, sentiu tonturas e quase caiu, tamanha a descarga de adrenalina produzida pelo telefonema de Clarissa, que o pegou de pé trocado. Sua cara fervia de vergonha e o seu coração acelerado parecia pretender sair pelas orelhas, que zumbiam. Maldisse a sua estupidez infinita de não ter se mancado antes e evitado mandar a mensagem de uma única palavra, que tivera o efeito de um alfinete num balão inflado. E maldisse mais ainda a horrível verdade que Clarissa esfregou com força na sua cara, como se lutasse contra um encardido que não quer sair. Será que ele era tudo aquilo mesmo, ou ela tinha exagerado? “Uiscão urgente”, pensou, e foi refletir sobre o assunto. E talvez se arremessar do malfadado terracinho.

Como pudera ser tão trouxa? Reconstituindo mentalmente o sabão de Clarissa, enganchou naquela última palavra estrangeira, de som desagradável. A longa sibilante, “sssssssss”, o pavio queimando. A consoante palatal, o “a” com som de “ó’, e o “l” no final, eram a própria explosão. E o “ker”, de garganta, o “e” com som de “ã” e o “r” alongado de língua enrolada, o eco e ribombar da explosão no grande vazio do seu cérebro. Da onde conhecia essa palavra, que era um tanto familiar? Lembrou que era o nome de um filme russo que tinha visto na adolescência, de visual impressionante e narrativa lenta. Um estranho fenômeno tinha transformado uma área rural, que havia sido cercada e o acesso proibido pelo governo porque todos que entravam ali não saíam. Todos não. Alguns sujeitos estranhos, os “stalkers”, por uma compulsão, uma vocação incontrolável, conseguiam entrar e sair da “zona” ilesos, e trabalhavam como guias para quem lá quisesse se arriscar a entrar. O objetivo era um ponto central que havia na “zona” onde uma grande verdade metafísica era revelada, no qual os “stalkers” jamais se interessavam em entrar. Na “zona” a realidade era mutante e cheia de truques, e só os “stalkers” não se deixavam enganar por ela. Provavelmente uma metáfora de viagem de autoconhecimento na mente. Havia algo de heróico naqueles "stalkers". Era disso que Clarissa o tinha xingado? Era melhor dar uma busca na internet. Tinha uma vaga idéia de ser uma tara de perseguição, algo próprio de maníacos perseguidores de estrelas de cinema, contra quem se obtinha liminares proibindo a aproximação a algumas tantas jardas da casa da perseguida. Coisa de americano. No seu caso, só podia ser uma simples ofensa. Ainda que ele tivesse exagerado nas cartas de amor, e na vontade de ver Clarissa, ele era um apaixonado clássico, um Werther, um Romeu, um cara legal, bom filho, bom marido, bom pai, e porque não, bom amante. E esse último pensamento lhe fez dar uma meia risada.

Levantou-se para encher de novo o copo de gelo e uísque, e pôs para tocar uma das músicas do cd apreendido de Fernanda, que ultimamente ouvia sem parar. Chamava-se “Between the bars”. Pelo que tinha entendido da letra, ela estimulava o interlocutor do intérprete a beber a noite inteira, ao esquecimento das oportunidades perdidas, das pressões sofridas, das imagens ruins socadas na mente, das pessoas incômodas, enfim tudo que há de ruim. Só que esse interlocutor estava aprisionado, atrás das grades, apesar da inócua proteção prometida pelo intérprete. Renato se identificou profundamente com a soturna valsinha, parecia ter sido composta para ele, e ficou impressionado quando ficou sabendo que o seu compositor tinha se matado exatamente com a sua idade. Depois foi ao computador e digitou a palavra na janelinha de busca e encontrou dois milhões, trezentas e vinte mil referências, e mais outros dois milhões para "stalking".

O Stalker - Capítulo 44

Clarissa não respondeu ao e-mail de Renato, que teve a compostura de não mais rondar os locais que ela freqüentava. Renato abria a caixa de entrada do seu e-mail várias vezes por dia, e nada. Dia após dia, nada. A carta na qual tinha depositado tantas expectativas tinha falhado. Foi e não trouxe Clarissa de volta. Renato agüentou por uns dias, depois começou a mandar mensagens de novo. Assunto nunca faltava. Tentava ser sucinto, mas às vezes escapavam longas divagações, e ele reduzia o tamanho da fonte para disfarçar. Lembrando que Clarissa havia feito uma citação de Nietzsche, imaginou que ele talvez lhe apontasse um caminho para quebrar o silêncio. Leu o que do filósofo estava ao seu alcance, e impressionou-se particularmente com um aforismo, que transcreveu para Clarissa, apenas para convencer-se que tudo estava perdido.

“Uma vez estivemos tão próximos um do outro, que nada parecia impedir nossa amizade, e havia só uma pinguela entre nós. Quando você ia pisá-la, perguntei: “Você quer cruzar a pinguela?” Mas então você já não queria; e, quando pedi novamente você se calou. Desde então, montanhas e rios de correntes caudalosas, e tudo o que separa e afasta, foram lançados entre nós, e, ainda que quiséssemos nos aproximar já não poderíamos. E quando hoje você lembra aquela pinguelinha, não tem mais palavras – apenas soluços e assombro.”

Tentou ler o Zaratrusta, e atrapalhou-se com o “eterno retorno” e o “amor fatti”. Entendeu que estava preso a essa história não resolvida, e que tinha que aceitar o seu destino. A felicidade completa e a pena perpétua. Lembrou em mensagens que mandava quase todos os dias todos os passos da sua curta ligação com Clarissa, revelando detalhadamente a sua versão dos fatos.

O que Renato não sabia é que Clarissa, algumas semanas depois do crime, foi passar as férias de julho com seus parentes na Bélgica, e ficou todo esse tempo sem sequer olhar sua caixa de e-mail, pois aquele lixo que Renato lhe mandava a incomodava, lesse ou não. Obteve um novo endereço eletrônico, e deixou de utilizar o que Renato conhecia. Sentia-se perseguida e invadida por aqueles escritos confusos e caóticos, e a imagem daquele farrapo humano pervertido, vomitando, estava sempre associada à lembrança de Renato. Mas não teve a coragem de jogar as mensagens fora.

Renato definhava. Não tinha mais energia para pedalar, nadar ou correr. Dava longas caminhadas pelo bairro imerso em fantasias, com a sensação de que tinha deixado a felicidade escapulir entre seus dedos. Cumpria seus deveres com apatia e sem nenhum brilho. A única atividade em que se empenhava era a produção dos e-mails arremessados no vazio. De quando em quando tomava grandes porres. Para que Fernanda o deixasse em paz anunciou que uma grana alta estava chegando.

Fernanda com esse novo comportamento de Renato deixou de achar que ele tinha outra mulher, ou se tinha, a coisa dera errado. Mas ele andava insuportavelmente chato e irritadiço, e a convivência não andava nada fácil. Mas andava eufórica com a expectativa próxima de receberem a grande bolada nos próximos meses, e passava os dias fazendo planos de como gastariam o dinheiro. Carros novos, casa na praia, um novo apartamento. Talvez Renato melhorasse com uma grande viagem pela Europa.

Quando Clarissa chegou, no começo de agosto, encontrou a pasta “e-mail velho” da sua caixa de entrada com quase sessenta mensagens de Renato. Ficou puta da vida e resolveu tentar acabar com aquilo, para o bem do próprio Renato, a quem ela não queria mal. Apenas queria longe. E mandou-lhe a seguinte resposta, achando que estava sendo suficientemente clara.

“Li as suas mensagens e acho que você, apesar de inteligente e criativo, está preso num mundo artificial que você próprio construiu. Abstenho-me de comentar o conteúdo, porque é tudo seu, e o que eu penso não importa”.

Renato, ao abrir a sua caixa de entrada, e encontrar a mensagem de Clarissa lá, depois de dois meses de silêncio, teve o coração disparado de tal forma que ficou imediatamente em estado febril, devido ao excesso de irrigação, e ficou nesse estado por várias horas. Entendeu que Clarissa tinha lhe dado o seu perdão, e teve grandes transportes de alegria. Tratava-se agora de reconstruir o mundo devastado. Pensou várias horas o que iria responder, e optou por uma simples confirmação, pois examinava e revirava a mensagem, e o seu conteúdo era para ele totalmente enigmático. Disparou:

“Amigos”?

Elliott Smith


Na Amazon tem download grátis de "Between the bars", quinta música do disco "Careless love" de Madeleine Peyroux, na sensacional interpretação violão/voz do grande compositor.

sábado, agosto 06, 2005

O Stalker - Capítulo 43

Renato recomeçou de onde tinha parado. Seu último e-mail à Clarissa jamais seria respondido. E ele tinha a impressão que, desse em diante, nenhum seria. Sua tarefa não era fácil. Tinha que explicar que apesar de pairar sobre ele uma legítima suspeita de ter violado a intimidade de Clarissa da forma mais torpe possível, rondando a casa do meio do mato como um assassino de thriller barato, ele era uma pessoa mentalmente saudável e normal, razoavelmente bem inserido socialmente e bom pai de família. Não ia ser fácil. Tinha essa primeira e única chance, tanto de ser lido como da sua mensagem não ser interpretada como uma invasão. A partir da primeira falta de resposta, que ele tinha certeza ocorreria, já estaria violando as mais basilares regras não escritas da convivência. Parecia-lhe evidente que não tinha como ser bem sucedido, mas tinha que tentar. A pessoa mais importante do mundo achava que ele era um monstro, e ele tinha que se explicar. Encheu-se da coragem daqueles que sabem que têm pela frente uma tarefa acima das suas forças, e seu único consolo era saber que tinha a vida inteira pela frente para se redimir. Um dia Clarissa o perdoaria. Sabia que a carta que estava prestes a fazer nunca tinha sido escrita, então não se preocupou em obter ajuda dos grandes que habitavam sua pequena biblioteca. Sua ambição secreta, que não queria admitir para si próprio de tão absurda que lhe parecia, era retomar o pacto platônico com Clarissa. Lembrou da sua última mensagem, e pensou nela como um cometa de órbita infinita que demoraria muitas vidas para retornar. Sabia que jamais a teria novamente. Sabia que o certo seria deixá-la em paz. Mas sabia que nunca mais teria como recuperar o respeito que se tem frente a um estranho que nunca viu suas fraquezas. Desejava nunca tê-la conhecido.

Podia tentar convencê-la que tinha chegado de manhã para procurá-la, pois desde o telefonema sabia que ela estava hospedada no sertão. Podia tentar persuadi-la da verdade, de que perdera sua pista enquanto a seguia e passara a noite vagando pela mata. Mas naquelas circunstâncias falar a verdade significaria tanto quanto mentir. Nada. Confiante na inteligência de Clarissa, jogou-se no abismo.

“Clarissa

Não sou um monstro, um maníaco que segue pessoas sorrateiramente à noite, embora tenha feito exatamente isso sábado lá no Camburi. Não tinha nenhum intuito perverso, não tinha na verdade nenhum intuito definido. Apenas eu queria estar perto de você, pelo mesma e única razão que me fez largar tudo e descer a serra, que você conhece e não precisa nem ser mencionada. Estava bêbado, e não pude suportar a idéia de ver você sair com outro, principalmente depois da nossa conversa no balcão, quando tive você nos meus braços. Estava enlouquecido de tesão e saí antes de vocês, para não passar pelo mau momento de te ver com outro. Parei o carro na entrada do Camburi, e esperei vocês passarem. Nos meus delírios alcoólicos, fantasiei que você brigaria com seu namorado e viria comigo se eu estivesse perto de você. Claro que eu sabia que isso nunca aconteceria, mas o que faz o apaixonado se não tentar o impossível? Sei que há barreiras que não podem ser quebradas, que eu quebrei. Sei que cometi um crime, não um crime que interesse à justiça, mas um crime que destrói a ligação entre duas pessoas. Mesmo sem ter feito o que parece que eu fiz, e você tem todo o direito de não acreditar nisso, eu sei que a violação da intimidade é um dos piores crimes que um amigo pode fazer.

Para tentar recuperar o seu respeito, minha amiga, sou obrigado a fazer a defesa da transgressão. Não é a transgressão que faz o mundo andar para frente, o rompimento da casca necessário ao crescimento? Não há na história tantos mártires sacrificados na evolução da civilização, que têm boa parte do seu mérito no afastamento das paredes sempre apertadas que aprisionam o nosso espírito? Claro que boa parte desse trabalho é feita por aqueles que atuam na luz, sancionados por títulos, bem remunerados e ovacionados pelos semelhantes. Têm grande valor, não há dúvida. Mas boa parte desse trabalho, talvez a mais difícil e mais suja, tem que ser executada na parte sombria das nossas mentes, e é quase sempre feita por artistas e filósofos bêbados, drogados, homossexuais, alguns à beira da doença mental ou da sociopatia, que muitas vezes sucumbem nessa ingrata tarefa. Claro que não pretendo aqui me comparar a nenhum deles. Não sou artista nem filósofo, sou apenas um tipo comum. Mas se nada de bom vou fazer à humanidade, talvez esse crime, essa imperdoável transgressão que cometi em prejuízo da sua singularíssima pessoa, tenha me feito crescer de alguma forma, me feito testar e aprender os limites que devem balizar as ligações humanas, e eu seja uma melhor pessoa daqui para frente. Desde que você estenda a sua mão, me perdoe e aceite novamente minha amizade.

Renato.”

Apesar do tom grandiloqüente e pretensioso, Renato ficou satisfeito. E apesar de ter sido absolutamente sincero em tudo o que disse, sentiu-se um lobo em pele de cordeiro. Continuava querendo comer Clarissa, e com a carta, voltou a acreditar nisso, ainda que remotamente.

sexta-feira, agosto 05, 2005

O Stalker - Capítulo 42

Renato resolveu ligar da estrada para que não começassem a procurá-lo na polícia e em hospitais. Na pousada recebeu vários recados, que não estava em condições de responder. Fernanda atendeu, ele disse que chegaria em uma hora no máximo, e estava dirigindo e tinha que desligar. Era mais de uma hora quando chegou, com o foda-se ligado. Se não tinha o horror de Clarissa estampado na cara, havia bastante desprezo e rancor na expressão de Fernanda. Renato não tinha a menor estrutura para segurar mais essa. Trancou-se no banheiro, tomou um longo banho, vestiu uma roupa confortável, deitou e dormiu. Fernanda não interferiu. Acordou dali a duas horas com o bebê chorando. Percebeu que o choro durava demais, o que parecia significar que Fernanda não o atendia. Levantou, pegou o bebê no colo, e acalmou-o com facilidade. Deu uma volta pelo apartamento, e só encontrou Renatinho com seu vídeo-game portátil em frente a tv. Brincou, cuidou, alimentou, deu banho, ficou com as crianças a tarde inteira, o que lhe fez um bem enorme. O amor incondicional e correspondido que havia entre eles era para ele facilmente compreensível, palpável e verdadeiro. Falou com seu pai, e contou uma mentira simples e consistente, esclarecendo que o negócio era roubada. Tinha lambiscado um pouco da comida das crianças, mas por volta das sete horas sentiu uma fome enorme e pediu uma pizza, que comeu quase inteira. Fernanda só chegou lá pelas nove e meia. Renato não perguntou onde tinha ido, e ela não perguntou nada sobre a viagem. Para quebrar o gelo, Renato comentou do cd que tinha encontrado no porta-luvas, como ele era ótimo e que o tinha ouvido duas vezes na estrada. Perguntou quem tinha lhe dado, o disco ou a dica. Fernanda deu uma leve gaguejada, ao falar que no shopping todo mundo estava ouvindo, e ela resolveu comprar também. Ofereceu-lhe pizza, que ela polidamente recusou. Disse-lhe como havia sido bom passar a tarde com as crianças. Renato ainda estava exausto e foi ver tv na cama. Quando Fernanda saiu do banheiro, ele já estava dormindo.

Clarissa, à noite na estrada voltando para São Paulo, ouvindo o inevitável jazz, sentia-se ofendida. Mais que ofendida, ultrajada. Como pudera se envolver com um cara que além de casado tinha problemas mentais? Não tinha medo, porque sua intuição lhe garantia que ele era cordato e civilizado, jamais faria mal a uma mosca. Nada além de palavras, delírios e elucubrações. Vento, puro vento. Não era humano. Não seria difícil esquecê-lo. Pôs a mão na coxa de Penza, que virou para ela e sorriram um para o outro. Tinha uma dura semana pela frente e começou a planejá-la mentalmente.

Renato acordou cedo, pôs sua roupa de treino e saiu caminhando sem rumo. Era só o que podia fazer, naquele estado físico ainda um pouco precário. O céu estava cinzento e carregado, e o vento sul soprava com força e constância, como ele pôde perceber no alto da praça do pôr do sol. Era uma frente fria que entrava, um prenúncio do inverno. Renato se sentia amaldiçoado. Não era religioso nem supersticioso, mas sentia que devia ter feito algo muito errado para que o universo se voltasse contra ele dessa forma. Não teria Clarissa, mas sua mente estava completamente dominada por ela. A Iara devorava o seu cérebro. Alguma coisa teria que fazer para limpar a sua mente desse enorme entulho inútil. Uma grande festa montada, sem os convidados. Um estádio lotado, sem os times. Uma banda de craques, sem repertório. Um grande circo sem palhaço. Não, palhaço tinha. E alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo. Não havia outro jeito. Tinha que tirar, móvel por móvel, objeto por objeto, esvaziar cada gaveta do seu palácio da memória e tirar o que de Clarissa houvesse lá. E devolver a ela. Tentar explicar a ela o estranho processo mental que o dominara, expor todo a coleção de objetos raros, quadros, esculturas, partituras e poemas que tinha juntado para celebrar Clarissa, e devolver a ela. Quem sabe se ela entendesse o processo, passo a passo, que tinha se apoderado da sua pessoa e da sua vontade, de forma inocente, quem sabe ela poderia o perdoar? Afinal, para que serviria tanta inteligência? Quem sabe? Renato sabia que não era uma boa idéia, mas não tinha outra. Só Clarissa podia quebrar aquele encanto.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Os toscos aldeões


caçam Pecus, a Fera, com suas tochas e armas. O besta está bem protegido em seu castelo nas montanhas, mas só a Bela poderá libertar o príncipe no exílio da maldição rogada nos porões do mosteiro.

O Stalker - Capítulo 41

Renato foi seguindo o rio, e em pouco minutos já encontrava as primeiras casas e pessoas. Pensava na visão da noite, vívida e real. Concluiu que imprimira tanta energia na imagem de Clarissa que ela, a imagem, acabou transbordando as árvores de neurônios próprias do armazenamento de memórias para os circuitos transmissores dos sentidos, iludindo o cérebro e fazendo parecer que uma imagem construída a partir de elementos da memória parecesse externa. Devia ser a tal imaginação ativa, conceito usado para explicar as visões provocadas pelos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. O estado de consciência alterado causado pela mistura de álcool e fortes emoções deve ter ajudado. Era uma mensagem dele para si próprio. O que significaria? Sua primeira idéia foi a de auto-complacência. Sua mente estava tentando impedi-lo de sofrer, perdoando-o de toda culpa de estar importunando Clarissa. Daí o sumiço do ruído branco. Se isso fosse verdade, algo pior podia estar por trás. Teria perdido um dos seus freios de homem civilizado, reduzindo sua tolerância à frustração? Isso não era bom. Sabia que estava obcecado por Clarissa, e essa obsessão, doença psicológica mais ou menos comum entre os jovens, era conhecida por seu eufemismo social, o amor. E essa doença era tanto mais grave quando atingia humanos fora do desvio padrão da curva de idade para o fenômeno, como no seu caso. Tomando a civilização como um processo de adaptação social desenvolvido para facilitar a perpetuação da espécie, por acumular cultura útil à sobrevivência e transmiti-la às gerações futuras, o amor era um ponto problemático. Era o próprio impulso de preservação da linha de descendência, no seu mais profundo fundamento, o instinto de reprodução, e paradoxalmente era a força que a civilização tinha mais dificuldade em controlar. E decididamente, mantê-lo platônico não era a solução, como via por si mesmo. Apenas agravava o estado de paralisação e inutilidade gerado pela paixão. Sim, era por isso que não gostava da palavra.

E caminhando perdido nesses pensamentos logo chegou ao carro de Fernanda, que estava um pouco à frente do carro de Penza, meio atravessado na estrada. Quando estava entrando no carro, embicado na direção do sertão, Clarissa apontou no fim da trilha, trotando com seu passo leve de bailarina. De longe viu Renato com a roupa da véspera, o carro dele ali próximo do de Penza, e logo entendeu o que acontecera. Renato tinha simplesmente seguido-os, e com certeza passado a noite rondando a casa. Talvez até tivesse espiado ela e Penza fazendo amor no mezanino devassado. Talvez não, muito provavelmente. Renato era louco! Quando chegou a essa conclusão estava passando exatamente ao lado do carro de Fernanda. Encarou Renato com uma expressão de asco e horror e Renato imediatamente entendeu o que ela estava pensando. Não havia o que explicar, ela estava certa. Ele era mesmo um monstro que não merecia o convívio humano. Sentiu-se um leproso, um ser abjeto, e vomitou com estrépito e violência no chão poeirento da estrada. Clarissa, que já ia adiante, ouviu nas suas costas o ruído nojento e percebeu o que estava acontecendo. Seu sentimento de pudor ofendido ficou agravado ao cúmulo, e ela acelerou a passada para a mais desabalada carreira, querendo se afastar o tanto quanto possível daquele homem deformado. Renato, fazendo o máximo que tinha ao seu alcance, com toda a boa vontade possível para reparar o malfeito sem volta esperou um bom tempo, até que ela já tivesse com certeza atravessado o asfalto, para que sequer pudesse passar pela cabeça de Clarissa que ele a estivesse perseguindo. Entrou no carro, foi para a pousada, pagou, não conseguiu nem pensar em comer o café da manhã incluído, socou suas coisas na mala e pegou a estrada. A cada carro que cruzava sentia um ímpeto de jogar o seu para a colisão com velocidades somadas. Mas Renato sabia que jamais faria isso, por maior que fosse o seu sofrimento. Sabia que não era um suicida. Estava tudo acabado. Decidiu que jamais importunaria Clarissa novamente.

Depois de uma meia hora de estrada, acalmou-se um pouco. Sentiu-se meio zonzo, e achou que era melhor parar para comer alguma coisa. Estava com uma puta ressaca, passando completamente mal em todos os aspectos. Tomou uma coca-cola, comeu um queijo quente gorduroso, e achou que dava para prosseguir. Fuçou no porta-luvas, e havia um único CD, de Madeleine Peyroux, “Careless love”, que nunca tinha ouvido. Pôs aquilo para tocar, e a música variava entre incrivelmente melancólica e triste, resignadamente bem humorada, ou simplesmente irônica, mas sempre sensual e bonita de doer. Renato ficou surpreso que Fernanda, tão pragmática, tivesse um disco tão claramente dirigido aos espíritos errantes. Movido pela música, emocionou-se de ter negligenciado sua mulher. Mas agora estava tudo acabado com Clarissa, o sonho de construir uma vida ao lado dela destruído de forma irrecuperável, e o seu destino era Fernanda. Começou a elaborar a história que contaria em São Paulo, mas não teve a manha de ligar o celular, onde certamente haveria várias mensagens de Fernanda e do seu pai.

terça-feira, agosto 02, 2005

O Stalker - Capítulo 40

Renato seguiu a luz da lanterna do trio, de uma distância de uns setenta ou oitenta metros. De quando em quando, via uma luz fraca perdida na mata, de uma ou outra casa que havia lá. Bêbado como estava, andava com dificuldade na trilha irregular. Caiu várias vezes. Às tantas, deixou de ver a luz da lanterna do trio, e se viu sozinho no escuro. Acendeu a lanterninha, e o alcance dela era cerca de um metro e meio. Só servia para ele não tropeçar. Foi seguindo a trilha sem nenhum senso de direção. Andou, andou, andou, e não chegava a lugar nenhum. Apagou a lanterninha, e não via mais luz nenhuma de nenhuma casa. Acendeu a lanterninha novamente, e a luz estava já amarelada, e percebeu que ela estava enfraquecendo. Andou, andou e andou, evitando as bifurcações que pareciam ira para cima, pois achou que se subisse a serra se distanciaria do mar. Era o único critério de localização de que dispunha. Dali a um pouco, começou a ouvir barulho de água. Dirigiu-se na direção da corrente, e demorou bem uns dez minutos para chegar lá, depois de várias tentativas e erros naquele labirinto de árvores e raízes. Quando chegou na beira do rio, a lanterna quase já não tinha mais luz nenhuma. Percebeu que já não tinha mais nenhuma chance de sair dali, e que estava irremediavelmente perdido. “Foda-se”, pensou, “parece que era isso mesmo que eu estava procurando”. Não sentiu medo, pois sabia que estava no máximo a seis ou sete quilômetros da civilização, mas dela isolado por uma barreira intransponível. Sentou-se numa pedra, e percebeu que passaria frio. Pela sua experiência na vida em ar condicionado, calculou a temperatura ambiente em vinte e um, vinte graus. Eram duas horas da manhã, e até o sol nascer, a temperatura deveria baixar até uns dezessete ou dezoito graus. De bermuda e camiseta certamente iria passar bastante frio. Não havia nada a fazer. Encaramujou-se entre duas pedras que favoreciam uma posição fetal, e adormeceu, pesado e sem sonhos. Dali a uma hora, uma hora e meia, acordou gelado, sem ter a menor noção de onde estava. Uma enorme lua tinha surgido, e via claramente que estava à margem de um largo e calmo remanso do rio, e as grandes pedras redondas pareciam pintadas de branco, contrastando com o negrume profundo da copa das árvores altas que sombreavam a água. Lembrou que estava em território tupinambá, e sentiu-se um guerreiro da tribo do grande Cunhambebe, perdido e sozinho depois de uma batalha na praia. Teve a sensação de ter escapado do nobre papel do bravo capturado para o moquém. Cabeceando entre o sono e a vigília, esticou as pernas, e sentindo que o seu corpo atingia um estado de equilíbrio térmico com o ambiente, não mais sentia frio, desde que ficasse imóvel como um lagarto que pretende economizar calor. Foi o que fez. Ficou absolutamente parado, ouvindo o murmurar do rio, os grilos, cigarras e morcegos, além de outros misteriosos pios distantes. A luz da lua batia nas pedras do rio, que agora pareciam iluminadas por dentro, cercadas pela profunda sombra das árvores altas e negras. Renato não tinha mais o que perceber senão a paisagem sonora, com o rio em primeiro plano, cigarras e grilos espalhados em distâncias e alturas diversas, e pios misteriosos marcando posições variadas em torno dele, dando-lhe a sensação de estar no centro de uma arena tridimensional no centro do mundo, sentindo o gravitar dos astros no firmamento. Estava nesse estado de puro delírio causado pela comunhão total e integral com a natureza virgem da mata pré-cabralina quando o poço no meio do rio à sua frente começou a borbulhar e iluminar-se. Essa efervescência foi se elevando, e de dentro dela foi surgindo uma Iara nua e crua, com pele fantasmagoricamente branca de alabastro iridescente levemente rajada de sardas ininterruptas, olhos acesos de azul piscina de motel, cabelos e pentelhos de cobre reluzentes, que sorriu benevolamente e disse: “Renato, você está perdoado. Você nada fez de errado. Você é um cara legal”. Renato esboçou reagir, para dizer que havia uma falha na argumentação da Iara-Clarissa, uma vez que, se ele nada tinha feito de errado, não tinha que ser perdoado, mas apagou antes disso, com se houvesse sido desligado da tomada..

Acordou com o sol já alto, o corpo completamente dolorido, cheio de mordidas de borrachudos e outros bichos desagradáveis que não sabia nem nomear, mas sem saber bem porque sentia-se redimido das culpas que insidiosamente o atormentavam. Ali, no meio da selva, depois de uma noite que ninguém nunca jamais passara, ele era Tarzan, Peri, I-Juca Pirama, que na presença da morte cagara nas calças e sobrevivera, naquela gloriosa manhã de domingo de um universo recém criado. O ruído branco havia sido desligado. Tirou sua roupa e mergulhou na água gelada. Soltou um grande e irracional grito de liberdade. Clarissa.

segunda-feira, agosto 01, 2005

O Stalker - Capítulo 39

Algumas horas depois que Renato foi embora a mãe de Fernanda chegou para ajudá-la com as crianças. Para evitar o custoso transporte dos equipamentos necessários elas combinaram que D. Leonor dormiria lá. O pai de Fernanda ficaria na sua casa sozinho, e pareceu não se importar nem um pouco com isso, pois dispensou até a pizza que as duas planejaram. D. Leonor queria aproveitar a oportunidade para saber a quantas andava a crise do casamento da filha, e se ela já descobrira se Renato tinha ou não outra mulher. Estava preocupada em prevenir e orientar a filha, caso houvesse a possibilidade real de separação. Enquanto foram fazendo a complexa rotina de banho, roupa, jantar e naninha das crianças, completamente diferente uma da outra, D. Leonor foi extraindo um quadro atualizado do comportamento de Renato e da forma como Fernanda estava enfrentando o problema. D. Leonor não gostou do nada do panorama que a filha lhe apresentou. Depois do acidente, nada sobrara da animação do início do ano, que o levou a matricular-se nas aulas de inglês com o objetivo de alavancar uma expansão profissional. O projeto que o pai de Renato se dispusera a bancar era cursar uma especialização em derivativos em uma universidade do Canadá, mais acessível do que as dos Estados Unidos, mas com a possibilidade já engatilhada de fazer um estágio profissional em uma corretora que atuava na Bolsa de Chicago, a meca das commodities. Fernanda tinha ficado animadíssima em passar um tempo morando no exterior, ainda que soubesse que iria mourejar como uma escrava nas tarefas domésticas, e viveriam lá com um orçamento apertado de estudantes. Renato nunca mais falara nisso. Andava taciturno e hostil, exagerando na bebida, e com a tendência de desaparecer à noite, tendo chegado duas vezes bêbado de madrugada, e outras tantas não tão tarde mas também alcoolizado e com cara de cachorro que quebrou a tigela. Fora o tempo enorme que passava em frente ao computador, ou sozinho na sala ouvindo música e tomando uísque, o que fazia toda noite que estava em casa. Não era o comportamento suspeito do sujeito que anda farreando por aí. Fernanda tinha a impressão que algo grande e grave estava em curso. As vezes que perguntou como ia o trabalho, desde a sua volta, Renato sempre desconversou. Andava gastando mais do que o habitual, comprando vinhos mais caros, roupas para ele, e não estava mais tão preocupado com o que ela gastava no cartão. O sexo andava normal, e ele fazia questão de aproveitar todas as oportunidades que tinha, que não eram muitas. E volta e meia ele vinha falando e encontrando com o tal do Wagnão, um conhecido dele de negócios sujos segundo desconfiava, que tinha pinta de estelionatário.

D. Leonor ouviu tudo fazendo apenas interjeições de incentivo, procurando não demonstrar qualquer espanto que pudesse inibir o relato da filha. Achou que não era o caso ainda de contar-lhe que já tinha consultado um advogado amigo do seu pai, que fizera uma pesquisa preliminar da situação patrimonial de Renato. Quando Fernanda e Renato começaram a namorar, D. Leonor e seu marido tinham achado ótimo pois conheciam socialmente a família de Renato. Sabia que o seu pai era um conceituado corretor de valores, dono de uma importante corretora. Conforme afirmou o advogado, naquela época o pai de Renato ganhava muito dinheiro com a distribuição de títulos públicos federais. Quando Fernanda e Renato se casaram, por motivos políticos a corretora já não tinha mais a relevância de antes na intervenção do governo no mercado e perdera a posição de líder nos leilões de obrigações do tesouro, mais ainda era um nome de alguma tradição. Daí em diante, somente definhou, tendo sido obrigada a abrir mão do seu status de instituição financeira para não ser liquidada pelo Banco Central. Teve melhor destino do que muitas que como ela não se adaptaram à nova economia globalizada e com moeda estável, e simplesmente faliram, deixando seus sócios na miséria. Mas o fato é que Renato não tinha um gato para puxar pelo rabo. O apartamento e os carros eram da empresa, e as poucas quotas que ele tinha não representavam grande coisa. O pai de Renato tinha uma situação bastante confortável, o que nada interferia na posição de Fernanda. Sua filha estava em uma situação difícil, que só tendia a piorar muito caso ela se separasse. D. Leonor sempre sentira que aquele garoto mimado e aéreo não tinha a fibra necessária para ser um bom chefe de família. A única estratégia possível era resistir o quanto fosse possível, suportar o que fosse necessário, e vender caro a separação, se fosse inevitável. Nesse meio tempo, seria conveniente fazer força para que pelo menos parte do patrimônio do pai de Renato, destinado a ele por herança, entrasse para o seu patrimônio pessoal, através de aquisições de bens feitas por ele próprio, como um novo apartamento ou uma casa na praia. Era essa a política que tinha que incutir na filha.

Fernanda não era assim tão dócil. Sua paciência com as idiossincrasias de Renato estava diminuindo, estivesse ele traindo ela ou não. Renato não lhe fazia mais companhia, andava chato, taciturno e distante, sempre querendo ficar longe dela dentro de casa, bebendo, ouvindo música, lendo absurdos clássicos da literatura ou escrevendo sabe-se lá o que no computador. Volta e meia saía sozinho e deixava ela trancada em casa. Sabia que estava no auge de sua forma física, entendia de moda e vestia-se muito bem, aparentando sensualidade e classe. Era bastante assediada no shopping por homens de toda a idade. Mas as crianças, apesar da estrutura razoável que tinha em casa, absorviam todo o seu tempo livre e não se sentia nem um pouco disponível para enfrentar a dura vida de solteira, pulando de traste em traste, entre bêbados, desempregados e cafajestes, como faziam suas amigas separadas ou que ainda não haviam casado.

As duas, mãe e filha, negociaram entre si as difíceis opções de Fernanda durante a pizza pedida depois que as crianças finalmente dormiram, enquanto bebiam o vinho mais caro que Renato tinha em sua pequena adega, que ao contrário do que ele pensava, ela sabia perfeitamente identificar. Conversaram até tarde e quando foram dormir, não podiam imaginar que Renato estava caçando numa floresta escura, um lobisomem enlouquecido perseguindo sua vítima.

domingo, julho 31, 2005

O Stalker - Capítulo 38

Clarissa voltou para a mesa alterada. O tédio tinha se transformado em pura excitação. A aparição sobrenatural de Renato causou um grande efeito nela. Naquele momento, sua vontade era mergulhar nos braços de Renato e cair fora da chatice em que se encontrava. Mas jamais faria isso com o Penza, o melhor namorado que tivera, que não tinha culpa nenhuma de ter aquele irmão mala. Quando chegou na mesa, algumas pessoas estavam ali rodeando o Penza e querendo falar com ele, que não fazia o tipo comum de músico de bar. Ele era jovem demais, estiloso demais, charmoso demais e seu instrumento aparentava ser caro demais, para um músico de bar. Fora o repertório, também chique demais. Além de alguns fãs de jazz, algumas moças bronzeadas vestidas em fino estilo praiano também começaram a rodear a figura. Clarissa sentiu que era hora de defender o território e passou a fazer o papel de primeira dama do Penza, o que fazia muito bem para o seu ego. Aquele príncipe tinha uma princesa à altura.

Pensava que Renato estava escravizado e faria tudo que ela quisesse, quando ela quisesse e se ela quisesse. Largou a mulher em São Paulo só para vê-la, sabendo que não tinha nenhuma chance. Era um pouco demais, um pouco esquisito, o cara deveria estar um pouco fora de controle para fazer aquilo, apesar de parecer tão calmo e sensato. Não lhe parecia certo. E ela ainda não obtivera as informações que ela achava essenciais para averiguar a firmeza do terreno. Fazer tudo aquilo não era normal. “Será que ele tem problemas?”.

Penza se empolgou com a atenção recebida, e teve certeza que haveria uma terceira entrada. Depois de duas horas tocando, estava naquele ponto em que não precisava fazer mais qualquer esforço. Tinha toda a liberdade do mundo, podia acelerar e reduzir o tempo à vontade para fazer caber qualquer frase que tivesse vontade de tocar. Ouvia a seqüência de acordes de cada tema em sua cabeça sem precisar tocá-los, e transitava do tema ao improviso sem risco de se perder, em alguns momentos se dando ao luxo de conduzir a harmonia com um walking bass, controlando o tema e contrapondo-o ao improviso, que fazia desmontando os acordes em várias melodias aparentadas com o tema. Sentia-se um Bach com suas variações, e estava em outro mundo, onde não havia mais ninguém. A audiência era a prova em espelho de que ele existia e era ele que estava fazendo aquela música excelente. Sentiu que não podia parar, para que a magia não se quebrasse, e depois de cinco minutos atendendo os outros com sorrisos e sem ouvir o que estavam falando, voltou correndo para sua guitarra, ainda em estado de absoluta concentração. Clarissa ficou solta novamente, e percebeu que para Penza, naquele momento, ela simplesmente não existia, e no transe em que ele estava, as outras mulheres não ofereciam nenhum risco. Pelo menos até ele parar de tocar. O senso de diversão falou mais alto e ela foi lá ter com o Renato.

Dessa vez, quando Renato percebeu a aproximação de Clarissa, desceu do banquinho para facilitar o contato físico. Não tinha jantado, só comido uma porção de lula à provençal, e passado tanto tempo, depois de tudo que já tinha bebido e com a excitação do encontro também estava num estado de consciência alterado. Antes de Clarissa encostar, aproveitou que o barman passava na sua frente e pediu dois Drambuie. Se ela não tomasse, tomava ele. Foi logo segurando os braços de Clarissa e tentando puxá-la para si. Renato sentiu que ela retesava os músculos rijos quando segurou os antebraços dele, mantendo à distância. A moça era forte, e ele teria que fazer muito mais força se quisesse agarrá-la contra a vontade. Clarissa deu risada e falou em seu ouvido: “você tá louco se acha que eu vou deixar você me agarrar aqui”. Renato de bate-pronto respondeu: “vamos lá fora”. Clarissa caiu na gargalhada e Renato emendou, mudando de assunto: “você quer um licor?” “Que é que é isso?”. “Drambuie, gosta?” E ficaram lá bebericando e falando bobagem. Clarissa sentiu que não havia clima para uma entrevista de projetos, sonhos e aspirações, e ficou só naquela deliciosa provocação.

Penza, a essa altura, estava começando a passar do ponto, atacando complicados e pouco palatáveis temas de bebop em alta velocidade, à medida que o restaurante esvaziava. Depois de dez minutos tocando uma algaravia que só ele conseguia acompanhar, na primeira pausa o dono do lugar foi lá e convidou-o a tomar um drinque com ele. Penza estava tomado mas não era burro, e aceitou. Clarissa já tinha dispensado Renato e estava lá a postos na mesa. Sua ausência não tinha sido notada. Tomaram licores e café, Penza guardou rapidamente o pouco equipamento que tinha, e foram embora.

Renato foi antes deles, e maldizia sua sorte com aquele amor impossível. Tinha conquistado a mulher da sua vida e não podia tê-la. Aquilo não estava certo. Sua vontade era fazer como os homens pré-históricos dos desenhos animados. Pegá-la pelos cabelos e arrastá-la para sua caverna, mesmo que tivesse que usar a sua clava. Mas isso também não estava certo. Ela tinha que vir de livre e espontânea vontade, e ele tinha certeza que ela tinha essa vontade. Era só uma questão de paciência e perseverança. No estado de excitação em que estava, não podia simplesmente ira para a pousada e dormir. Aproveitando estar oculto no carro filmado de Fernanda, resolveu descobrir onde eles estavam. Parou depois do morro, na primeira entrada do Camburi, apontou o carro para fora na posição de quem do Camburi entra na estrada e esperou, angustiado e incomodado com o que estava fazendo.

Dali a uns quarenta minutos viu o carro do Penza passando vagarosamente pela estrada. Ligou o carro, esperou que ele se distanciasse uns cem metros e saiu atrás dele. O carro de Penza sumiu na primeira curva. Quando Renato a contornou, viu o carro de Penza ainda na sua frente. Dali a um pouco, acenderam-se as luzes de freio do carro de Penza e ele virou à direita. Renato acelerou, e chegou a tempo de ver o carro de Penza sumindo lá na frente, na estradinha de terra. Renato foi devagar atrás dele, seguindo a poeira levantada pelo carro de Penza que batia nos faróis. De repente fez uma curva e viu que Penza freava o carro, e pela duração da freada percebeu que ele estava estacionando. Freiou forte ao mesmo tempo em que desligava os faróis, e estacionou de qualquer jeito. Abriu o porta-luva, que possuía uma luz interna, e se conhecia bem Fernanda encontraria lá uma lanterna. De fato, encontrou lá uma lanterninha chaveiro em perfeito funcionamento. Foi atrás deles, que estavam com uma lanterna só e caminhavam em silêncio e devagar. Renato seguiu-os com a lanterna desligada, tropeçando no piso irregular, no escuro completo da trilha ensombrada pela mata.

O Stalker - Capítulo 37

Não que Clarissa não gostasse de ver o Penza tocando jazz. Muito pelo contrário. A visão do músico entregue à sua arte, dedilhando com habilidade o bonito instrumento artesanal de madeira guarnecido com peças de metal reluzentes e o braço de ébano cravejado de madrepérola, marcando o tempo balançando o corpo e produzindo um som quente e redondo, cativava-a completamente. E ela ainda achava o Penza charmoso e sexy. Adorava o seu estilo largado com bom senso e originalidade, e o seu cabelo alto, enrolado e espetado. Os temas que ele tocaria, clássicos standards do cancioneiro norte-americano e alguns da bossa-nova brasileira, eram familiares e agradáveis. Mas o fim-de-semana estava decaindo vertiginosamente.

Chegaram em casa no fim da tarde, no auge do horário dos borrachudos, abundantes na mata mesmo no outono. Não havia repelente que chegasse. Danilo, que não parara até então de tomar cerveja, trancou-se no quarto certamente para cheirar mais uma, e ao sair, tratou rispidamente Cristininha, exortando-a a arrumar a casa de maneira no mínimo indelicada. Clarissa, que não desenvolvera nenhuma simpatia por Cristininha, por algum motivo que nem ela entendeu partiu em sua defesa, e enfrentou Danilo com argumentos inteligentes e ponderados. Danilo respondeu atravessado e quebraram um puta pau. Penza tentou por panos quentes apelando para piadinhas sem graça, e foi ignorado por Clarissa e Danilo. Cristininha, nervosa, pôs-se a arrumar a casa mecanicamente, o que irritou Clarissa mais ainda, pois percebeu que estava sozinha contra aquele idiota. Subiu ao mezanino, pegou sua toalha, sua necessaire e trancou-se no banheiro, disposta a ficar ali o tempo que fosse necessário para se acalmar e fazer sua longa toalete: fez cocô, tomou um banho demoradíssimo em função da pouca água que saía do chuveiro elétrico, lavando a cabeça com duas mãos de xampu e duas de condicionador. Penteou os cabelos minuciosamente, passou hidratantes e cremes por todo o seu corpo, pôs desodorante, escovou os dentes, passou fio dental, e ninguém ousou bater na porta. Quando saiu a casa estava um brinco e o Penza estava encordoando o seu instrumento, sentado no único sofá. Viu aquela menina linda enrolada na toalha subindo a escada de inclinação exagerada e aparência instável, sentiu a deliciosa mistura dos diversos aromas do xampu, sabonete e cremes, e ficou tentado a agarrá-la naquela hora. Mas não tinha muito tempo e não sabia como ela iria reagir depois da briga. Tinha que acabar de encordoar, afinar, dar uma passada no repertório que não apresentava já há algum tempo, afinar de novo várias vezes até a tensão das cordas estabilizar e organizar suas partituras de acordo com as entradas que faria. E o mala do seu irmão e a namorada que estavam trancados no quarto, podiam sair a qualquer momento e estragar a festa. Era melhor deixar para de noite. Clarissa depois de se vestir pegou a toalha e a necessaire de Penza, arremessou-as lá do mezanino ao sofá e mandou-o tomar banho. Ela ficou estudando na cama. Penza acabou de encordoar, afinou, tocou um pouco, afinou novamente, pôs a guitarra cuidadosamente no estojo e foi tomar banho, evitando molhar muito a mão esquerda para que os seus calos não ficassem moles, pois queria praticar mais um pouco logo depois de sair do banho.

Uma hora mais tarde, quando já se preparavam para sair, Danilo saiu do quarto e pediu para esperarem um pouco que os dois se aprontariam em um minuto e iriam com eles, pois estavam sem carro. Clarissa olhou feio para Penza, que fez uma expressão “não tem jeito, somos hóspedes deles”. Penza voltou a praticar, Clarissa a estudar, e esperaram mais quarenta minutos, até que Danilo e Cristininha ficassem prontos. Foram em silêncio no carro até o restaurante, que já estava meio cheio. Penza montou suas coisas junto à parede do fundo, decorada com um grande mosaico de pastilhas de vidro com motivos marinhos. Só uma cadeira, a guitarra, um suporte para a guitarra e um pequeno amplificador. A estante e as partituras, apenas para não ter perigo de esquecer, pois sabia tudo de cor. Conforme tinha combinado com o dono do lugar, jantariam depois da primeira entrada, dali a uma hora. Se desse tempo e houvesse público, Penza pretendia fazer três entradas de uma hora. Os três sentaram numa mesa bem próxima de onde Penza iria tocar. Clarissa estava entediada de antemão, pois não pretendia conversar com o casal. Pediu uma caipirinha de sakê com kiwi, no que foi seguida por Cristininha. Irritada, mudou seu pedido para sakê com uvas. Danilo pediu um uísque com gelo. O atencioso proprietário da casa, amigo do pai de Penza, sentou-se para papear com os jovens por alguns minutos, ao que Clarissa deu graças a deus. Enfim um pouco de vida inteligente. Conversaram sobre o tempo, a praia, o restaurante, os pais de Penza, o Penza e sua música, até que chegaram ao cardápio. Aceitaram as sugestões que ele fez depois de indagar a cada um o que gostava, dos aperitivos até a sobremesa. E ele disse que coordenaria o tempo na cozinha para o jantar chegar exatamente dali a uma hora. O restaurante encheu quase completamente, e estava um ambiente festivo e acolhedor. Embora no geral não prestassem muita atenção ao Penza, havia alguns ouvintes atentos. Tomaram os drinques, comeram aperitivos, acabou a primeira entrada de Penza e jantaram todos, acompanhando os pratos com cerveja. Penza comeu pouco e rápido, e voltou para a segunda entrada. Clarissa acabou de comer vagarosamente e tentou entabular uma conversa com Cristininha, sem sucesso.

Renato entrou no restaurante e sentou num banquinho do balcão do bar, junto à entrada. Pediu um drinque que já tinha tomado lá, que era uma espécie de caipirinha de uísque Cutty Sark, quase incolor, feita com limão e laranja em proporções iguais, e reuniu as forças que tinha para enfrentar Clarissa. Lembrou da “cláusula de invisibilidade”, conceito que vinha trabalhando já há algum tempo nas suas divagações, um direito que se arrogara no e-mail que selou o pacto platônico, de poder fazer todo o necessário para contemplar Clarissa, ainda que não pudesse falar com ela. Pensou que aquela estupidez já tinha sido rompida com o telefonema da hora do almoço. A coisa era simples. Estava louco de vontade de vê-la e veio de São Paulo só para isso. Qual o problema afinal? Que mulher não gostaria de tal prova de amor? A ligação romântica entre eles ainda existia, e o papo mole do telefonema provava isso. Clarissa não o negaria.

Decorrida meia-hora da segunda entrada Clarissa estava enlouquecendo naquela mesa com aqueles dois seres torpes, como uma criança entediada presa ao banco da igreja durante uma interminável missa. Resolveu sem aviso nem motivo dar uma volta para espairecer, talvez ir até o deck da entrada para ver o tempo, olhar o céu, e examinar os bacanas que quase lotavam o restaurante. Renato percebeu que ela vinha vindo e fez uma pose displicente com seu drinque no banquinho do bar. Quando estavam à distância máxima para a certeza do reconhecimento recíproco, abriram ambos o maior sorriso do mundo e começaram a rir. Clarissa abraçou-o e cumprimentou-o com um beijo na face, e disse ainda rindo: “Você é louco? O que é que você está fazendo aqui? Você não estava em São Paulo, às duas da tarde quando falei com você?” “Eu tava louco pra te ver. Não aguentei.” “Perdeu a viagem. Estou aqui com o Penza.” “Não perdi nada. Só te ver já valeu”. E retomaram a conversa íntima e fácil que sempre tinham, protegidos da visão de Penza e os outros pelas pessoas que estavam em pé perto do bar, conversando com as sentadas nos banquinhos altos. Quando acabou a segunda entrada Clarissa disse “tenho que ir”, e voltou correndo para a mesa. Renato ficou ali, flutuando sobre o banquinho, com a cabeça nas nuvens.

sábado, julho 30, 2005

O Stalker - Capítulo 36

O guia 4 rodas trazia pouquíssimas informações úteis, só os restaurantes mais óbvios, e nenhuma orientação de comida barata onde poderia supor que jovens fossem comer. Renato resolveu ligar para o corretor Marcelo Julião, a quem conhecia de verdade há muito tempo, e dar foros de verossimilhança à sua estória quando voltasse. O pai de Renato, no início de sua vida profissional, antes do asfaltamento da Rio-Santos, tinha negociado muitos terrenos nas praias que eram de famílias caiçaras. A família Julião era uma dessas, e o avô desse corretor, conhecido como seu Julião, era um dos poucos que tinha segurado as terras e conseguido vendê-las por um preço minimamente justo. Mesmo assim o pai de Renato ganhara muito dinheiro legalizando os terrenos, com a transformação da posse em propriedade, e vendendo-os aos empreendedores imobiliários depois de asfaltada a estrada, em locais onde hoje existem condomínios de luxo. E o seu Julião também ganhara bastante, pois associara-se ao pai de Renato, que não tinha o capital necessário para comprá-los. Renato em criança chegara a enfrentar a arrrebentação em canoa conduzida pelo avô de Marcelo, um sólido e curtido pescador. Pouco restara de caiçara em Marcelo, agora um experiente corretor de imóveis que conhecia como ninguém o mercado imobiliário da praia. O corretor, que por força da profissão trabalhara duro durante todo o sábado, estava iniciando uma sessão de boteco em Juqueí. Não eram exatamente amigos, pois sua relação sempre fôra profissional. Renato lhe disse que estava começando a pensar em ter uma casa na praia, e queria um panorama daquela área. Foi encontrá-lo lá no tal bar.

Marcelo estava com dois amigos, um arquiteto e um marceneiro, que ficaram interessados na possibilidade de negócio com Renato. Marcelo discorreu durante uma hora sobre as questões políticas do município, os problemas decorrentes da distância do centro, as insistentes tentativas de liberar a construção de edifícios de apartamentos, abastecimento de água, esgoto, coleta de lixo, falta de escolas, o afavelamento dos sertões das praias, as construções ilegais em áreas protegidas nos morros e áreas de restinga, o aumento da criminalidade, furtos, assaltos e tráfico de drogas, tentando convencer Renato que não teria outra opção senão comprar uma casa dentro de um condomínio fechado. Os tempos românticos haviam acabado. Comentou lançamentos e revendas, e brincou que com aqueles dois transformaria qualquer casa num palácio, em pouco tempo. Renato foi ficando aflito com o tempo perdido, e se arrependeu de ter acionado o corretor, no fim, hipocritamente simpático e chato como todo vendedor em ação. Durante o longo discurso de Marcelo, ficou imaginando que outra hipótese a ser explorada seriam os lugares onde pudesse haver música ao vivo, o que atrairia o Penza para tocar ou ouvir. Perguntou a Marcelo onde costumava haver músicos tocando. Marcelo indicou alguns lugares onde se tocava pagode, um ou outro onde pequenos trios, duos, ou um cara com um violão tocavam mpb-pop-rock, e Renato achou que não faziam o perfil do Penza. Num fim de semana de outono, pouca coisa acontecia nas praias. Não teve como se informar sobre restaurantes de surfistas, o que Marcelo acharia estranho vindo dele. Despediu-se, combinando vagamente de se falarem no dia seguinte para verem alguma coisa, e começou sua pesquisa, pelo Juqueí mesmo, já que estava lá. Sabia que teria que contar muito com a sorte.

Renato achava que seria pouco provável que Clarissa e Penza saíssem de Camburi para ir jantar no Juqueí, então fez um busca bem superficial pelas duas avenidas mais importantes. Lembrava vagamente que o carro do Penza, que havia visto na noite do Sesc Pompéia quando foram à lanchonete, era uma perua preta com alguns adesivos de marcas de instrumentos musicais, e tentava reconhecer o carro estacionado. Passou pela Avenida Mãe Bernarda, a da praia, e a grande transversal que saía da estrada. Havia poucos lugares um pouco mais cheios, e estava fácil estacionar o carro. Deu uma atenção especial a uma pizzaria conhecida lá perto da entrada, e uma volta num pequeno shopping quase em frente a ela, onde tomou um cafezinho e foi embora. Encostou o carro no estacionamento que atendia dois restaurantes da Praia Preta, e deu uma rápida xeretada, pois estavam com pouco movimento.. Entrou na Barra do Sahy, e percorreu a sua longa e única rua calçada, olhando os poucos restaurantes em funcionamento. Queria dar uma olhada em um restaurante barato que havia no larguinho do final, e outro que havia na ruinha de areia estreita que saída de lá, que sabia serem freqüentados por moçada. Para não perder tempo, descartou os restaurantes das pousadas. Resolveu dar a volta na Praia da Baleia pelo asfalto, pois a estrada esburacada era chatíssima, e só servia para chegar ao caro restaurante Acqua, onde dificilmente eles estariam. No asfalto, ficou na dúvida em voltar ao Camburi ou ir direto até Maresias, olhar lá na movimentada lanchonete Legends. Já estava cansado e desanimado, achando que não teria qualquer chance de ver Clarissa naquela noite. Na praia, no dia seguinte, seria muito mais fácil. Achou que o hamburguer do Legends cairia bem, e resolveu tocar para lá. Não conseguiria dormir muito cedo de qualquer jeito, e assim mataria o tempo necessário.

Desceu devagar a inclinadíssima ladeira do morro entre Camburi e Boiçucanga, ponto perigoso da estrada, e lá embaixo diminuiu ainda mais a velocidade para olhar os carros, até que viu, perplexo, uma perua preta empoeirada, com adesivos coloridos nos vidros laterais e na porta traseira, parada do lado direito da estrada, apontando para o oceano, entre o Cauim e o Gendai Beach, que ficavam do outro lado da estrada com um estacionamento entre eles. Parou seu carro e foi olhar a perua de perto. A placa era de São Paulo e os adesivos faziam alusões a produtos musicais e jazz. Só podia ser o Penza. Atravessou a estrada e entrou no estacionamento que ficava entre os dois restaurantes. Pescoçava o japonês por cima do muro, que estava já aquela hora meio vazio, procurando Clarissa, quando ouviu suaves acordes vindos do Cauim. Foi até o muro do outro lado e viu através da janela lateral do restaurante, num plano elevado que havia no fundo do salão, do lado oposto ao que se encontrava, o cabelo crespo e espetado para cima de Penza, que concentrado e de cabeça baixa, olhando para o instrumento, harmonizava um tema tranqüilo de jazz. Foi andando para o fundo do estacionamento para ter uma visão das mesas próximas a Penza, e viu a inconfundível cabeleira fulva e ondulada de Clarissa, que estava sentada bem na frente do guitarrista, junto com um casal.

quinta-feira, julho 28, 2005

O Stalker - Capítulo 35

Clarissa preparou um sanduíche de peru, queijo de minas, alface e tomate, pegou um suco de goiaba, e pensou no que faria. Possivelmente, Penza e os outros ficariam até umas cinco horas na praia torrando e bebendo, e comeriam alguma coisa por lá para enganar. Lá pelas dez da noite, depois de uma soneca para curar a bebedeira, sairiam para jantar e começariam tudo de novo. Ficou com a impressão que quando Penza se juntava com Danilo, desandava, confirmando seu juízo dos almoços da casa de Penza. Cristininha, então, se revelara um zero à esquerda. Como ela agüentava aquele drogado agressivo? Resolveu tirar sua soneca naquela hora, enquanto o sol estava forte, e iria para a praia mais tarde, para se encontrar com o Penza. Achava que ele devia ter ligado, mas para não causar problemas desnecessários, telefonou para ele. O telefone de Penza tocou ali na sala mesmo, dentro da sua bolsa de praia. Óbvio. Pegou seu livro, subiu para o mezanino, arrumou a cama, e deitou-se debaixo do mosquiteiro, olhando o janelão aberto que dava para a mata. Cansada como estava, leu meia página e adormeceu. Acordou uma hora e meia mais tarde, pegou o carro e foi procurar os três patetas. Estacionou a umas duas quadras da praia, e eles estavam ali, exatamente onde os deixara, já um pouco alcoolizados. Penza e Danilo em suas cadeiras de praia, e Cristininha deitada na canga, não deixando transparecer se estava viva ou morta. Penza foi simpático e atencioso, oferecendo a cadeira a Clarissa, abraçou-a, beijou-a, disse que estava preocupado com ela, a ponto de ir procurá-la em casa do jeito que fosse. Lamentou estar sem o telefone, ofereceu-lhe uma cerveja gelada, que Clarissa achou melhor aceitar. Ou juntava-se a eles ou aquilo seria insuportável. Ela e Penza saíram andando pela praia, e ele explicou-lhe que o irmão se complicava quando não tinha onda, pois não sabia o que fazer, como gastar suas energias. A tarde estava linda, e Clarissa voltou a achar o fim de semana ótimo. Agarraram-se ali no canto da praia, e ficaram com vontade de trepar. Clarissa pensou como fariam isso naquele mezanino sem nenhuma privacidade, e discutiu a questão com o Penza. Não tinham como ir antes para casa, pois estavam num carro só, e aquela hora, provavelmente Danilo e Cristininha quereriam voltar com eles. Ia ficar para depois. Na volta para onde estavam os dois, Penza deu a boa nova: tinha encontrado na praia um amigo da família que tinha um conceituado restaurante em Boiçucanga, e que o convidara para tocar. Jantariam por conta da casa, e ainda receberia um cachê razoável. Estava animadíssimo em apresentar os números solo que tinha tão arduamente trabalhado em Berkelee. Tinha umas três horas de repertório. Clarissa voltou a achar o fim-de-semana apenas bom.

Renato pensou rápido. Junto com os gibis de Renatinho, comprou um guia 4 rodas. Ligou para o seu pai, e disse que tinha tido a notícia de um excelente terreno “galinha morta” na praia, queria ir lá ver o negócio e tinha que ser nesse fim de semana mesmo. Disse que estava indo para casa e pediu que ele ligasse dali a uma hora, que daria mais detalhes, deixando seu pai curioso. Guardou o guia no porta-luvas do carro antes de voltar para a casa dos sogros. Saiu de lá assim que conseguiu, e em casa ficou esperando seu pai ligar. Quando tocou o telefone, esperou que Fernanda atendesse e o chamasse. Daí ficou fácil fazer parecer que o pai o convocava para uma viagem de negócios à praia. Disse ao pai que podia ir sozinho, não tinha problema nenhum, que se encontraria com o advogado e o corretor à noite num restaurante, se hospedaria numa pousada, de manhã veria a propriedade e estaria de volta na hora do almoço. Era um encontro sigiloso, melhor não comentar com ninguém. Era necessário averiguar, apesar de estar um pouco cético quanto à realidade do que lhe dissera o corretor Julião, seu conhecido de longa data, neto de caiçaras que foram grandes posseiros daquela área. Se fosse verdade, havia possibilidade de ganho rápido. O vendedor estava acossado por credores que não sabiam ainda da existência da propriedade, pois não tinha título registrado em seu nome. Seu pai disse-lhe que não fechasse nada sem falar com ele. Apesar do negócio ser uma mentira, Renato irritou-se. De qualquer jeito, estava criada a urgência. Falando em dinheiro grosso, Fernanda aceitou. Lamentou mas disse que pediria auxílio de sua mãe para cuidar das crianças.

Renato fez uma malinha mínima e disse que ia com o carro da Fernanda, pois o seu estava na hora de trocar o óleo. Achou que era prudente ir com o carro que Clarissa não conhecia, que ainda tinha um filme nos vidros mais escuro que o do seu carro. Às quatro horas estava livre na estrada, excitado com a clandestinidade e a caçada que se iniciava. Acostumado a viajar com a equipagem de explorador antártico que as crianças exigiam, sentia-se leve só com a malinha jogada no banco de trás, como no seu tempo de solteiro. Sabia que podia não dar em nada, talvez ficasse só vagando por lá à toa, mas a mera possibilidade longínqua de comer Clarissa era estímulo mais que suficiente para a empreitada. Pôs o famigerado cd que gravara para Clarissa e sentiu vontade de gritar de novo “platônico é a mãe”, o que teria feito se estivesse pelo menos um pouco bêbado. Seu plano era simples e científico. Vasculharia os restaurantes da Barra do Sahy até Boiçucanga, à procura de Clarissa. Se a encontrasse, veria o que faria. Sabia que havia um problema. Tinha medo de assustar Clarissa com sua presença inopinada, pois ficaria óbvio que teria vindo à praia atrás dela. Quando se falaram ao telefone, tinha ficado claro que ela estava com o Penza, e não teria sentido nenhum ele aparecer por lá. Não tinha idéia nenhuma para suprir essa grande lacuna do seu plano, mas a sensação de liberdade e a adrenalina da caça, a vontade de pelo menos ver Clarissa na praia de biquini, eram irresistíveis para ele. Quem sabe ela não teria uma briga terrível com o Penza, e ele surgiria do nada como um salvador? Já tinha a estória do negócio pronta mesmo, que poderia ser usada também para explicar sua aparição, se bem seria difícil fazer colar. Porque não teria lhe dito antes? E assim maquinando e sonhando, dirigindo um pouco acima do limite na estrada sem trânsito do sábado à tarde, em menos de duas horas estacionava o carro numa pousada no Camburizinho. Conseguiu um apartamento e foi trocar a roupa semi-social adequada para uma reunião de negócios no litoral por uma realmente praiana. Pegou seu guia, papel e caneta, sentou numa mesa à beira da piscina, pediu uma caipirinha de vodka e começou a fazer o roteiro dos restaurantes. Por um momento sentiu-se ridículo, entornou o seu drinque e pediu outro. A sensação passou.

O Stalker - Capítulo 34

Nada de Clarissa. Nenhum e-mail, telefonema, mensagem instantânea, nada. Porque não respondeu ao e-mail, se perguntava Renato distraído, enquanto almoçava na casa da sua sogra, sentado na frente da própria que falava com ele. Não compreendia nada do que ela lhe dizia e no momento em que ela terminava a longuíssima frase Renato se tocou que teria que dizer alguma coisa sobre ela. A única palavra que entendeu foi a última que ela disse: “... Paris?” e ele percebeu que a entonação era de uma pergunta. Não soube o que dizer, concordou com a cabeça e elogiou a comida. Os convivas, os pais de Fernanda, sua irmã, o marido e Fernanda se entreolharam com espanto, e Fernanda interpelou-o: “Renato, a mamãe está falando com você!”, olhando-o como se ele tivesse cometido um homicídio. “Desculpe, D. Leonor, eu estava lembrando do meu acidente”, improvisou com ar de veterano de guerra lembrando do front. Começou a repassar mentalmente o e-mail tentando localizar qual teria sido o erro fatal. Teria sido a piada do “strip-poker”? Será que ela tinha achado que estava propondo sexo virtual, de ficarem os dois se masturbando simultaneamente cada um olhando o outro por uma web-cam, e falando obscenidades naquele microfoninho vagabundo, ou pior, teclando ao mesmo tempo? Como fariam com as mãos? Ridículo, só quem gosta disso é homem, está cheio de garotas que fazem isso para ganhar dinheiro, jamais daria certo para um casal platônico. E estava assim divagando quando o quase grito de Fernanda tirou-o do transe: “RENATO! O papai está pedindo o galheteiro!” Desculpou-se de novo, passou o galheteiro e voltou para o seu mundinho, pensando que medida tomaria depois do almoço para saber o que estava acontecendo.

Clarissa já estava na praia há quatro horas e nada do Penza. O sol estava calcinante e já não tinha mais nenhum proteção. Estava já queimada de sol, cansada e ainda salgada. Teve que se abrigar embaixo de uma árvore, entediada por não ter nada para fazer. Não ia embora porque o Penza chegaria a qualquer momento e estava sem ânimo para voltar a pé para o sertão. A praia agora estava cheia, e os surfistas, na ausência total de ondas, jogavam frescobol e azaravam as meninas. Clarissa já tinha sido abordada algumas vezes, mas aqueles seres monossilábicos decididamente não lhe atraíam, apesar do físico saradão. Quando viu o Penza de longe, branquelão com o cabelo espetado para cima, carregando uma cadeira de praia, junto com o Danilo e a Cristininha, logo percebeu que ele não trouxera sua bolsa, como aqueles itens essenciais para sua sobrevivência naquele ambiente hostil. Quanto mais ele se aproximava, Clarissa, já com a certeza da falha imperdoável, mais irritada ficava. Foi em direção a ele, e sem cumprimentar ninguém fuzilou: “Penza você esqueceu minha bolsa!”. Danilo caiu na gargalhada, o que a enfureceu mais ainda. “Dá aqui a chave do carro.” Penza se ofereceu para ir buscar, mas ela, arrancando a chave da mão dele falou rispidamente. “Não precisa!” E foi embora pisando duro. Chegando lá, olhou para aquela bagunça com um certo nojo, pegou sua toalha e foi tomar uma ducha no chuveirão que havia lá fora. Debaixo da água abundante e fria, no meio da mata exuberante, naquele lindo dia de outono, Clarissa se acalmou e voltou a gostar de estar ali.

Logo no fim do almoço, Renato anunciou que sairia um minuto para comprar gibis para o Renatinho, alegando que “esse garoto não larga esse vídeo game”. Contra argumentaram que ele não sabia nem ler, mas Renato insistiu que qualquer coisa era melhor do que isso. Excitou a criança, pegou-a pela mão e foram os dois para a banca ali perto. Fez tudo isso só para que tivesse a oportunidade de ligar para Clarissa.

Quando Clarissa estava acabando de se secar, tocou o seu celular. Correu para pegá-lo lá dentro e logo reconheceu o número. Resolveu atender, pois estava achando que o Penza e aquele idiota do irmão dele não valiam um ovo podre. Era Renato, com sua voz baixa e íntima. “... Ah, você tá na praia, como é que está aí”. “Tá ótimo, está um dia maravilhoso”. “Que praia que é?” “Camburi”. “Que delícia...” E embalaram naquele papinho furado no qual já tinham bastante prática, enquanto Renatinho bagunçava as revistas. Renato já sabia o que precisava e o que iria fazer.

quarta-feira, julho 27, 2005

O Stalker - Capítulo 33

A casa onde iam ficar na praia era no Sertão do Cacau e pertencia ao irmão surfista do Penza. Viraram do lado esquerdo da estrada, num pequeno casario que havia numa ruinha de terra. Andaram um pouco, deixaram o carro lá, Penza deu uma lanterna a Clarissa e foram pelo escuro, com as malas e os mantimentos na mão. Clarissa conhecia o irmão do Penza dos almoços de família, mas nunca tinha ido até essa sua casa de praia. Depois de uma caminhada que durou bem uns penosos dez minutos por uma trilha no meio das árvores, chegaram. Danilo estava lá com a namorada Cristininha, e os recebeu efusivamente. Clarissa percebeu que ele estava completamente louco. A casa cheirava mofo e maconha e ele provavelmente tinha cheirado cocaína, o que dava para notar por sua exagerada loqüacidade e simpatia artificial. A casa era muito simples, mas tinha lá a sua graça. Um quarto, um banheiro, uma sala misturada com a cozinha e um mezanino em cima do quarto e banheiro, onde Penza e Clarissa dormiriam. Penza, Danilo e Cristininha fumaram um baseado e os quatro tomaram cerveja em lata, que parecia haver em grande quantidade naquela casa. Danilo tratava Cristininha de forma um pouco ríspida, o que irritou Clarissa, que imediatamente começou a se sentir desconfortável. Assim que deu foi dormir no mezanino empoeirado, com medo de bichos peçonhentos, e ficou ouvindo os irmãos conversando, bebendo e cheirando. Pediu para desligarem a música no que foi parcialmente atendida. Cristininha estava lá mas não abria a boca. Dormiu e nem viu quando Penza foi para a cama.

Quando Fernanda chegou em casa carregada de sacolas de compras, lá pelas nove, Renato já sentiu uma leve ereção, pois sabia o que ia acontecer. O vinho, do bom mesmo, já estava aberto há algum tempo em cima da mesa. Esquentaram o jantar no microondas, e tiveram lá o seu momento romântico. Renato se lembrava como aquilo começara e achava um pouco esquisito e doentio, mas adorava todas as vezes que acontecia. A primeira vez foi quando combinaram de se encontrar no shopping onde Fernanda trabalhava, e ele chegou já meio bêbado de um happy hour. Renatinho tinha um ano e vinham saindo muito pouco desde que o nascimento dele. Estavam felizes da vida. Renato foi tomado de uma irresponsável generosidade e foram às compras, escolhendo roupas para Fernanda com volúpia e prazer. Renato atiçava, fazendo elogios à sua beleza cada roupa que ela experimentava. Desde então, aquela mecânica se repetia em um intervalo de três a seis meses, mais ou menos, dependendo de como andavam as finanças de Renato, sem a sua presença, só com a sua autorização para Fernanda detonar o cartão de crédito até uma certa quantia, que ela sempre excedia em quase o dobro. Depois do jantar, Fernanda já relaxada pelo vinho foi experimentar as roupas que comprara para mostrar a Renato, e entre uma saia e um jeans, Renato comeu sua bundinha usando como lubrificante o óleo de camomila do bebê.

Clarissa acordou lá pelas oito, livrou-se do Penza que a agarrava dormindo, encoxando-a de pau duro, afastou o mosquiteiro, pôs um biquini e um short, seus tênis de corrida, um dinheirinho no bolso e pegou seus oclinhos de natação. Besuntou-se de protetor solar, comeu uma granola com leite e banana, deixou um bilhete para o Penza levar a sacola de praia já preparada com livro, canga, protetor, pente, etc., e chispou para a praia. Estava um lindo dia e a mata de manhã, com passarinhos coloridos e jaqueiras com perfume enjoativo, estava linda. Atravessou trotando uma meia favelinha, a Rio-Santos, e foi passando pelas ruas empoeiradas de terra até chegar na praia. Não tinha nenhum vento, e o mar estava calmo, liso como um espelho, praticamente sem nenhuma onda, e a praia ainda quase totalmente vazia. Tirou o tênis, o short, enfiou num saquinho de tela que levara num bolso do shorts, jogou num canto junto à cerca de bambu da frente de uma casa, pôs os oclinhos e nadou a praia inteira, primeiro em direção sul, contra a corrente, e depois em direção norte. A volta demorou pouco mais de dez minutos. Saiu do mar, comprou uma água de coco numa barraquinha que acabava de ser montada e sentou-se na areia, deslumbrada com a beleza da praia.

terça-feira, julho 26, 2005

O Stalker - Capítulo 32

Fernanda ainda não sabia nada sobre a vida dupla que Renato vinha levando, mas tinha certeza que havia algo errado, e só podia ser outra mulher. Mas nada havia de concreto, a não ser os telefonemas do terracinho, que não eram nada conclusivos. As poucas atrasadas de Renato não significavam uma alteração drástica de comportamento, pois aconteciam de quando em quando, atribuídas ao excesso de bebida com os amigos. Quando inquirido sobre a última noite que fizera isso, foi o que previsivelmente alegou. Quando ela insistiu, perguntando onde tinha ido, ele afirmou com a convicção desafiadora dos inocentes que não importava, e que ela não tinha nada com isso. Ela percebeu que ele queria a desavença, e resolveu, por hora, tirar o time de campo, e arrependida de ter puxado o assunto, ficou de orelha em pé.

Renato tinha aproveitado muito bem o seu infortúnio para desviar o foco dos motivos da crise instaurada imediatamente antes, e vinha sustentando que a alteração do seu comportamento se devia ao acidente. Via o mundo agora sob outra perspectiva, dizia, e estava procurando um novo rumo para sua vida. Não tinha comentado nada com Fernanda sobre a forte possibilidade de receber uma grana alta, porque contava com ela para viabilizar sua separação, caso tivesse a felicidade de conquistar Clarissa de forma duradoura. Antevendo as vacas gordas que se aproximavam, passou imediatamente a ser mais liberal com dinheiro, com o cuidado de não alterar significativamente o seu padrão de vida para não complicar o jogo mais tarde. Na tarde daquela sexta-feira completou sua pequena adega com vinhos um pouco mais caros do que habitualmente, achando que sua mulher tinha poucas condições de os avaliar. Telefonou para Fernanda na loja, e autorizou que ela gastasse uma certa quantia em artigos supérfluos que já há algum tempo ela dizia estar precisando. Esse tipo de extravagância sempre deflagrava um joguinho amoroso do casal, e Fernanda ficou animada com as compras e a possibilidade de trazer Renato para perto de si novamente.

Clarissa ainda não respondera o seu e-mail, e ele nada podia fazer. Estava sentindo alguma repugnância de si próprio por ter ido tocaiá-la na escola de inglês, e esperava que ela não tivesse percebido a sua presença, apesar de ter notado que ela olhara de relance para o carro na hora em que subia a escada da entrada. Arrependeu-se de ter invocado a cláusula da invisibilidade no seu último e-mail, e achou que isso poderia espantá-la. Resolveu que diria que tinha sido uma piada, e explicaria com o paralelo do livro de Julio Verne, achando que o joguinho cerebral pudesse ser um bom assunto. E por falta de coisa melhor para fazer foi até a delegacia para ver se alguma coisa tinha sobrado da sua bicicleta, para retomar os seus esportes e ter de volta o ótimo pretexto para ir até a casa de Clarissa. A sua fisioterapeuta já tinha autorizado o uso da ergométrica no clube, e em pouco tempo estaria pedalando nas ruas novamente. Na delegacia da Lacerda Franco, preencheu uma extensa papelada, e depois de uma hora e meia lhe entregaram os restos da bicicleta, que não estava tão estragada como imaginara. O quadro, o mecanismo do câmbio, a roda e freios traseiros, podiam ser aproveitados. Em vez de ir direto para casa não resistiu e deu uma passadinha pela porta da casa de Clarissa. Em casa, Fernanda ainda não tinha voltado das compras, e Renato preparou um uiscão, pôs um disco do Bach inglês para criar um clima, e pôs-se a ler “Ligações Perigosas” de Choderlos de Laclois, para aprimorar sua técnica de ataques epistolares.

Clarissa nesse momento estava com o Penza na estrada, indo para um fim-de-semana em Camburi. Tinha lido o e-mail de Renato, e achado um pouco pesado e complicado. Sua dúvida quanto a ser ele naquele carro parado na porta da escola de inglês aumentou, e ela ficou com a sensação de estar entrando numa bela roubada. Estava feliz da vida por estar com seu namorado ótimo, em um programa ótimo, com metereologia favorável, apesar do jazz barulhento e chato que tocava. Preferiu não discutir com o Penza para mudar o cd.