A primeira coisa a fazer era responder o e-mail de Clarissa. O peixe fisgara, e agora tratava-se de lutar com paciência, força e calma, para trazê-lo para o barco, sem deixar escapar o anzol ou romper a linha com um movimento brusco ou errado. Achou que o melhor caminho era ser completamente sincero, como ela propunha. Mandou o e-mail que Clarissa só leria à noite, depois da aula de inglês:
“Clarissa
Depois de quarenta dias trancado em casa, em mau estado físico, com dores, e humilhações decorrentes da falta de autonomia, sem que você respondesse os meus e-mails, fui ficando preocupado com a idéia de nunca mais te ver. Então, fui baixando minhas expectativas de realidade e aumentando as fantasiosas, como você deve ter notado. A proposta de mantermos uma ligação à distância esta de pé e é verdadeira. Aceito o contrato em todos os seus termos, porque não posso recusá-lo. Meia Clarissa é melhor do que nenhuma. Mas você não pode imaginar o meu grau de frustração ante sua declaração na porta do banheiro. Ainda bem que você evaporou instantaneamente. Reagi muito mal, e prefiro não dizer o que fiz, mas se você quiser saber eu conto. Depois da imperdoável omissão do meu estado civil – que nunca me foi perguntado, mas não importa – não haverá mais segredos, nem os fatos que eu imagine que você queira saber serão evitados, para o bem e para o mal. Assim interpreto a sua última cláusula. Vamos nos comunicar além da confissão, jogar nosso strip-poker aberto, sem espaço para o blefe. Continuo a dizer que eu quero tudo, e tudo que você quiser você terá, dentro dos limites delineados pela existência dos meus filhos, quanto ao tempo que um pai deve dedicar à sua criação, e os recursos necessários. Não tome essa afirmação como uma proposta de relacionamento de longa duração, pois não é, e seria ridiculamente prematura. Nem nos conhecemos ainda. Digo isso apenas para que você não considere a nossa ligação como um beco sem saída. Temos todo o futuro que quisermos, se quisermos e quando quisermos. Mas se eu pareço insistente, é porque eu acredito, eu sinto, eu tenho uma fé irracional de que a parceria com você é a oportunidade de uma vida. Não me pergunte o porquê, eu não saberia responder. Mas sempre bastará que você estale os dedos, que eu desaparecerei e remanescerá da nossa ligação apenas a curva estelar mencionada pelo Frederico. Jamais admitiria ser um incômodo. Ainda interpretando os termos fixados por você, caso eu sinta um impulso irresistível de contemplar sua singularíssima pessoa, farei todo o esforço necessário para isso, ainda que eu concorde em não nos cumprimentarmos. Não posso aceitar é a sua afirmação de nosso amor já está realizado. Mas essa discussão fica para depois, mesmo porque tenho dificuldade de aceitar esse conceito, que eu não compreendo.
Renato”
Fernanda tomara a iniciativa de cancelar a matrícula de Renato, e receber o reembolso parcial das mensalidades, apoiada numa impossibilidade de freqüência irrecusável, o acidente de Renato. Mas Clarissa deveria continuar freqüentando. Renato, ao sair do trabalho, foi fazer campana na entrada da escola, para ver Clarissa passar. Chegou um bom tempo antes da aula, e deu algumas voltas no quarteirão até encontrar uma vaga com uma boa visão da entrada, e uma razoável distância. Lembrou de levar uma máquina fotográfica para tirar fotos de Clarissa, mas achou que já bem entrado o outono, às sete da noite não haveria luz suficiente, daquela distância para fotografá-la.
Clarissa, enquanto se dirigia para escola de inglês, tinha descido do ônibus e caminhava os poucos quarteirões que faltavam, admirando o lindo crepúsculo e pensando que não seria nada mal estar na praça com Renato. Somente quando já estava subindo os degraus da entrada é que notou o carro dele estacionado a uns quinze metros de distância, do outro lado da rua, e pôde ver um vulto dentro, que correspondia ao seu porte. Achou que só podia ser um carro igual ao dele, mas a idéia de que ele pudesse estar seguindo-a não foi nem um pouco agradável.
“Clarissa
Depois de quarenta dias trancado em casa, em mau estado físico, com dores, e humilhações decorrentes da falta de autonomia, sem que você respondesse os meus e-mails, fui ficando preocupado com a idéia de nunca mais te ver. Então, fui baixando minhas expectativas de realidade e aumentando as fantasiosas, como você deve ter notado. A proposta de mantermos uma ligação à distância esta de pé e é verdadeira. Aceito o contrato em todos os seus termos, porque não posso recusá-lo. Meia Clarissa é melhor do que nenhuma. Mas você não pode imaginar o meu grau de frustração ante sua declaração na porta do banheiro. Ainda bem que você evaporou instantaneamente. Reagi muito mal, e prefiro não dizer o que fiz, mas se você quiser saber eu conto. Depois da imperdoável omissão do meu estado civil – que nunca me foi perguntado, mas não importa – não haverá mais segredos, nem os fatos que eu imagine que você queira saber serão evitados, para o bem e para o mal. Assim interpreto a sua última cláusula. Vamos nos comunicar além da confissão, jogar nosso strip-poker aberto, sem espaço para o blefe. Continuo a dizer que eu quero tudo, e tudo que você quiser você terá, dentro dos limites delineados pela existência dos meus filhos, quanto ao tempo que um pai deve dedicar à sua criação, e os recursos necessários. Não tome essa afirmação como uma proposta de relacionamento de longa duração, pois não é, e seria ridiculamente prematura. Nem nos conhecemos ainda. Digo isso apenas para que você não considere a nossa ligação como um beco sem saída. Temos todo o futuro que quisermos, se quisermos e quando quisermos. Mas se eu pareço insistente, é porque eu acredito, eu sinto, eu tenho uma fé irracional de que a parceria com você é a oportunidade de uma vida. Não me pergunte o porquê, eu não saberia responder. Mas sempre bastará que você estale os dedos, que eu desaparecerei e remanescerá da nossa ligação apenas a curva estelar mencionada pelo Frederico. Jamais admitiria ser um incômodo. Ainda interpretando os termos fixados por você, caso eu sinta um impulso irresistível de contemplar sua singularíssima pessoa, farei todo o esforço necessário para isso, ainda que eu concorde em não nos cumprimentarmos. Não posso aceitar é a sua afirmação de nosso amor já está realizado. Mas essa discussão fica para depois, mesmo porque tenho dificuldade de aceitar esse conceito, que eu não compreendo.
Renato”
Fernanda tomara a iniciativa de cancelar a matrícula de Renato, e receber o reembolso parcial das mensalidades, apoiada numa impossibilidade de freqüência irrecusável, o acidente de Renato. Mas Clarissa deveria continuar freqüentando. Renato, ao sair do trabalho, foi fazer campana na entrada da escola, para ver Clarissa passar. Chegou um bom tempo antes da aula, e deu algumas voltas no quarteirão até encontrar uma vaga com uma boa visão da entrada, e uma razoável distância. Lembrou de levar uma máquina fotográfica para tirar fotos de Clarissa, mas achou que já bem entrado o outono, às sete da noite não haveria luz suficiente, daquela distância para fotografá-la.
Clarissa, enquanto se dirigia para escola de inglês, tinha descido do ônibus e caminhava os poucos quarteirões que faltavam, admirando o lindo crepúsculo e pensando que não seria nada mal estar na praça com Renato. Somente quando já estava subindo os degraus da entrada é que notou o carro dele estacionado a uns quinze metros de distância, do outro lado da rua, e pôde ver um vulto dentro, que correspondia ao seu porte. Achou que só podia ser um carro igual ao dele, mas a idéia de que ele pudesse estar seguindo-a não foi nem um pouco agradável.


