A semi-desconfiança de Fernanda de que algo errado estava acontecendo com Renato tornou-se uma quase certeza, e ela começou a armar-se para a luta. Com uma criança e um bebê para criar, não ia dar mole para quem quer que fosse. Não havia espaço para lamentar-se ou sentir-se rejeitada. Aquele filha da puta não merecia sequer um suspiro. Ela ouviu perfeitamente ele sussurando ao telefone, e percebeu que desligou apressadamente quando ela apareceu. Só podia ser mulher. Ou homem, só faltava o escroto ter virado viado, daí que ela ia encher ele de porrada mesmo. Seu estado de espírito era de carcereira americana em prisão iraqueana, de cassetete e coleira. Por fora era a lady de sempre, calma, feminina e ponderada. O seu plano iniciava-se com uma estratégia simples: marcação cerrada homem a homem e por zona. Afinal, como dizia sua avó, a ocasião faz o ladrão.
Sábado de manhã, quando Renato veio com o papo da bicicleta, ela opôs uma impossibilidade incontornável, planejadinha. Tinha depilação marcada no clube, e a Maria ia cedo para casa. Ela tinha pensado que tudo daria certo se ele fosse fazer bicicleta ou esteira no clube, e depois pegasse uma piscina com o mais velho, enquanto ela ficaria com o bebê no cabelereiro. Como recusar cooperação à sua mulher justamente para ela ficar bonita para o marido, para dizer o menos. Um clinche misturado a uma promessa erótica. Que pegada, garota! Renato ainda não desconfiava que estava monitorado. Depois, falando ao celular no trono, Fernanda deixou cair o dito na água, fez aquele escândalo, chorou dizendo que tinha um milhão de pessoas para falar, inclusive para a mãe dela avisando que não iam almoçar lá naquele dia. Ouvindo essa última frase Renato, por reflexo, ofereceu imediatamente o seu telefone, e partiram para o clube, com todo aquele complexo equipamento que o bebê exige, parecendo uma expedição antártica.
O poder de improvisação de Fernanda era admirável. Manipulava de ouvido, uma Mozart de saias. No caminho ligou para sua mãe, ratazana da mesma laia, e falava para Renato ouvir como se estivesse repetindo o que sua mãe dizia. Na verdade eram instruções em código. “Ah, quer dizer que o papai que ver os netinhos, e que se nós não formos almoçar tudo bem? Como, comprou um quadrado para o Rodrigo? Pegou aquele filme de karatê que o Renatinho gosta? Tá bom, lá pelo meio-dia e meia a gente passa aí.” Desligou e falou para Renato: “Vamos naquela churrascaria Argentina que você vive querendo ir? Vamos aproveitar amor.” São Renato chegou a achar que a esmola era demais, mas como esses planos superavam em muito sua expectativa para um sábado médio, entregou-se fácil aos prazeres obrigatórios do casamento.
No clube, Renatinho se entreteve com o vídeo-game portátil enquanto seu pai esfalfava-se correndo na esteira, ao lado de uma senhora visivelmente enojada com o suor que dele espirrava. Depois, tomou uma ducha e foram para a piscina. Lá encontrou seus amigos vagabundos, e ficaram ranqueando a mulherada que estava na piscina: “aquela de bikini preto eu comia, aquela lá, deitada, claro, aquela morena, sem dúvida, aquela... em último caso.” O tempo passou voando, e foram deixar as crianças na casa da mãe da Fernanda. O último arranque, carregando aquele monte de tralha pelo elevador, aquele papinho furado interminável, a sogra um pouco mais simpática do que de costume, e finalmente livres de avós e netos. O verdadeiro e famoso enfim sós. Renato estava vendido, não tinha ação, e resolveu relaxar. A coisa estava encaminhada e ele agora nada podia fazer.
No restaurante, Fernanda teve uma vontade súbita de tomar uma caipirinha antes do almoço, o que nunca fazia, e desafiou Renato a comer morcijas e chincholins de entrada. Não sugeriu que dividissem um prato, “para que comer tanto, só engorda e custa caro”, e não falou que uma garrafa de vinho só para dois era demais. Depois do almoço ótimo, alegou uma vontade irresistível de descansar, mas com a firme intenção de mostrar a Renato com quantos paus se faz uma canoa. Ia ser barba, cabelo e bigode.
Sábado de manhã, quando Renato veio com o papo da bicicleta, ela opôs uma impossibilidade incontornável, planejadinha. Tinha depilação marcada no clube, e a Maria ia cedo para casa. Ela tinha pensado que tudo daria certo se ele fosse fazer bicicleta ou esteira no clube, e depois pegasse uma piscina com o mais velho, enquanto ela ficaria com o bebê no cabelereiro. Como recusar cooperação à sua mulher justamente para ela ficar bonita para o marido, para dizer o menos. Um clinche misturado a uma promessa erótica. Que pegada, garota! Renato ainda não desconfiava que estava monitorado. Depois, falando ao celular no trono, Fernanda deixou cair o dito na água, fez aquele escândalo, chorou dizendo que tinha um milhão de pessoas para falar, inclusive para a mãe dela avisando que não iam almoçar lá naquele dia. Ouvindo essa última frase Renato, por reflexo, ofereceu imediatamente o seu telefone, e partiram para o clube, com todo aquele complexo equipamento que o bebê exige, parecendo uma expedição antártica.
O poder de improvisação de Fernanda era admirável. Manipulava de ouvido, uma Mozart de saias. No caminho ligou para sua mãe, ratazana da mesma laia, e falava para Renato ouvir como se estivesse repetindo o que sua mãe dizia. Na verdade eram instruções em código. “Ah, quer dizer que o papai que ver os netinhos, e que se nós não formos almoçar tudo bem? Como, comprou um quadrado para o Rodrigo? Pegou aquele filme de karatê que o Renatinho gosta? Tá bom, lá pelo meio-dia e meia a gente passa aí.” Desligou e falou para Renato: “Vamos naquela churrascaria Argentina que você vive querendo ir? Vamos aproveitar amor.” São Renato chegou a achar que a esmola era demais, mas como esses planos superavam em muito sua expectativa para um sábado médio, entregou-se fácil aos prazeres obrigatórios do casamento.
No clube, Renatinho se entreteve com o vídeo-game portátil enquanto seu pai esfalfava-se correndo na esteira, ao lado de uma senhora visivelmente enojada com o suor que dele espirrava. Depois, tomou uma ducha e foram para a piscina. Lá encontrou seus amigos vagabundos, e ficaram ranqueando a mulherada que estava na piscina: “aquela de bikini preto eu comia, aquela lá, deitada, claro, aquela morena, sem dúvida, aquela... em último caso.” O tempo passou voando, e foram deixar as crianças na casa da mãe da Fernanda. O último arranque, carregando aquele monte de tralha pelo elevador, aquele papinho furado interminável, a sogra um pouco mais simpática do que de costume, e finalmente livres de avós e netos. O verdadeiro e famoso enfim sós. Renato estava vendido, não tinha ação, e resolveu relaxar. A coisa estava encaminhada e ele agora nada podia fazer.
No restaurante, Fernanda teve uma vontade súbita de tomar uma caipirinha antes do almoço, o que nunca fazia, e desafiou Renato a comer morcijas e chincholins de entrada. Não sugeriu que dividissem um prato, “para que comer tanto, só engorda e custa caro”, e não falou que uma garrafa de vinho só para dois era demais. Depois do almoço ótimo, alegou uma vontade irresistível de descansar, mas com a firme intenção de mostrar a Renato com quantos paus se faz uma canoa. Ia ser barba, cabelo e bigode.

