quarta-feira, outubro 22, 2008

Samuel Pallache


Foi na casa dele que a Maria Nunes Pereira foi trabalhar quando chegou em Amsterdam. E foi o grande patrocinador da primeira sinagoga daquela cidade, fundada em 1598, ano do registro do casamento da Maria, e o mesmo ano em que Grócio se doutorou na Universidade de Orleans, aos 15 anos.

Segundo o verbete da Wikipedia, Samuel Pallache intermediou um acordo de mútua assistência Holanda-Marrocos contra a Espanha com Maurício de Nassau, encontrando o príncipe em Haia em 23 de junho de 1608, (um ano antes da trégua e da publicação do Mare Liberum), tratado assinado em 24 de dezembro de 1610. Nassau mexendo os seus pauzinhos. Depois se descobriu que Pallache era agente duplo, e também atuava em favor da Espanha. Nassau lhe outorgou licença de corso e ele capturava os seus naviozinhos portugueses, sustentado pelo parecer do Grócio. Pena que todas as fontes do verbete estão em dutch. Mas há um livro inteiro escrito sobre esta interessantíssima figura.

Maria Nunes Pereira e Hugo Grócio poderiam ter se conhecido na casa de Pallache.

terça-feira, outubro 21, 2008

Oldenbarnevelt


“In January 1609, Grotius attended a series of three-way meetings in The Hague between Oldenbarnevelt, the VOC directors and members of de Dutch Admiralty Board. He was invited on the basis of hes credentials as VOC lobbyst, not in his official capacity as Advocate-Fiscal of Holland. Oldenbarnevelt had called the meetings to discuss the implications of a Truce treaty for the VOC and, more importantly, to reassure its directors that they could continue to 'borrow' warships, guns and ammunition from the Dutch Admiralty Board." (Martine Julia van Ittersum, "Preparing Mare Liberum for the press: How Hugo Grotius Rewrote Chapter 12 of De Jure Praedae, November 1608 - February 1609.").

É uma nota de rodapé de um artigo recente dessa Martine, uma historiadora holandesa. VOC é a Companhia Holandesa das Índias Orientais, a cliente do Hugo, para quem escreveu o De Jure Praedae, do qual o Mare Liberum é o capítulo 12, a fim de justificar a captura da nau portuguesa Santa Catarina (um monstro de 1400 toneladas, com 700 pessoas a bordo), no estreito de Singapura, em 1603.

No mesmo artigo ela conta que a trégua entre Holanda e Espanha (Felipe III na época era o rei também de Portugal) seria arbitrada pelo rei da França e o rei da Inglaterra, e havia a possibilidade real das atividades da VOC serem afetadas pelas negociações. O propósito inicial do trabalho era obter uma sentença favorável no tribunal do almirantado a respeito da legitimidade do butim, e persuadir acionistas protestantes e sisudos preocupados com a honestidade da façanha a aceitá-la como justa. Obtida a decisão e confortados os acionistas, com a evolução das negociações da trégua a VOC passou a instar Hugo a publicar o capítulo 12, a fim de manipular a opinião pública e os intermediários da trégua, para que o tratado não impedisse suas atividades na Ásia. Só que o negociador da trégua pela Holanda era o Oldenbarnevelt (um nome super legal), o chefe do Grócio na carreira pública, que entendeu que a divulgação do Mare Liberum seria nociva às negociações, e mandou o Grócio adiar a publicação até a assinatura (em abril de 1609), e expurgá-la de referências à América e abrandar os termos ofensivos à Espanha e Portual. Em compensação, excluiu da trégua as operações bélicas da VOC na Ásia (“privateering”, embarcações militares privadas comissionadas pelo governo holandês), atendendo assim aos interesses da Companhia. Quem saiu perdendo foi o Maurício de Nassau, que era o comandante militar da Holanda e tinha o seu poder e prestígio dependentes da guerra, e depois veio pegar o Grócio na curva.

Certamente podemos imaginar a heróica Pereira nas reuniões da VOC com Oldenbarnevelt, ou melhor ainda, em uma reunião secreta do Oldenbarnevelt (adoro esse nome), Jeannin (o representante da França) e Wotton (da Inglaterra), para negociar a emenda secreta ao tratado de trégua que garantiu os interesses da VOC.

sexta-feira, outubro 17, 2008

A reta razão



Parece que o Grócio foi muito feliz com seu casamento arranjado, e a sua mulher desempenhou um importantíssimo papel quando o jurista foi preso por Maurício de Nassau, no castelo de Loevestein. Ele obteve do seu ex-cliente permissão para receber livros, que eram transportados em um baú, e numa dessas idas e vindas, em um momento que que a rotina fez relaxar a vigilância, sua esposa Maria Reigersberg fez furos disfarçados no baú, nele introduzindo Hugo, que conseguiu fugir para a França.

O seu gosto pela polêmica, pela defesa de posições perigosas e minoritárias, o habilita à parceria com a heróica Pereira. Dizem que, ainda adolescente, converteu a mãe ao protestantismo porque ela seria inteligente demais para ser papista, o que mostra o seu respeito pela inteligência feminina, talvez incomum para a época (o respeito, não a inteligência, é claro).

E no “De jure belli ac pacis” não considera justa a guerra religiosa: “a melhor razão em favor da opinião que nega que tais guerras sejam justas é aquela que Deus basta para punir as faltas que se cometem contra Ele”, argumento suficiente para derrubar a Inquisição e seus processos, caso fossem suscetíveis à reta razão.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Porque não?



A Maria Nunes Pereira, forçada a se mudar para os Países Baixos em busca de liberdade religiosa, poderia, por uma reviravolta do destino, ter conhecido Hugo Grócio, Huig de Groot, ou Grotius, um dos pais do direito internacional e do direito natural, de quem poderia ter se tornado protegida. Talvez ele se encantasse com a sua brilhante inteligência e assustadora beleza e a tomasse como assistente. Grócio estaria escrevendo o capítulo da sua obra sobre o direito ao butim, por encomenda da Companhia Holandesa das Índias Orientais, e a Pereira, conhecedora da obra dos escolásticos ibéricos, como Francisco de Vitória, que teria estudado antes da fuga para tentar uma eventual defesa frente a inquisição, que rapidamente perceberia inútil, auxiliaria o mestre a derrubar os argumentos de tratados como Tordesilhas, que estabeleciam privilégios marítimos e territoriais às potências ibéricas, utilizando os argumentos dos próprios juristas ibéricos, desenvolvidos para tentar justificar catolicamente a conquista e subjugação dos gentios dentro de certos limites.

Por uma outra reviravolta do destino, a Pereira seria incumbida de entregar o manuscrito que iria mudar o mundo em uma reunião de reis com o papa, ou no mínimo com altíssimos dignatários, talvez por ser necessário um portador com condições de discutir o trabalho, ante um súbito impedimento de Grócio.

quarta-feira, outubro 15, 2008

A heróica Pereira


(http://www.esnoga.com/)

“Os criptojudeus de Portugal sentiram então, em toda a sua plenitude, a tirania espanhola e nenhum perigo era considerado demasiado em se tratando de fugir do País e procurar liberdade e tolerância em outro canto da terra.

Uma corajosa mulher portuguesa, Mayor Rodrigues, com seu marido Gaspar Lopes Homem, seus filhos Manuel e Antônio Lopes Pereira e suas filhas Maria Nunes e Justa Lopes Pereira, prepararam-se para emigrar no ano de 1590. Os irmãos Manuel e Maria, esta de rara beleza, embarcaram com seu tio Miguel Lopes, com destino à Holanda. Durante a viagem foram capturados por um navio inglês que perseguia os que navegavam sob a bandeira hispano-portuguesa e levados prisioneiros para Londres. A beleza de Maria seduziu o capitão do navio, um duque inglês, a ponto de pedir-lhe a mão em casamento. As relações da bela portuguesa com o duque chegaram aos ouvidos da Rainha Elisabeth que ordenou que lhe trouxessem Maria, a qual tratou com especial consideração: levou-a de carruagem pelas ruas da capital a fim de que os habitantes pudessem ver esta deslumbrante beleza. Maria não deu importância a tais honrarias, não deu atenção aos insistentes pedidos de sua majestade, nem às ofertas honrosas do duque: apenas pediu sua liberdade. Deixou a Inglaterra e, com seus parentes, lançou, por assim dizer, o fundamento da grande comunidade de Amsterdão.” (Kayserling, História dos judeus em Portugal).

Pode ser verdade.

Li em outra fonte que logo ao chegar em Amsterdam, ela e outros criptojudeus tiveram sua cultura religiosa restaurada por um rabino ashkenazem, incluindo a circuncisão dos adultos, e foram trabalhar na casa de Don Samuel Pallache, um famoso espanhol sefaradi embaixador do imperador do Marrocos, agente duplo entre Espanha e Países Baixos, e corsário no Índico. O registro do casamento de Maria é de 1598, ano em que se iniciaram as atividades da sinagoga de Amsterdam.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Poderoso timão


Crise mundial global total. O negócio é manter a calma e continuar remando.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Pacote difícil

Acabei de ler “O jardineiro fiel” e rever o filme. Os dois são ótimos, a mesmíssima história contada em linguagens diferentes, uma experiência profunda. A força das imagens da África com as cores estouradas e a câmara na mão, ao som da música dos coros e tambores. Dou a mão à palmatória e o Ralph Fiennes faz perfeitamente o papel do Justin Quayle. Quem tem bons olhos para o cinema percebeu logo, eu tive que ler o livro pra compreender o personagem tão fielmente traduzido. O livro explica uma série de códigos de classe e as sutilezas dos diplomatas ingleses na condução de suas guerras, como uma passagem em que se acusa os recém saídos da universidade de terem sotaques insossos, ou o estilo tory de fazer um relato, como se fosse uma lista de compras. Não lembrava que a Tessa era advogada. Tem uma pesquisa sólida sobre a indústria farmacêutica, antecipando as denúncias de Marcia Angell.

Mas todo esse pacote foi atropelado pelo maravilhoso “A vida dos outros”, assistido meio por acaso enquanto procurávamos um lugar pra comer no 23, quase todos os restaurantes fechados, quando resolvemos checar a renovada Sala Ig, ex-Uol (uma vez fiameta, sempre fiameta), e tinha lá uma sessão dali a quarenta minutos. Só sobrava tempo para um x-salada no fiel hamburguinho. Sobre o filme não dá para falar pouco. Rendeu uma conversa de uns quinze minutos com o sócio, na manhã do 24. 25, “O amor nos tempos do cólera” no shopping deserto. Feliz Natal.

sábado, dezembro 08, 2007

Feérica


A gloriosa blogueira dramaturga cronista arquiteta Lúcia Carvalho publicou dias atrás em sua coluna mensal na revista Morar, da Folha, um ataque às luzinhas de natal, quando mal se iniciava a temporada. Agora, que elas efetivamente já tomaram conta da cidade, depois de intensa e ponderada reflexão, falo das minhas perplexidades sobre o tema profundo e complexo, com o perdão da flexibilização das aliterações em x. É claro que ela tem razão. É infantil, é cafona, e além disso um enorme e inútil desperdício de energia, totalmente incorreto nesses tempos de aquecimento global. Mas temos que assumir que é lindo, com sempre são as luzes na escuridão, especialmente com o intencional efeito de joalheria. Diamantes, pérolas, rubis e esmeraldas sobre o veludo negro da noite. A cidade à noite, sóbria e séria, de repente vira uma animada quermesse, um parque de diversões, um baile mítico e atemporal que incita o departamento de fantasias a tomar conta do ambiente mental do cidadão. Todo ano penso em comprar na Santa Ifigênia uma rolão dessas luzinhas e empetecar a minha casa, mas sempre deixo pra lá. No máximo as modestas coloridas piscantes da árvore de natal que temos já há um tempão. Falta pra mim, como falta pra muita gente, assim como provavelmente à própria Lúcia, a convicção necessária pra superar a autocrítica do ridículo que é despender dinheiro, tempo e energia elétrica numa inutilidade fútil e cafona dessas. Mas é de se admirar quem se dá ao trabalho de contribuir para a iluminação espiritual de todos, especialmente quando se faz sem intuito de lucro, como o comerciante que só quer chamar a atenção para o seu negócio. Fiquei impressionado com a iluminação das pontes sobre o Rio Pinheiros, ao que eu saiba inéditas. Será que o Kassab está em campanha? E não posso concordar com a idéia da Lúcia de que para organizar o bandalho e proteger o landscape seria melhor que os arquitetos prevessem no projeto a localização de luzes natalinas fixas. Seria esquisito como maquiagem permanente.

terça-feira, novembro 20, 2007

Amêndoas Amargas

Ontem fui assistir ao "Leões e cordeiros", filme-planfeto anti-bush anti-guerra anti-terror anti-apatia dos comedores de hambúrgueres e batatas fritas. Previsível, pra dizer o mínimo. E antes o trailer do "Amor nos tempos do cólera", baseado no livro do Gabriel Garcia Marquez. Lembrei que li o livro nos oitenta e seis, oitenta e sete, e não me lembrava nada além do título. Depois de perder uns bons dez minutos procurando na nossa bagunçada estante, sofregamente reli de cabo a rabo, na modorra do feriado. O livro abre com a descrição de uma cena de suicídio descoberta pela manhã, a partir do cheiro de amêndoas amargas. Logo se sabe que a morte foi pela vaporização do cianureto, que exala este aroma característico. Lembrei que quando parei de fumar uma das distrações para a ansiedade eram ameixas pretas, que eu comia e ficava roendo o caroço, até uma vez o caroço quebrou e descobri lá dentro uma pequena amêndoa, com um acentuado sabor de amêndoa, um que não é evidente na noz em natura, mas no amareto ou no marzipan. Conversando por acaso com um médico sobre o fato, ele disse que esta amêndoazinha da ameixa tinha um alto teor de cianureto, ou uma substância aparentada a ele. Mas só lendo o livro do Garcia pude fazer a relação entre o aroma, o veneno, e a sua vaporização. Comentei espantado com a minha filha vestibulanda que passava, que acrescentou que era o aroma sentido nos campos de concentração nazistas quando se ligava o gás, conforme aprendeu no cursinho. Isso tudo só no primeiro parágrafo. No livro todo os aromas, odores, cheiros e fedores têm papel importante, assim como a berinjela.

domingo, novembro 18, 2007

Pura ficção




A pujante vegetação do baldio do lado, outrora objeto da minha cobiça.


XVI
Victor, na seqüência da sua pesquisa, foi dar em um médico do interior que logo ao início da epidemia do vírus HIV elaborou um programa de saúde pública de combate a este e demais DSTs, aproximou-se do governo do estado e conseguiu implantá-lo. O sucesso evidente em nível estadual e a conquista do governo tucano levaram o programa para a esfera federal. A sua permanência na evolução da discussão das patentes de medicamentos na OMC, a conquista da brecha para a licença forçada em caso de estado de necessidade. A luta contra os grandes laboratórios que tentaram fechar a brecha em regulamentos posteriores, e a aparente virada do jogo, com a implantação dos planos estatais de administração do mercado de medicamentos e o seu enorme poder de negociação de preços, pelo menos nas praças pobres. E quando a corda estourou, foi licenciada à força a patente de um medicamento da primeira linha de combate ao vírus. Mais ou menos contemporâneo a estes fatos foi a sua prematura demissão na coordenação do programa de combate ao vírus na OMS, e andava agora em discussões, debates em Harvard. Teria mordido a isca? Victor não acreditava nisso. Estava entrando na boca do dragão, novamente. Tinha que falar com ele.




Sua outra linha de pesquisa foi ler, com um copo de uísque com gelo lentamente derretendo ao seu lado, ouvindo música que o fazia sentir-se inteligente, como as peças de câmara de Bach, ou os quartetos de Beethoven, o livro de Márcia Angell, “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, uma médica de Harvard, editora de uma importante revista médica da Nova Inglaterra, denunciando a cobiça desumana dos laboratórios farmacêuticos, as mais lucrativas indústrias do mundo, abusando dos medos da população com a exploração da ganância dos médicos. Ou algo tão tenebroso quanto. O cruzamento desta três fontes, a trajetória de médico do interior, a explosiva história do laboratório nacional de genéricos Mercury, dentro do panorama pessimista da indústria mundial pintado por Marcia determinariam o seu plano. Só tinha que pensar como o bandido.



sábado, novembro 17, 2007

O sol...







... voltou a brilhar em nossas praias, então acho que terei que tomar alguma atitude.

Zumbido na linha


Acabou de sair daqui o terceirizado da telefônica, o que faz o telefone funcionar pra dentro da casa, mediante um contrato de dois, três reais por mês. Tem umidade no conduíte. Quando mudamos, lutamos uns dois anos até matar um ponto contaminado, substituir os conduítes por um caminho mais seco, e estávamos já há vários anos sem problemas. Mas de uns tempos pra cá o zumbido da linha voltou. O Francisco cordialmente se apresentou, estendeu a mão perguntando o meu nome, disse e apertei a sua mão com firmeza. Logo descobriu onde estavam as caixinhas de passagem externas e foi correndo para elas. Avisei que eram duas linhas e a que estava com problemas era a que está conectada ao alarme. Mostrei a caixinha de passagem interna e esperei o diagnóstico óbvio. Umidade. Cortou a ponta dos fios, substituiu a tomada do primeiro ponto, e gritou que estava pronto. Ponderei com ele que se havia a infiltração era uma questão de tempo para o problema voltar. Quando percebeu que eu não esperava nenhum milagre, disse que como eu era um cara “que entende”, sugeria a utilização da rede elétrica para transmitir o sinal do telefone, podendo utilizar qualquer tomada para isso. Legal, eu disse, vamos esvaziar os conduítes. Despedimo-nos cordialmente e bati o portão de treliça. Alguém sabe alguma coisa sobre isso?

sexta-feira, novembro 16, 2007

O vulto


Tinha um mendigo parado na minha porta há um tempão. Eu, da minha torre, via o vulto atrás da treliça. Tocou a campainha e a empregada ignorou. Às vezes elas usam a tática de fingir de morto, pra ver se o cara vai embora. Só que este não ia. Pegou um “folder” (né, Jayme) mal enfiado na caixa do correio, desdobrou ele inteiro, deu uma longa olhada e enfiou de novo. Daí fui procurar a câmera pra tirar uma foto do vulto, talvez uma depois que ele saísse andando, pra mostrar aqui. O flash (fleche, como diria a Franka) que não devia ter disparado talvez tenha chamado a sua atenção. Ele conseguiu dar um grito telepático, e eu acabei descendo, pensando em enxotá-lo dali, polidamente. Fui lá e era o piscineiro polidamente irritado, falando que tocou a campainha três vezes e ninguém atendeu. É nosso piscineiro há uns nove anos, desbancou o anterior com uma proposta irrecusável de cenzão por mês com produto, a piscina está sempre limpa e nunca o vejo, vêm religiosamente terça e sexta. Sempre andou de carro legal, lembro de uma saveiro vermelha tunada. Achei que era um rapaz empreendedor, que ia subir na vida. Hoje não estou vendo o carrão. Traz o seu próprio equipamento. Hoje me ocorreu que o cara é um verdadeiro elvis, um galã clássico. Será um estereótipo de filme pornô, que come patroas, filhas e empregadas, o homem da mangueira grande? Ele me parece ser um cara super sério e objetivo, que caiu numa armadilha. Acho que ele gasta meia-hora, quarenta minutos com cada casa. Assim, em um dia, ele deve conseguir fazer dez casas. Cinqüenta casas por semana, o que, dividido por dois dá umas vinte e cinco casas, o que rende (agora está em uns cento e trinta por mês) Três mil duzentos e cinqüenta, uma boa grana, deu pra pagar a faculdade mas não dá mais pra largar, pra dar o próximo passo. Agora a piscina está toda agitada, feliz, limpinha, e eu ouço a bomba durante as pausas do “Let it bleed” que eu estou ouvindo. A empregada estava arrumando as camas, por isso não ouviu a campainha.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Quando passar dê tchauzinho




O feriado chuvoso e fresco inspira divagações melancólicas. As plantas túrgidas e intumescidas de clorofila balançam com os saltos dos grandes sabiás que tentam cloacar as barulhentas fêmeas no cio. Quarenta e seis minutos e quarenta e um segundos do terceiro dos primeiros quartetos de Beethoven, em ré majeur, o tipo de música que te deixa mais inteligente, já associado a doces memórias de longas divagações alcoólicas andando de um lado para o outro sozinho na sala com um uiscão na mão, com muito gelo para controlar a velocidade e a hidratação, um ritmo todo próprio determinado pela fusão do gelo no álcool amarelo. Aqui na minha torre controlo tudo. A grande parede de vidro à minha esquerda, e o ripado com as mirradas e maltratadas orquídeas penduradas, felizes apesar de tudo, a vista do escritório plantado em cima do pé direito e meio da sala. Por este vidro esquerdo vejo o corpo principal da casa. Primeiro, na quina mais distante de onde estou, o quarto da filha mais nova, pendurado sobre o terracinho em um palito de concreto, desses feito com tubo de papelão espiralado. Depois, o janelão fosco do seu banheiro, de vidro jateado esverdeado, com um dos basculantes permanentemente aberto. Daí a janela igual do banheiro da filha mais velha, e o seu basculante aberto. Na seqüência, a janela do quarto desta filha, quadradona de correr, como as outras, todas ligadas por uma régua de concreto estreito à guisa de beiral pequeno demais, as folhas por fora penduradas num travessão. Continuando, a janela do meu quarto, e a grande chaminé da lareira supostamente alentejana, os tijolos arrumados como castelo de cartas na grelha da saída, em vermelhão de pó xadrez já desbotado, de novo o terracinho do orquidário onde amarro a minha rede, um lugar íntimo porque dá na altura do pé o janelão do meu banheiro, com o inevitável basculante aberto. Esses basculantes são certamente os responsáveis pelo vazamento de pernilongos, uma constatação importante neste início de temporada. Olhando à minha frente, voltado para o sul, o longo corredor sobre a caixa da escada, seis degraus para descer o meio pé direito extra, e um grande vidrão, agora vertical, de pé direito e meio, a falha na privacidade da casa, que devassa parte da cozinha do vizinho, mal coberta por um bambu que nunca chegou lá. Esse espaço estreito de doze metros e altura variável é forrado por uma taquara genuinamente mineira de Botucatu, ainda quase totalmente inteira com dez anos de idade, fora um leve desbeiçamento lateral, nenhum sinal de cupim. No canto direito oposto ao vidrão vertical, um janelão de um metro e meio quadrado e fixo na face oeste, virado para a rua, protegido do poente por uma persiana comum. Vigio o movimento, escrevo sentado para a frente e volta e meia minha visão periférica é acionada por um movimento qualquer, pedintes, garis, carroceiros, distribuidores de panfletos, serviços de gás, tv a cabo, coisas do gênero, nos sábados de manhã esportistas de fim de semana, gente com cachorro, passantes. Mas com essa chuvinha criadeira em pleno feriado não passa ninguém. Consulto o jogador de média, e o disco ainda vai pelo meio.

sexta-feira, outubro 05, 2007

E viva o Guga*

Senhor Fausto Wolff,

Compreendo a sua difícil posição, de ser obrigado a confessar o furto da propriedade intelectual de um colega de profissão, mas lamento o uso da ironia como cortina de fumaça da sua própria vergonha, denunciando o plágio de um outro colega, o Salomão Schwartzman, e pior, atacando um leitor indignado (leitores, além do autor, são também vítimas do plágio) que com toda justiça reclama indenização ao plagiado, expondo seu nome e endereço não para conseguir seus quinze minutos que um e-mail jamais proporcionaria, mas para evitar ostensivamente o escudo do anonimato.

Não sou um leitor do seu blog ou do JB, mas me interessei pela discussão porque a questão do plágio me atrai. A maioria das denúncias de plágio me parece infundada, fruto da incompreensão da atividade criadora, como aqueles que acusam Jobim de ter plagiado Chopin em "A insensatez". Eu imagino a cena do Jobim mostrando ao Vinícius a molecagem de tocar o prelúdio em ritmo de bossa nova, e o poeta já aproveitando o mote da insensatez de assim interpretar a obra. A carga de novidade é tão grande que o prelúdio passa a ser o simples chassis de uma obra original de grande qualidade.

A idéia desvinculada do produto final que a suporta não tem proteção legal, um conceito que contraria a intuição, em um primeiro momento, mas está bem fundado nos limites do alcance da lei e da atividade jurisdicional. O leigo intuitivamente compreende que o autor não é quem inventa a história, mas quem a conta. É o que fica claro no cinema, que apesar de ser considerado para efeitos jurídicos uma criação coletiva, todo mundo reconhece maior - para não dizer toda - carga autoral para a figura do diretor, que é quem efetivamente conta a história. São muitos os exemplos da mesma história contada por diversos autores, como a história de Canudos, por Euclides da Cunha e Vargas LLosa, ou mais recentemente a história do Zorro, recontada pela Isabel Allende.

A baixeza da sua defesa, servilmente se desculpando do autor como se fosse crime menor roubar de um anônimo criador perdido na internet, impede qualquer empatia ou compaixão com a sua confissão. Melhor solução seria mudar de nome ou de profissão.

Anonimamente

Pecus Bilis
*Guga aqui.

quinta-feira, outubro 04, 2007

terça-feira, setembro 25, 2007

Genérico

Gíria criada em 1999 pelo então ministro da saúde José Serra, significando artigo pirata, contrafação, sósia, cópia, diluição, imitação de qualquer tipo.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Frases de efeito

Sou contra frases de efeito. Pra mim, frases de efeito são só frases de efeito. Esta é uma frase de efeito. E outra: o único pecado do Poder é o abuso. Desde as relações pessoais às institucionais, o abuso do poder é o crime. Pode se manifestar na indiferença, na sujeição, na afetação de superioridade, ou na obtenção de vantagem pura e simples. O problema é quando se dá de forma involuntária, sem a consciência da detenção do poder, daí é difícil julgar. Aliás, julgar, só em último caso. Muito melhor apreciar as maravilhas da miséria humana, e se divertir com os fiodores.

terça-feira, setembro 11, 2007

Outra generalização

Sou contra generalizações, mas falando em superação, separações são quase mortes. Tem a indignação, a revolta, o inconformismo e a dor, que só o tempo supera. O período em que isso acontece é o luto, que não pode ser suprimido. Velório, enterro, sétimo-dia, e um ano, quando já se aceita. A morte normalmente é sem culpa do morto, o que facilita. Na separação, ainda que a dor do deixante seja quase igual, é um direito inalienável do deixado falar mal, muito mal, do deixante, pra quem quer que seja, do porteiro do prédio ao inimigo. Equivale ao luto, deixar a alma desencarnar.
Em tempo: Relendo hoje, 12, preciso fazer um reparo mais ou menos óbvio. A ausência de vontade do morto facilita quanto a revolta. É claro que a dor da perda é muito maior.

segunda-feira, setembro 10, 2007

A grande guerra pela civilização

Li por enquanto umas 330 páginas do livro do jornalista Robert Fisk, correspondente de guerra no oriente médio por quase três décadas. Ainda estou no comecinho, na década de oitenta, e já foram narradas suas experiências na invasão soviética no Afeganistão, a tomada de poder no Iraque por Saddam, a revolução islâmica de Khomeini (lembra da marchinha? “Kho-kho-kho-meini...”), e a guerra Irã-Iraque. É engraçado como o terror e a guerra nos fazem perder um pouco da perspectiva histórica óbvia do imperialismo inglês substituído pelo norte-americano, com a “diplomacia” intervencionista de terrorismo de estado da CIA, em convivência com o soviético, ambos fomentando as piores ditaduras e as guerras mais sujas, vendendo armas para todos os lados, pra tentar controlar o petróleo e o mercado das armas, principalmente, e tudo mais que for possível. Aliás quase nenhum país europeu escapa, e todos têm sua parcela de responsabilidade. Dá pra entender o fundamentalismo islâmico como única resposta possível à arrogância do Grande Satã Americano.