domingo, julho 24, 2005

O Stalker - Capítulo 31

A primeira coisa a fazer era responder o e-mail de Clarissa. O peixe fisgara, e agora tratava-se de lutar com paciência, força e calma, para trazê-lo para o barco, sem deixar escapar o anzol ou romper a linha com um movimento brusco ou errado. Achou que o melhor caminho era ser completamente sincero, como ela propunha. Mandou o e-mail que Clarissa só leria à noite, depois da aula de inglês:

“Clarissa

Depois de quarenta dias trancado em casa, em mau estado físico, com dores, e humilhações decorrentes da falta de autonomia, sem que você respondesse os meus e-mails, fui ficando preocupado com a idéia de nunca mais te ver. Então, fui baixando minhas expectativas de realidade e aumentando as fantasiosas, como você deve ter notado. A proposta de mantermos uma ligação à distância esta de pé e é verdadeira. Aceito o contrato em todos os seus termos, porque não posso recusá-lo. Meia Clarissa é melhor do que nenhuma. Mas você não pode imaginar o meu grau de frustração ante sua declaração na porta do banheiro. Ainda bem que você evaporou instantaneamente. Reagi muito mal, e prefiro não dizer o que fiz, mas se você quiser saber eu conto. Depois da imperdoável omissão do meu estado civil – que nunca me foi perguntado, mas não importa – não haverá mais segredos, nem os fatos que eu imagine que você queira saber serão evitados, para o bem e para o mal. Assim interpreto a sua última cláusula. Vamos nos comunicar além da confissão, jogar nosso strip-poker aberto, sem espaço para o blefe. Continuo a dizer que eu quero tudo, e tudo que você quiser você terá, dentro dos limites delineados pela existência dos meus filhos, quanto ao tempo que um pai deve dedicar à sua criação, e os recursos necessários. Não tome essa afirmação como uma proposta de relacionamento de longa duração, pois não é, e seria ridiculamente prematura. Nem nos conhecemos ainda. Digo isso apenas para que você não considere a nossa ligação como um beco sem saída. Temos todo o futuro que quisermos, se quisermos e quando quisermos. Mas se eu pareço insistente, é porque eu acredito, eu sinto, eu tenho uma fé irracional de que a parceria com você é a oportunidade de uma vida. Não me pergunte o porquê, eu não saberia responder. Mas sempre bastará que você estale os dedos, que eu desaparecerei e remanescerá da nossa ligação apenas a curva estelar mencionada pelo Frederico. Jamais admitiria ser um incômodo. Ainda interpretando os termos fixados por você, caso eu sinta um impulso irresistível de contemplar sua singularíssima pessoa, farei todo o esforço necessário para isso, ainda que eu concorde em não nos cumprimentarmos. Não posso aceitar é a sua afirmação de nosso amor já está realizado. Mas essa discussão fica para depois, mesmo porque tenho dificuldade de aceitar esse conceito, que eu não compreendo.

Renato”

Fernanda tomara a iniciativa de cancelar a matrícula de Renato, e receber o reembolso parcial das mensalidades, apoiada numa impossibilidade de freqüência irrecusável, o acidente de Renato. Mas Clarissa deveria continuar freqüentando. Renato, ao sair do trabalho, foi fazer campana na entrada da escola, para ver Clarissa passar. Chegou um bom tempo antes da aula, e deu algumas voltas no quarteirão até encontrar uma vaga com uma boa visão da entrada, e uma razoável distância. Lembrou de levar uma máquina fotográfica para tirar fotos de Clarissa, mas achou que já bem entrado o outono, às sete da noite não haveria luz suficiente, daquela distância para fotografá-la.

Clarissa, enquanto se dirigia para escola de inglês, tinha descido do ônibus e caminhava os poucos quarteirões que faltavam, admirando o lindo crepúsculo e pensando que não seria nada mal estar na praça com Renato. Somente quando já estava subindo os degraus da entrada é que notou o carro dele estacionado a uns quinze metros de distância, do outro lado da rua, e pôde ver um vulto dentro, que correspondia ao seu porte. Achou que só podia ser um carro igual ao dele, mas a idéia de que ele pudesse estar seguindo-a não foi nem um pouco agradável.

sábado, julho 23, 2005

O Stalker - Capítulo 30

Renato amanheceu pensando em uma das condições impostas por Clarissa, que o preocupou particularmente. Se a relação platônica interferisse na vida terrena seria rompida, isso significando que não poderiam nem se cumprimentar, mesmo se se encontrassem por acaso. Lembrou de um Julio Verne que lera na adolescência, “Tribulações de um chinês na China”, que conta a estória de um entediado milionário chinês, para quem a vida não tem mais sentido devido a uma desilusão amorosa, e contrata um assassino para matá-lo. A condição do contrato perverso era que ele não poderia ser desfeito nem se o contratante quisesse. Desfaz-se o desencontro amoroso, fruto de um engano, e a aventura se desenrola com o casal fugindo do implacável perseguidor. As condições de um e outro contrato eram simetricamente opostas. O de Clarissa, se romperia pelo simples contato. O do chinês, não se quebraria nem com a súplica desesperada. E havia outro efeito especular entre os contratos. Enquanto o chinês não podia se deixar ver pelo assassino, para que esse não lograsse seu terrível dever, Renato poderia circular livremente diante de Clarissa sem que ela pudesse reclamar, nos termos da cláusula por ela mesma proposta, desde que não lhe dirigisse a palavra. Concluiu que isso podia ser explorado de alguma forma.

Chegando ao escritório, resolveu tentar uma última cartada, e mandou-lhe um e-mail: “Como despedida, e para celebrar o contrato, que tal vodka e caviar no fim da tarde, na Praça do Pôr do Sol?”. Estava um dia lindo e ele achou que seria um convite irresistível: sofisticado e caro em homenagem à moça; descompromissado e aventuroso, por ser ao ar livre, e não num restaurante, remetendo ao encontro que ela marcara na Conde de Barcelos; fugia da obviedade do champagne, evocando a misteriosa Rússia, e com teor alcoólico suficiente para vencer qualquer resistência de Clarissa. Uma combinação simples e perfeita. Ficou tão empolgado com o plano que teve a pachorra de digitar toda a longa frase em uma mensagem de celular, pois ela talvez não checasse os e-mails durante o dia.

Clarissa também acordou pensando no estranho contrato, tentando entender suas próprias razões para entrar nessa história. Lembrou que ela tinha ido atrás de Renato, depois de obter seu telefone com o Wagnão no parque. Considerou que já tinham trepado, então não podia mais ser só aquela coisa babaca do cara que come só para fazer mais uma marca na carabina. E ela tinha se identificado profundamente com as dúvidas de Renato sobre a existência e a natureza do amor, aparente ou verdadeiro, e os seus aspectos psicológicos e fisiológicos. A admiração que ele dizia ter por sua inteligência lhe parecia sincera, e a agradava muito. Os quarenta e-mails que lhe mandara durante sua convalescença revelaram uma vida interior rica e inspirada, com observações valiosas sobre o mundo e os humanos, coloridas por referências de cultura logicamente articuladas, e não meramente gratuitas, principalmente sobre a singularíssima pessoa, como ele dizia. Surpreendente para um tipinho como Renato, sem nada digno de nota. Uma profissão besta, puro ganha-pão, uma confortável vidinha pequeno-burguesa com seus filhos e a mulher traída, e só. Não seria um cara frustrado procurando diversão? Teria sonhos e ambições de fazer algo de bom da sua vida ainda? Concluiu que era isso que ela precisava descobrir. Quando recebeu a mensagem no meio da aula, ficou impressionada com o convite sedutor e hesitou até o fim da aula. Mas lembrou que já havia vacilado uma vez, e achou que as conseqüências do encontro, se acontecesse, seriam bastante previsíveis. Estava na hora de mostrar que tinha personalidade, senão Renato folgaria para sempre.

Pouco depois do meio-dia o telefone de Renato vibrou indicando o recebimento de mensagem, e ele reconheceu, agitado, o número de Clarissa. Estava lá a mensagem: “nao. fechado porta banheiro. telefone nao pode. bjs.”

Pecus mata a cobra, e mostra a cobra morta (e não o pau, como uns e outros)

Ante a incredulidade geral de que Clarissa, nos seus vinte anos, poderia ter escrito o e-mail do capítulo 29, e a despeito de eu ter insistido, sem convencer ninguém, que jovens lêem Nieztsche e fazem esforço para parecerem eruditos, dei um google por "amizade estelar", o nome do aforismo contido no "Gaia Ciência", ao que consta dirigido a Wagner, e achei uma PROVA no blog de Luís Ene, de que tal fato é possível na vida real, que sempre supera a ficção: "Amizade estelar" FOI citado por uma mui jovem "princesa agridoce", como disse o blogueiro do seu primeiro amor, preparando a dispensa do rapaz. Vejam que incrível. Obrigado, Luís Ene, quem quer que você seja e onde quer que esteja, agora sou seu amigo estelar: "Li este texto pela primeira vez há muitos anos, no tempo longínquo do meu primeiro amor, e foi precisamente a minha agri-doce princesa de então que me o ofereceu, de certeza na antevisão que pouco tempo depois iria partir o meu coração."
E antes que alguém diga que o conceito não se aplica à hipótese de Clarissa, em defesa da minha heroína digo que, se no caso de Wagner e Nietzsche a amizade estelar implicava numa total ausência de contato, mesmo por correspondência, pois estavam rompidos, a transposição é razoável no caso de Clarissa e Renato, ao chamar de amizade estelar o relacionamento amoroso sem sexo. Mais correto seria talvez, "amor estelar", nesse sentido gravitacional.

sexta-feira, julho 22, 2005

O Stalker - Capítulo 29

Clarissa pensou o dia inteiro o que iria dizer no seu primeiro e-mail a Renato. Queria fasciná-lo com as nuances e delicadezas da sua história íntima, de como descobrira todas as gradações das ligações amorosas, da amizade ao sexo selvagem, passando pelo amor verdadeiro e indo até a desilusão total. Sim, porque ela era uma mulher que a despeito de sua pouca idade já tinha vivido tudo isso.

Na noite daquela quinta-feira, depois do dia atribulado de uma boa aluna da faculdade de medicina, Clarissa, após sua longa toalete e verificação de mensagens – nenhuma de Renato – sentou-se com a coluna ereta, ombros para trás e peito para frente, e pôs-se a escrever, decidida a fazer jus às mensagens que recebera:

“Renato,

Não sei porque concordei em embarcar nessa loucura de construir uma ligação platônica com você, pelo que eu entendi uma tentativa de conexão de intelectos sem nenhum limite de expressão e com um estanque e incontornável isolamento físico, já que qualquer perspectiva que tivéssemos estaria impedida por nossos relacionamentos. Primeiro, entendo que seja absolutamente necessário que haja entre nós uma sólida confiança mútua na manutenção desse segredo. Segundo, pressuponho que apesar dos fortes sentimentos que você diz ter por mim, devemos considerar que o nosso amor, se é que podemos chamar assim, já foi consumado. Aquela noite j
amais se repetirá e deve ser o outro fundamento de nossa ligação o fato desse amor ter sido correspondido e se realizado. Não sei se conseguiremos sustentar esse paradoxo, semelhante ao da amizade estelar descrita por Nietzsche, sendo estranhos um para o outro aqui na Terra, mas permanecendo ligados por uma gigantesca curva invisível, uma órbita sideral, em atração gravitacional. A terceira condição necessária é que se não conseguirmos nos manter nesse mundo das idéias, e nossa relação começar a interferir na nossa vida terrena por assim dizer, ela será rompida. Se nos encontrarmos por acaso, deveremos sustentar que não nos conhecemos, e sequer nos cumprimentarmos.

Em cumprimento ao nosso pacto, não usarei jamais o verbo confessar, pois estarei falando com você como falo a mim mesma. Prepare-se para me conhecer do avesso.

Clarissa”

Clarissa disparou o foguete com a mensagem a Renato, situado de agora para sempre em outra galáxia, e foi dormir, tentando racionalizar alguma justificativa para si própria dessa estranha ligação não constituir uma traição a Penza, e facilmente concluiu que era como uma amizade epistolar com um homem de um país distante, com a carga erótica neutralizada, ou ao menos controlada, pela expectativa satisfeita.

Renato acordou de ressaca e deprimido, e passou o dia arrasado com o seu lamentável comportamento da noite anterior, culpado por trair Fernanda de modo fútil e por não ter comido direito a morena alta, de quem nem se lembrava o nome. Mas estava orgulhoso da sua eficiência na conquista, duplamente verificada, o intelecto de Clarissa e o corpo da morena, mesmo sabendo que esse orgulho era estúpido. Ainda acreditava que era possível virar o jogo, agora que tinha uma possibilidade concreta de equacionar sua separação. Quando pensou nisso, teve um momento de lucidez, e rememorou os vários anos de bons momentos com Fernanda. Reconheceu que era uma mulher bonita, independente, excelente companhia, mãe dedicada, irrepreensível gestora da casa, a quem ele certamente não merecia. Considerou-se um idiota.

À noite mantiveram uma trégua silenciosa, Fernanda de cara amarrada e Renato tentando demonstrar desdém. Quando conseguiu a privacidade necessária da insônia, achou e abriu o e-mail de Clarissa e ficou impressionado com a ousadia da garota, de tê-lo pego pela palavra dessa maneira. Será que ela acreditava mesmo nessa baboseira ou estava, como ele, apenas disfarçando sua intenção real? De qualquer forma, avaliou que ela tinha mandado muito bem, apesar de demonstrar uma certa infantilidade em querer parecer culta e inteligente. Mas ele também vinha fazendo a mesma coisa.

quinta-feira, julho 21, 2005

O Stalker - Capítulo 28

Dessa vez Renato achou melhor não chamar o Wagnão. Armou um happy-hour com alguns amigos do mercado – o que aliás não era nada difícil – no Mercearia, numa travessinha da Nove de Julho já perto da Faria Lima. Era um programa que fazia com alguma freqüência e que Fernanda tolerava, pois creditava alguma importância social e profissional à turma, a despeito de Renato chegar invariavelmente bêbado, e às vezes muito tarde, pois lá costumavam tomar uísque. Depois do que passara, Renato merecia algumas regalias de convalescente. Eram quase todos casados, e o número variava entre três e oito homens, que mantinham um pequeno ritual: telefonavam para as esposas do bar, e circulavam os telefones, de modo que todos cumprimentavam todas. Nada se falava, mas era uma prova de que estavam juntos numa mesa masculina. Renato gostava muito dessa turma já antiga, alguns se conheciam desde a adolescência, e embora a conversa fosse um pouco previsível, invariavelmente davam muita risada.

Pelo que se informara, o show do estranho projeto de Penza iria tocar num bar/restaurante/casa de show de nome italiano na Rua Girassol, na Vila Madalena. A banda tinha se livrado dos rappers e dos sambistas, e se firmara como uma banda de samba-rock/soul, formada pelo combo de Penza mais as meninas cantoras. A função começaria por volta das onze e meia. Renato não queria chegar cedo nem bêbado, por isso atrasou-se ao máximo para o happy-hour e bebeu o mais devagar possível. Mesmo assim, três horas de uísque são três horas de uísque. Por volta das onze, depois de um último telefonema para Fernanda, avisando que a coisa iria se prolongar mais um pouco, desligou o celular e foi para o outro boteco.

Clarissa estava bstante cansada, apesar de ser ainda terça-feira, pois vinha da aula de inglês. Teria tempo para dar uma boa descansada e ir ao show do Penza. Em casa, estranhou a ausência da mensagem cotidiana de Renato, e concluiu que ele tinha simplesmente se cansado, ou desistido. Tanto melhor, pois aquela brincadeira já estava ficando um pouco esquisita. Sabia que ele estava bem, praticamente recuperado, pelas notícias minuciosas das mensagens, e isso era confortável para ela. Dormiu com a facilidade de sempre, acordou com o despertador, envergou uma roupinha simples e sexy de primeira-dama da banda e resolveu ir com o próprio carro, para evitar a rapidinha com o Penza. Nada contra, mas podia passar sem essa e tinha que se garantir para o dia seguinte. Estimava o fim do show por volta da uma e meia, e não queria deixar o Penza assim sozinho, exposto, vulnerável a tantas garotas vorazes, que, diferente do bar do hotel, certamente estariam por ali.

Renato largou o carro com o valet, e entrou no tal lugar, que era comprido e estreito, com um palco baixo no meio desse corredor, na frente do qual havia uma pequena pista. Estava já bastante cheio, mas não havia um canto onde pudesse se posicionar para estudar o ambiente e preparar o ataque. Atravessou o bar para dar uma mijada, assuntando, e não viu ninguém conhecido. Voltou e foi direto ao bar, perto da entrada, comprar uma cerveja. Quando estava virado para o balcão reclamando a bebida, ouviu uma voz conhecida gritando seu nome de modo escandaloso. Era o Wagnão, acompanhado de uma das meninas cantoras, que ele havia conhecido aquela noite no Sesc Pompéia. Melhor do que ficar ali, solto, perdido, pensou Renato, e logo engataram num conversa animada. Discutiram a evolução da banda e o crescimento do papel das garotas, comentaram o acidente de Renato, o que lhe conferia uma estranha aura de autoridade, e ninguém lembrou de perguntar o que ele fazia ali, o que foi ótimo. Chegaram as outras cantoras e outras pessoas que Renato não conhecia, formando uma roda mais ou menos dispersa, incluindo a morena alta que lhe dera um mole no outro show, e lembrava dele. Graças ao Wagnão, estava novamente inserido na turma da banda. Mas nada de Clarissa.

Começou o show, e a banda, agora compactada e bem ensaiada, estava excelente. O repertório um pouco óbvio de clássicos da música negra, como Kool and the Gang, o glorioso Chic de Nile Rodgers, James Brown, Jackson Five, e outros, entremeados com Jorge Benjor, Tim Maia, Brylho, era irresistivelmente dançante, e a pista balançava. Todos da tal rodinha foram dançar junto ao palco, e Renato, irritado com a ausência de Clarissa, e com fortes dores na perna de tanto ficar em pé, foi se encostar numa mesinha daquelas de ficar em pé que havia no fundo da pista. A banda tocava “Menina mulher da pele preta” de Benjor, quando a morena alta veio sambando lindamente para perto de Renato, e perguntou gritando no seu ouvido se ele não dava mais aquele passinho que ela tinha visto no Sesc. Renato caiu na risada, e entabularam uma conversinha mole, nenhum dos dois entendendo bem o que o outro estava dizendo. Depois de umas duas ou três músicas, Renato percebeu, com o coração disparado, que Clarissa tinha chegado, e se infiltrava no meio da multidãozinha, tentando chegar junto ao palco. Disse à morena que já voltava e tentou alcançar Clarissa, que se enfiara no meio da turma, lá na frente. Renato foi até o bar, que estava com a multidão menos densa, pegou mais uma cerveja, e foi se infiltrando pela frente da gentarada, tentando chegar onde ela estava, mas viu que não era possível. A turba pulava muito, e ele certamente iria se machucar. Desistiu, voltou para o bar e passou por trás da pista em direção ao banheiro, que era no extremo oposto à porta. Tinha uma filinha de três caras na sua frente, e ele esperou uns minutinhos, até conseguir entrar e se aliviar. Quando saiu, deu de cara com Clarissa, que estava ali na porta. Cumprimentou-o sorridente, “que bom que você está legal, hahaha”, e sem nenhuma preparação, soltou a bomba: “Eu li todas as suas mensagens, e topo a coisa platônica. Vamos ver o que acontece. Mais tem que ser sério.” Renato ficou desesperado, puto da vida, e mil pensamentos dispararam ao mesmo tempo, enquanto ele virava um longo gole de cerveja, sem saber o que fazer. As histórias de gênios e suas maldições, “cuidado com aquilo que deseja”, “onde essa mulher está com a cabeça”, “platônico é a mãe”, e quando terminou o trago e abaixou a cabeça, Clarissa tinha desaparecido.

Renato estava transtornado, e as idéias estranhas não paravam de brotar: ganhar e não levar, vitória moral, roubar e não carregar, e por aí afora. Seu enorme esforço de persuasão tinha sido evidentemente frutífero, mas o justo prêmio lhe fora negado. “Platônico é a mãe” martelava o bordão esquisito na sua cabeça, enquanto a banda do Penza mandava mais um balançante hit antigo com sabor de novidade. Voltou à sua posição no fundo da pista, e a morena alta chegou novamente junto rebolando. Atacou-a com vontade, sempre pensando “platônico é a mãe”, e logo a estava agarrando. Tomaram mais algumas cervejas, e Renato conseguiu arrastá-la embora, assim que o show acabou, antes que se formasse a fila para pagamento da comanda. A garota era lá da Freguesia, e Renato, a pretexto de levá-la pela marginal, embicou o carro embaixo do neón verde do Astúrias, sem qualquer aviso à garota, que caiu na besteira de dar uma risada amigável. Renato riu também, e pediu um apartamento do mais barato, sem piscininha. A perigo como estava, bêbado e puto da vida, comeu-a com alguma crueldade, falando coisas sujas o tempo todo, e a garota pareceu estar na dúvida se achava aquilo bom ou ruim. Quando ele acabou, ela falou que achava que tinha sido um erro e que queria ir embora, com o que ele concordou imediatamente, embora pretendesse dar mais uma com calma e maldade. Levou-a até em casa sem fazer qualquer esforço para melhorar o clima péssimo. Na volta, a cento e quarenta por hora na marginal, abriu os vidros do carro e gritou várias vezes o bordão que não lhe saía da cabeça, “platônico é a mãe”. Chegou em casa com fortes dores nos seus ossos recém colados, e nos músculos ainda não inteiramente reconstituídos, sentindo-se degradado em todos os sentidos. O quarto estava com a porta trancada, e o sofá cama da sala de tv, fechado, estava com a roupa de cama dobrada em cima, sem travesseiro, o que achou menos mal do que enfrentar a mulher.

terça-feira, julho 19, 2005

O Stalker - Capítulo 27

Por volta das onze horas da manhã, Renato vestiu-se e foi trabalhar, destinado a encerrar o longo período de quarentena. Tinha que estar formalmente bem, apto para o trabalho, para poder justificar o seu premeditado desaparecimento noturno. Primeiro a obrigação, depois a diversão, pensou mal empregando o ditado. Foi recebido efusivamente no escritório, e no almoço, aberto um vinho para comemorar seu restabelecimento, puseram-no a par das novidades. O negócio do Ceará tinha sido considerado inviável, e a contratação dos advogados gasto de boa cera com mau defunto. A operação fora abortada. Em compensação, um negócio de compra de debêntures de uma grande companhia falida que tinha um crédito gigantesco contra o governo, adquiridos alguns anos antes a troco de quase nada, estava em vias de propiciar lucros milionários à empresa. O mercado não acreditava que fosse possível o recebimento de um crédito em uma ação de mais de trinta anos contra União decorrente da revogação indevida de uma concessão de mineração por motivos políticos, já julgada em última instância pelo Supremo Tribunal Federal, mas cujo pagamento havia sido questionado por uma ação do Ministério Público por suspeita de corrupção e por isso impedido, estava finalmente liberado. Bastava a companhia levantar o dinheiro, pagar os poucos credores que restavam, e os debenturistas e acionistas. Advogados especializados já haviam sido contratados para arrancar o pagamento dos controladores, e estavam em vias de ingressar com violentíssimas liminares e ações de prestação de contas impossíveis destinadas a paralisar o recebimento para obter acordo rápido, muito embora as negociações para evitar os litígios já andassem bastante adiantadas. Os números eram tão grandes que podiam dar-se o luxo de perder milhões, para lucrar outros tantos instantaneamente. Renato, destinatário de pequena parte dos ganhos, ganharia uma bela bolada com essa operação, sem ter que fazer absolutamente nada. Seu pai e os outros sócios maiores, que já eram um pouco mais que remediados, poderiam tranqüilamente se aposentar em excelente condição.

Imediatamente o ser do mal que habita todos nós começou uma cantilena demoníaca no canto mais escuro da mente de Renato. Ele e Fernanda eram casados no regime da comunhão parcial de bens, e assim, embora ela não tivesse direito às quotas da corretora que Renato tinha, adquiridas antes da união, se os lucros fossem distribuídos – e essa era a intenção dos sócios, que queriam extinguir a empresa para cada um cuidar da sua vida – passariam a integrar o patrimônio pessoal de Renato. Fernanda teria direito à metade. O casamento precisava ser estourado com urgência. Renato ficaria com o grosso da grana, poderia manter Fernanda e as crianças no seu padrão atual, e comprar o passe de Clarissa. Pelo menos por algum tempo, pois o dinheiro não seria suficiente para que ele mantivesse o circo funcionando só com a renda. Precisaria sacrificar o capital, o que era temerário, ainda mais com a perspectiva de perder a posição na empresa. Ficaria desempregado. Louco e cego como estava, era o suficiente para desvencilhar-se da armadilha em que se encontrava. Depois daria um jeito.

O lado bom começou a gritar lá do seu lado, a lembrar Renato dos filhos que adorava e iria deixar à mercê da Fernanda, e sabe-se lá com quem ela se ligasse. Que era uma loucura queimar sua grana nesse projeto de separação, antes de resolver o rumo que tomaria sua vida profissional. Que Renato tinha uma carreira de mérito discutível, e todos os seus relacionamentos de trabalho eram marcados pelo estigma do filho. Que poderia acontecer algum percalço e a operação não vingar, como tantas outras que não haviam se realizado durante toda a década que trabalhara lá, em que viu a vertiginosa decadência da corretora não mais corretora. E, por último, e o mais importante, era óbvio que Clarissa nada queria com ele, pois há mais de um mês recebia as suas mensagens e as ignorava, jogando-as fora talvez até antes mesmo de abri-las. Essa última advertência gritada a todo volume dentro da mente de Renato ficou ecoando na sua cabeça bêbada e oca no fim do almoço.

Os velhos companheiros, eufóricos com o álcool e a perspectiva próxima de ficarem realmente ricos, sequer se deram ao trabalho de atribuir o estado semi-catatônico de Renato à convalescença do acidente. Só o seu pai notou algo de estranho com ele. Talvez a mistura de álcool com os analgésicos e anti-inflamatórios tivesse gerado a sombra no semblante do filho, que se dissipou quando ele decidiu-se a dar sua cartada naquela noite, e brindou, animado, à abertura de mais uma garrafa de vinho.

segunda-feira, julho 18, 2005

O Stalker - Capítulo 26

Clarissa ficou incomodada com a primeira mensagem de Renato, que lhe pareceu uma fonte de problemas. Aquilo não poderia acabar bem. “Onde já se viu, casado, com dois filhos!” Não ela não precisava daquilo. Já tinha o Penza. Se bem que o Penza andava meio esquisito. Andava não, era. Muito atencioso, simpático, amoroso, mas estava na cara que não queria nada com compromisso. O Renato dava a entender que cortaria um braço por ela. Isso depois que ela já tinha dado para ele. Será que era verdade? Aquele cara mais velho, adulto, com a vida já definida, mas ainda moço e bonito, arrastando um caminhão por ela? E ela lá queria compromisso, com vinte anos? Queria. O pior é que queria. Mulher adora compromisso. Estabilidade. Não assim no sentido material, porque ela tinha a vida toda pela frente, e não alimentava nenhuma dúvida quanto ao seu futuro. Ainda que não ficasse rica, não havia porque temer. E o Renato estava bem, ou pelo menos parecia, mas não era nenhum milionário. E se ele se separasse para ficar com ela, haveria dinheiro para sustentar mulher e filhos? Não, Clarissa queria e precisava estabilidade de relacionamento, uma ligação profunda e duradoura. Será que ele poderia ser o homem da sua vida? O sexo tinha sido ótimo. Não, não, era evidente que era um erro, não aceitaria o absurdo, e não se falava mais nisso. E depois da decisão tomada, nada mais demoveria Clarissa de seu propósito, construído com força de vontade e disciplina inquebrantáveis.

Tomada a decisão e afastado o problema, não havia nenhum problema em ler as mensagens de Renato, que foram chegando sistematicamente todos os dias. Ela lia com prazer. “Nossa, que imaginação tem esse cara! Será que eu sou tudo isso?” E com o passar das mensagens, ela sentiu que as expectativas de Renato foram diminuindo. Parecia que ele estava deixando de acreditar que aquelas duas noites pudessem se repetir, e ia se tornando cada vez mais platônico. E quanto mais platônico ficava, mais furiosa sua imaginação se tornava, e mais ela gostava de ler as mensagens. Viajava para longe, lendo as mensagens de Renato, que iam ficando cada vez maiores. No começo, tinham dez linhas. Depois, passado um mês, já estavam com uma grande página de caracteres pequenos. E ela, encastelada no seu silêncio inexpugnável, foi acompanhando o cotidiano fisicamente besta e dolorido de Renato, trancado em sua casa, enquanto sua mente vagava sem limites por terras e lugares estranhos, oceanos furibundos, altas montanhas, estradas sem fim e florestas selvagens, inspirado pelos melhores descritores das aventuras e desventuras do amor de todos os tempos. Clarissa era sempre uma heroína, como a mais luminosa das sereias, a ninfa que melhor dançava, ou a índia mais violenta. Por duas ou três vezes, durante esse mês e pouco, Clarissa foi arrebatada de tal forma pelos delírios de Renato que acabou se tocando demoradamente.

Lá pelo quadragésimo dia, veio a última mensagem, que resignada e melancólica abdicava da posse plena e física de Clarissa e propunha um relacionamento meramente intelectual, para compartilharem, de forma sincera e profunda as impressões que tinham e teriam do mundo, das pessoas, do cotidiano, dos objetos de cultura, do trabalho, as loucas fantasias, e até, com alguma dor, mas o que não podia ser excluído, das ligações amorosas dos dois. A proposta pareceu a Clarissa um ato suicida e desesperado. Renato estava enlouquecendo. O que estava pretendendo? Manter uma vida paralela e imaginária com ela, num mundo artificialmente construído? Um mundo de verdadeira ficção, onde o amor impossível pudesse se realizar? Era tão absurdo e radical, a idéia de uma vida a dois louca e sem limites, de ligação total, sem censuras e confiança mútua e completa, de dois eficientes intelectos juntados pelo o acaso, o destino, ou como quer que se chame o fator misterioso que promove os encontros e desencontro dos amantes, animados pela única condição de jamais se encontrarem, que Clarissa ficou intrigada. Será que a louca proposta não poderia ser rica e produtiva, a experiência de uma vida, que valia a pena ser tentada? Claro que implicava numa terrível traição aos companheiros dos dois, mas, do lado dela, será que o Penza se importaria, ou sequer perceberia a amizade virtual? Clarissa concluiu que não tinha ainda a resposta a todas estas perguntas, e guardou com cuidado a idéia estúpida e revolucionária de Renato em algum canto de sua mente organizada, para decidir mais tarde.

Renato decidiu partir para a ação, ante o angustiante silêncio de Clarissa, depois dessa última mensagem desesperada, destinada, mais pelo absurdo da proposta, a provocar uma resposta e um contato com Clarissa, para que pudesse ter a oportunidade de abordá-la cara a cara. No dia seguinte haveria um show do “Estranho Projeto de Penza, o Corno”, como resolvera Renato nomear o espetáculo, em um pujante bar/casa de shows da Vila Madalena, e lá ele tinha certeza que encontraria Clarissa.

quinta-feira, julho 14, 2005

O Stalker - Capítulo 25 (atenção, leia o 24 abaixo antes)

Renato teve alta e foi para casa, enfrentar quarenta dias de estaleiro. O mês originalmente prometido havia sido espichado pelo médico na última hora, aproveitando que ele já estava um pouco melhor, com o moral mais alto, acostumado ao seu novo estado de múmia. A humilhação era total. Mas em pouco tempo conseguia se locomover, ainda com muita dificuldade, com o auxílio de uma bengala. O banho era uma operação complicadíssima, feita com o auxílio de uma cadeirinha de rodinhas com uma tampa de privada no lugar do assento, depois de sobremumificar-se com plásticos. Usava a tal cadeira também para cagar. Limpar a bunda era bastante difícil com o tórax imobilizado, e a tarefa era feita com pouca precisão. Quando estava por perto, Fernanda dava o acabamento com as toalhinhas de papel úmidas de trocar fralda. O braço esticado batia nos batentes e nas paredes, e estava sempre dolorido. A despeito dos analgésicos e anti-inflamatórios, à noite sentia dores terríveis na perna quebrada, por causa dos músculos esmagados.

Renato estava dominado pela idéia fixa de reconquistar Clarissa. Depois de muito pensar, começou a acreditar que o melhor meio era se insinuar na sua mente, de uma maneira que ela não teria nem como nem porque evitar. Mandaria-lhe um e-mail todo dia, o que afinal, já tinha dado muito certo. Nenhuma mulher, por mais raiva que tivesse, deixaria de ler uma carta de amor carregada de infladores de ego, geradora de vaidade e tesão, vinda de um cara com quem uma nova e potente ligação havia sido abruptamente interrompida por fatores externos. A mensagem teria que ser curta, dez linhas no máximo, inteligente, apaixonada e bem-humorada, ou o mais próximo que conseguisse disso. Se ela respondesse, ótimo, estava no caminho certo. Se ela não respondesse, tudo bem, continuaria mandando seus petardos. Se ela pedisse para parar, ele saberia que era mentira, como da primeira vez. Achou melhor nem pleitear o contato telefônico, pois não teria mais como ir conversar no terracinho, na cara da Fernanda, e quando ela não estivesse em casa, Clarissa também não estaria. Através das mensagens instantâneas, além da dificuldade de pegar Clarissa em casa, não teria nem o tempo nem a agilidade para mandar alguma coisa que prestasse.

O primeiro e-mail que mandou continha o discurso desenvolvido no hospital. Foi digitado com dificuldade à tarde, enquanto Fernanda estava no trabalho. Clarissa não respondeu. Renato quase enlouqueceu com o seu silêncio. Esse foi o pior, pois tinha que necessariamente enfrentar a questão do seu impedimento e contorná-la. Mandou outro, mantendo a compostura, reclamando sua atenção com ironias leves, com o cuidado de não ser acusatório e cobrador. Sabia que o maior erro seria acuar sua presa. Tinha que cevá-la até que ela voluntariamente saísse de sua toca e viesse se enfiar na armadilha. Desenvolveu uma prosa leve, em que descrevia o seu cotidiano bunda com humor e sem auto-comiseração, ao mesmo tempo manifestava o sonho acordado de ter ao seu lado a médica mais gostosa do mundo. Lembrava passagens do seu passado, descrevendo as pálidas sensações que provocaram as mulheres que a antecederam, em comparação com as duas noites que mais valeram a pena na sua vida, a da praça e a do motel. Transmitiu mil sensações subjetivas dessas duas noites, nas quais Clarissa sempre aparecia como um ser mitológico, uma sereia no fundo do mar, ou uma super-heroína no espaço, uma índia na floresta, e por aí afora. Citava passagens selecionadas dos livros que andava lendo e desenvolvia teorias próprias sobre o processo psicológico e metabólico do amor, palavra que usava na falta de outra menos esgarçada, que as línguas humanas ainda não tinham sabido desenvolver. Fazia planos evidentemente impossíveis, para deixar claro que eram meras fantasias inconseqüentes, e nenhuma carga de realidade pesasse em Clarissa. Renato vivia entre suas dores e desconfortos num estado de sonhar acordado, maquinando essas mensagens que eram sua única diversão, nas quais concentrava toda a sua energia, criatividade e disposição. E tinha bastante orgulho da qualidade que achava que tinha atingido, o que o motivava para prosseguir na prazerosa atividade.

Três ou quatro vezes nesse período recebeu visita de amigos, cinco ou seis vezes de parentes diversos, oito ou nove de seus pais, e quase todo dia sua sogra estava lá, muitas vezes quando Fernanda nem estava em casa. “Passava” para deixar ou pegar alguma coisa, para dar um beijo nos netinhos, isso ou aquilo. Renato se sentia um pouco vigiado, mas durante as tardes, quando Fernanda estava no trabalho, fechava-se na sala-de-tv/escritório e a sogra se intimidava em o perturbar.

Clarissa não respondeu nenhuma só mensagem. Não deu qualquer sinal de vida. Nenhuma das mensagens tampouco voltou, e Renato concluiu que ela as recebia, e inevitavelmente lia. Quem não leria? Renato ligou algumas vezes para o seu celular, mas ela nunca atendeu, e ele também não deixou qualquer recado. Tinha muito medo de parecer obsessivo.

O seu estado físico melhorava dia a dia, e ao trigésimo dia tinha tirado o gesso do tórax, e substituído a imobilização do braço por uma que formava um “L” convencional, apoiado numa simples tipóia. A perna também ganhou um saltinho, e sua locomoção melhorou muito. Ao quadragésimo dia, o médico descumpriu a promessa e liberou apenas o seu braço, que estava atrofiado e macilento. Cinco dias depois, foi a vez da perna, também em condições precárias. Agora viria o inferno da fisioterapia, e a volta às ruas. Renato não aguentava mais ficar em casa, ver televisão, sonhar acordado e se masturbar. Tendo de volta sua plena locomoção, Clarissa não teria como dele se esquivar. Estava mais que na hora de comê-la de novo.

Pecus vai à praia



E adianta o Capítulo 25 do Stalker. Domingo à noite, o 26. Não pule o 24 aí embaixo.

O Stalker - Capítulo 24

Clarissa acordou pensando em Penza. Apesar dos recados de parte a parte, não tinham se falado desde o domingo. Mas não ia ser agora. Na escola só pensou em Renato, ali perto, um paciente frágil entre tantos, impotentes nas mãos dos médicos, dependendo de mil imponderáveis para sobreviver, moluscos sem cascas despegados das rochas ao sabor das correntes. Nada a ver com aquele cara que parecia ser movido por uma força superior, e tinha feito tudo aquilo meio sem ela querer, e sem forçar nada. Ou será que ela tinha arrastado ele, desde o início, num plano inconsciente, uma sistemática de sedução, como fazem as mulheres por esporte? Sim, mas não era para acabar assim tão rápido numa piscininha de motel. Teve que racionalizar para não sentir nojo.

Acabada a aula, comeu um sanduíche rapidinho, escovou os dentes com eficiência robótica, e foi para o hospital. Teve a boa idéia de envergar o avental, para poder assuntar a situação sem ser notada. O quarto coletivo era uma sala grande com divisórias de cortinado, com quatro leitos. Tinha perguntado para a enfermeira do andar o número do leito, e não percebendo ninguém com Renato entrou na sua alcova e estacionou junto à cama. Renato dormia, ainda atrelado ao frasco de soro onde injetavam toda a medicação. Mediu com olho clínico a extensão dos danos no material humano, do qual provara a excelente qualidade. Pelas características da imobilização viu que não era nada grave. As escoriações talvez deixassem a pele rajada aqui e ali, inclusive no rosto, mas provavelmente não sobrariam sulcos nem quelóides. Renato estava inteiro. Teve uma ponta de curiosidade de examinar-lhe o pau mas pareceu-lhe um pouco mórbido, próximo ao vilipêndio aos cadáveres que costumavam fazer os alunos nas aulas de patologia.

Ficou um momento na dúvida se o acordava ou não, mas concluiu que tendo só uma hora não podia desperdiçá-la. Acordou-o dizendo seu nome suavemente, prolongando as sílabas. Renato percebeu imediatamente a voz de Clarissa e acordou sobressaltado. Abriu os olhos e deparou-se com a visão daquela sorridente moça sardenta com olhos azuis, dizendo seu nome. Lembrou-se da fantasia que tivera de comer Clarissa numa cama de hospital e deu risada. Clarissa inclinou a cabeça para o lado e franziu o rosto numa expressão interrogativa digna de um cocker spaniel, e deu risada também, sem saber porque. “E aí, tava dormindo?” Renato, rápido, “sonhando com você”, brincou, e mais risada. “Cê tá legal?” “Agora estou ótimo”, e por aí foi a bobeira. Clarissa não sabia o que fazer, e nem cogitou de interrogá-lo naquelas circunstâncias. Aproveitou que as gazes das escoriações estavam com a aparência um pouco suja, e resolveu trocá-las. Foi buscar o material necessário, e descobrindo o lado direito todo de Renato, foi descolando delicadamente com a ajuda de soro todas as gazes já impregnadas de pomada misturada com secreções linfáticas, enquanto Renato gemia baixinho. Depois foi untando a pele em carne viva de Renato com pomada cicatrizante, como quem tempera uma leitoa para o forno: com amor. A tarefa durou uns dez minutos. Quando estava acabando de cobrir com gaze os ferimentos, tocou o telefone, e Clarissa atendeu: “Alô?”“Por favor é do quarto do paciente Renato Carneiro?” “Sim, quem quer falar?” “É a esposa dele.” “... Um momento...” “Renato, sua mulher.” Pôs o telefone na mão dele, virou as costas e foi embora, disposta a nunca mais falar com ele. Renato tampou o bocal e chamou: “Clarissa!” Nada adiantou.

Ambos os dois ficaram arrasados, por motivos diversos. Por mais que Clarissa tivesse se preparado para confirmar sua suspeita, ter a informação diretamente da mulher de Renato, sem que ela soubesse que estava falando com a putana que tinha comido seu macho (T.Q.B.), foi demais para ela. Renato tinha preparado, revisto, ensaiado e decorado um discurso em linguagem romântica, para revelar o seu segredo pérfido a Clarissa, aproveitando a moldura pungente do acidentado, mas não teve coragem de quebrar aquele clima tão especial. Ficou com a sensação de ter perdido, novamente, a janela da oportunidade. Bom, mas se ele tinha consertado a situação uma vez, o faria de novo. E repassou mentalmente o seu arrazoado:

“Clarissa, desde que eu te conheci, na primeira aula de inglês, fui tragado, sem perceber, pela sua singularíssima pessoa (ele tinha simpatia por essa expressão de Augusto dos Anjos, muito adequada ao ambiente médico). Não é que eu tenha tentado resistir, mas a sua figura, a atração que eu senti pela sua inteligência e senso de humor, foi rapidamente me dominando ao longo dessas duas últimas semanas, me contaminando completamente como uma infecção aguda, e então eu realizei que eu nunca tinha me apaixonado de verdade antes. A ponto de usar essa palavra ridícula. Não entendia o que estava acontecendo comigo, e fui me informar. Li os clássicos românticos, estudei as enzimas produzidas por esse estado de meia loucura que nem a ciência, nem os filósofos, nem os artistas conseguem explicar de maneira satisfatória. A intensidade para mim foi tanta, que eu fui obrigado a por de lado tudo que para mim havia de valioso antes de te conhecer. Você passou a ser minha única prioridade. E além do tesão absoluto, tenho uma enorme e espiritual vontade de estar perto de você, Clarissa, aproveitando a sua pessoa por completo. Depois das duas noites que ficamos juntos, a da praça e a do motel, isso tudo só fez crescer. Carrego assim nas tintas não para te assustar com essa intensidade obsessiva, mas só para te preparar para a desagradável informação que eu tenho para te dar: estou comprometido até o talo com uma outra mulher, com quem tenho dois filhos pequenos. Eu sei que fui egoísta e canalha, mas eu justifico o meu crime com o estado de necessidade, uma questão de vida e morte. Eu não tive escolha, mas você tem. Se você achar que temos um pequeno futuro, seja de uma noite a mais, uma semana, um mês, um ano ou dez, você o terá, quando quiser.”

Deise entrou no cubículo e viu Renato com a expressão enlouquecida de um Van Gogh e atribuiu-a ao trauma do acidente. Quando foi trocar as ataduras, viu que elas tinham acabado de ser feitas, e o serviço era de excelente qualidade.

quarta-feira, julho 13, 2005


terça-feira, julho 12, 2005

O Stalker - Capítulo 23

Renato acordou no meio da noite, ressoando em sua mente uma passagem da “Educação Sentimental” que tinha produzido nele grande impressão, sem que soubesse exatamente porque. “Depois pensava em coisas monstruosas, absurdas, tais como surpreendê-la, de noite, com narcóticos e chaves falsas – tudo lhe parecia mais fácil do que afrontar-lhe o desdém”. A frase estava lá, bem armazenada no seu Memory Mall, como apelidara Renato o pomposo Palácio da Memória dos padres, tratando de atualizar o conceito. Frédéric era o lobo em pele de cordeiro. O livro inteiro, corrido num período de alguns anos, o herói sustenta ser o seu amor puro e platônico, admirando tão perto quanto possível e tão distante quanto necessário o seu amor impossível, convivendo com a família da sua amada de forma absolutamente respeitosa pois a certeza da virtude da Sra. Arnoux o desencorajava a tentar qualquer coisa. Ao mesmo se achava um bundão por não fazer nada. E esse santo autoflagelado com a disciplina e o cilício, esse pecador imundo, em uma única frase perdida lá na página 194 da edição dos Clássicos Garnier, deixa escapar o disfarçado e sufocado instinto criminoso. O caráter doentio do suposto amor.

Naquele leito de hospital, arrasado e punido, Renato sentia ter cometido crime semelhante, ao aplicar o estelionato em Clarissa pura e exclusivamente para comê-la. Não seria essa lenga-lenga de amor uma mera justificação racional para amenizar a dupla traição do seu crime, enganando Clarissa e Fernanda ao mesmo tempo? Ali, sozinho, no meio da noite, naquele quarto coletivo do hospital público, cheio de dores, suores e coceiras, estava perdido e abandonado. Dispensara a companhia de Fernanda e de sua mãe, porque não havia condições mínimas de conforto para elas, e não se justificava uma remoção, pois mais uma noite já iria para casa. Melhor ficar parado e acelerar a recuperação. Estendeu a mão e tocou a campainha. Apareceu Deise, que estava no plantão, e ele não sabia o que pedir a ela. Deise interpretou que Renato queria urinar e estava com vergonha de pedir ajuda. Bom, ele estava com aquele colete e o braço engessado em direção ao teto. Chegou perto, inclinando o corpo e jogando os peitões para cima dele, e perguntou baixinho com sua voz infantilizada e muito profissionalmente, se ele queria ajuda para urinar. Renato nada respondeu, mas Deise deve ter entendido um meio movimento ou meio gemido como assentimento, e pegou uma daquelas bandejas com bico, o “papagaio”, levantou sua camisolinha, pegou delicadamente seu pinto e encaixou-o no local. Renato aliviou-se – realmente há horas não mijava – e ficou sinceramente agradecido pela sensibilidade de Deise. Relaxou e dormiu.

Wagnão cumpriu diligentemente o seu mister. Telefonou naquela noite mesmo para Clarissa, mandou-lhe um e-mail, procurou-a nas mensagens instantâneas, sempre dizendo ser urgente e que tinha notícias de Renato. Conseguiu atingi-la naquele momento da longa toalete, entre as mensagens instantâneas e a tv, quando ela checou o e-mail novamente à procura de uma carta de amor de Renato, sem admitir para si mesma que o fazia. Clarissa ligou na hora para o Wagnão, que fez mil rodeios e suspenses, contou uma versão totalmente estendida e preenchida com detalhes inventados do acidente, entremeando as frases com minhas lindas, princesas e outros vocativos sensuais, exagerando o drama com entonação de radialista. Com facilidade combinou que ela estaria, no dia seguinte, à uma hora, no quarto de Renato. Antes não seria conveniente, pois a mãe de Renato estaria lá, com as tias e não sei mais quem, e ele queria vê-la a sós. Clarissa não se sentiu à vontade para perguntar ao Wagnão se Renato era casado, pois se ela e Renato tinham uma ligação de adultos, seria ridículo que ela não soubesse a verdade, e é óbvio que se ele fosse casado e ela mantivesse a ligação a despeito disso, o Wagnão não tinha nada com isso. Desligou o telefone, e pensou que precisaria de trinta segundos para localizar Renato no Hospital das Clínicas, com um telefonema. E, apesar de estar excitada com a intensidade dos acontecimentos dos últimos dias, deitou e dormiu rápido e profundamente como sempre. Amanhã faria tudo o que tinha que ser feito.

segunda-feira, julho 11, 2005

O Stalker - Capítulo 22

Clarissa não teve resposta para o seu e-mail. Renato também não telefonou, ele que ligava todo dia. Para ela, não havia outro significado senão que Renato era casado, e tinha se dado por satisfeito em comê-la, vencendo alguma resistência. Tentou não ficar puta da vida, pensando no equilíbrio da situação. Ela tinha comido Renato, quando quis, porque quis, onde quis, por sua livre e espontânea vontade. Mas ela sabia que era uma racionalização. Estava se sentindo suja e usada, por uma questão de cultura. Eram sujas e usadas as mocinhas que se deitavam com homens casados. Sim era ridículo. “Em que século você está, Clarissa?”

Mas também essa qualificação dos fatos não se encaixava com o que tinha vivido com Renato. Nada lhe pareceu mais autêntico do que o desejo de Renato, no qual ela havia uma percebido outra dimensão, intelectual, um interesse por sua pessoa em sentido amplo, que era bastante continente. Não era só tesão. O tesão existia, é claro, e ela tinha provado toda a sua intensidade. Mas havia uma reverência, um respeito, uma admiração que fazia ela se sentir uma verdadeira princesa, que não podia ser um mero estelionato. Não existia ator assim sobre a Terra. E se Renato fosse assim tão bom, estaria de alguma forma manipulando as massas. Não, a coisa era real.

Encafifada, foi com grande expectativa para a aula de inglês. Das primeiras a chegar, estava ansiosa e com o coração levemente acelerado esperando Renato. Só que Renato não veio, e a aula lhe pareceu estúpida e infernalmente chata. Ela só queria sair dali e ficar cara a cara com Renato, para ver, nos seus olhos, se era real ou era blefe. Bom, podia ser real e ele casado, um amor impossível, roubado, impulsionado pelo mais louco desejo que supera a moral, transformando o homem num animal sem escrúpulos. Começou a pensar nisso e sentiu alongar-se o seu tubo vaginal, com a contração do útero, retraindo-se o colo e abrindo espaço suficiente para receber um pau duro socando ali. Clarissa compreendia e aceitava os impulsos metabólicos. Era cientificamente aceitável o comportamento de Renato, irracional e inconsciente, de querer inseminá-la. O que ela tinha mais dificuldade de compreender, e por isso a intrigava, era o tal aspecto cerebral, ou espiritual, que Renato emprestava à coisa.

Saindo da aula, lá pelas nove e meia, procurou o número de Renato entre as ligações recebidas e mandou de volta. Tocou um longo tempo, daí atendeu uma voz feminina. Era Fernanda. Clarissa imediatamente desligou, e teve a certeza da confirmação da sua suspeita. Só podia ser a mulher de Renato, o que a transformava na clássica outra, biscateira destruidora de lares, papel que a parte desagradável superava muito o seu aspecto lisonjeiro do ponto de vista do poder da sua sexualidade, capaz de transtornar um adulto pai de família e fazê-lo enlouquecer. Ainda que ela soubesse que homem nenhum pode ver uma garotinha bonita como ela, que já parte para cima. Por outro lado, ela é que tinha dado mole para o cara casado. Quantos filhos teria? Estaria a mulher grávida? Tinha que falar com Renato para por essa história a limpo, olhando na cara dele. “Que filho da puta!”

Renato acordou de manhã, bastante dolorido, pois os analgésicos não tinham sido renovados a tempo, no frasco plástico de soro, e tinha a boca seca. Enfim, sentia-se muito mal. Mas abriu os olhos, e Fernanda já estava lá. Instintivamente tocou a campainha, como se a enfermeira pudesse remover com as dores aquela mulher visivelmente ferida e agressiva ali na sua frente. Ao longo de toda a manhã, Fernanda incorporou a Pietá novamente e cuidou de Renato com a eficiência e o cuidado de uma mãe extremada, trabalhando ao lado da enfermeira na limpeza e troca das gazes das escoriações, que cobriam quase um quarto do corpo de Renato. Na hora do almoço Renato teve um momento de privacidade, e deliberadamente irresponsável pediu a Deise, que reassumiu o turno ao meio-dia, que ligasse para o número de Clarissa, que tinha decorado de tanto repetí-lo como se fosse o verso de um poema. Deu caixa. Pediu a Deise, depois, que ligasse ao seu escritório e obtivesse o telefone do Wagnão. Ligou para o Wagnão, contou-lhe o acidente na útil versão de dez segundos, deu todos os localizadores de Clarissa e pediu que lhe arranjasse um contato, com todo o cuidado, que tinha que ser na hora do almoço do dia seguinte, quando Fernanda e sua mãe fariam a troca da guarda, deixando-lhe mais ou menos uma hora para agir.

domingo, julho 10, 2005

O Stalker - Capítulo 21

Renato percebeu que havia se arrebentado mesmo, e não tinha nada em que pensar a não ser isso. Não conseguia se mexer, e não tinha exata consciência da dor que estava sentindo, no momento imediatamente posterior à ruptura de tecidos de diversas naturezas por todo o seu corpo. Percebeu pelos sons que se formava a tradicional rodinha em torno dele, estatelado no chão sujo, praticamente lambendo a sarjeta. Alguém falou “será que ele tá vivo?”. Outro, “não mexe nele, pode ter quebrado a coluna”. Ouviu, “alguém já chamou o resgate?”, “sim, já devem estar chegando”. Não conseguia sequer esboçar qualquer tentativa de resposta. Ouviu uma sirene se aproximando, perdeu um pouco do medo de morrer ali sozinho no meio da rua, e apagou.

Acordou num quarto de hospital, com a sensação de uma ressaca gigante de um porre incomensurável. Estava deitado de barriga para cima sem poder se mexer, com a perna esquerda atravessada por arames numa estrutura aérea, e com o braço esquerdo imobilizado apontando para o teto, amarrado a um colete de gesso que lhe envolvia o tórax. Lembrou que estava sem documento no momento do desastre e portanto ninguém devia saber do seu infeliz paradeiro. Percebeu que tinha escoriações por todo o lado direito do seu corpo, incluindo o rosto e a cabeça, e que os músculos da sua perna esquerda deviam ter se esmagado. Daí vinha a maior parte da sua dor. Viu com o rabo do olho um acionador de campainha ligado a um fio, a poucos centímetros da sua mão. Tocou e esperou.

Esperou e esperou três ou quatro minutos que pareceram um eternidade, até que apareceu uma enfermeira com um jaleco verde hospital claro, morena com o cabelo em franja, liso e curto acompanhando a linha do rosto redondo, peituda, que perguntou com voz aguda e infantil como ele estava. Renato disse o seu nome e pediu para telefonassem para sua mulher, dizendo o número do telefone e o nome dela. Reparou no crachá da enfermeira que o seu nome era Deise, mas não teve ânimo para invocá-lo. Deise falou que alguém iria falar com a sua esposa, e que um guarda queria conversar com ele, o que era praxe em acidentes com vítimas. Informou-o que tinha entrado no pronto socorro há seis horas passadas, e perguntou se estava em condições de falar com ele agora. Assentiu. Um PM barrigudo colheu seus dados, e inquiriu-o rapidamente sobre o acidente. Renato sequer tinha visto o que o atingira, nem quem o socorrera. O guarda avisou que o que sobrara da bicicleta estava na delegacia, e disse ainda que ele tinha tido muita sorte de estar vivo.

Depois veio um médico, ou melhor, um moleque brincando de médico, fazendo visível esforço para aparentar pertencer a essa suposta casta de sacerdotes que tem poder de cura sobre as doenças que assolam a plebe rude, e que lhe explicou minuciosamente a extensão dos danos, os ossos que tinha fraturado, o tipo de imobilização utilizado e a expectativa de um mês para tirá-la, se tudo corresse como esperado. Disse-lhe ainda os analgésicos e antibióticos que estava tomando. Não deu qualquer importância às escoriações e o resto. Não era nada grave, enfim, e em pouco tempo ele estaria completamente restabelecido. Renato agradeceu da forma mais efusiva possível as informações objetivas e auspiciosas. Renato pensou consigo mesmo que estava ali, todo estourado no hospital, e tinha que achar bom. Achou engraçado o paradoxo.

Fernanda foi a primeira a chegar, nervosa, com a expressão oscilando entre brava e condoída. Disse-lhe que já tinha conversado com o médico, que estava tudo bem, perguntou como foi. Renato explicou em dez segundos – e percebeu que era uma vantagem ter uma versão curta do acidente, que iria ter que contar a todo mundo – e Fernanda comentou com ar de branda censura que ela já tinha dito que ele não podia sair de bicicleta ou para correr sem documento, ou pelo menos um papelzinho com seu telefone no bolso. E beijou-o repetidamente, até que ele começasse a gemer para que ela parasse. Logo depois chegaram seus pais, o seu sogro, pois a sogra tinha ficado com as crianças, e até o fim do horário de visitas às nove e meia da noite foram aparecendo seus parentes e amigos. Apesar de sentir-se confortado por um lado, Renato percebeu que o aprisonamento iria se agravar muito. Estava refém de Fernanda, e não poderia se aproximar de Clarissa pelo menos durante o próximo mês. Sob a ação dos sedativos, logo apagou.

sexta-feira, julho 08, 2005

O Stalker - Capítulo 20

Renato e Clarissa vestiram-se meio sem graça daquela lambança toda e foram embora. No carro, Clarissa ligou o celular e constatou as ligações de Penza. Renato achou melhor deixar para depois. Ficaram quietos. De vez em quando se entreolhavam e riam, com cara de cachorro que quebrou a tigela. Assim que Clarissa desceu do carro, Renato ligou para o Wagnão a procura de um alibi. Combinaram de inventar que ficaram presos numa reunião com o criminalista por causa da história das procurações falsas usadas para negociar ações da Telesp – o processo ainda se arrastava, isto era verdade – e depois foram tomar um chopinho para relaxar. Renato teria desligado o celular na reunião, e esqueceu de ligar depois. Fraquíssima, mas fazer o que? Durante todo o trajeto Renato foi inventando detalhes, porque acreditava que dariam credibilidade à estória, se fosse necessário. Eram dez horas da noite, e o cabelo curto de Renato já estava seco. Ligou para Fernanda se desculpando, estava quase em casa.

Clarissa estava meio atordoada com a aventura, e ainda não tinha entendido bem como aquilo tudo tinha acontecido. Teria enlouquecido? Alguma coisa que ele pôs no chopp? Não, era sabia que não era nada disso. Era o cio do período fértil, misturado com uma certa irritação com o Penza, e a insistência do Renato. Bom, pelo menos seu instinto não falhara. Tinha sido uma experiência e tanto. E agora, o que faria? Depois, começou a reconstituir a noite, e os fatos não se encaixavam direito. Porque Renato a tinha levado num motel? Porque tinha se enfiado com ela naquele canto do Senzala, vazio e mico na segunda-feira? Nunca perguntara a ele com quem ele morava. Será que ele era casado? Absurdo, ela não conhecia ninguém casado. Hoje as pessoas se casam com trinta, trinta e cinco, e Renato não tinha isso nem a pau. Será que ele morava com os pais? Não, não parecia, pelo jeito adulto e decidido dele. Mas se ele fosse casado, nossa, será possível que ele fosse tão filho-da-puta? Com a mulher e com ela? Não, não podia ser, não o Renato, um cara tão inteligente e legal. De qualquer jeito, antes de pensar no que ia dizer para o Penza, sentou no computador e mandou-lhe um e-mail, curto e grosso: “Renato, você é casado?”

Renato encontrou Fernanda com a cara amarrada, e nem teve oportunidade de mentir. Aproveitou o estresse dela e foi logo para a sala, tomar o seu uiscão e pensar em Clarissa, ouvindo o tal disco, e teve uma longa ereção lembrando da noite do outro mundo. Pensou que se morresse naquele momento, morreria feliz. Mas queria mais, muito mais, queria estar com Clarissa, ver Clarissa movimentar-se com aquela graça de bailarina nas ações cotidianas, viajar com Clarissa, comer Clarissa muitas e muitas vezes, e o nome sonoro de Clarissa ficou ressoando em sua mente de forma contínua, até que começou a dormitar no sofá, e resolveu ir dormir.

No dia seguinte, de manhã, de novo a rotina da bicicleta, naquele mesmo horário antes de Fernanda acordar. Agora que estava seguro em relação a Clarissa, o seu humor estava transcendental, e optou por um projeto mais ousado. Iria até a faculdade de medicina, peruar Clarissa por lá. Quem sabe até tomar um cafezinho com ela. Embora estivesse numa posição, em termos de altura, mais ou menos intermediária em relação ao espigão da Paulista, a pedalada até a Dr. Arnaldo seria bastante dura. Mas Renato estava se sentindo um semi-deus, e com o treino das últimas duas semanas, sentia-se pronto para pedalar até a lua. Mesmo assim escolheu minuciosamente o trajeto, para não perder altura e evitar, tanto quanto possível, o trânsito. Atravessou o Jardim das Bandeiras, subiu até a Oscar Freire, e por ela sobrevoou a Sumaré. Do outro lado do viaduto, evitou continuar pela Oscar para não perder altura, e foi direto para a Dr. Arnaldo. Estava exausto, mas chegara no plano da faculdade. Pedalar por ali era horrível, cheio de carros e ônibus, e a calçada era inviável, pois tinha uma boa quantidade de pedestres.

Deu uma passeada no estacionamento da escola, encostou a bicicleta num canto, mas não teve a manha de entrar no prédio de calção. Além disso, ficou com medo de roubarem a bicicleta, que era um pouco cara, não muito, mas não era das mais simples. Entendeu finalmente que não tinha nada a ver aparecer ali no território de Clarissa, que ia só queimar o filme com ela, e resolveu ir embora. Desceu a Teodoro com cuidado, no meio do tráfego, até encontrar de novo a Oscar Freire, e achou melhor pegar a Artur Azevedo, que teria bem menos trânsito. Na Artur, deixou a bicicleta embalar, e foi descendo. Quando estava chegando na Henrique Schauman, viu que os carros estavam começando a andar, o que significava que o farol tinha acabado de abrir, e resolveu embalar tudo o que podia para subir a rampa inclinada e curta que há antes do cruzamento, e aproveitar o sinal. Chegou lá em cima com o sinal ainda verde, e resolveu atravessar. O bloco de carros ia um pouco a sua frente. O motorista de um carro entendeu que o sinal estava abrindo, e atravessou a Artur sem diminuir, a uns sessenta por hora. Atingiu Renato em cheio, que voou e aterrisou no meio fio, bastante machucado, com vários ossos quebrados, aparentemente desacordado.

O Stalker - Capítulo 19

Clarissa, saindo da escola, ligou para Penza. Embora ela estivesse fodida, isto é, tivesse que trabalhar feito uma camela à noite, teriam como se encontrar nesse fim de tarde/jantar, quem sabe até dar uma trepada meio rápida. Não rapidinha, mas que desse tempo para ela se virar também, mas sem enrolação. Ela não tinha toda essa clareza de raciocínio no momento, mas sabia exatamente o que queria. Exercer posse plena sobre o namorado – essa palavra ridícula que só fica bem em um peixe bom de filé – era metade do programa. Depois daquela super-foda do sábado, não seria possível que ele não estivesse dócil como um cachorrinho, abanando o rabo para ganhar mais. Oh, sim, ela faria tudo de novo, AGORA. Mas deu caixa. A porra do telefone celular deu caixa! CARALHO, que BOSTA! A mil por hora, louca para ver o cara e caixa! CAIXA! Estava assim puta da vida quando tocou o telefoninho. Claro que não era o Penza. Era o Renato. Muito mais provável. O Penza nunca ficou correndo atrás dela tanto assim. A voz baixa e mansa do Renato, racional e lógica, nada melosa, cínica e cerebral, caiu muito melhor do que ele longinquamente pudesse imaginar, para simplificar. E o cara estava pegando pesado. A um milímetro do “dirty talking” explícito, descrevia a sessão de agarramento na praça que lhe fez lembrar o desatino da parada, a diversão e o tesão envolvidos. Existia uma ligação. Já estava ali larga e aberta a janela da mistura das intimidades e o prazer do contato sem nenhuma defesa. Renato era seu, e ela, naquela hora, era dele. E ele pressionando lá do lado dele, com aquela fala mansa, “to passando aí agora, só pra te ver rapidinho, vamos tomar um choppinho encaixado aí no fim de tarde, não vai te atrapalhar nada, meia horinha, nem você vai perceber, em cinco minutos estou aí, tchau”, telefone desligado sem dar tempo para resposta, o coração de Clarissa começou a bater mais forte, super-divertido dava para encaixar na hora do jantar, “ele já sabe que comigo não tem vez, porque eu tenho namorado, cara legal tranqüilo, tenho que ser legal e tranqüila”. Renato achou melhor não telefonar, mas descer e tocar a campainha lá na porta, blitzkrieg, fresta da porta, “a Clarissa está, é o Renato”, e Clarissa vem.

Renato, perfeito cavalheiro, deu um sorriso pleno, mas não escancarado, mandou um selinho irrecusável e objetivo, pôs a mão direita sobre sua lombar e encaminhou-a até o carro. Clarissa entendeu perfeitamente que ele iria abrir-lhe a porta direita, e que ela teria que fazer o movimento de coxas mais sedutor que pudesse na hora de por os pés dentro do carro e esperar a porta ser fechada, com toda a graça e sensualidade estudada do balé. Renato entrou no carro e já foi falando um monte de bobagem, “que delícia roubar um tempinho assim dia de semana para tomar um choppinho e falar bobagem, hahaha” e Clarissa “hahaha” do seu lado, e Renato “nossa com você tá bonita, e aí como foi o dia lá no necrotério, hahaha”, Clarissa disse “pára seu trouxa não é nada disso, você sabe, melhor do que ficar fazendo negociatas, destruindo o meio-ambiente e explorando as criancinhas do terceiro mundo, hahaha” (Clarissa tinha entendido a descrição de Renato do seu negócio da maneira mais ampla possível), dando tapinhas em Renato e estabelecendo um contato que logo degenerou para uma agarrada rápida e nervosa no carro, nos dois minutos que levaram até chegar no Senzala, aquele boteco gigantesco e sem graça da praça Panamericana. Foram lá para o cantinho do bar, perto da cachoeirinha do fundo, onde tinham uma privacidade muito semelhante à da praça, e Renato sentou do lado de Clarissa, abraçou-lhe o ombro e começou a mandar a mesma fala mansa do telefone, que vinha dando tão certo. Os dois primeiros chopps os dois drenaram em alta velocidade e Renato já enfiava os dedos debaixo dos caracóis dos cabelos ondulados de Clarissa, contornando a orelha e massageando a nuca, logo depois se afastando e deixando arejar entre eles, afinal estavam no bar, entremeando umas beijocas leves com golinhos de chopp. Tomaram mais dois chopps cada, rapidinho, dando risada e cabeceando como dois quadrúpedes, sabendo já a merda que ia dar. Foram para o carro andando a passos largos, soltos um do outro, e Renato nem abriu-lhe a porta, destravando o carro e os dois entrando simultaneamente, o carro ligado rápido e mal deu tempo de Clarissa por o rádio numa rádio pop e Renato já subia a rampa debaixo do néon verde do Astúrias, não sem antes olhar bem no olho de Clarissa e levantar as sobrancelhas, tendo por resposta um movimento igual. Pediu uma suíte com piscina, os dois com o coração na boca, embicaram o carro na garaginha, subiram, e enquanto Clarissa ia ao banheiro Renato já estava nu dentro da piscininha, com o maior sorriso do mundo, olhando Clarissa tirar a roupa e mergulhar para os seus braços, naquela iluminação fantasmagórica. Renato semi-agachado para manter a água até o pescoço, Clarissa montou nas suas coxas e ficaram se beijando e esfregando de leve as partes, no limite da segurança higiênica que Clarissa sabia perfeitamente controlar. Pelo forte cheiro de cloro, várias vezes maior do que numa piscina de clube, Clarissa sabia que nenhum risco havia naquela água, embora pudesse imaginar quantas secreções humanas ali se diluíram. Saíram da água correndo para o quentinho do lençol, em condições metabólicas ideais para meter, meter e meter, até que Renato encasquetasse que encasquetasse de degustar a b*cetinha de Clarissa sem nenhuma pressa ou pudor.

quinta-feira, julho 07, 2005

O Stalker - Capítulo 18

Renato viu o e-mail na hora e com o coração disparado percebeu que aquele míssil fulminava suas expectativas. Assim como aquele que tem o seu carro roubado não se conforma com a sua ausência na esquina, e coça a cabeça incrédulo, achando que não se lembra onde estacionou, Renato primeiro pensou: "Ela se enganou. Mandou para o Penza, e digitou o endereço errado. Ridículo. Resposta, animal, ao seu e-mail!”. Resolveu fazer uma tomografia detalhada da mensagem, fuçar as dobras e entrelinhas, para ver se achava um ponto de apoio, uma corda onde se agarrar, e não despencar no abismo sem fundo. Tinha a certeza de ter conquistado Clarissa. “Como escorrega assim, agora, o peixe já no samburá?”

Renato pensou:

Alguma surpresa: surpresa é bom, festa-surpresa, surpresa é divertido, surpresa por e-mail é inofensiva. Ataque surpresa? Não. Surpresa boa, divertida e inofensiva.

Cantada elegante e incisiva, que faz bem a qualquer mulher: é óbvio que ela quer mais. Quem não quer uma coisa que faz bem? Cantada do bem. E ainda elegante e incisiva. Incisiva é penetrante, penetrante é sexo, sexo do bem. Elegante é ótimo. Sexo do bem é ótimo.

Eu tenha aberto espaço para você: as pernas. Decididamente a entrega da perseguida. Eu trouxa que não peguei. A janela da oportunidade. Perdida. Oh não!

Iniciativa do encontro: “eu quis dar para você e você não me comeu”. Energúmeno, estafermo, merece o abismo.

Deslize que não voltará a acontecer: a janela da oportunidade perdida!

Eu tenho um namorado e nosso lance está firme, fluindo bem: “eu tenho um namorado que me come gostoso”.


E não tenho a menor intenção de mudar isso: “você teve a sua chance e deixou passar”.

Vamos nos ver na aula de inglês e é bom afastarmos qualquer clima sombrio que possa aparecer: “pode continuar me cantando na aula de inglês”.

Não me arrependo de nada, em outras circunstâncias certamente rolaria: “quero dar para você na primeira oportunidade”.

Renato achou que tinha feito uma leitura conservadora, e não ficou assim tão preocupado. Perdera o bonde, é verdade, mas ele passaria novamente. Ali naquele sábado não teria dado. O teria feito? Ir de bicicleta para o motel? Num primeiro encontro, assim na moita. Deveria ter tentado comê-la ali mesmo? Só se eles tivessem bêbados, e fosse de madrugada. Mesmo assim, ia dar um puta medo de bandido. Não, não, seria impossível. E se eles tivessem bêbados de madrugada certamente iriam a um motel. Clarissa sabia disso, e estava só desafiando. Queria jogar, ele jogaria. Valorizava a conquista. E foi dormir sonhador, como sempre.

Na segunda de manhã, antes de Fernanda acordar – para amamentar Rodrigo lá pelas sete e meia – Renato vestiu a fatiota de treino, pegou o elevador, apertou o ss, tirou a bicicleta do gancho, puxou o cordãozinho da garagem, e se mandou atrás de Clarissa, com o hálito puro como o ar da manhã. Achava que podia cruzar com ela saindo para a faculdade, no que não estava nada errado. Estava na zona de probabilidade. Mas não pegaria bem ficar rondando a casa de Clarissa, e resolveu só passar e ir embora. Que sabe ela estaria correndo no Villa-Lobos? A chance era menor, mas o que ele tinha a perder? Daria uma corrida, uma volta em cada sentido, e iria para casa. Só em sonho mesmo. A chance de cruzar com ela era na verdade mínima. Foi para o trabalho pensando em Clarissa. Lá atendeu a alguns recados, olhou o banco, e continuou a leitura da “Educação Sentimental”, sentindo-se um felizardo por ser portador dessa loucura tão espiritual e alegre, e com a boa companhia dos nobres heróis dos romances. A síndrome do amor correspondido. Bem isso era quase certeza. Foi almoçar no Frevo, no horário de Clarissa, para ver se a pescava por lá. Tentou ligar no celular dela, e caixa! Lembrou de comprar um novo para Fernanda, em imperceptíveis e suaves parcelas, voltou para o escritório e ensaiou algumas cartas de amor, que teve o bom senso de não enviar.

Clarissa ficou o dia inteiro concentrada na medicina, naquele prédio gótico meio podrão carregado de fantasmas e miasmas. Ao ver o sol da manhã entrando pelos janelões visualizou a sua imagem flamejante invadindo as pupilas dilatadas de Renato e fixando-se no seu cérebro para sempre. Brrrr. Um calafrio percorreu-lhe a espinha da moleira até o pé. A sensação não foi de todo má.

quarta-feira, julho 06, 2005

O Stalker - Capítulo 17

Renato resolveu mandar um e-mail para Clarissa. Que mal haveria, ela que lesse quando pudesse, e se quisesse. Não via isso aquela hora, mas depois percebeu que era um meio insidioso de invadir a mente de Clarissa e influenciá-la, ainda que de forma tênue, com a imposição das suas idéias. Como ela havia feito involuntariamente com a sua mente, de forma cabal e completa. Mais tarde ainda, perceberia que ainda mais afetado seria ele mesmo. Mas na hora pensava: não estaria aí o caminho da persuasão? A boa e velha carta de amor? Aquela que a mocinha recebe com palpitações e suspiros? Que surpresas conterá? Como louvará sua beleza dessa vez? Fará promessas picantes? Sugestões indecorosas? Sim, sim, que mal poderia haver. Renato, transbordando de idéias e aspirações, sente-se persuasivo. Afinal, Clarissa não tinha apreciado sua fala mansa ao telefone? Sentou-se à máquina, dedilhou um piano imaginário, e soltou o verbo:

Clarissa,

Ontem na praça eu percebi que o mal que me incomoda nos últimos dias tem cura. É abstinência de Clarissa, dependência ridícula de quem eu nem conheço. Mas quando eu te vi naquela luz amarela do fim de tarde, você aparecendo do nada na minha frente contra o sol invadindo minhas pupilas dilatadas, olhando no meu olho e sorrindo, vivi a revelação dos santinhos do deserto. O paraíso ali ao alcance da minha mão. Quero mais.

Renato

Disparou o petardo, e arrependeu-se imediatamente, mas ficou esperando um sinal das hostes inimigas. Sabia que não seria naquela noite que Clarissa responderia, pois teria ido dormir cedo para enfrentar a segunda. Engano dele. Naquele momento Clarissa trocava mensagens instantâneas. E dali a pouco checou os e-mails, e viu, entre os pedidos de admissão em listas eletrônicas, o e-mail de Renato. Tinha ficado com o cara no dia anterior, numa situação meio bizarra, é claro que o abriria ali no ato.

Leu, e ficou perplexa com a mensagem, que lhe pareceu inusitada. A idéia daquele cara de pau duro, vidrado nela, afirmando o seu tesão por ela mas ali, quieto, controlado, esperando o seu comando para virar bicho, e dizendo isso de forma a dar alguma espiritualidade ao desejo carnal, causou-lhe bom efeito. “Taí, uma cantada de respeito”. E prestou-se a responder. Se ficasse bom, mandava.

Renato,

Recebi com alguma surpresa sua mensagem. Embora faça bem para qualquer mulher ser cantada assim de forma elegante e incisiva, e eu tenha aberto espaço para que você o fizesse ao tomar a iniciativa do encontro na praça, o fato é que foi um deslize que não voltará a acontecer. Eu tenho um namorado e nosso lance está firme, fluindo bem, e não tenho a menor intenção de mudar isso. Vamos nos ver na aula de inglês, e é bom afastarmos qualquer clima sombrio que possa aparecer. Não me arrependo de nada, e em outras circunstâncias certamente rolaria.

Beijos,
Clarissa

Clarissa tentou ser clara ao negar esperanças a Renato, e ao mesmo tempo preservar o momento de exposição que toda cantada representa, e os danos à auto-estima que daí podem vir. Principalmente quando se vê que o cara estava acreditando no acerto. E o fato é que ela dera mole mesmo, precisava reconhecer. Agora estava ali, com o pepino na mão, falando bobagem. E disparou o míssil de retaliação. O famoso fogo amigo.

segunda-feira, julho 04, 2005

O Stalker - Capítulo 16

Renato pegou o camelinho e pedalou de volta para casa, lento e pensativo. Todo o seu ser vibrava na freqüência daquele amor que ele tinha certeza que era artificialmente construído. Percebeu que o processo mental consistia em relacionar tudo o que via com as informações exageradas e ampliadas que tinha de Clarissa. A presença de Clarissa estava em todas as salas do seu Palácio da Memória, em um ou vários objetos. Renato estudou naquele velho colégio jesuíta da Avenida Paulista, e lá aprendera com um padre já idoso sobre as técnicas mnemônicas da ordem negra, da qual um dos expoentes havia sido Matteo Ricci, que permaneceu décadas como o único ocidental na corte da China, e assombrava os chineses com suas técnicas de memorização, que lhe permitiram levar todo o conhecimento relevante da época de cor, aprender toda a poesia chinesa clássica e recitá-la de bate-pronto. Tais técnicas eram muito valorizadas naquela meritocracia idealizada por Confúcio, baseada em concursos públicos. A grosso modo, tratava-se de arquitetar um palácio mental, cujos cômodos vão se desenrolando à medida da necessidade, e assim se constrói, com imaginação ativa, um referencial “físico” para armazenamento das memórias. Para acessá-las, bastava percorrer o palácio até o cômodo correspondente, localizá-las fisicamente com o auxílio de objetos virtuais, abrir o bico e cantar como um passarinho a ladainha pronta. A imaginação ativa foi criada em uma caverna onde Inácio de Loyola desenvolveu, tendo a si próprio como cobaia solitária, um método de iluminação, consistente nos seus Exercícios Espirituais, pelos quais o meditante vivencia, como se estivesse lá, as cenas do Novo Testamento, acompanhando toda a peregrinação do Cristo, desde antes de seu nascimento até sua subida aos céus.

A presença de Clarissa infestara o seu Palácio da Memória como um vírus, em múltiplas formas e manifestações, e para onde quer que olhasse no seu interior veria algo que remeteria o fluxo de suas sinapses a uma rede de neurônios especializada, que já estava espalhada e se espalhando como aquele célebre cajueiro gigante do nordeste, e que se acendia como feérica iluminação natalina, gritando CLARISSA! Mais para a frente, quando Renato descrevesse o fenômeno para Clarissa, para compartilhar o efeito que ela nele produzia, ela rápida dispararia sem dó a piada: “Cuidado pra não dar curto-circuito, hein Renato”, saraivando sua risada cristalina.

Somente Hércules para faxinar o seu Palácio assim como aquele grego lavou as cavalariças de Augias, desviando um rio para dentro do estábulo. Ao mesmo tempo, se se realiza é o Paraíso sobre a Terra, algo que vale a pena perseguir. Pedalava a esmo pela cidade flutuando e procurando, sonhando que o acaso lhe traria Clarissa de bandeja na próxima esquina. Sentia que podia peladar até o Rio para encontrar Clarissa. Mas achou melhor voltar para casa, onde seus pais e os pais de Fernanda iam almoçar comida encomendada, dentro daquela estratégia de agarrar o touro pelos bagos, e deixá-lo pular. Aquilo iria comprometer toda a sua tarde, e lembrá-lo que uma enorme quantidade de gente nutria uma certa expectativa em relação ao seu comportamento.

Enquanto isso, por outro lado, Clarissa escapulia da sua frágil teia, galopando compassos ímpares nos braços de Penza. Enquanto Renato servia uma cachacinha limpa-trilho para o sogrão, Penza demonstrava toda a sua categoria na cozinha, preparando um macarrão com o molho abastecido em quantidades industriais da casa de sua mãe. “Ferve uma água, joga um espaghetti, esquenta o meu molho na panelinha, rala um pouco de parmesão, e tá bem alimentado”, dizia sempre sua mãe. Acrescentou ao sugo materno um pouco de manjericão e mussarelinha de leite de búfala. Básico, mas com um belo “punch”, como diz o Ed Motta, saboroso e restaurador, muita energia de carboidrato para queimar. Um vinhinho, a leve embriaguês, um domingo perfeito, totalmente saciados de sexo, comida, e tudo que um humano pode almejar em sua passagem nesta dimensão.

Renato sabia que Clarissa tinha o seu telefone, e temia que a qualquer momento ela ligasse, tanto para ela não trombar com a verdade, como para a verdade não trombar com ela e voltar-se contra ele. Mas achava pouco provável ela ligar, pois entendia que a bola estava na sua mão. Ele assim que pudesse ligaria. E foi o que fez, lá pelas seis da tarde, depois que foram embora os pais de ambos, ao fim do interminável almoço prolongado por licores, cafés e biscoitinhos. Foi até o malfadado terracinho, sentou na cadeira de ferro com tiras de plástico esticadas, armou o telefoninho e discou o número já decoradíssimo, repetido mentalmente como o verso de um poema, e teve o cuidado de se ocultar numa cortina sonora, um quarteto de Mozart, que poderia ser aumentado até um ponto suficiente, sem fazer muito barulho.

Clarissa, a essa altura, estava já plantada em sua escrivaninha, organizando a enorme programação de trabalhos da semana, mas atendeu Renato com o melhor humor do mundo, e conversou longamente com ele, apreciando o seu tom baixo e íntimo, e sua conversa divertida, mas recusou-se terminantemente a encontrá-lo, pois já estava embalada para a segunda que se aproximava. À noite seguinte? Não seria possível, estaria ocupada. A falta de intimidade que ainda existia propiciava que afirmações como essa ficassem sem questionamento. “Vamos nos ver de qualquer jeito na aula de inglês”, pretendendo tirar qualquer conotação de combinação de encontro amoroso. Renato entendeu o “vamos nos ver” como um convite evidente e quase explicito para a prática de sexo selvagem, e despediu-se o menos melosamente que conseguiu. Sentiu que a coisa não ia tão bem como ele imaginava, mas preferiu a atribuir à paranóia dele, ansioso que estava para a coisa rolar. Não tinha nada o que planejar para a semana, e foi ler os românticos franceses. Estava já bastante adiantado na “Educação Sentimental” de Flaubert, escolhido pelo título sugestivo ao seu estilo científico de aproximação da questão amorosa.

Penza caiu no samba, e foi curtir, na moita, um forró universitário que tinha ali a distância pedestre da sua casa.

domingo, julho 03, 2005

O Stalker - Capítulo 15

A porta da casa de Clarissa se abriu, com alguma lentidão devido à necessidade de voltas e voltas nas várias chaves tetra, e surgiu um adolescente de fisionomia inexpressiva e impenetrável, na fresta possibilitada pela corrente de segurança, que depois de uma medida em Renato com completa indiferença disse que Clarissa não estava. Renato, perplexo e surpreendido, ficou sem ação, agradeceu com um aceno de cabeça e foi-se embora, sem ainda ter conseguido formular uma teoria para explicar a ausência de Clarissa.

Na noite de sábado, Clarissa ligara para Penza atendendo o recado, e combinou que se encontrariam após o show no Frangó, boteco da Freguesia do Ó mais ou menos perto do show de Osasco. Mais para menos do que para mais, mas as características intrínsecas do bar justificavam o deslocamento. Um amigo da produção passaria na casa dela para levá-la, lá pelas dez e meia, o que lhe dava a chance de dar uma bela cochilada, de pijama e tudo, até a hora de sair. Pôs o despertador para as dez e quinze, tomou um banhinho rápido para tirar o último suor, calcinha, camiseta e cama. A roupa da balada, sóbria e cruel, ficou montadinha por ali. Eficiente como sempre, estava prontíssima a hora que o aspirante a não sei o que, que se dispusera a choferá-la, passou por lá. Era uma menina, bastante atrapalhada, que trabalhava para o maluco que tinha inventado aquele insensato projeto que deixava o Penza, ultimamente, cheio de si. No sábado à noite, não dava nem para chegar perto do largo da Freguesia, e Clarissa largou a menina, que se virasse com o carro, e caminhou uma quadra até o Frangó. O bar estava duro de gente, e ela achou que era melhor que encontrasse sua turma sem ajuda de ninguém. Perdeu-se naquele estranho labirinto, e acabou despencando por uma escada que a levou a uma grande mesa com Penza, os outros do “jazz combo”, como gostava de ser referir o Penza à sua banda, mais aqueles que sempre estavam por ali com eles. Sim, aqueles trastes tinham trastes maiores ainda que os comboiavam, tietes de uma banda sem público. Clarissa foi recebida aos gritos por Penza, já um pouco alcoolizado, ou ao menos se esforçando para tanto, que gritou que sua princesa belga tinha chegado, e ela iria orientar o consumo de cerveja dali para frente. Clarissa foi obrigada a assumir o papel de estrela da noite, comandando rodadas e rodadas de cervejas belgas alternadas com nacionais baratas até que todos, inclusive ela , estivessem completamente alcoolizados. A alimentação não passava de salgadinhos farinhentos fritos, e frangos a passarinho gordurentos, os quais ela passou sem pestanejar. De tudo o que passara na sua frente, Clarissa se contentara em tomar quatro completas e inteiras garrafinhas de uma cerveja alaranjada em cor e sabor, cujo rótulo reproduzia Adão e Eva no Paraíso retratados por Rubens. Sabia perfeitamente o efeito em seu metabolismo que tal quantidade de álcool causaria, já que cada garrafinha continha mais de oito graus de álcool. Liberaria uma grande quantidade de testosterona, sim, esse mesmo, o hormônio masculino, que a deixaria completamente tesuda, ou pelo menos é o que aprendera na faculdade. Depois do rala-rala na praça, Clarissa estava em ponto de bala, e na volta no carro de Penza, viu tudo preto, como se diz, e achou que o rompimento podia esperar só aquela noite. Penza com o ego inflado do palco estava incrivelmente sexy e Clarissa embriagada de Fruto Proibido, também. Começaram já se agarrando no carro na Marginal de volta pra casa, com pura intenção de sexo e sacanagem. Chegando em casa, Penza pôs o seu computador para tocar uma seqüência de jazz sexies, incluindo Julie London, “Julie is her name” um e dois, Chet Baker, Miles Davis pré-fusion, Thelonious Monk, Billie Holiday, e, é claro, “My Favorite Things” com Coltrane, e serviu uma água com gás. Foderam até ficarem com as mucosas, lábios e genitálias com cores berrantes e inflamados, e com toda a superfície de pele de seus corpos friccionada, várias horas e várias camisinhas depois. Clarissa acordou ao meio-dia, com uma fome de leão, e pensou que Penza era mesmo o melhor namorado que já tivera.

sábado, julho 02, 2005

Pecus leva trabalho a passear


Capítulo 15 já borbulhando na minha cachola doentia, faço hoje a noite e posto amanhã lá pelas cinco ou seis da tarde, quando voltar.

O Stalker - Capítulo 14

Ele rilhou os dentes e olhou-a sombriamente. Ela segurava sua mão. “Reflita por um momento apenas, Werther”, disse ela. “O senhor não sente que está enganando a si mesmo, que está se destruindo deliberadamente? Porque eu , Werther? Justamente eu, que pertenço a outro? Porque isso? Temo, temo que seja apenas a impossibilidade de me possuir que torne esse desejo tão ardente.(Os Sofrimentos do Jovem Werther, J.W. Goethe, tradução Marion Fleischer, Martins Fontes, São Paulo, 1994, exemplar do autor. A capa tem uma fantasmagórica imagem de Werther todo garboso – o antigo adjetivo é o único que a descreve – com as pernas abertas, mão na cintura apoiando a bengala contra o quadril – na verdade um bastão de caminhada – numa pedra acima das nuvens, de costas, olhando para baixo). Renato guardava sua brilhante edição 2004 em casa como um adolescente esconde pornografia da mãe. Porque raios um homem de trinta e três anos leria um livro desse não fosse para entender o fenômeno psíquico que o corroía. Era o que lia Renato, depois que Fernanda foi dormir naquele sábado, com um uiscão on the rocks do lado, ouvindo o cd que gravara para Clarissa: “A Whiter Shade of pale”, de Procol Harum, 1967 era a primeira, “Sthefany Says”, com o Velvet Underground era a segunda. Depois vinha “I Drove all Night”, com Roy Orbinson; “Crying, Waiting, Hoping”, de Buddy Holly, na versão de Los Lobos em La Bamba, “Baby please don’t go” com o projeto solo do Bill Wyman, ex-stone, “Your Own Sweet Way”, com Nothing Hillbillies, “Set on You” com George Harrison, “Ruby Tuesday” com stones, e outras babas desse calibre. Renato estava assim abastecendo sua mente de drogas pesadas, jogando lenha na fogueira, a pretexto de estudar. Enterrava-se cada vez mais e nem percebia. Ligou para Clarissa. Caixa. Depois de drenar um terço de garrafa de úisque e duas forminhas de gelo, para acalmar sua excitação, foi dormir, dormiu rápido e dormiu bem. Acordou feliz da vida. Clarissa lhe pertencia.

Domingo de manhã, lavou bem o rosto, escovou bem os dentes, passou fio dental, bochechou com listerini, pôs uma fatiota de treino, pegou o celular, e ia saindo meio de fininho quando ouviu a voz penetrante e autoritária de Fernanda lhe chamando, e respondeu: “Oi amor, o que é?” “Vai sair?” “É, vou dar uma pedalada.” “Mas você foi ontem à noite, ficou louco? Vai estourar suas pernas.” “É vou só dar uma esticada por que estão um pouco doloridas.” “Você não está levando o celular não, né?” “Errr... hmmm... não!?.” “É porque eu dei o número pra um monte de gente, podem me ligar...” “Hahã, até já”. Segunda-feira, primeira providência comprar um celular novo para Fernanda. Dos caros, bem bonito, cheio de “features” que ela jamais vai saber usar. Para ela se distrair um pouco, como o ladrão joga carne ao cachorro, para passar por ele. Quem sabe o deixava um pouco em paz, para que ele pudesse comer Clarissa. Era tudo que ele pensava: comer Clarissa, como Werther queria comer Carlota. Pegou o elevador, apertou o ss, tirou o camelinho do gancho, puxou o cordãozinho e se mandou ladeira abaixo atrás de Clarissa. Ligaria do orelhão. Achou melhor encontrar um orelhão mais discreto do que aquele da esquina da PPP. Se alguém o visse, certamente ia achar estranho. Ninguém nunca mais falou num orelhão. Aliás, descobriu que não era fácil. Passou por três ou quatro orelhões, todos quebrados. Já estava quase na casa de Clarissa. Teria a manha de tocar a campainha, e enfrentar a senhora estrangeira de penhoar? Não seria um excesso de cinismo, uma impostura quase criminosa, um verdadeiro estelionato? Como podia pretender ter o lance definitivo com a mulher da sua vida entrando em sua casa como um ladrão, disfarçado daquilo que não era? Mas foi o que fez. Simplesmente chegou e tocou a campainha. As nove e meia da manhã do domingo, na porta da casa de Clarissa, diretamente, sem porteiro eletrônico ou portão na calçada. Somente uma pesada porta de madeira, equipada com três fechaduras tetra e um olho mágico, afundada dentro da parede da casa, depois de dois degraus de granito cinza bruto e envelhecido, e um vaso com uma planta verde escura de grandes folhas brilhantes. Seu coração estava absolutamente disparado, da pedalada, da ânsia amorosa, da adrenalina do crime, e da vergonha de seu papel. Blim, blom, blim, blom.

Pecus em manutenção




Ainda hoje o capítulo 14.

sexta-feira, julho 01, 2005

O Stalker - Capítulo 13

Renato pegou o elevador, apertou o ss, desceu, empurrou a porta, tirou a bicicleta do gancho, puxou o cordãozinho da garagem, e jogou-se ladeira abaixo pela Paschoal Vita, Praça do Pôr do Sol, Diógenes, Praça Pero Vaz, farol, atravessou a avenida Fonseca Rodrigues, virou à direita na Rua Banibas e chegou na praça Conde de Barcelos. Cinco minutinhos. O sol poente atravessava as árvores da praça em um ângulo de quinze ou vinte graus. Assumiu uma posição na parte mais exposta, oposta ao poente, e esperou. Clarissa vinha mais de longe. Não quis descer até a Imperatriz Leopoldina, e contornou o cemitério pela Diógenes. O ciclismo era uma tradição de família e ela sabia o que estava fazendo. Superou o aclive de piso ruim, e chegou até o alto da Padre Pereira de Andrade. Para baixo de novo, até atingir uns sessenta por hora, pegou o farol aberto, virou à esquerda e acelerou, aproveitando o vento fresco na cara naquele fim de tarde de fim de verão. Três pedaladas e estava lá, apeou e olhou em volta. Tinha chegado do lado oposto a Renato e deu a volta na praça, e acabou se aproximando com luz nas suas costas. Chamou Renato, que se virou com as pupilas dilatadas, pois estava também de costas para o sol na sombra das árvores no fim da tarde, e deu de cara com o sol e Clarissa. Foi uma verdadeira epifania a visão sobrenatural de Clarissa naquele cenário mágico, que ficou gravada para sempre no fundo das retinas e na mente de Renato. Namoraram até escurecer por completo, quando agarraram-se para valer no meio do jardim, longe das poucas pessoas que faziam esporte dando voltas na praça àquela hora, e os cachorreiros que vigiavam os seus animais soltos.

Renato subindo a ladeira de volta para casa, estava num estado de grande confusão mental. Clarissa não lhe disse que romperia com Penza, mas deu a entender isso de todas as formas possíveis, comentando a bobagem que estavam fazendo mas reconhecendo, de forma enviesada, a força do impulso que os levara até lá. Renato disse que tinha uma estória com uma garota, sobre a qual Clarissa não se interessou em perguntar muito, pois também não queria falar sobre a sua. Concluíram que não daria para saírem juntos naquela noite, e apenas combinaram de se falar depois. Ao chegar em casa, Fernanda já tinha trazido as crianças e estava de cara amarrada vendo tv com o bebê no colo, enquanto Renatinho brincava com seu vídeo-game portátil.

Ao chegar em casa Clarissa recebeu sem emoção a notícia do recado de Penza, e foi tomar banho. Não tinha a menor dúvida de como lidaria com a situação. Dispensaria Penza imediatamente, e nem passou por sua cabeça que Renato não estivesse completamente disponível para ela. Iria ver Penza tocar com aquele projeto maluco dos rappers num evento patrocinado pela prefeitura de Osasco, e depois do show faria o serviço sujo. Renato não tinha a menor idéia do que ia fazer.

quinta-feira, junho 30, 2005

O Stalker - Capítulo 12

Clarissa acordou cedo no sábado, da noite sem balada. Resolveu jogar tudo para o alto, e não estudar, como fazia em todo o seu tempo livre. Sabia que Penza iria acordar tarde como sempre, e aquela linda manhã era só sua. Pensou que seria bom correr no parque com Renato, que lhe parecia diurno e saudável, com seu cabelo cortadinho, seu raciocínio claro, aquelas roupas quase completamente caretas, e o carro bom. Não tinha o seu telefone, senão ligava. Tomou um yogurte com granola, um copo d’água, pegou um dos carros econômicos de uso comunitária no abrigo na frente da casa, feliz por não ter que negociar com os outros naquele momento de baixa prioridade, e saiu. Lá pelas nove e quinze já estava se alongando na cerca da quadra de basquete do parque Villa-Lobos, aonde alguns manos do Jaguaré estavam tomando posse do campo, jogando vinte e um. Vestia um boxer de tecido sintético com elástico, uma camiseta soltinha e curta de algodão, com um top esportivo por baixo. O cabelo estava preso por baixo do boné com a característica caveira da Med, adereço que causava um bom contraste com o resto, e impunha um puta respeito. Saiu trotando com uma passada leve e ritmada de bailarina, respirando profundamente e devagar, concentradíssima na análise dos processos metabólicos em curso, que conhecia tão bem. Não fazia nenhum barulho e ultrapassava os caminhantes sem que eles percebessem qualquer sinal de sua aproximação. Percorreu todo o circuito de asfalto, a ligação de concreto, disposta a ir até o fim daquela desagradável extensão cimentada, que parecia uma pista de pouso. Já aquecida, acelerou um pouco o ritmo, aumentou um pouco a passada, e sua velocidade quase dobrou. Quando chegou ao fim da pista, resolveu contornar os campões de futebol, para pegar um trecho de grama confortável para a corrida. Quando contornava a quina do segundo campo, ouviu gritarem o seu nome, com aquela empostação penetrante e alta das comunicações do futebol: Clarissa! A dupla sibilância foi quase um assobio. Virou sem parar, e reconheceu o inesquecível e marcante amigo cafajeste de Renato, o Wagnão, vestido com um uniforme espalhafatoso de futebol de várzea, a postos para o rachão. Achou que valia a pena o contato. Fez meia volta trotando o mais devagar possível, chegou até uns dois metros dele, e ficou trotando no lugar, para que não tivesse que cumprimentá-lo por qualquer meio que implicasse contato físico. Depois dos relinchos de parte a parte, “E aí, dando uma ralada?”... ... “Tá em forma hein garota”, Clarissa parou de trotar, abanou-se com a mão para mostrar que estava suada, ainda evitando preventivamente o contato físico, e disparou: “Você tem aí o telefone do Renato?”, sem nenhuma desculpa ou explicação. “Tenho aqui na minha sacola, na memória do telefoninho, peraí que eu vou pegar”. Pelejou um pouquinho para achar papel e caneta, mas não ia negar nada àquele piteuzinho. Na hora de entregar o papel, quando ele se aproximou ela fez menção de ir embora. Ele aproveitou o sinal para segurar-lhe o braço e dar-lhe um beijo meio babado entre o rosto e o pescoço, com estalo prolongado e tudo. “Tchau menina se cuida”, “valeu, Wagnão”, e até que não tinha sido tão mau assim. Apertou aquele papelzinho como se fosse uma nota de cem dólares, e retomou a corrida em ritmo mais acelerado do que antes, turbinada pela pequena emoção do encontro e as possibilidades em tese infinitas daquele número. Correu até completar cinqüenta minutos, alongou-se na cerca da quadra de basquete, onde dois times mistos de manos e minas jogavam, pegou o carrinho e foi embora, ouvindo uma rádio pop.

Em casa, completou o café-da-manhã dividindo o jornal com seus irmãos. Pegou o caderno de cultura e saiu meio de fininho, rápido, e trancou-se no banheiro. Fez dois cocôs bonitos, de bom tamanho, brilhantes e escuros, expelidos sem qualquer resíduo, e não pôde deixar de ter algum orgulho de seu estado físico e seu metabolismo perfeito. Ao entrar no banho contemplou os pentelhos ruivos, que iam do escuro ao cobre, abundantes e crescidos, e pensou que estava na hora de apará-los, embora os achasse bonitos assim. Jamais se depilaria com cêra ou rasparia com uma lâmina região de pele tão sensível, que não tinha qualquer poro saltado ou marca, fora a textura de sardas ininterruptas. No chuveiro estava se sentindo incrivelmente bem. Deixou o cabelo secar solto e vestiu uma roupa larga de fibras macias, com uma toalha nos ombros. Ligou para sua melhor amiga, que era sua colega do segundo grau, e combinaram de ir a uma exposição importante na Pinacoteca. Depois do físico, a mente. Queria se sentir bonita, saudável, inteligente e culta. Passearam entre as obras incompreensíveis, na luz zenital do átrio coberto de vidro, e se fotografaram com uma máquina digital, aproveitando o ambiente que lhes parecia cosmopolita e espiritual. Alexandra perguntou como ia o Penza, e Clarissa disse que estava tudo ótimo. Não quis mencionar seu novo interesse potencial por Renato. Talvez fossem almoçar hoje, mas não tinha nada combinado. No caminho de volta, já lá pelas duas da tarde, Penza ligou convidando-a para almoçar na casa de seus pais. Foram as duas. Os almoços de sábado da casa da famiglia Penzarotti eram divertidíssimos, cheios de irmãos, cunhados, tios e primos, que discutiam acaloradamente sobre tudo, em volta de uma farta mesa italiana regada a bom vinho, com direito a café expresso, licor, grappa e amaretto no final. Lá pelas cinco horas, Penza tinha que ir embora para ir passar o som no lugar onde ia tocar, que era um pouco longe, talvez nem voltasse para casa antes do show. Alexandra deixou Clarissa em casa e foi embora. Ficaram de se falar mais à noite para uma eventual balada, mas Alexandra não tinha a menor intenção de ir ver Penza tocar, de novo. Em casa, sua mãe fazia tricô vendo um clássico do cinema, e o seu pai lia um livro na varanda que dava para o jardim dos fundos. Seus irmãos não estavam. Subiu e ligou para Renato.

Quando o celular de Renato tocou no criado mudo de Fernanda, Renato não tinha a menor idéia de quem podia ser. A sessão de sexo selvagem não havia sido nada má, apesar de os dois estarem meio pesados do almoção, o que foi compensado pela animação provocada pelo meio excesso de álcool. Fernanda nesse momento estava debaixo do chuveiro, enquanto Renato ainda nu assistia qualquer coisa na tv. Qual não foi sua surpresa quando identificou a voz sorridente de Clarissa, sugerindo que se encontrassem de bicicleta na praça Conde de Barcelos, a meio caminho da casa dele e dela. “Já?” perguntou Renato. “Agora” respondeu Clarissa. Renato vestiu correndo a fatiota de falso skatista, ainda cheirando a sexo, entrou no banheiro e avisou Fernanda - cheia de creme rinse na cabeça e impossibilitada de qualquer reação - que ia dar uma volta de bike para queimar o excesso do almoço, e voltava em uma hora, uma hora e meia no máximo. Depois pegava as crianças, ou se ela quisesse podia ir antes dele voltar. “Leva o celular” ela disse, como última chance de o monitorar.